17 de junho de 2014

O SANTÍSSIMO SACRAMENTO DA EUCARISTIA E A SOLENIDADE DE CORPUS CHRISTI EM ORVIETO

• A instituição da Eucaristia na Santa Ceia: o sacramento por excelência, o maior milagre de Jesus Cristo, o maior tesouro que Ele nos deixou, que é sua presença contínua nesta Terra. 
Corpus Christi, a festa para honrar e adorar o Santíssimo Corpo e Sangue de Jesus Cristo na Eucaristia. 
• O sagrado Corporal sobre o qual verteu o Sangue de Cristo em 1264. Esse corporal, que testemunha há exatos 750 anos o “Milagre Eucarístico de Bolsena”, é comemorado na brilhante procissão de Corpus Christi pelas ruas de Orvieto (Itália) — espetáculo superlativo de fé pública, próprio a ser meditado na celebração do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, que transcorre no dia 19 deste mês


Paulo Roberto Campos 
Matéria publicada na Revista Catolicismo, Nº 762 (junho/2014)


São Pio X com os paramentos
e a tiara papais
Em seu glorioso Pontificado, o Papa São Pio X (1903 a 1914) impulsionou extraordinariamente a piedade eucarística. Ele recomendou a comunhão frequente quando declarou que “todos os fieis têm liberdade de receber a sagrada comunhão com frequência e até diariamente, como é desejo de Jesus Cristo e de Sua Igreja; e que, portanto, não se deve negá-la a ninguém, que se aproxime da Sagrada Mesa em estado de graça e com reta e devota intenção”. 

O Sumo Pontífice também incentivou a primeira comunhão concedida às crianças, para isso bastando que elas “soubessem distinguir entre o ‘Pão Eucarístico’ e o ‘pão material ordinário’”. E que, quanto à doutrina, exigir-se-ia apenas que elas tivessem “certo conhecimento dos rudimentos da fé”. 

Incentivando a comunhão frequente e a aproximação das crianças à mesa da comunhão, São Pio X concorreu eficazmente para que as ideias modernistas e jansenistas não se expandissem nos ambientes católicos de então. Com efeito, a heresia jansenista — alegando um falso respeito e negando a misericórdia infinita de Deus — enfraquecia a devoção ao Santíssimo Sacramento. 
São Pio X conduz o Santíssimo Sacramento pelas ruas de Veneza

Esse Santo Papa, que passou para a História como o “Pontífice da Eucaristia”, sintetiza o mais excelso de todos os sacramentos — que, como sabemos, são sete: Batismo, Confirmação, Eucaristia, Penitência, Extrema-Unção, Ordem e Matrimônio — com essas eloquentes palavras: “A devoção à Eucaristia é a mais nobre de todas as devoções, porque tem o próprio Deus por objeto; é a mais salutar porque nos dá o próprio autor da graça; é a mais suave, pois suave é o Senhor. Se os anjos pudessem sentir inveja, nos invejariam porque podemos comungar”. 


Eucaristia: a maior manifestação do amor divino 

Conforme Santo Tomás de Aquino, “todos os sacramentos estão ordenados para a Eucaristia como para o seu fim”. O Doutor Angélico ainda afirmou que a dádiva do Divino Sacramento é “uma graça de heroísmo na luta, e que seu efeito próprio é não só o de amortecer em nós o fogo das paixões, como o de tornar-nos invencíveis contra todas as potências infernais”. Ele defendeu a tese de ser o Santíssimo Sacramento o maior dos milagres operados por Nosso Senhor Jesus Cristo, o sacramento por excelência, a maravilha das maravilhas, o “Maximum miraculum Christi”.

Nesse mesmo sentido, Santo Agostinho, de modo muito inspirado, assim se manifestou sobre esse milagre divino: “Que Deus, como ser infinitamente sábio e infinitamente poderoso, não poderia e nem saberia dar-nos mais precioso mimo do que o da Eucaristia; visto que, neste dom, se nos dava a Si mesmo”. 

Impossível maior manifestação de amor de Deus pelos homens, segundo o Apóstolo São João. “Tendo Jesus amado aos seus, que estavam no mundo, amou-os até ao extremo” (Jo 13,1). 

“Panis Angelorum” — o sobrenatural alimento para nossas almas 


Não seria, portanto, ingratidão para com Nosso Senhor Jesus Cristo desprezar essa tão excelsa manifestação do amor divino, se recusássemos esse “alimento espiritual” que Ele misericordiosamente nos concedeu? Claro que sim. Ademais, seria desprezar uma graça que aumenta nossa união com Deus, que nos propicia uma prelibação da visão beatifica; uma dádiva que nutre nossas almas, fortifica nossas virtudes, conserva e aumenta em nós a vida da graça (a vida sobrenatural); que nos dá forças para vencer as tentações, dominando nossas paixões desordenadas; além de apagar os pecados veniais, nossas faltas leves. 

Segundo definição do Concílio de Trento (1545 – 1563), a Eucaristia é “um antídoto que nos purifica das faltas que cometemos todos os dias e nos preserva de quedas mortais”. 
A Santa Ceia - Marten De Vos (1532-1603). The National Museum of Western Art, Tóquio, Japão

A instituição da Eucaristia na Santa Ceia com os Apóstolos


Nosso Senhor, em sua extrema manifestação do divino amor para com seus filhos neste mundo, nas vésperas de sua Crucifixão, Ressurreição e subida ao Céu, instituiu o sacramento eucarístico na Santa Ceia, a última com os Apóstolos, para não nos abandonar nunca, permanecendo na Terra até fisicamente presente no sacrário. Não apenas de modo simbólico, mas verdadeiramente presente sob as aparências das Sagradas Espécies consagradas (o pão e o vinho). Assim, habitando sempre entre nós — para ouvir nossas súplicas e atendê-las quando necessárias para nossa salvação eterna — cumpriu-se esta promessa divina: “Eu estarei convosco até a consumação dos séculos” (Mt 28,20). 


Testemunharam-no os Apóstolos e registraram os Evangelhos: “Enquanto ceavam, Jesus tomou o pão, e o benzeu, e o partiu, e deu-o a seus discípulos, e disse: Tomai e comei; isto é o meu corpo. E, tomando o cálice, deu graças e deu-lho dizendo: Bebei dele todos. Porque isto é meu sangue (que será o selo) do novo testamento, o qual será derramado por muitos para a remissão dos pecados” (Mt 26, 26-28). 

“Sacerdos alter Christus” (O sacerdote é um outro Cristo). Como ensina a Santa Igreja, na parte mais importante da Missa, que é a Consagração — pelo poder conferido por Nosso Senhor aos Apóstolos ao ordenar “Fazei isso em memória de mim” (Lc 22,19) —, a substância do pão de trigo e do vinho de uva converte-se em seu corpo e alma substancialmente, e em estado glorioso, impassível, intangível e invisível. O sacerdote na Missa — que é a renovação incruenta do sacrifício do Calvário — pronunciando as palavras sacramentais durante a Consagração, “agit in persona Christi” (atua na pessoa de Cristo). O sacerdote não diz “Tomai e comei, isto é o corpo de Cristo”, mas, sim, “Tomai e comei, isto é o meu corpo” — neste momento dá-se a “transubstanciação”, como muito apropriadamente denomina a Igreja. 

 Com efeito, no Concílio de Trento, a respeito da presença real e substancial de Jesus Cristo nas espécies eucarísticas, foi promulgado: “No sublime sacramento da santa Eucaristia, depois da Consagração do pão e do vinho, Nosso Senhor Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, está contido verdadeira, real e substancialmente sob aparência das coisas sensíveis”. 


Eucaristia: o modo de receber o augusto sacramento 


Uma vez que no Santíssimo Sacramento da Eucaristia Nosso Senhor encontra-se verdadeiramente presente em Corpo, Sangue, Alma e Divindade, não é uma grande graça poder visitá-Lo com frequência? Não é considerado uma grande honra visitar um rei? Imagine-se então quão grande é a honra poder visitar o Rei dos Reis, o Senhor do Céu e da Terra — sempre à nossa disposição nos sacrários, tanto das ricas e imponentes catedrais quanto das pobres e simples capelinhas! 

Se fôssemos convidados a visitar uma rainha — por exemplo, a Rainha da Inglaterra —, não nos prepararíamos primorosamente para tal visita e a faríamos com todo respeito?

Se assim é, com razão ainda maior devemos visitar o Santíssimo Sacramento e receber a Sagrada Comunhão com sumo respeito, numa atitude de adoração, estando em estado de graça (sem a mancha de qualquer pecado mortal). É sapiencial tradição da Igreja recebê-la de joelhos e sobre a língua; no caso das senhoras, cobertas com o véu na cabeça e convenientemente vestidas. 

Não estando em estado de graça, deve-se primeiro purificar a consciência, arrependendo-se e confessando-se antes de receber a Comunhão. Como adverte São Paulo Apóstolo: “Todo aquele que comer este pão ou beber o cálice do Senhor indignamente, será réu do Corpo e do Sangue do Senhor. Examine-se, pois, a si mesmo o homem, e assim coma deste pão e beba deste cálice. Porque aquele que o come e bebe indignamente, come e bebe para si a condenação, não distinguindo o corpo do Senhor” (I Cor. 11, 27-29).

Consonante com essas palavras do Apóstolo, o Concílio de Trento reafirmou: “Ninguém cônscio de pecado mortal, por mais contrito que se julgue, se aproxime da Sagrada Eucaristia sem ter recebido antes o Sacramento da penitência”. 


“Mistério de fé” — o sublime mistério eucarístico 


Para nós, simples mortais, a transubstanciação é um mistério, o
“Mysterium Fidei”. Cremos porque nos é ensinado pela Fé, que nos leva a crer em Deus e em todas as coisas que Ele faz, mesmo que nos pareçam incompreensíveis. “A fé é o fundamento da esperança, é uma certeza a respeito do que não se vê” (Hb 11,1). 

A Eucaristia é um altíssimo mistério, que excede a pobre inteligência humana, pois nossos olhos mortais não veem senão o pão e o vinho. Mas temos a certeza que é o Corpo de Cristo, pois para Deus NADA é impossível. 

De modo muito expressivo e poético, um dos hinos compostos por Santo Tomás de Aquino para adoração do Santíssimo Sacramento, o “Adoro te devote”, assim canta essa misteriosa e sublime verdade de fé:
“Eu te adoro com afeto, Deus oculto, que te escondes nestas aparências. A Ti sujeita-se o meu coração por inteiro e desfalece ao te contemplar. 
A vista, o tato e o gosto não te alcançam, mas só com o ouvir-te firmemente creio. Creio em tudo o que disse o Filho de Deus, nada mais verdadeiro do que esta Palavra da Verdade”.

“Ver para crer”: comoventes milagres eucarísticos 


Se do nada Deus criou todo o Universo, não poderia Ele mudar a substância do pão e do vinho em seu Corpo e Sangue? — Responde o grande Santo Ambrósio: “Se acreditamos que Deus pode criar do nada todos os seres, não deveremos crer mais facilmente que possa permutar uma substância por outra? Se todos os dias, por virtude natural, e não menos incompreensível, o pão e o vinho se transformam no corpo e no sangue daqueles a quem serve de alimento, por que não haveremos de crer que, por divina virtude, os mesmos objetos se transformem no corpo e no sangue de Jesus Cristo?”.

Entretanto, em algumas ocasiões, Nosso Senhor misericordiosamente nos desvendou o mistério eucarístico, mostrando-se realmente presente na Hóstia Santa por meio de comoventes milagres. Estes confirmam a presença Real do Homem-Deus na Eucaristia, e, assim, fortalecem a fé de muitos de nós que, como São Tomé, às vezes precisamos “ver para crer”. 

Impossível elencar nas páginas disponíveis para este artigo todos os prodígios operados ao longo dos séculos, que confirmam a presença Real na Eucaristia, mas nos deteremos em um que neste ano completa 750 anos exatos. Um milagre portentoso que está na origem da expansão das festividades públicas em honra do Santíssimo Sacramento, as procissões de Corpus Christi. Antes, porém, algumas linhas explicativas sobre a origem de tal celebração.


Festa do Santíssimo Corpo e Sangue de Jesus Cristo 


As maiores manifestações públicas da fé no dogma da Presença Real de Nosso Senhor Jesus Cristo na Eucaristia são as festas de Corpus Christi — como as belas e já conhecidas celebradas solenemente em diversas cidades de norte a sul do Brasil, com suas ruas enfeitadas com “tapetes” de flores etc.

A origem do festa de Corpus Christi remonta a uma religiosa agostiniana, Santa Juliana de Cornillon (1193 – 1258), a quem Deus revelou a conveniência para a Igreja de uma celebração dedicada a glorificar o Santíssimo Sacramento. Esta grande devota da Eucaristia foi superiora da abadia de Mont-Cornillon de Liège (Bélgica), fundada em 1124. Neste lugar de recolhimento, surgiu um movimento eucarístico que incentivou várias práticas de adoração à Hóstia Consagrada, como a Exposição e a Bênção do Santíssimo Sacramento.

Em 1246, Santa Juliana pediu ao bispo de Liège, Dom Roberto de Thorote, a instituição da festa de ação de graças pela presença Real, em Corpo e Alma, de Nosso Senhor Jesus Cristo na Eucaristia. O Bispo concordou com a celebração na diocese, mas não chegou a ver cumprida a solenidade, pois faleceu no mesmo ano. 

Somente em 1250 o Cardeal Cher, também de Liège, decidiu instituir em toda a diocese a nova festividade. Assim, a primeira celebração, com o nome de “Fête-Dieu”, foi realizada no interior da igreja de Saint-Martin, num cerimonial dirigido pelo próprio Cardeal. 


Na praça em frente à Catedral de Orvieto, os assistentes aguardam o início da Procissão de Corpus Christi

Orvieto: a “Cidade do Corpus Christi”

Desenvolveremos com mais detalhes para os leitores as festividades de Corpus Christi em Orvieto (Itália). Sem dúvida uma das mais bonitas, ou mesmo a mais bela manifestação em honra do Santíssimo Sacramento. Em qualquer caso, é considerada a primeira procissão de Corpus Christi realizada publicamente. 


Sobre um plateau a 300 metros de altitude, tendo a seus pés uma planície repleta de formosos vinhedos, Orvieto, com um pouco mais de 20 mil habitantes, situa-se mais ou menos a 100 km ao norte de Roma. A “Cidade do Corpus Christi” — como é denominada — possui notáveis monumentos medievais, sendo o mais importante o Duomo — o “Lírio das Catedrais” [foto]. Sua frente foi classificada por Plinio Corrêa de Oliveira como “a mais bela fachada da Cristandade”. Dedicado à Virgem Santíssima, é uma obra-prima da arte gótica italiana, floreado por preciosos mosaicos e baixos relevos (retratando fatos do Antigo e do Novo Testamento), além de afrescos de Fra Angélico e de Luca Signorelli. Sua construção teve início em 1290 para que fosse um grandioso escrínio no qual ficasse dignamente conservado e venerado o “Milagre de Bolsena”. 
O sacrossanto Corporal, levado num andor, sob um belo pálio, na procissão de Corpus Christi em Orvieto

O impressionante “Milagre Eucarístico de Bolsena” 


— Que milagre é esse? Encontrei sua narração no livro Leituras Eucarísticas (Editora Vozes, 1935), do Frei Mariano Wentzen. Eis um pequeno resumo: 

Entre os milagres realizados pela Santíssima Eucaristia, o de Bolsena (província de Viterbo, diocese de Orvieto) é o mais conhecido, pois está na origem da festa de Corpus Christi (ou Corpus Domini). Em 1264, o Padre Peter, oriundo de Praga, empreendeu uma viagem desde sua região (a Boêmia) até Roma. Embora fosse um sacerdote piedoso, ele desejava revigorar sua fé na Cidade Eterna, pedir ao Papa alguns esclarecimentos e expor-lhe dúvidas a respeito da doutrina da transubstanciação. Como vimos acima, durante a Consagração, ocorre a mudança da substância do pão e do vinho em Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo — permanecendo, contudo, na aparência do pão e do vinho. 
Diversos e preciosos gonfalões são portados no solene cortejo de Orvieto. Neste acima, a representação da "Missa de Bolsena", durante a qual se operou o impressionante milagre eucarístico.

Chegando à cidade de Bolsena, o referido sacerdote celebrou a Missa na Igreja de Santa Cristina. Foi esta a última vez que as dúvidas de fé sobre a presença Real de Jesus na Santíssima Eucaristia o atormentaram! 

No momento da Consagração do pão e do vinho, na Sagrada Hóstia ocorreu uma efusão do preciosíssimo Sangue, que começou a transbordar e gotas verteram-se sobre o corporal (tecido de linho branco que fica debaixo do Cálice), tingindo-o de sangue. 

Assustado com aquele inexplicável acontecimento, o sacerdote primeiro procurou esconder o sagrado corporal, pois julgava que isso ocorrera em castigo devido às suas dúvidas de fé. Mas o sangue transpôs o linho e quatro gotas caíram sobre os degraus do altar, deixando impressos no mármore sinais evidentes do adorável Sangue. 

Não podendo mais ocultar o milagre, foi à procura do Papa Urbano IV — que se encontrava em Orvieto, cidade bem próxima de Bolsena — para se confessar e narrar o acontecido. Assim, o Papa mandou trazer à sua presença aquele corporal e ordenou uma apuração meticulosa, que resultou na comprovação inequívoca do milagre.


Estabelecimento da Festa de Corpus Christi para toda Igreja


Interior da catedral de Orvieto
Daí a edificação da Catedral de Orvieto para a guarda e veneração do sacrossanto Corporal — objeto de grande devoção não apenas dos italianos, mas de pessoas do mundo inteiro que para lá se dirigem. Quanto ao mármore sobre o qual pingaram gotas do preciosíssimo Sangue, conserva-se até hoje na Igreja de Santa Cristina de Bolsena, onde ocorrera o impressionante milagre, outra prodigiosa comprovação da presença Real de Nosso Senhor Jesus Cristo na Hóstia consagrada.

Com a bula Transiturus de hoc mundo, de 11 de agosto de 1264, Urbano IV estendeu a todo o Orbe católico a Festa de Corpus Christi, a ser celebrada publicamente de modo solene pelas ruas e praças. A data da comemoração foi fixada para a quinta-feira após o dia da Santíssima Trindade. O dia escolhido foi em memória da celebração da primeira Missa por Nosso Senhor, na última ceia no Cenáculo, que foi na Quinta-Feira Santa, quando instituiu o incomparável Sacramento da Eucaristia. 

Também o Papa Urbano IV pediu a Santo Tomás de Aquino para compor cânticos para se festejar com maior esplendor o dia de Corpus Christi. Ele então compôs cinco hinos em louvor ao Santíssimo Sacramento — o “Lauda Sion”, “Adoro Te Devote”, “Pange Lingua”, “Sacris Sollemnis” e “Verbum Supernum”. Conta-se que para a criação de um dos hinos, o Papa encomendou a São Boaventura e a Santo Tomás, mas quando o Romano Pontífice fez leitura em voz alta do ofício composto por Santo Tomás, São Boaventura, despretensiosamente, foi rasgando a sua composição... Tal hino é o célebre e belíssimo “Lauda Sion” (Louva Sião). 


O cortejo histórico e solene de Orvieto 


A partir da determinação de Urbano IV para se festejar o dia de Corpus Christi, uma soleníssima procissão se realiza todos os anos pelas encantadoras ruas de Orvieto. Antes de seu início, logo pela manhã, no interior da Catedral é realizada com grande pompa a cerimônia da exposição e adoração da Santíssima Eucaristia. Segue-se a celebração da Missa solene. Logo depois tem início a magnífica procissão, com o venerável Corporal percorrendo as ruas da cidade, cujas casas ornam suas janelas e sacadas com bandeiras, tapeçarias e maravilhosos arranjos florais. 


Atualmente, quase mil personagens em preciosos trajes medievais, representando as diversas classes sociais (desde a alta nobreza, passando pelos cavaleiros, pelos homens de justiça, pelas confrarias de estudantes e pelas corporações ofício até o povo miúdo) desfilam em homenagem ao Sagrado Corporal e ao Santíssimo Sacramento. 






O histórico e solene desfile é dividido por
quatro bairros da cidade, cada um com suas bandeiras e cores próprias. Muitos dos hábitos medievais usados no cortejo são confeccionados em riquíssimos tecidos, alguns de seda e veludo, outros bordados em ouro e prata — como se pode observar nas fotos. Alguns trajes constituem verdadeiras obras de arte confeccionadas pela célebre “Manifattura LISIO”.


Dando um brilho ainda mais especial ao cortejo, observamos brasões e armas das famílias nobres da cidade, bem como armaduras, couraças, escudos, capacetes, feitos cuidadosamente à mão por armeiros de renome.

Imbuída de charme, sacralidade e grandeza, esta é a solene cerimônia de Corpus Christi de Orvieto, que tive a graça de assistir no dia 2 de junho de 2013, certamente a mais bela procissão do gênero que se realiza no universo em honra de Nosso Senhor Jesus Cristo Sacramentado. É razoável que assim seja, uma vez que o “Milagre de Bolsena” está na origem da primeira procissão pública de Corpus Christi, que depois foi pouco a pouco se multiplicando pelo mundo inteiro.




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Click na 1ª imagem para percorrer a "galeria" de fotos da Solenidade de Corpus Christi em Orvieto. Para isso use a setinha direita do teclado. [Fotos PRC]
Após a realização da cerimonia da Exposição do Santíssimo no interior da Catedral, corneteiros anunciam o início da procissão de Corpus Christi
Inicio do desfile das Corporações de Artes e Ofício

Os participantes começam a sair do interior da Catedral

Alabardeiros e escudeiros


Capitão representante do poder militar

Representantes dos Cavaleiros



Início do desfile dos representantes do povo medieval

Cortejo do clero

Sagrado Corporal sob um precioso pálio

Participantes desfilam pelos bairros e o povo assiste desde as calçadas e janelas




Diversas confrarias começam a desfilar pelas ruas da cidade

Desfile dos representantes do povo medieval


Damas da Ordem de Cavalaria do Santo Sepulcro participam do cortejo

Tendo percorrido os bairros, a Procissão retorna, formando-se frente à Catedral

Dois Carabinieri, em uniforme de gala, fazem a guarda do Sagrado Corporal



Encerramento com a Benção do Santíssimo Sacramento




9 de junho de 2014

A esdrúxula “Lei da Palmada”

Palmada pedagógica, aplicada pela mão amorosa dos pais, NÃO PODE. Espancar a família, pela mão odiosa do Estado ditatorial, PODE. 


Paulo Roberto Campos 

No dia 4 último foi aprovado pelo Senado Federal o PL 7672/10 — conhecido como “Lei da Palmada” e rebatizado como “Lei Menino Bernardo”. Verdadeiro absurdo, que constitui mais um golpe contra a Família. 


Se a presidente Dilma Rousseff não vetar essa esdrúxula lei (ela tem 15 dias úteis para decidir), os pais poderão ser punidos por castigar seus filhos, ainda que levemente. Comenta a “Agência Brasil” (04/06/2014): “Apesar de os senadores favoráveis à matéria garantirem que não se trata de legislação criminal, o texto prevê punições aos pais que insistirem em castigar fisicamente os filhos, como advertência, encaminhamento para tratamento psicológico e cursos de orientação, entre outras sanções. Os conselhos tutelares serão responsáveis por receber denúncias e aplicar as sanções”. 





Assim, os pais poderão ser punidos, por exemplo, pelo simples
fato de um filho os denunciar por lhe terem dado um beliscãozinho, um puxão de orelha, uma palmadinha pedagógica. Ou por os denunciarem vizinhos que, por qualquer motivo, desejam caluniá-los e fazer-lhes acusações falsas, apresentando um tapinha na criança birrenta como se tivesse sido uma agressão. 

Claro que se os pais, ou seja lá quem for, espancarem uma criança, devem ser punidos. Mas para isto não é preciso esta absurda “Lei da Palmada”, pois agressão violenta contra qualquer pessoa constitui crime punível pelo Código Penal, que já se incumbe de “enquadrar” o infrator — conforme o caso até com pena de prisão, com a agravante se praticado contra menores de 14 anos. 

A “Lei da Palmada” foi rebatizada de “Lei Menino Bernardo”, em memória do pequeno Bernardo Boldrini assassinado pelo pai e pela madrasta no Rio Grande do Sul. Um outro absurdo, pois esses pais (melhor diríamos monstros) não deram palmadas no menino, mas mataram-no. Casos do gênero são excepcionais, uma vez que 99,9% dos pais não castigam de modo cruel seus filhos. Como sabemos, “abusus non tollit usum” (o abuso não impede o uso). Ou seja, não é porque há casos extremos de violência contra crianças que todos os pais devem ser proibidos de impor limites e mesmo leves castigos aos filhos. Pelo contrário, como nos ensina a Sagrada Escritura, os pais que amam verdadeiramente seus filhos, não deixam de puni-los. “Meu filho, não desprezes a correção do Senhor, nem te espantes de que ele te repreenda, porque o Senhor castiga aquele a quem ama, e pune o filho a quem muito estima” (Provérbios, 3, 11-12). 

Mas com a aprovação desta insensata lei, através dos famigerados “Conselhos Tutelares”, o Estado ditatorial poderá agora punir o bom pai, a boa mãe, que por amor ao filho e para bem o educar dá-lhe uma leve palmada... “Conselhos Tutelares” que passarão a fiscalizar as famílias bem no estilo dos chamados “Conselhos Populares” — como os soviets, oriundos da antiga URSS — estabelecidos por Fidel Castro em Cuba e por Hugo Chávez na Venezuela. 

Típico de regimes totalitários, essa indevida intromissão do Estado no interior dos lares — além de espezinhar o pátrio poder e instalar um sistema de denúncias que poderá jogar os filhos contra os pais —, é no fundo para debilitar o princípio de autoridade, pois a educação dos filhos é da responsabilidade dos pais, e não ao Estado. São eles quem sabem o que convém ou não para melhor formar seus pequenos. O Estado socialista não pode meter o bedelho na Família, usurpando dos pais o sagrado direito de educar sua prole. 


Bebês abortados,
jogados no saco de lixo de um hospital
Muito incoerente o Estado totalitário petista, ao mesmo tempo que deseja aparecer como protetor da criança, favorece algo INCOMPARAVELMENTE mais grave e mesmo cruel: o aborto! Para este Estado, o bebê no ventre materno não merece proteção, não conta com qualquer “direito humano”; o nascituro pode até ser cortado em pedaços e jogado na lata de lixo hospitalar! [foto

Entre inúmeros depoimentos de pais contrários à aberrante “Lei da Palmada”, encerro com um deles, publicado na “Agência Brasil” (06/06/2014):
“O administrador de empresas Carlos Damasceno, 40 anos, é pai de três meninas e confessa: ‘Uma das minhas filhas é bem danada e já levou muita palmada’. Perguntado se concorda com o projeto de lei que pune famílias que usem violência física na educação dos filhos, aprovado na última quarta-feira (dia 4) pelo Senado, ele garantiu ser contra agressões pesadas, mas avaliou que conversar com as filhas nem sempre é suficiente. 
“‘A gente quer educar e sabe dos nossos limites. Tem que haver limite. Afinal, não vai ser nem a polícia nem o Estado que vão educar nossos filhos’, disse, apoiado pela amiga Flávia Passos, 37 anos, enfermeira e mãe de um rapaz de 21 anos. Para ela, agressão física que deixa hematomas e fraturas devem ser punidas, mas palmadas ocasionais não fazem mal à criança. 
“‘Minha avó apanhou, minha mãe apanhou, eu e minhas irmãs apanhamos e somos, hoje, todas muito bem resolvidas. Pai e mãe querem sempre o melhor para o filho, mas há momentos em que o castigo não resolve e a palmada, sim’”. 
É esse bom senso — da imensa maioria dos brasileiros e próprio aos pais de família — que não foi respeitado. Com efeito, noticia o próprio portal “Câmara dos Deputados”, em 22/08/2013:
“Desde 1º de julho [portanto, em menos de dois meses], 661 cidadãos entraram em contato com a Central de Comunicação Interativa da Câmara pelo Disque-Câmara (0800-619.619) ou por e-mail, utilizando o serviço ‘Fale Conosco’ do Portal, para se posicionar sobre o projeto (PL 7672/2010). Desse total, 616 (93%) são contrários à aprovação da proposta, enquanto 45 (7%) disseram ser favoráveis”
Embora mera amostragem, essa informação confirma outras pesquisas e serve para avaliar a pseudodemocracia esquerdista que aprovou a “Lei da Palmada” — com o apoio de apenas 7% da população e desprezando os 93% de brasileiros contrários.

4 de junho de 2014

TFP italiana na IV Marcha Nacional pela Vida, em Roma


Julio Loredo

Trinta mil, segundo a Polícia Municipal de Roma, e quarenta mil, de acordo com os organizadores, foram os participantes da IV Marcha Nacional pela Vida na capital da Cristandade no dia 4 de maio. 


O desfile começou em lugar altamente simbólico: a Basílica de Santa Maria dos Anjos e dos Mártires [foto], situada na Piazza della Repubblica, construída pelos Romanos Pontífices para comemorar os milhares de mártires cristãos mortos nas Termas de Diocleciano. Após atravessar as ruas do centro histórico de Roma, terminou na Praça de São Pedro. 

Hoje, dois mil anos depois, o sangue inocente corre novamente. Não mais nas Termas, no Circo ou no Coliseu, mas nas clínicas de aborto. É para deter este massacre que os defensores da vida se mobilizam a cada ano para fazer ouvir sua voz no coração do cristianismo. 

No dia anterior, a TFP italiana havia participado de dois importantes congressos: um nacional e outro internacional. O primeiro, realizado no Pontificio Ateneo Regina Apostolorum, contou com a participação de importantes figuras do mundo prolife italiano. Representantes da TFP da Itália tomaram parte nas conferências e nos círculos de estudo. 

O outro congresso realizou-se no Auditório São Pio X, do Vaticano. Na parte da manhã participaram apenas líderes prolife de nível mundial; o presidente da TFP italiana [foto à direita] teve então ocasião de apresentar as atividades em defesa da vida inocente levadas a cabo pela vasta família de almas fundada pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira. À tarde, o congresso era aberto ao público, tendo sido novamente concedido à TFP apresentar suas atividades no plenário. O congresso foi encerrado pelo Cardeal Raymond Leo Burke [foto abaixo], Prefeito da Signatura Apostólica, que declarou não ser lícito dar a comunhão aos políticos que favorecem o aborto. 
O Cardeal Raymond Leo Burke, Prefeito da Signatura Apostólica, conversa com manifestantes da Marcha contra o aborto em Roma

A Marcha pela Vida de Roma envolve uma ampla coalizão de associações religiosas e leigas, unidas no desejo comum de defender a vida humana desde a concepção até a morte natural, cancelando a Lei 194 — que em 1978 abriu a porta para a matança dos inocentes na Itália. A marcha teve que superar muitos obstáculos, tanto psicológicos quanto políticos. Não é incomum, de fato, encontrar a ideia, professada sobretudo por católicos ditos “moderados”, de que a lei 194 é “uma lei boa, mas mal aplicada”. Segundo essa ideia, tal lei italiana conteria também aspectos positivos, que no entanto nunca foram implementados. Ao invés de pedir a sua abolição, dizem, deveríamos lutar pela sua plena implementação. Esta, que é a posição de até não poucos bispos, constitui uma armadilha que se deve dissipar. 
Nos regulamentos legais anteriores à lei 194, o aborto na Itália não era permitido, e de fato era punido pelas leis contidas no X Título do Livro II do Código Penal, que previa pena de reclusão de dois a cinco anos para quem praticasse o aborto numa mulher, mesmo com o seu consentimento. No caso de a mulher não consentir, a pena subia de sete a quinze anos. No entanto, à luz do artigo 54 do mesmo Código, eram contempladas algumas exceções, como, por exemplo, para salvar a vida da mãe. 
A lei 194 inverte essa lógica jurídica: considera o aborto totalmente legal, mas depois aplica algumas restrições. Ela divide, de forma completamente arbitrária, a vida intra-uterina em três períodos, e aplica para cada um deles critérios jurídicos diferentes. O ponto de referência é sempre a saúde ou os direitos da mãe, sem a mínima alusão aos direitos do nascituro, a quem assim se vê negada a condição de pessoa. Eis a intrínseca maldade dessa lei. 

Para transmitir esta mensagem é que nasceu a “Marcha pela Vida em Roma”, da qual participa desde o início a Associazione Tradizione Famiglia Proprietà. (http://www.atfp.it)

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2 de junho de 2014

A aprovação do aborto, a reação e o recuo do governo

Paulo Roberto Campos 

Recentemente fomos surpreendidos por uma aprovação que ampliaria a prática do aborto no Brasil e com financiamento público. Foi a sanção à lei 12.845/2013, por meio da regulamentação da Portaria 415, assinada pela Presidente Dilma Rousseff no dia 21 de maio último e publicada no dia seguinte no “Diário Oficial da União”.

Essa nefanda regulamentação, no fundo, facilitaria a prática abortiva nos hospitais, uma vez que o governo incluía o aborto na Tabela de Procedimentos do Sistema Único de Saúde (SUS), pagando R$443,40 pela “interrupção terapêutica da gestação” ou “antecipação do parto” — ou seja, sem eufemismos: a execução de um bebê no ventre materno. Ademais, tal regulamentação seria motivo para interpretações jurídicas que poderiam ampliar ainda mais os casos de abortamento no País, além daqueles que, de modo absurdo, a lei vigente permite (em casos de estupro, quando a vida da mãe esteja em risco e em casos de fetos anencéfalos). 

Tal notícia provocou indignadas reações no Brasil inteiro, despertadas por muitos movimentos contrários ao aborto, e o governo recuou. Segundo nota da “Agência Brasil”, no dia 29 de maio, o Ministério da Saúde anulou a portaria 415, publicada no dia 22 de maio. 

Mas aquele Ministério não admitiu que o recuo fora por causa da mencionada reação. Ele alegou que a revogação foi devido a uma “falha técnica”... 

Uma razão a mais para ficarmos bem atentos, pois, do contrário, poderemos ser novamente surpreendidos com alguma nova portaria “corrigindo” a “falha técnica” e, usando e abusando de eufemismos, aprovar o aborto em larga escala no País. 

Neste sentido de vigilância, recomendo aos Amigos assinarem uma “Carta Aberta” contra o aborto, pedindo aos candidatos, tanto do Executivo quanto do Legislativo, para se definirem claramente quanto à questão do aborto e, assim, possamos saber quem escolher nas próximas eleições.

Para assinar a sua “Carta Aberta”, click no seguinte link:

http://www.minhacartaaberta.com.br/candidatos2014/