3 de julho de 2017

Quem tem autoridade sobre os filhos: os pais ou os juízes?

 

O terrível precedente de Charlie Gard 


Plinio Maria Solimeo 

Anos atrás pareceria inconcebível perguntar a quem incumbe a autoridade sobre os filhos, se aos pais ou aos juízes. 

Hoje, por absurdo que pareça, os magistrados se arrogam o direito de decidir o futuro das crianças, a despeito da opinião dos próprios pais. É o que está ocorrendo num dramático caso que se tornou internacional, fruto da socialização da medicina guiada por um “humanismo racionalista e utilitarista, desprovido de valores absolutos, ou seja, [de um] relativismo moral e niilismo”, como diz um comentarista moderno.(1) 


Trata-se do caso de Charlie Gard [foto], um bebê britânico de dez meses, portador de uma enfermidade muito rara — a Síndrome de Esgotamento Mitocondrial. Apenas outros 16 meninos em todo o mundo sofrem dessa síndrome, que leva os músculos, pulmões e outros órgãos a ficarem sem energia, podendo ser letal. Por isso o pequenino Charlie está conectado a um ventilador artificial no hospital Great Ormond Street, em Londres, acompanhado por seus pais, Christopher e Connie [foto abaixo], que com os donativos oriundos de todo o mundo obtiveram o suficiente para levar o filho aos Estados Unidos, onde um hospital se prontificou a tentar um tratamento que, com a ajuda de Deus, poderá dar resultado. 


No entanto, os pais não podem tomar esse caminho e seguir o exemplo da Sagrada Família, que para salvar o Menino Jesus da sanha sanguinária de Herodes partiu rumo ao Egito. Pois Charlie está impedido de sair do hospital. Praticamente sequestrado, acompanham-no, além dos pais, uma medalha de Jesus e uma oração ao Anjo da Guarda. 

Vãos recursos à Corte Suprema e ao Tribunal de Estrasburgo

Após recurso ao Tribunal de Apelações do Reino Unido, os pais do Charlie recorreram à Corte Suprema. Ambos lhes negaram o direito de trasladar Charlie aos Estados Unidos, ou até mesmo de levá-lo para morrer em casa. Pelo contrário, autorizaram os médicos a desconectarem o bebê, alegando que o tratamento nos EUA seria inútil. E hipocritamente, “com o maior dos pesares”, asseguraram “estar fazendo o melhor para o bebê”, cujo “superior interesse deve prevalecer” — o de fazê-lo “morrer sem dor”

Contestando o parecer dos médicos e do juiz, Christopher afirma: “Estamos convencidos de que Charlie não sente dor. Quando percebe nossa presença, procura abrir os olhos como pode, pelo que não cremos que esteja cego. Conhecendo nosso filho, não cremos que Charlie tenha dano cerebral estrutural, como dizem os médicos. Se pensássemos que não há nenhuma esperança, não lutaríamos por ele. Mas se há a menor possibilidade de que um tratamento funcione, e o doutor nos Estados Unidos assim no-lo disse, que pai não o tentaria?” — argumenta, com muita lógica. 

Diante dessa ditadura judicial, o que mais poderiam fazer os pais aflitos? Resolveram, como última tentativa, apelar para o Tribunal de Direitos Humanos de Estrasburgo. Os sete juízes encarregados de decidir sobre o caso obrigaram o hospital londrino a manter viva a criança, concedendo-lhe todos os cuidados possíveis, até tomarem a decisão final. 

Precedentes que levam à esperança

Havia, pois, esperanças de que esse Tribunal desse um parecer favorável ao direito dos pais de decidirem o que fazer com o filho. Contudo, padecendo do pragmatismo e do ateísmo que avassalam o mundo de hoje, seus magistrados deram absurdamente razão aos juízes e médicos londrinos, ou seja, que era melhor para o menino desconectar os aparelhos que lhe permitem respirar, para deixá-lo “morrer com dignidade”

Os juízes haviam estabelecido 30 de junho como o dia fatal para o desligamento dos aparelhos. Mas foi tão grande a indignação suscitada em todo o mundo pela iníqua decisão, que eles adiaram a data, mas não cancelaram a pena. 

Ateus, esses magistrados nem levaram em conta a existência de pelo menos dois precedentes em tal caso: o de uma menina e de um menino italianos desenganados pelos médicos, e que não obstante estão hoje com quatro e nove anos de idade, respectivamente. A mãe do menino disse que “o princípio que deve guiar o ser humano é proteger e defender a vida deste menino, seja por poucas horas, seja por oitenta anos”

O National Catholic Register comenta que uma das consequências do caso Charlie serão suas metástases, podendo ser aplicado depois até nos casos de doenças com melhores diagnósticos e mais comuns.(2)

“JeSuisCharlieGard” 

O que está acontecendo é tão absurdo, que está levantando a indignação em quase todo o mundo. Uma delas conseguiu até agora enviar 183.602 assinaturas ao hospital londrino, pedindo que este libere o menino e o entregue a seus pais. Já surgiu outra iniciativa que tem como lema “JeSuisCharlieGard”, reunindo pessoas de vários países. 

Um grupo de pais romanos enviou uma carta ao Papa Francisco, pedindo-lhe que ajudasse o menino inglês intercedendo por ele junto aos órgãos competentes.(3) O Papa havia se referido ao caso de uma maneira indireta, sem citar o menino. Mas, segundo diz em seu blog Il Straniero o jornalista Antonio Socci, “ocorreram espontaneamente uma centena de vigília de orações e, sobretudo, muitos e muitos católicos de todas as partes tomaram de assalto a central telefônica da Secretaria de Estado Vaticana e de Santa Marta, para pedir uma intervenção urgente do Papa Bergolio”. De onde esta notícia: “O Santo Padre – afirma o porta-voz do Vaticano Greg Burke — segue com afeição e emoção a história de Charlie Gard, e expressa sua proximidade com os pais. Ele reza por eles, desejando que o desejo deles de acompanhar com cuidado o próprio filho até o fim seja respeitado”.(4) 

O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, também se manifestou em um tweet: “Se pudermos ajudar o pequeno Charlie Gard como os nossos amigos do Reino Unido e o Papa, nos alegraremos em fazê-lo”.(5) 

O cardeal Elio Sgreccia, ex-presidente da Academia Pontifícia para a Vida e um dos maiores peritos mundiais em Bioética, publicou no blog Il donno della vitta dez pontos, nos quais comenta com muita vivacidade e erudição a sentença e os argumentos dados pelos juízes justificando a morte de Charlie Gard.(6) 

Não podendo deixar de se manifestar, o Presidente da Pontifícia Academia pela Vida, Dom Vicente Paglia, fez um inócuo comentário, que desapontou os que esperavam dele um categórico pronunciamento a favor da família e da vida. 

Algumas repercussões sobre o clamoroso caso 

Javier Lozano, jornalista do site católico Religionenlibertad, pergunta com muita indignação: “O Estado está acima dos pais? Podem alguns médicos decidir deixar uma criança morrer apesar da oposição de seus progenitores? Podem alguns juízes retirar, de fato, o pátrio poder de alguns pais que querem salvar seu filho e, para isso, trasladá-lo aos Estados Unidos para receber um tratamento experimental? Pode o juiz dizer que desconectar o bebê é deixá-lo ‘morrer com dignidade’, passando por cima da opinião dos que trouxeram o pequeno ao mundo?”(7) 

O jornalista Elton Chicolina, por sua vez, argumenta com toda propriedade no site Aleteia: “Se uma família quer tentar um último recurso em prol da vida de um filho, por sua própria conta, por mais que as chances de sucesso sejam praticamente nulas, o Estado tem a prerrogativa de proibi-la? O Estado tem autoridade legítima para obrigar um pai e uma mãe a desligarem os aparelhos que mantêm o seu bebê vivo, quando ainda resta uma tênue e remota chance de tratamento? [...] É este o Estado que desejamos? Se for, devemos estar cientes de que se trata de um Estado que permite ao arbítrio de um grupo de magistrados sentenciar de maneira absolutista contra o direito natural de um pai e de uma mãe a manterem o próprio filho vivo até que ele faleça pelo esgotamento de todos os recursos lícitos disponíveis — recursos, aliás, que, no caso de Charlie, seriam bancados pelos próprios pais e pelas doações de milhares de voluntários, e não pelo Estado”.(8) 

Aleteia vai mais longe: “Que grau de monstruosidade é necessário, consciente ou já subconscientemente, para sentenciar um bebê à morte e se dirigir com tamanha hipocrisia aos pais da sua vítima indefesa? Uma vítima que ainda tem uma chance a seu alcance!”(9) 

Em seu blog, Rodrigo Constantino conclui: “[Como diz Walsh,] esse é o resultado da medicina socializada, de quando os pais têm seus direitos subordinados ao Estado, e de quando a vida humana não é mais sagrada. Talvez a vida das baleias ou das tartarugas desperte mais comoção hoje do que a vida de bebezinhos com doenças terminais, pois é proibido ‘sofrer’. De fetos no ventre, então, nem se fala! Esses podem ser simplesmente eliminados como se fossem parasitas, e os ‘direitos’ das mulheres atropelam qualquer direito à vida do bebê. É como se ela fosse cortar a unha ou o cabelo, e ponto final.”


Entretanto, uma voz categórica se elevou no setor eclesiástico. Foi o pronunciamento do conhecido Cardeal Carlo Caffarra [foto ao lado], um dos quatro assinantes dos dubia dirigidos ao Papa Francisco. Em entrevista concedida ao Il Giornale, ele disse: “Chegamos aos limites da cultura da morte. São as instituições públicas, os tribunais, que decidem se uma criança tem ou não o direito de viver. Inclusive contra a vontade de seus pais! Chegamos ao fundo da barbárie”

E acrescentou: “Somos, por acaso, filhos das instituições, ou lhes devemos a vida? Pobre Ocidente! Rechaçou a Deus e sua paternidade, e se encontra entregue à burocracia! O anjo de Charlie vê sempre o rosto do Pai. Detende-vos, em nome de Deus. De outra forma vos digo com Jesus: ‘Seria melhor que vos atásseis ao pescoço uma roda de moinho, e vos lançásseis ao fundo do mar (Mc 9, 42).”(10) 

Enquanto escrevemos o presente artigo, surpreendeu-nos a boa notícia de que teria surtido efeito o vídeo difundido na quinta-feira pelos pais de Charlie, denunciando a pressa do hospital em acabar com a vida de seu filho e não deixando sequer levá-lo para morrer em casa. Connie Yates, a mãe da criança, anunciou no Facebook uma prorrogação para sua vida(11). Esperemos que, com a pressão mundial, esse caso tenha um feliz desenlace, para alegria de todos. 

Quão terríveis são os tempos em que vivemos, com a morte da fé e a consequente queda da moralidade! Que Deus tenha piedade deste mundo pecador e neopagão! 

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Notas:  
1. http://www.gazetadopovo.com.br/rodrigo-constantino/artigos/corte-na-europa-decide-matar-bebe-doente-apesar-de-luta-dos-pais/?utm_medium=feed&utm_source=feedpress.me&utm_campaign=Feed%3A+rconstantino 
2. http://www.ncregister.com/blog/matthew-archbold/when-the-right-to-die-becomes-a-death-sentence 
3. ES.NEWS 
4. http://www.ncregister.com/daily-news/pope-francis-supports-charlie-gard-and-his-parents 
5. CitzenGo, in https://mail.google.com/mail/u/0/h/16jec7g95dte6/?&th=15d09949bb50d7da&v=c 
6. http://www.religionenlibertad.com/puntos-que-echan-abajo-los-argumentos-sentencia-que-57834.htm 
7. http://www.religionenlibertad.com/los-jueces-dictan-que-bebe-muera-impiden-los-57496.htm 
8. https://pt.aleteia.org/2017/06/30/caso-do-bebe-charlie-as-duas-questoes-que-precisam-ser-esclarecidas/?utm_campaign=NL_pt&utm_source=daily_newsletter&utm_medium=mail&utm_content=NL_pt 
9. https://pt.aleteia.org/2017/06/30/luto-indignacao-horror-o-bebe-charlie-sera-assassinado-hoje-pela-justica-europeia/?utm_campaign=NL_pt&utm_source=daily_newsletter&utm_medium=mail&utm_content=NL_pt 
10. http://www.religionenlibertad.com/los-padres-charlie-gard-consiguen-una-prorroga-hay-tuit-57787.htm 
11. http://www.religionenlibertad.com/los-padres-charlie-gard-consiguen-una-prorroga-hay-tuit-57787.htm

30 de junho de 2017

Êxito dos colégios católicos na Inglaterra

“Ato de Supremacia” (1534) reconhecia o Rei como chefe supremo da igreja na Inglaterra, disso nasceu a religião anglicana. Henrique VIII rompeu com Roma porque o Papa de então não autorizou o divórcio desejado pelo monarca e não anulou seu legítimo casamento com Catarina de Aragão para que ele pudesse contrair um novo matrimônio.

Plinio Maria Solimeo
O rei Henrique VIII [foto acima], de malfadada memória, rompeu em 1534 com Roma, que o proibia casar-se de novo, tornando-se “Cabeça da Igreja na Inglaterra”. Nasceu assim a religião chamada Anglicana, que conservou alguma coisa da liturgia católica, com fortes aportes protestantes. O anglicanismo tornou-se uma religião herética. 

Esse fato impressionante da apostasia de uma nação, de um dia para o outro e praticamente sem reação, só se tornou possível pela tibieza e decadência dos católicos, principalmente dos bispos, que aceitaram submissos tamanha abominação. O que se nota no número relativamente pequeno de mártires da época, sobretudo no clero e no episcopado.

Tal decadência ou descaso na prática da fé persiste em nossos dias, pois quase a metade da população inglesa (49%) declara não professar nenhuma religião, nem mesmo a Anglicana, dos chefes do Estado. Ou seja, metade do país declara-se ateia... 

Da outra metade, somente 17% seguem a religião oficial, ou seja, 8.6 milhões de fiéis. Os católicos se mantêm com 8% da população crente. Porém, o mais terrível e doloroso é saber que a religião que mais cresce na Inglaterra é a muçulmana, a qual ganhou entre 2012 e 2014 cerca de 900 mil fiéis, de modo a totalizar 1.7 milhão de seguidores no país! 

Apesar de seu número relativamente pequeno no que se refere ao campo educativo, o catolicismo está se convertendo numa referência. Pois o governo britânico reconheceu a qualidade de seus colégios, e anunciou uma reforma que lhe outorgará mais liberdade para que possa abrir novos centros. 

Isso levou a primeira-ministra Theresa May — filha de pastor anglicano, cuja fé professa — a anunciar que serão levantadas as quotas de alunos de outras crenças que pesam sobre as exitosas escolas católicas, que têm listas de espera por sua qualidade. Diz ela: “Fundamentalmente, creio que é equivocado negar às famílias a oportunidade de enviar seus filhos a escolas que refletem seus valores. Creio que o correto é animar essas comunidades religiosas, especialmente em casos de êxito provado como a dos católicos, para que possam construir mais escolas capazes”. 

Pela primeira vez, os colégios católicos da Inglaterra e de Gales tornaram públicas as porcentagens de alunos de outras religiões que neles ingressam. O que revelou uma coisa surpreendente: por sua qualidade, essas escolas são procuradas até pelos muçulmanos: 26.000 crianças dessa crença estudam nesses colégios! 


Essa questão chegou a tal ponto, que na Rosary Catholic School, de Birmingham [foto ao lado], uma escola primária católica, 90% dos alunos são muçulmanos! 

Isso se reflete também no fato de que, dos 850 mil alunos que se formam nas escolas católicas da Inglaterra e de Gales, 290 mil pertencem a outras religiões, a maioria de cristãos, muitos de origem africana. O que se explica também pela evolução demográfica das regiões onde se encontram originariamente esses colégios, que foram sendo tomadas pelos imigrantes. 

Os colégios católicos permitem que os pais de alunos de outras religiões retirem seus filhos dos atos de culto e celebrações próprias católicas, como Natal e Semana Santa. Mas a maioria deles prefere que seus filhos deles participem. 

Isso apesar de haver atualmente no Reino Unido 6.800 colégios religiosos, 28 dos quais são muçulmanos. 

Outro aspecto da questão é que, para lutar contra a radicalização em alguns centros educativos muçulmanos, o governo obrigou todos os colégios do país a ensinar também uma segunda religião, que pode ser escolhida livremente por cada centro. As escolas católicas optaram então por ensinar como complemento o judaísmo. Isso incomodou o Conselho de Muçulmanos Britânicos, que se mostrou “muito decepcionado” e assegurou que, com a sua decisão, “a Igreja Católica britânica mina a mensagem do Papa Francisco, de tolerância entre as religiões”... E pede ao Cardeal Vicent Nichols que retifique essa medida. 

É tão grande o prestígio do ensino católico — mesmo em países onde seus fiéis constituem minoria, às vezes ínfima como no sul da Índia —, que um dos predicados requeridos de uma futura esposa é que tenha sido “educada em convento”. Quer dizer, que tenha aprendido não só boas maneiras, a costurar e lavar, mas, sobretudo, a cuidar da casa e da família. 


Colégio Des Oiseaux,
no bairro da Consolação da capital paulista
Infelizmente isso não se dá mais no Brasil, país de maioria católica, pela profunda decadência religiosa que também atinge o clero e religiosos, devido a uma “revolução progressista” na Igreja. Mas houve tempo, até a década de 60, em que a elite paulista procurava colégios como os do Sion ou Des Oiseaux [foto ao lado] para suas filhas, e os do São Bento, Carmo ou Santo Américo para seus filhos, pela boa qualidade dos mesmos . O que aconteceu com eles? 

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(*)Fonte: http://www.religionenlibertad.com/mas-26000-musulmanes-que-viven-gran-bretana-eligen-educarse-53513.htm

9 de junho de 2017

SANTOS FRANCISCO E JACINTA DE FÁTIMA

Os pastorinhos, pequenos na idade e gigantes na santidade, são os mais jovens santos não mártires canonizados pela Igreja 


Paulo Roberto Campos

Coincidindo com a celebração do 100º aniversário da primeira aparição da Santíssima Virgem aos três pastorinhos de Fátima, dois deles — Jacinta (falecida em odor de santidade aos 10 anos incompletos) e Francisco (aos 11 anos, também incompletos) — foram canonizados pelo Papa Francisco no dia 13 de maio último. Eles são considerados as crianças não mártires da mais tenra idade elevadas à honra dos altares. Fato inédito em toda a História da Igreja!

A grande cerimônia de canonização transcorreu na Cova da Iria, no mesmo lugar onde Nossa Senhora apareceu em 1917. Neste centenário, aproximadamente 500 mil peregrinos acorreram àquele local sagrado [foto acima] para rezar, agradecer as graças recebidas, suplicar por novas graças, e também para assistir à canonização de Jacinta e Francisco, que, juntamente com Lúcia, foram os confidentes da Santa Mãe de Deus nas aparições ocorridas de maio a outubro daquele ano.1
Assim, nesse último dia 13 de maio realizou-se uma das grandes expectativas da Irmã Lúcia [foto ao lado], ao escrever sobre “a mais íntima amiga da sua infância”, daquela que “deve, em parte, ter conservado a inocência”. Ela afirmou: “Tenho esperança de que o Senhor, para glória da Santíssima Virgem, lhe concederá [à Jacinta, mas vale também para o Francisco] a auréola da santidade. Ela era criança só nos anos. No demais sabia já praticar a virtude e mostrar a Deus e à Santíssima Virgem o seu amor, pela prática do sacrifício... É admirável como ela compreendeu o espírito de oração e sacrifício, que a Santíssima Virgem nos recomendou... Por estes e outros [fatos] sem conta, conservo dela grande estima de santidade”.2
 
Os pequenos videntes de Fátima nos fundos da casa Marto, em Aljustrel, no dia 13-9-1917


Ainda pequeninos, elevaram-se aos cumes da santidade

Creio que se pode sem receio afirmar que Jacinta e Francisco são as crianças mais famosas do mundo. O que nos faz lembrar a frase lapidar de Victor Hugo, de que “só há uma fama verdadeiramente imortal: é a dos santos da Santa Igreja Católica”.
Como poderiam esses pequeninos praticar grandes virtudes a ponto de serem elevados à honra dos altares? Como se sabe, para que uma pessoa seja declarada santa, há um processo — no passado, ainda muito mais rigoroso do que o é hoje em dia —, no qual se estuda minuciosamente toda a sua vida, a fim de certificar-se, sem qualquer sombra de dúvida, de que ela praticou em grau heroico as virtudes teologais (Fé, Esperança e Caridade) e as virtudes cardeais (Prudência, Justiça, Temperança e Fortaleza).
No dia 13 de maio de 1999, após esse processo, ambos os videntes foram reconhecidos pela Santa Sé como tendo praticado heroicamente tais virtudes, permitindo a sua veneração privada como santos. Para que essa veneração se tornasse pública, faziam-se necessárias a beatificação e a comprovação científica de um milagre.
O Postulador das Causas de Beatificação de Jacinta e Francisco, Padre Luis Kondor, SVD [foto ao lado], garantiu: “Durante seis meses de estudo dos relatórios [do processo de beatificação de Francisco e Jacinta], dezoito peritos da matéria debruçaram-se sobre a vida dos dois pequeninos e, com grande admiração pelas suas virtudes, deram o seu voto positivo, por escrito, à Congregação para a Causa dos Santos [...]. Termino repetindo a profecia de São Pio X: ‘Haverá santos entre as crianças!’. Acrescentando: ‘Haverá sim, haverá em breve!’”.3


Francisco: contemplativo e eremita-orante        

        
Menos expansivo que sua irmã Jacinta, Francisco foi mais chamado à contemplação e a ser algo como um pequeno eremita-orante para desagravar e consolar Nosso Senhor Jesus Cristo. Para isso, com frequência, isolava-se pelos campos da Cova da Iria. Certa vez, imaginando como seria Deus, disse: “Mas que pena estar Ele tão triste! Se eu O pudesse consolar!”
         Conservando a grafia original, passemos à transcrição de alguns episódios extraídos do esplêndido livro sobre Fátima (abaixo citado) do Pe. Luiz Gonzaga Ayres da Fonseca, Professor no Pontifício Instituto Bíblico de Roma. São pequenos episódios, mas que revelam a grandeza da virtude que, ainda meninos, os confidentes da Senhora de Fátima praticavam.
Numa ocasião, enquanto Lúcia e Jacinta brincavam, correndo atrás de borboletas, Francisco se isolou para rezar. Depois as duas meninas foram chamá-lo:
         “— Francisco, não queres vir merendar?
         — Não! Comam vocês.
         — E a rezar o terço?
         — A rezar, depois, vou. Tornem-me a chamar.
         — Mas que estás a fazer tanto tempo?
         — Estou a pensar em Deus, que está tão triste por causa de tantos pecados... Se eu fosse capaz de lhe dar alegria! (E passou o dia em jejum e oração). [...]
         — Francisco, tu de que gostas mais? [Perguntou Lúcia].
         — Gostava mais de consolar a Nosso Senhor. Não reparaste como Nossa Senhora ainda no último mês se pôs tão triste, quando disse que não ofendessem a Deus Nosso Senhor, que está muito ofendido? Eu queria consolar a Nosso Senhor, e depois converter os pecadores, para que não o ofendam mais”.4
Numa ida à escola em Fátima, Francisco disse a Lúcia: “Olha, tu vais à escola, que eu fico aqui na Igreja, junto com Jesus escondido. Não me vale a pena aprender; daqui a pouco vou para o Céu. Quando voltares, vem por aqui a chamar-me”.5


A Divina Providência pede o sacrifício supremo

        
No dia 28 de dezembro de 1918, Francisco e Jacinta adoeceram gravemente, atacados pela terrível epidemia bronco-pneumônica, que tantas vítimas fazia então por toda a Europa.
         Jacinta disse a seu irmão: “Não te esqueças de oferecer pelos pecadores”. Ao que Francisco respondeu:
         “Sim; mas primeiro ofereço para consolar a Nosso Senhor e a Nossa Senhora e depois então é que ofereço pelos pecadores e pelo Santo Padre”.
Já nas vésperas de morrer, disse a Lúcia:
“Olha, estou muito mal. Já me falta pouco para ir para o Céu.
— Então vê lá; não te esqueças de pedir lá muito pelos pecadores e pelo Santo Padre, por mim e pela Jacinta.
— Sim peço. Mas olha: essas coisas pede-as antes à Jacinta, que eu tenho medo de me esquecer, quando vir a Nosso Senhor; e depois antes o quero consolar”.6
         O processo canônico registra, segundo declaração do Pe. Manuel Marques Ferreira, que pouco antes do falecimento, Francisco recebeu a Sagrada Comunhão “com grande lucidez e piedade”.
         No dia 4 de abril de 1919, às 6 horas da manhã, ele disse à mãe: “Olhe, minha mãe, que luz tão bonita”. Instantes depois, o rosto de Francisco iluminou-se com um sorriso angélico, e ele, sem agonia, sem uma contração, sem um gemido, suavemente expirou em seu quarto.


Jacinta: inocência, firmeza de caráter e reparadora dos pecados

Pouco antes de ir para o hospital, Jacinta revelou a Lúcia:
“— A mim já me falta pouco para ir para o Céu. Tu ficas cá para dizeres que Deus quer estabelecer no mundo a devoção do Imaculado Coração de Maria. Quando fores para dizer isso, não te escondas! Dize a toda a gente que Deus nos concede as graças por meio do Coração Imaculado de Maria; que lhas peçam a Ela; que o Coração de Jesus quer que ao seu lado se venere o Coração Imaculado de Maria; que peçam a paz ao Coração Imaculado de Maria, que Deus lha entregou a Ela. [...] Se eu pudesse meter no coração de toda a gente o lume que tenho cá dentro do peito a queimar-me e a fazer-me gostar tanto do Coração de Jesus e do Coração de Maria! ... 7
         Por alguns ditos da pequena Jacinta podemos perceber a grandeza de sua alma, a magnificência de sua inocência, seu profundo amor a Deus. Ela confiou à sua prima Lúcia:
         “Penso em Nosso Senhor e em Nossa Senhora, ... nos pecadores e na guerra que há de vir... Há de morrer tanta gente e vai quase toda para o inferno! ... Hão de ser arrasadas muitas casas, e mortos muitos Padres... Que pena! Se deixassem de ofender a Nosso Senhor, a guerra não vinha, nem iam para o inferno! ... Olha: eu vou para o Céu, e tu quando vires de noite essa luz que a Senhora disse, foge para lá também”.
Como ocorre com pessoas que guardam a inocência, Jacinta gostava de meditar. E ela o confirmou: “Gosto muito de pensar”. Numa de suas meditações, a Virgem Santíssima apareceu-lhe, a fim de prepará-la para seu último Calvário. “Disse-me (Nossa Senhora) que vou para Lisboa, para outro hospital; que não te torno a ver nem a meus pais; que depois de sofrer muito, morro sozinha; mas que não tenha medo, porque me vai lá Ela buscar para o Céu”.8


Altíssimos pensamentos de uma criança inocente

Em seus últimos dias, Jacinta contou com o carinhoso acompanhamento da Madre Maria da Purificação Godinho — a quem chamava de “Madrinha”. Essa religiosa tomou notas de alguns ditos da pequena santa, cujos pensamentos eram superiores à sua idade de apenas 11 anos. Eis alguns deles:
         “Os pecados que levam mais almas para o inferno, são os pecados da carne”.
         “Hão de vir umas modas, que hão de ofender muito a Nosso Senhor. As pessoas que servem a Deus, não devem andar com a moda. A Igreja não tem modas. Nosso Senhor é sempre o mesmo”.
         “Os pecados do mundo são muito grandes. Nossa Senhora disse que no mundo há muitas guerras e discórdias. As guerras não são senão castigos pelos pecados do mundo”.
         “Se os homens soubessem o que é a eternidade, como haviam de fazer tudo para se emendarem!”.
         “Os médicos não têm luz para curar bem os doentes, porque não têm amor de Deus”.
         “Ai dos que perseguem a religião de Nosso Senhor! Se o Governo deixasse em paz a Igreja e desse liberdade à santa Religião, era abençoado por Deus. Minha Madrinha, peça muito pelos pecadores! Peça muito pelos Padres! Peça muito pelos Religiosos! Peça muito pelos Governos”.
         Sobre a frase que segue, a Madre Godinho afirmou que Jacinta refere-se a um “grande castigo de que em segredo me falou”:
         “É preciso fazer penitência. Se a gente se emendar, ainda Nosso Senhor valerá ao mundo; mas, se não se emendar, virá o castigo”.


“Mas quem foi que te ensinou tanta coisa?”

Certo dia, Jacinta disse à Madre Godinho [representação ao lado] “Eu ia com muito gosto para o convento; mas gosto mais ainda de ir para o Céu. Para ser religiosa é preciso ser muito pura na alma e no corpo”. Ao que a religiosa indagou-lhe: “E tu sabes o que é ser pura?”.
         “— Sei, sim. Ser pura no corpo é guardar castidade; e ser pura na alma é não fazer pecados: não olhar para o que não se deve ver, não roubar, não mentir nunca, dizer sempre a verdade ainda que nos custe”.
         A Madre, surpresa com o fato de uma simples criança dizer coisas tão sérias e profundas, perguntou:
         “— Mas quem foi que te ensinou tanta coisa?
         — Foi Nossa Senhora; mas algumas penso-as eu. Gosto muito de pensar”.9


Previsões próprias de quem alcançou elevada santidade

        
Pais de Jacinta e Francisco
Mas, além de pensamentos superiores à sua idade, Jacinta previu muitos acontecimentos. Eis algumas de suas previsões:
         Em certa ocasião, a mãe de Jacinta, Sra. Olímpia de Jesus, foi visitá-la no hospital e a Madre Godinho perguntou se não gostaria que as duas irmãs de Jacinta (Florinda e Teresa) se fizessem religiosas. Da. Olímpia [foto ao lado] respondeu: “Não! Deus a livrasse”.
Jacinta não ouvira a conversa; contudo, mais tarde, disse à Madrinha: “Nossa Senhora gostaria muito que minhas irmãs se fizessem freiras. Minha mãe não quer, mas por isso Nossa Senhora não tardará a levá-las para o Céu”. — De fato, as duas jovens morreram algum tempo depois.
Dois médicos que trataram de Jacinta com dedicação, receberam muitos sinais de agradecimento da pequenina. Um deles pediu-lhe que no Céu rogasse a Nossa Senhora por ele. Jacinta respondeu que sim, mas que o doutor pedisse também por ela. Depois, fitando-o, acrescentou: “Olhe que Vossemecê também vai, não tarda”.
A cena repetiu-se com outro médico, que se recomendava a si e a filha às orações da pequena enferma, que, fitando-o demoradamente, disse: “Vossemecê também vem; primeiro a sua filha, e depois o senhor doutor”.
De fato, ambas as profecias se realizaram.10
Noutra ocasião, Jacinta disse: “Olhe, Madrinha, eu já não me queixo [das terríveis dores]. Nossa Senhora apareceu-me, dizendo que em breve me viria buscar, e que me tirava já as dores”.
No dia 20 de fevereiro de 1920, pelas 6 horas da tarde, declarou que se sentia mal e pediu os últimos Sacramentos. Fez sua última confissão ao Pe. Pereira dos Reis. Às 10:30 da noite, a Mãe Santíssima cumpria a promessa feita 1917 e vinha buscá-la para o Céu: Jacinta expirava com suma paz. Tinha quase 10 anos.


Entusiasmo, graça e admiração ocasionados nos funerais

Escreve o Pe. Luiz Gonzaga Ayres da Fonseca: “O corpo, que tanto tinha penado ‘pela conversão dos pecadores’, foi amortalhado num vestido branco de primeira Comunhão, com cinto azul, como a Jacinta tinha desejado, e depositado nas dependências da sacristia da igreja dos Anjos, enquanto se tratava do transporte para a Fátima.
“Naqueles dias foi incrível o concurso de gente que o queria ver e beijar e tocar nele com seus objetos de devoção, apesar das diligências feitas pelo Revmº. Prior para o impedir. Muitos queriam levar relíquias, chegando umas estudantes a cortar-lhe parte do cabelo”.
Finalmente, foi incumbido de o guardar o Sr. Antonio Rebelo de Almeida, que escreve o seguinte em data de 11 de junho de 1934:
“Parece-me estar a ver o anjinho. Deitadinha no caixão, parecia viva, com os lábios e face cor-de-rosa, belíssima. Tenho visto muitos mortos, pequenos e grandes, mas uma coisa assim nunca me aconteceu. O cheiro agradável, que o corpo exalava, não se pode explicar naturalmente, diga-se o que se quiser. O maior incrédulo não poderia duvidar. Pense-se no cheiro que sai muitas vezes dos cadáveres, que só com grande repugnância se pode estar perto deles. Ora a pequena estava morta há três dias e meio e o seu cheiro era como de um ramalhete composto das mais variadas flores. O número dos visitantes, que desejavam ver a criança, era grandíssimo... Eu não deixava cortar relíquias; neste ponto fui irremovível. Quando a gente chegava diante do caixão, era um entusiasmo, uma admiração, uma loucura”.
O perfume foi perfeitamente sentido até o fechamento do caixão de chumbo. Coisa tanto mais notável visto o caráter da doença e o muito tempo que permaneceu insepulto. Registrou o Dr. Eurico Lisboa:
Transladação do corpo incorrupto
de Jacinta em 1935
“No dia 24 de fevereiro, às 11 da manhã, o caixão foi fechado, e à tarde, com grande acompanhamento, levado à estação do Rossio, a fim de ser trasladado para a Fátima. Para evitar possíveis profanações da parte dos anticlericais, ele foi provisoriamente depositado no sepulcro de família do Barão de Alvaiázere, em Vila Nova de Ourém. Desde aquele momento desapareceu daquela família a tuberculose, que já tinha vitimado quatro irmãos do Barão e ameaçava fazer mais vítimas. Mais ainda: a fortuna da casa, que estava perdida, pôde ser rapidamente recuperada em boa parte, de certo, como o Barão confessa, por especial proteção do seu ‘Anjo tutelar’.
“No dia 12 de setembro de 1935 fez-se a trasladação do corpo para o cemitério da Fátima [...]. Nesta ocasião, por um pequeno corte feito no caixão de zinco do lado correspondente à cabeça, pôde verificar-se que esta se conserva incorrupta [foto acima], e provavelmente no mesmo estado se encontra o corpo. Ter-lhe-á a Providência reservado o privilégio concedido aos restos mortais da santa vidente de Lourdes?
“No jazigo mandou o Sr. Bispo de Leiria gravar este epitáfio, tão expressivo na sua clássica singeleza:

AQUI REPOUSAM OS RESTOS MORTAIS
DE FRANCISCO E JACINTA
A QUEM NOSSA SENHORA APARECEU. 11




Portugal, palco do primeiro milagre inequívoco

         Para que alguém seja canonizado, há também necessidade da comprovação inequívoca de dois milagres operados por sua intercessão. O primeiro milagre possibilitou a beatificação de Jacinta e Francisco no ano de 2000. Assim, o processo de canonização seguiu seu curso. A Congregação para a Causa dos Santos reconheceu a cura miraculosa de uma senhora portuguesa, nascida em Leiria no ano de 1930, Da. Maria Emília dos Santos. Em 1989, pela intercessão de Jacinta e Francisco, ela se recuperou de uma grave deficiência física e voltou a andar, após permanecer paralítica durante 22 anos, sem conseguir sequer levantar-se da cama.
Da. Emília, após uma novena aos dois pastorinhos, de sua cama, indagou a Jacinta se seria curada e ouviu uma voz: “Senta-te, porque podes”. Começou então a sentir que o sangue começava a circular pelas veias das pernas. Sentiu-se curada e sentou-se na cama. No momento — altas horas da noite — houve um grande alvoroço em sua casa devido àquela cura repentina. Os médicos peritos do processo consideraram que o fato não apresentou explicação natural.


Brasil, palco do segundo extraordinário milagre

Por um especial desígnio da Providência Divina, o segundo milagre teve como palco o Brasil. Antes de narrá-lo, recordo de passagem outro desígnio providencial que também vincula o Brasil a Fátima: a imagem de Nossa Senhora que se venera na Cova da Iria, no mesmíssimo local em que Ela apareceu em 1917, foi esculpida em cedro brasileiro, assim como as outras quatro imagens peregrinas. Também de passagem, nunca é demais relembrar que Nossa Senhora falou em nossa língua...
        
E vamos ao segundo milagre. Por intercessão dos dois pastorinhos de Fátima, o menino Lucas de Oliveira [foto ao lado], da cidade paranaense de Juranda, foi salvo milagrosamente. Contando com apenas cinco anos — conforme documentam seus pais, João Batista Pereira de Oliveira e Lucila Yuri —, Lucas caiu de uma janela, de uma altura de quase sete metros, enquanto brincava com sua irmã no dia 3 de março de 2013. O menino “bateu com a cabeça no chão, o que provocou um traumatismo craniano grave, com perda de tecido cerebral no lóbulo frontal esquerdo”. Levado ao hospital de Campo Mourão, chegou “em estado de coma muito grave. Ele teve duas paradas cardíacas”.
Lucas foi submetido a uma cirurgia de emergência. Os médicos disseram que suas possiblidades de sobrevivência eram baixas e, se não morresse, ficaria em estado vegetativo. Muito devotos de Nossa Senhora de Fátima, os pais pediram a Ela, bem como a Francisco e Jacinta, que intercedessem pelo filho.
         Como os dias corriam e o menino piorava, o pai pediu a uma freira carmelita orações dela e do Carmelo de Campo Mourão. Após um contratempo inicial, uma das carmelitas foi rezar junto às relíquias de Francisco e Jacinta que estavam diante do tabernáculo. Ela lhes suplicou: “Pastores, salvai este menino, que é um menino como vós”. Depois, todas as freiras daquele Carmelo também rezaram para que os pastores intercedessem por Lucas.
Afirmou o Sr. João Batista: “Assim fizeram, da mesma forma como todos nós, na família, que começamos a rezar aos Pastorinhos. E, dois dias depois, no dia 9 de março, o Lucas foi desentubado e acordou bem, lúcido, e começou a falar, perguntando pela sua irmãzinha. No dia 11 de março saiu da UTI e, no dia 15, ele teve alta [...]. Está completamente bem, e não tem nenhum sintoma ou sequela [...] O que Lucas era antes do acidente, o é também agora: tem a mesma inteligência, o mesmo caráter, é todo o mesmo”. Os médicos comprovaram que não havia nenhuma explicação científica para tal recuperação.12
Ambos os milagres — as curas de Da. Emília e do Lucas — foram operados por orações dirigidas conjuntamente aos dois santos aljustrelenses videntes de Fátima, e não de modo separado a cada um deles. Fato de especial beleza, pois eles viveram muito unidos, eram inteiramente consagrados à Santíssima Virgem e fiéis aos pedidos feitos por Ela nas aparições.
 
Torre da Basílica de Fátima no dia da canonização (13-5-17) de São Francisco e Santa Jacinta Marto


No Céu, dois novos embaixadores junto a Nossa Senhora

Com a recente canonização, a Santa Igreja apresenta ao mundo inteiro dois grandes intercessores para nós. É momento muito apropriado para que todos os pais coloquem seus filhos sob a proteção de Francisco e Jacinta. Que os pais narrem a seus pequenos as admiráveis vidas desses novos santos, rezem o terço em família, suplicando a eles que protejam seus lares contra a desagregação da instituição familiar, atacada por tantos fatores de corrupção moral disseminados através da internet, da televisão, das modas imorais, da disseminação das drogas, das leis que favorecem o divórcio, o aborto, o pseudo-casamento homossexual, a ideologia de gênero. Enfim, de tantos outros erros da doutrina comunista espalhados por todo o universo.
Jacinta e Francisco são santos porque foram inteiramente fiéis às advertências e promessas feitas por Nossa Senhora em Fátima. O mundo atual está sendo fiel a Ela? — Muito pelo contrário, os homens não se converteram e têm desprezado aquelas advertências e promessas. Logo, é de se temer que esteja próximo o severo castigo anunciado há um século.
Os dois pequenos grandes santos de Fátima são modelos para nós, pois compreenderam a gravidade e a malícia do pecado, tiveram horror a qualquer forma de ofensa a Deus, entendendo, apesar de sua pouca idade, como a vida pecaminosa leva ao inferno. As vidas de Jacinta e Francisco são para nós um contínuo convite à conversão, a nos preparar para a justa punição divina. Esta será ao mesmo tempo misericordiosa — porque redentora do presente estado de abominação e de perdição das almas — e nos tornará sedentos da vinda o quanto antes, para todos os povos, do Reinado do Imaculado Coração de Maria previsto em 1917.
Neste sentido, encerro com palavras de Plinio Corrêa de Oliveira, numa conferência em 13 de outubro de 1971:
“Francisco e Jacinta são os intercessores naturais para se obter de Nossa Senhora que venha logo o Reino de Maria. [...] Que os meninos de Fátima comecem a nos transformar, dando-nos os dons que eles receberam, que eles velem especialmente sobre aqueles que têm a missão de pregar a Mensagem de Fátima”.

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Notas:
(*) Fonte: Matéria publicada na Revista Catolicismo, Nº 798, junho/2017.
1. Lúcia de Jesus, nascera em 22 de março de 1907, última de seis filhos de Antonio dos Santos e Maria Rosa dos Santos. Os dois primos dela, Francisco e Jacinta, nascidos o primeiro a 11 de junho de 1908 e a segunda a 11 de março de 1910, eram também os mais novinhos dos onze filhos que teve a Sra. Olímpia de Jesus: dois do primeiro matrimônio com José Fernandes Rosa, e nove do segundo com Manuel Pedro Marto. Quanta vez os últimos filhos de numerosa família cristã são para ela a melhor bênção! (Cfr. Pe. Luiz Gonzaga Ayres da Fonseca, S.J., Nossa Senhora da Fátima, Aparições, Culto, Milagres, Livraria Apostolado da Imprensa, Porto, 1947, 2ª edição, p. 144.
2. Pe. Luiz Gonzaga Ayres da Fonseca, p. 11.
3. Cfr. Pe. Luís Kondor, Vice-Postulador das Causas, Haverá santos entre as crianças... em breve, “L’Osservatore Romano”, edição em português, 6 de março de 1999.
4. Pe. Luiz Gonzaga Ayres da Fonseca, S.J., Nossa Senhora da Fátima, Aparições, Culto, Milagres, Livraria Apostolado da Imprensa, Porto, 1947, 2ª edição, p. 167-168.
5. Id., Ib. p. 181.
6. Id., Ib. p. 201.
7. Id., Ib. pp. 188-189.
8. Id., Ib. pp. 211-212.
9. Id., Ib. pp. 217-219.
10. Id., Ib. pp. 220-221.
11. Id., Ib. pp. 225-228.

12. http://www.carifilii.es/2017/05/11/los-medicos-decian-que-moriria-o-quedaria-vegetal-pero-poco-despues-corria-asi-fue-el-milagro-de-los-dos-pastorcitos/

5 de junho de 2017

Quem são as crianças luminescentes?



James Donlon (*) 

Um leitor poderia franzir estupefato o semblante ao ler o título desse livro e perguntar: “Que espécie de criança ‘luminescente’ é essa?”. Não se assuste, pois quem escreve este pequeno artigo fez-se a mesma pergunta quando um amigo lhe recomendou o livro Crianças luminescentes: como a tela vicia e sequestra nossas crianças — e como romper o transe [capa abaixo]. Após a leitura das primeiras páginas, o leitor percebe que o termo "menino luminescente" é habilidoso, embora inquietante.

O Dr. Nicolas Kardaras cunhou o termo para se referir à cena que vemos por toda parte: crianças fascinadas pela luminescência de pequenas telas azuladas. Seus dedinhos agarram aparelhos luminescentes que monopolizam sua atenção. O problema, onde está? 

O livro trata do efeito causado nas crianças pelo uso descontrolado do smartphone. O desenvolvimento das funções cerebrais, o convívio social e da própria personalidade são afetados. Exemplos e provas mostram que a tecnologia visual moderna não é uma panaceia. Videogames em excesso têm efeito destrutivo na mente e causam dependência à semelhança das drogas, dificultam a atenção e a concentração da mente. A moda escolar crescente de adotar essa tecnologia nas aulas também contribui para esse efeito nocivo. 

O Dr. Kardaras aduz exemplos pessoais, tirados de sua vida profissional, ao fazer tratamento de viciados em drogas. O problema das tecnologias visuais modernas é inteiramente semelhante. Certa vez o Dr. Kardaras teve de convencer um menino de que ele não era um dos personagens de seus videogames preferidos. Esse paciente perdia o sono, caía em estado de psicose tecnológica, de tal modo estava viciado. Seu caso foi decisivo para levar o Dr. Kardaras a enfrentar o problema com maior afinco. 


Ele não apresenta apenas casos diagnosticados, mas também tratamentos diversos para superar o vício tecnológico, com soluções que vão desde a "abstenção" até o uso moderado das tecnologias modernas. O Dr. Kardaras utiliza bom senso e lógica para resolver os problemas. Seus métodos são confirmados: ele trabalha num centro de recuperação de viciados em drogas, em Nova York. Muitos de seus métodos para curar o vício tecnológico são os mesmos utilizados para recuperar drogados. Suas soluções são sérias e efetivas.  

O leitor que conhece o problema, hoje tão sério e crescente, do vício tecnológico, deveria ler Crianças luminescentes. O assunto abrirá seus olhos. Esse livro é mais importante ainda para os pais e professores, que verão mais claramente o perigo, e também como utilizar corretamente essas tecnologias modernas no lar e na escola.

(*) James Donlon is a graduate of the St. Louis de Montfort Academy and a full-time volunteer for the American Society for the Defense of Tradition, Family, and Property (TFP).
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Senhores pais: para se evitar tão grave problema mental em seus pequeninos (o mencionado "vício tecnológico" -- uma espécie de droga cibernética que poderá tornar seus filhos dependentes), este Blog da Família aconselha acostumá-los desde a mais tenra infância ao gosto pela leitura e pela conversa em família. Creio que a foto abaixo bem expressa nosso conselho. 

O bebê parece encantadíssimo com o que sua mãe fala e mostra nos desenhos do livro infantil. Ela poderá repetir a mesma historinha 100 vezes e ele continuará maravilhado com a voz de sua mãe, e pouco-a-pouco vai compreendendo, formando sua mentalidade e desenvolvendo sua inteligência. 

Imaginem o contrário: a mãe, em vez de estar contando historinhas para seu filhinho, estivesse conferindo seu smartphone, postando coisas no seu facebook e, para que o pequenino não a incomodasse, colocasse em suas mãozinhas um tablet... As consequências em sua formação espiritual, psicológica e intelectual poderiam ser bem desastrosas...