22 de outubro de 2026

O Homem da Cruz que deteve a marcha do neopaganismo renascentista

 

Artigo baseado sobretudo em seis conferências de Plinio Corrêa de Oliveira, proferi das para sócios e cooperadores da TFP em 04-10-1965, 04-10-1966, 29-06-1970, 04-10-1971, 16-11-1972 e 06-07-1985.

Oito séculos depois de sua morte, a figura de São Francisco de Assis continua a interpelar um mundo que, mais do que nunca, precisa reaprender a amar a Cruz, a verdade, a pureza, e a se livrar do orgulho e da sensualidade. Este artigo é um convite a considerar o fundador da Ordem dos Franciscanos à luz de alguns aspectos extraídos de seis conferências de Plinio Corrêa de Oliveira.*

✅ Paulo Roberto Campos


N
o dia 3 de outubro de 1226, há exatamente 800 anos, expirava aos 44 anos o grande santo, também conhecido como o Poverello de Assis, batizado como Giovanni di Pietro di Bernardone. Morria aquele que a Igreja haveria de venerar como um dos seus maiores santos e uma de suas maiores glórias em todos os tempos, cuja figura atravessaria os séculos com uma força impressionante.

É difícil imaginar personalidade mais facilmente deformável. Para alguns, São Francisco é apenas o santo dos passarinhos, da natureza — como se fosse um “ecologista” ou “ambientalita” — e de uma vaga fraternidade universal. Para outros, é o apóstolo de uma pobreza meramente social. Não faltam ainda os que o apresentam como uma figura doce, sentimental, quase ingênua, desprovida daquela energia sobrenatural que caracteriza o seráfico santo fundador da Ordem dos Frades Menores (os Franciscanos).

A visão de São Francisco exposta por Plinio Corrêa de Oliveira em suas conferências é profundamente diversa.

Nela aparece um homem de extraordinária firmeza, contemplativo e sereno, mas sem qualquer moleza; puro, temperante e vigoroso; uma alma de grande força de vontade, capaz de contemplar um ideal e entregar-se a ele resolutamente.



O verdadeiro segredo da grandeza do Poverello

Em 1223, São Francisco visitou o Mosteiro de Subiaco, na Itália, berço da Ordem Beneditina. Nele um artista anônimo pintou um afresco do visitante [foto]. A célebre obra é uma das mais antigas representações de São Francisco, pintada ainda durante sua vida, é um verdadeiro retrato. O Prof. Plinio observa no afresco precisamente essa combinação de calma e decisão, de contemplação e energia, “fisionomia de uma pureza impressionante! Um homem casto por excelência, temperante e vigoroso. Compreende-se que ele gostasse de ler para os seus noviços as histórias de Cavalaria. Antes de ser franciscano ele pensou em ser cavaleiro”.

Essa observação nos ajuda a corrigir a caricatura sentimental, que apresenta São Francisco como um homem hesitante ou adocicado. Mas de alguém que contempla, raciocina, deseja e decide firmemente. A pureza aparece associada à temperança e à intransigência. Há aí uma verdadeira lição do modo de ser católico. A santidade não amolece o homem; torna-o mais plenamente homem. A graça não destrói a natureza: aperfeiçoa-a.

Por que este comentário é importante? — Porque São Francisco não foi um homem fraco que abandonou o mundo por incapacidade de enfrentá-lo. Foi o contrário: uma alma forte que, tendo compreendido uma vocação, teve a coragem de romper com tudo quanto pudesse constituir obstáculo à sua realização. E é justamente aí que começa o verdadeiro segredo de sua grandeza.

Altar principal da Igreja de S. Francisco de Assim de Salvador (BA) [Foto PRC]


Livro no qual São Francisco aprendeu a viver

Há um comentário de Dom Guéranger — citado por Plinio Corrêa de Oliveira em uma de suas conferências para sócios e cooperadores da TFP — que talvez contenha uma das mais importantes chaves para se compreender o santo franciscano: “A Cruz é o grande livro no qual se formou a alma de Francisco. Desde a hora em que o Cristo da Igreja do Damião lhe falou, ele não quis pensar a não ser na Paixão de Jesus.”

Jesus, por meio do crucifixo daquela igreja, disse a São Francisco: “Vai restaurar minha Igreja, que está em ruínas.” Desde aquele momento, ele teria compreendido que sua vida deveria ser orientada inteiramente pela Paixão de Nosso Redentor. A Cruz não foi para ele um símbolo entre muitos outros. Foi o centro em torno do qual se organizou toda a sua existência. De tal modo desejou servir exclusivamente o Divino Crucificado que ficou marcado com os estigmas d’Ele, e até mesmo adquiriu certa semelhança física com Ele.

São Boaventura, o grande filho da Ordem Franciscana, vê nesse mistério da Cruz um tesouro no qual estão encerrados os tesouros da sabedoria e da ciência. E o Prof. Plinio comenta, recordando a observação de Dom Guéranger segundo a qual toda a vida de Francisco foi uma espécie de seguimento das pegadas da Cruz: ele contemplou a Cruz, amou o sofrimento da Cruz e pregou as glórias da Cruz. Isso ajuda a compreender também o verdadeiro sentido da pobreza franciscana.

Não se tratava simplesmente de possuir pouco. A pobreza era consequência de um amor a Nosso Senhor enquanto humilhado e crucificado. São Francisco queria conformar-se a Ele e estabelecer um vínculo integral. Por isso a Cruz e a pobreza estão intimamente relacionadas.

Quem contempla seriamente a Cruz percebe a relatividade de todas as coisas terrenas. O dinheiro, o conforto, o prestígio, o prazer, o êxito. Tudo isso deixa de ocupar o primeiro lugar; a alma passa a desejar aquilo que não é transitório.

Foi assim que Francisco se tornou, conforme comentou o Prof. Plinio, aquele que afervorou a Cristandade pelo espírito sobrenatural, pelo amor à Cruz e pelo menosprezo do dinheiro.

São Francisco renuncia aos bens materiais — Giotto di Bondone (1266–1337). Afresco na Basílica Superior de São Francisco de Assis


O drama diante de Pedro Bernardone

Um dos episódios mais impressionantes da vida de Francisco é a ruptura com o pai.

O Poverello pertencia a uma família de comerciantes abastados de Assis. Seu pai, Pedro di Bernardone dei Moriconi, era homem próspero, e a sociedade na qual o filho crescera valorizava intensamente a riqueza, o conforto e o sucesso.

O Prof. Plinio chama a atenção para esse contexto ao analisar o famoso quadro de Giotto [foto acima], representando o momento em que Francisco renuncia a tudo, até mesmo às roupas e aos bens paternos. A cena é carregada de significado: de um lado, o bispo e o clero; de outro, Pedro Bernardone e os homens ligados ao mundo do comércio e do dinheiro. No centro, Francisco, já decidido a abandonar tudo para seguir sua vocação, segundo o ensinamento de Jesus Cristo: “Se alguém quer vir após mim, renegue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me” (Lc 9,23).

Na pintura, Giotto revelou algo mais profundo que um simples conflito familiar. De um lado está a Igreja; de outro, o espírito do dinheiro. De um lado, a entrega; de outro, a posse. De um lado, a procura de Deus; de outro, a tendência a fazer dos bens terrenos a finalidade da existência. Gesto de quem rompe com uma determinada concepção da vida.

Ele não despreza simplesmente seu pai. Não despreza a riqueza enquanto tal. O que rejeita é a escravidão da alma aos bens terrenos. A verdadeira questão é: quem é o senhor do homem? O dinheiro ou Deus? — Francisco responde com sua própria vida.

E é precisamente por isso que sua mensagem conserva uma atualidade extraordinária. O mundo contemporâneo multiplicou os bens materiais em proporções inimagináveis para o século XIII, mas nem por isso se tornou mais feliz. Ao contrário: a obsessão pelo possuir, pelo consumir e pelo aparecer tornou-se uma das grandes escravidões do homem.

Então reaparece São Francisco como uma figura de oposição. Ele não pregava a miséria, mas recordava uma verdade elementar: nenhum bem criado pode ocupar o lugar de Deus.

Santo que não era sentimental

Para não haver nenhuma desfiguração de São Francisco, talvez seja necessário insistir nesse ponto. Ele era doce porque era forte; era afável porque era puro; era humilde porque possuía uma grandeza interior extraordinária; era capaz de falar com os animais, contemplar uma flor e louvar a Deus pela criação; mas era igualmente capaz de atravessar as linhas de um exército inimigo para falar pessoalmente com o sultão aiúbida do Egito, Al-Kamil — que comentaremos mais abaixo.

Essa conjunção de suavidade e fortaleza é uma das características mais fascinantes de sua personalidade; a energia natural colocada inteiramente a serviço de uma vocação sobrenatural.

Imagens de S. Francisco de Assim e S. Domingos de Gusmão no Mosteiro da Batalha (ou de Santa Maria da Vitória) na cidade de Batalha, Portugal [Foto PRC]


Francisco e Domingos: duas chamas que se completam

A Providência não suscitou São Francisco isoladamente. Na mesma época surgiu São Domingos de Gusmão. E o Prof. Plinio dá grande importância à relação entre os dois santos.

Ambos receberam sinais sobrenaturais relativos à missão um do outro e, finalmente, se encontraram. Frei Ângelo, um grande pregador, teria visto nos dois santos “duas poderosas colunas da Igreja”.

O interessante para o conferencista, fundador da TFP brasileira, é que os dois santos eram profundamente semelhantes e profundamente diferentes. Semelhantes porque ambos eram homens de Deus, profundamente mariais, chamados a lutar pela salvação das almas. Diferentes porque suas vocações tinham aspectos diversos. São Francisco era especialmente associado à pobreza, à Paixão de Nosso Senhor, à humildade, à pureza e à devoção à Imaculada Conceição. São Domingos, por sua vez, aparece ligado de modo especial à pregação, ao estudo, à teologia e ao Santo Rosário. Assim, duas vocações diferentes não se contradiziam, mas completavam-se.

É uma concepção extremamente rica da ação da Igreja. A unidade católica não exige uniformidade. Duas almas podem ser santas precisamente porque são diferentes, desde que suas diferenças se ordenem para a mesma verdade e para a mesma finalidade.

Francisco incendeia a vontade; Domingos ilumina a inteligência. Um conduz especialmente pelo amor à Cruz e pela transformação das tendências; o outro pela doutrina, pela pregação e pelo esclarecimento da inteligência. Ambos combatendo pela mesma Igreja.

“Ação contra-revolucionária preventiva”

Aqui encontramos talvez o aspecto mais característico da interpretação de Plinio Corrêa de Oliveira, para quem Francisco não foi apenas um santo que santificou indivíduos. Sua ação teve uma dimensão histórica muito mais ampla.

O conferencista fala de uma “ação contra-revolucionária preventiva”. Segundo essa interpretação, a Cristandade do século XIII começava a apresentar sinais de deterioração. O orgulho e a sensualidade começavam a dominar. A riqueza ameaçava transformar-se de instrumento em finalidade. Preparava-se, lentamente, uma mudança de mentalidade que mais tarde encontraria expressões no Humanismo e na Renascença. Foi precisamente nesse momento que a Providência suscitou São Francisco de Assis.

A ação de Francisco teria incidido especialmente sobre as tendências: contra o orgulho, a humildade; contra a sensualidade, a pureza; contra o apego aos bens terrenos, a austeridade; contra o esquecimento da Paixão, a devoção à Cruz, à Via-Sacra e às Sagradas Chagas de Nosso Senhor.

É nesse sentido que o Prof. Plinio emprega a expressão “ação contra-revolucionária preventiva”: uma santidade que, antes mesmo de combater frontalmente todos os erros doutrinários que apareceriam mais tarde, procura impedir que eles encontrem terreno psicológico favorável.

A Revolução, nessa perspectiva, começa nas almas antes de aparecer nas instituições. Começa quando o homem passa a amar desordenadamente aquilo que deveria usar apenas como meio. Começa quando o prazer se torna mais importante que a pureza; quando o orgulho substitui a humildade; quando o homem deixa de olhar para Deus e passa a olhar exclusivamente para si.

Por isso, a resposta de São Francisco é tão profunda: ele reforma interiormente o homem.

São Francisco diante do sultão Al-Kamil na prova do fogo — Domenico Ghirlandaio (1448–1494). Afresco na Capela Sassetti (Igreja da Santa Trindade, Florença, Itália).


Encontro com o poderoso sultão

Há o episódio, mencionado acima e já narrado no artigo precedente, que mostra de maneira magnífica a conjugação entre doçura e fortaleza: o encontro de São Francisco com o sultão do Egito durante a Quinta Cruzada.

O Prof. Plinio descreve a cena como uma das grandes antíteses da História: de um lado, o soberano cercado de luxo, poder, riquezas e prazeres; de outro, um homem que havia renunciado a tudo e cuja felicidade estava precisamente naquilo que o sultão não possuía. Um encontro entre dois mundos.

O sultão tem tudo e não possui a verdadeira felicidade. Francisco quase nada possui e irradia paz. O primeiro está cercado de riquezas; o segundo, aparentemente pobre, está riquíssimo interiormente. É aqui que se compreende a força do diálogo quando verdadeiramente católico.

Francisco não vai ao sultão para adulá-lo, nem para esconder a verdade, nem para ceder, transformando o Evangelho numa mensagem indistinta de fraternidade humana. Vai para convertê-lo. E, ao mesmo tempo, vai com uma bondade tão desinteressada que essa bondade se torna um argumento.

Segundo o relato utilizado pelo conferencista, o sultão ficou profundamente impressionado com Francisco e chegou a pedir-lhe que rezasse para que Deus lhe revelasse a verdadeira fé. Francisco possuía a força da verdade e da santidade.

Coragem de realizar uma vocação

Em outra conferência, o Prof. Plinio apresenta uma passagem particularmente adequada para este oitavo centenário de São Francisco. Este, vendo seus primeiros companheiros ainda poucos e talvez desanimados, teria lhes dito para não temerem. Ele havia contemplado uma grande multidão de homens de diversas nações que haveriam de seguir o mesmo caminho. A Ordem Franciscana se expandiu pelo mundo inteiro.

Mas o conferencista chama atenção para algo ainda mais importante do que a própria visão: o raciocínio que a acompanha. Se Deus chama uma pessoa ou uma pequena comunidade para determinada missão, não a chama inutilmente. A vocação traz consigo as graças necessárias para sua realização. Lição extraordinária para todas as épocas!

A eficácia da obra de Deus não se mede pelo número de seus servidores. A Igreja começou com apenas 12 Apóstolos… São Francisco começou com poucos companheiros. O que importa não é a aparência humana da força, mas a correspondência à graça. Por isso, a verdadeira coragem do católico não consiste em acreditar que tudo será fácil. Consiste em permanecer fiel mesmo quando tudo parece difícil.

São Francisco não prometeu aos seus irmãos que seriam admirados por todos. Pelo contrário, advertiu-os de que seriam ridicularizados, desprezados e combatidos. A confiança não estava na aprovação do mundo, mas na certeza de que Deus não abandona uma vocação que Ele próprio suscitou.

Morte de São Francisco de Assis — Bartolomeo Carducci (1560–1608). Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa


O que São Francisco nos diz oito séculos depois

O mundo mudou profundamente desde 1226. Mas algumas tentações humanas não mudaram. O orgulho e a sensualidade dominam. O orgulho continua sendo orgulho. A sensualidade continua sendo sensualidade. O apego ao dinheiro continua escravizando. A busca desenfreada do prazer continua deixando a alma vazia. E a tendência de colocar o homem no lugar de Deus continua sendo a raiz de muitas crises que hoje presenciamos.

Por isso São Francisco de Assis continua atual. Não porque devamos simplesmente reproduzir exteriormente a vida do século XIII, mas porque precisamos reencontrar o espírito que o movia. Ele nos ensina que é possível possuir bens sem ser possuído por eles. Que é possível ser doce sem ser fraco; ser humilde sem ser servil.

O Fundador franciscano ensina também que é possível ser contemplativo sem ser inerte; que é possível amar a criação precisamente porque se ama mais o Criador. Sobretudo nos ensina que não há santidade verdadeira sem a Cruz.

O legado de São Francisco de Assis

Oitocentos anos após sua morte, talvez seja necessário retirar São Francisco das imagens sentimentais nas quais tantas vezes foi desfiguradamente encerrado em tantas igrejas progressistas.

Ele não foi apenas o homem que conversava com os pássaros. Foi o homem que conversava com o próprio Deus. Não foi apenas o santo da natureza. Foi o santo que, contemplando a natureza, se elevava fazendo transcendências das criaturas ao Criador.

Não foi simplesmente o santo que “desposou a dama pobreza". Foi o santo que, pela pobreza, proclamou a soberania de Cristo Rei sobre todas as coisas. Não foi simplesmente o santo da bondade. Foi o santo que amou os homens a ponto de desejar para eles o maior dos bens: a posse da verdade e a salvação eterna. Ele não foi apenas um homem da época medieval. Foi uma dessas figuras providenciais cuja influência ultrapassa largamente o seu tempo.

Na interpretação de Plinio Corrêa de Oliveira, sua missão consistiu precisamente em reacender na Cristandade aquilo que começava a se apagar: o espírito sobrenatural, o amor à Cruz, a pureza, a humildade, a austeridade, a devoção à Imaculada Conceição e o desapego dos bens terrenos. Por essa ação, ele teria contribuído para retardar o avanço de tendências que posteriormente desembocariam no neopaganismo renascentista.

Talvez seja essa a grande mensagem deste oitavo centenário: em épocas de crise, Deus não abandona a humanidade, mas suscita santos. Assim, suscitou São Francisco quando a Cristandade precisava reaprender a amar a pobreza. Suscitou São Domingos quando era necessário reacender o amor à doutrina católica.

E São Francisco mostrou que uma alma inteiramente entregue a Deus pode exercer uma influência incomparavelmente maior do que faria supor sua fragilidade humana. Por isso, ao recordar sua morte em 3 de outubro de 1226 — aliás, no mesmo dia e mês em que, em 1995, faleceu o autor das conferências aqui comentadas —, não devemos olhar apenas para o passado. Devemos pedir-lhe que nos ensine a mesma lição que ensinou aos seus primeiros companheiros: não temer quando somos poucos, não desanimar quando somos desprezados, não negociar a verdade por vantagens secundárias e, sobretudo, confiar na graça quando Deus nos chama a uma missão.

A grandeza de São Francisco consiste em mostrar que um homem que é plenamente de Deus pode transformar uma época inteira. O Poverello de Assis morreu há oito séculos, mas o livro no qual aprendeu a viver — a Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo — continua aberto. E talvez seja justamente hoje, quando tantas almas precisam novamente aprender a lê-lo, que São Francisco tenha ainda uma palavra decisiva a dizer a toda a Cristandade.

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* Artigo baseado sobretudo em seis conferências de Plinio Corrêa de Oliveira, proferidas para sócios e cooperadores da TFP em 04-10-65, 04-10-66, 29-06-70, 04-10-71, 16-11-72 e em 06-07-85.

15 de outubro de 2026

MARIA ANTONIETA NA PRISÃO

A Rainha Maria Antonieta prisioneira na Conciergerie – Charles Louis Lucien Müller (1815-1892). Museu Hamburger Kunsthalle, Hamburgo (Alemanha).


A arte romântica, quando procura impressionar emotivamente, dificulta um juízo bem raciocinado


  ✅  Plinio Corrêa de Oliveira

O pintor deu a este quadro um aspecto do romantismo — muito expressivo e característico do século XIX — a fim de causar uma impressão de caráter emotivo profundo a respeito da aflição de Maria Antonieta (*2 de novembro de 1755 +16 de outubro de 1793) e do quanto ela foi grande na sua queda. 

A Rainha da França foi destronada e aparece no cárcere, mas não diminuiu em nada sua estatura moral, pelo contrário, até cresceu. Para marcar essa ideia da queda, notem o biombo atrás da Rainha: insinua que ela não tem sequer liberdade de estar sozinha, reduzida a estar só apenas um pouquinho, enquanto os carcereiros deixarem de vigiar. Estes debocham dela, dão gargalhadas e jogam cartas. 

A cadeira de palhinha, a mesa, e apenas pão e água como alimento, talvez uma sopa ordinária, é o que pode haver de mais trágico. Mas no meio de toda essa tragédia, ela demonstra muita dignidade, calma e, mesmo vestida de farrapos, certa majestade. 

O quadro causa impressões que devem determinar uma compaixão emocional. A pessoa que se habitue a esse gênero de arte romântica fica impressionada ou incapaz de fazer um juízo pelo mero raciocínio. 

O artista expressa muito bem a escola romântica no claro-obscuro das sombras, independente da luz que entra por uma janela, mas tudo meio na penumbra. É o sol de cárcere que entra, mas mesmo assim o ambiente permanece horroroso. 

Os pormenores do quadro foram muito bem estudados para produzir um efeito sensível tão forte, que o esforço da razão para formar um juízo sobre essa situação parece inútil, porque é intuitiva. E, em segundo lugar, parece tediosa, porque em comparação com a fruição dessa sensação o raciocínio fica árduo. 

Raciocinar de modo calmo e desapaixonado é o que repugna à geração atual. Já repugnava ao romântico, pois para ele qualquer conclusão do raciocínio não vale a detonação emocional que se deve procurar. 

O quadro, segundo a escola romântica, cria muita compaixão pelo caso pessoal e desperta certa prevenção contra a Revolução de 1789, mas não leva à conclusão de que teria sido melhor não mexer na monarquia. 



Não sei se concordam comigo que, para uma pessoa que tem o hábito de fazer análises como essa, na linha de “Ambientes e Costumes”, a vida é muito mais interessante. Ademais, o fato de não se fazer análises raciocinadas e ficar só no sentimento, atrofia a inteligência.
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Excertos da gravação de uma conversa com o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 30 de setembro de 1994. Esta transcrição não passou pela revisão do autor.

13 de outubro de 2026

VII centenário do falecimento de São Francisco de Assis, “um outro cristo”

 

O Papa Inocêncio III sonha com São Francisco sustentando com o ombro a Igreja — Giotto di Bondone (1266–1337). Afresco na Basílica Superior de São Francisco de Assis. 

No dia 4 deste mês, unimo-nos às alegrias da Santa Madre Igreja e de toda imensa família franciscana, para dar graças a Deus por ter dado ao mundo o ‘Poverello de Assis’ para a honra e glória da Trindade Santíssima e de toda a Igreja

 

✅ Plinio Maria Solimeo

São Paulo, o Apóstolo dos Gentios, vivia tão unido a Nosso Senhor Jesus Cristo, que pôde afirmar: “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim” (Gl 2,20).

O mesmo poderia dizer de si São Francisco de Assis, um dos santos mais populares do mundo, que marcou profundamente não só a vida da Igreja, mas também a sociedade temporal. Poucos santos terão vivido as máximas evangélicas tão profundamente, de modo a merecer, à semelhança do Salvador, a graça de receber em seu corpo os sagrados estigmas da Paixão.

Por isso São Boaventura, 3º Geral dos Franciscanos, contemporâneo e póstero do Poverello, chamou-o de um “Outro Cristo” (Alter Christus), pois “consagrava a Ele um amor tão vivo, e o Bem-amado, em troca, mostrava para com ele uma ternura tão familiar, que o servo de Deus parecia sentir fisicamente diante dos olhos a presença contínua do Salvador, como por várias vezes confidenciou a companheiros”.

         É o que confirma também, por exemplo, Frei Ugolino Brunforte, provável autor dos poéticos Fioretti, numa linguagem bem medieval: “O glorioso monsior S. Francisco, em todos os atos de sua vida foi conforme a Cristo bendito... Por ter sido o verídico servo de Cristo, monsior S. Francisco, em certas coisas quase um outro Cristo dado ao mundo para a salvação dos homens, Deus Pai o quis fazer em muitas ações conforme e semelhante a seu filho Jesus Cristo”.

Sustentáculo da Igreja ameaçada de ruína

         O hagiógrafo e historiador francês Daniel Rops (1901 – 1965), membro da Academia Francesa de Letras, assim introduz São Francisco de Assis em seu estudo A Igreja das Catedrais e das Cruzadas: “No decorrer do verão de 1210, Inocêncio III viu apresentar-se numa audiência um rapaz franzino, de olhar ardente, vestido com a grosseira túnica e capuz dos camponeses da época, a cintura apertada com uma corda e os pés nus dentro de sandálias. Vinha de Assis, um povoado da Úmbria, rodeado de doze companheiros tão indigentes como ele — doze discípulos como os Apóstolos — e, conforme se dizia, desejava expor ao Santo Padre as suas observações sobre a situação da Igreja e suas ideias sobre o apostolado.”

         Ora, diz Daniel Rops, esse Papa tivera “nessa mesma noite, um sonho em que via a basílica de Latrão, igreja-mãe da Igreja, oscilando, prestes a desmoronar-se. Mas surgia um homem enviado por Cristo que, sozinho, apoiando-se contra as muralhas vacilantes, impedia a catástrofe. Era um homem magro, jovem, rosto de asceta, olhar inflamado, vestido com um humilde burel, o retrato exato daquele que estava ali de pé na sua frente [...]. Rompendo por fim o seu longo silêncio, [o Papa] exclamou: ‘Na verdade, é por meio deste homem piedoso e santo que a Igreja de Deus será restabelecida nas suas bases!’ Desceu do seu trono, abraçou aquele pequeno pobre e, dirigindo-se ao reduzido grupo dos discípulos, acrescentou: ‘Ide com Deus, meus irmãos, e pregai a penitência segundo a inspiração do Senhor. E, quando o Todo-Poderoso vos tiver feito crescer, voltai a procurar-me, e eu vos concederei então muito mais do que hoje”.

Síntese biográfica

Francisco nasceu em 1182, na pequena e poética cidade de Assis, um dos filhos do rico mercador de tecidos Pedro Bernardone — que se tornará famoso por sua usura e cegueira em relação ao filho — e de uma dama de origem francesa de nobre sangue e grande virtude, chamada Pica Bourlemont.

Narra uma lenda que sentindo as dores do parto ela não conseguindo dar à luz, trasladaram-na à estrebaria da casa, onde nasceu Francisco, à semelhança do Salvador, sobre a palha, entre o asno e o boi.

 

Alegre, esbanjador, mas temente a Deus

Nada sabemos da infância do santo. Na Legenda de São Francisco (ou Dos Três Amigos), escrita por três de seus primeiros discípulos, lemos: “— Já crescido, como era dotado de inteligência viva, dispôs-se a continuar o ofício paterno, isto é, a mercancia, porém com outros entendimentos, pois ele era muito mais alegre e liberal do que o pai: gostava de andar em festiva companhia, quer durante o dia quer durante a noite, pelas ruas de Assis, em divertimentos e cantos, e era tão grande esbanjador, que gastava em reuniões e banquetes tudo quanto ganhava.” Ao que acrescenta São Boaventura: “Mas, com o auxílio divino, jamais se deixou levar pelo ardor das paixões que dominavam os jovens de sua companhia.”

O próprio Francisco confessa: “— Eu verdadeiramente creio nunca haver, por graça de Deus, cometido falta sem ter feito disso expiação, confessando o meu pecado e me arrependendo da minha culpa.”.

Alegre, jovial, desprendido, gentil, afável, “— o Senhor incutia em seu coração um sentimento de piedade que o tornava generoso com os pobres. Este sentimento foi crescendo em seu coração; e impregnou-o de tanta bondade, que ele decidiu, como ouvinte atento que era do Evangelho, ser generoso com quem lhe pedisse esmola, sobretudo a quem pedisse por amor de Deus”, de modo a dar até parte de seu vestuário se não tivesse mais dinheiro.

A popularidade que Francisco adquirira até então entre seus conterrâneos se devia mais às suas qualidades morais que às físicas, pois “— era pequeno e de aspecto miserável”, atraindo pouco a atenção daqueles que não o conheciam.

“Despreza o que amaste” — entrega à Dama Pobreza

Levava ele essa alegre e despreocupada vida, quando teve as primeiras revelações divinas que o chamavam para uma vida mais elevada. Rezando um dia na igreja de São Damião, ouviu o Crucificado pedir-lhe que restaurasse sua casa, que estava em ruínas. Tomando as palavras literalmente, empenhou-se na reforma não só desse templo, mas de dois outros mais. O Divino Redentor, porém, pediu que sobretudo restaurasse não os edifícios das igrejas, mas a própria Igreja enquanto instituição.

Mas disse-lhe o Salvador: “Se queres conhecer minha vontade, precisas desprezar todas as coisas que até aqui materialmente amaste e desejaste. Quando tiveres feito isto, ser-te-á agradável tudo quanto te é insuportável e se tornará insuportável tudo quanto desejas”.

Foi então que interveio o pai, Pedro Bernardone, pois o filho dava de esmola tudo o que tinha e passou a levar uma vida considerada insensata pelo mundo.

Ocorreu então o conhecido episódio de Bernardone apelar ao Bispo para fazer cessar as “extravagâncias” do filho; este se apressa em despojar-se até da roupa do corpo para satisfazer a ganância do pai. Depois disso Francisco entregou-se inteiramente ao que chamou a Dama Pobreza, seguindo ao pé da letra os conselhos do Evangelho.

Narra uma lenda que sentindo sua mãe as dores do parto e não conseguindo dar à luz, transladaram-na à estrebaria da casa, onde nasceu Francisco, à semelhança do Salvador, sobre a palha, entre o asno e o boi. Benozzo Gozzoli (1420–1497). Museu Complexo de São Francisco, Montefalco (Itália).


Fundação dos Frades Menores

“Como outro Elias, começou Francisco a anunciar a verdade, no pleno ardor do Espírito de Cristo. Convidou outros a se associarem a ele na busca da perfeita santidade, insistindo para que levassem uma vida de penitência. Começaram alguns a praticar a penitência, e em seguida se associaram a ele, partilhando a mesma vida, usando vestes vis. O humilde Francisco decidiu que eles se chamariam Frades Menores”.

Surgiram assim os primeiros 12 discípulos que, segundo registram os Fioretti, “foram homens de tão grande santidade que, desde os Apóstolos até hoje, não viu o mundo homens tão maravilhosos e santos”.“Aqueles que vinham abraçar esta vida distribuíam aos pobres tudo o que tinham. Contentavam-se só com uma túnica, uma corda e um par de roupas internas, e não queriam mais”, dirá mais tarde Francisco em seu Testamento.

Os novos apóstolos reuniram-se em torno da pequena igreja da Porciúncula, ou Santa Maria dos Anjos, que passou a ser o berço da Ordem.

O santo sustém a Igreja Católica

         Aqui se insere a cena relatada por Daniel Rops, citada acima.

Munidos da aprovação pontifícia, os novos religiosos saíram para pregar, em duplas, percorrendo as cidades da região e mostrando aos seus habitantes, pela palavra e pelo exemplo, o caminho da salvação.

Espírito e força de Elias

Certa noite os frades viram um carro de fogo de um esplendor maravilhoso, com um globo brilhante parecido com o sol, entrar pelo aposento em que estavam, dando três voltas no recinto. Compreenderam que Deus os quisera mostrar, por aquela figura, “que seu pai Francisco viera ‘no espírito e na força de Elias’. Desde então [Francisco] penetrava os segredos de seus corações, predizia o futuro e realizava milagres. Estava patente para todos que o espírito de Elias, duas vezes mais poderoso, viera habitar nele com tal plenitude, que o mais seguro para todos era seguir sua vida e ensinamentos”.

Francisco manifestava seu amor a Deus por uma alegria imensa, que se expressava muitas vezes em cânticos ardorosos. A quem lhe perguntava qual a razão de tal alegria, respondia que “ela deriva da pureza do coração e da constância na oração”.

Essa divina loucura da cruz que assomou Francisco e lhe angariou muitos discípulos, devia atrair também uma jovem filha do Conde de Sasso Rosso, Clara, de 17 anos. Desde o momento em que ouviu o Pobrezinho pregar, compreendeu que a vida que ele indicava era a que Deus queria para ela. Francisco tornou-se seu guia e pai espiritual de sua alma.

Como os pais tinham outros planos para Clara, foi preciso que ela fugisse para a igrejinha da Porciúncula, onde cortou os cabelos e passou a se vestir com um simples hábito. Nascia assim a Ordem Segunda dos Franciscanos, a das Clarissas. Duas semanas depois, Inês, irmã de Clara, a seguia no claustro, e mais tarde uma terceira, Beatriz.

Encontro de São Francisco e São Domingos em Roma — Federico Zuccaro (1541-1609). Coleção Particular.


Encontro de dois homens providenciais

Em 1217, indo a Roma, Francisco se encontrou com outro luminar da Igreja da época, Domingos de Gusmão, que também havia fundado uma Ordem religiosa para combater a decadência dos costumes. Os dois santos se abraçaram, estabelecendo uma amizade solidificada pelo amor de Deus.

Pouco depois Francisco recebia em sua Ordem um dos que seria sua maior glória e tornar-se-ia o santo mais popular do mundo, Frei Antônio de Lisboa — mais tarde, também “— de Pádua”.

Dissabores e fundação da Ordem Terceira

Uma das maiores dores de Francisco foi ver surgir uma nova tendência entre seus frades, chefiada pelo Superior Frei Elias, que dava uma orientação diferente da do santo, principalmente em relação aos estudos e ao modo de observar a pobreza. Francisco chegou a amaldiçoar Frei Pedro de Stacia, um dos frades da nova tendência.

Por outro lado, eram tantos os leigos que, ligados pelos laços do matrimônio ou com outros encargos terrenos não podiam observar inteiramente as regras franciscanas, mas queriam pertencer à sua família de almas, que Francisco fundou uma Ordem Terceira para abranger a todos. Muitos grandes personagens — como São Luís, Rei de França, e Santa Isabel, Duquesa da Turíngia — a ela pertenceram.

São Francisco recebe os estigmas — Vincenzo Carducci (1576–1638). Hospital da Venerável Ordem Terceira, Madri.


Recepção dos estigmas

Dois anos antes de sua morte, tendo Francisco ido ao Monte Alverne em companhia de alguns de seus frades mais íntimos, pôs-se em oração fervorosa e foi objeto de uma graça insigne. Na figura de um serafim de seis asas apareceu-lhe Nosso Senhor crucificado, que depois de Se entreter com ele em doce colóquio, partiu deixando-lhe impressos no corpo os sagrados estigmas da Paixão. Assim, esse discípulo de Cristo, com quem tanto desejara se assemelhar, obteve mais este traço de similitude com o Divino Salvador.

Cantando os louvores da “Irmã Morte”

Em sua última doença e já próximo da morte, queria Francisco que Frei Ângelo e Frei Leão permanecessem junto a seu leito para cantar os louvores da “Irmã Morte”. Àqueles que se escandalizavam com essa atitude, respondia: “Por graça do Espírito Santo, sinto-me tão profundamente unido ao meu Senhor Deus, que não posso deixar de me alegrar n’Ele.”

“Por fim, tendo-se realizado nele todos os planos de Deus, o bem-aventurado adormeceu no Senhor, rezando e cantando um Salmo, no dia 4 de outubro de 1226, aos 45 anos, sendo canonizado apenas dois anos depois.” 

Retrato do Santo

“Segundo a descrição deixada por Tomás de Celano, a aparência física de Francisco era extremamente agradável, e sua face refletia a inocência de sua vida, a pureza de seu coração e o ardor do fogo divino que o consumia. Era de estatura um pouco abaixo da média, cabeça proporcionada e redonda, com a face alongada e nariz reto e fino, pescoço esguio, testa plana e curta, olhos negros e límpidos, cabelos castanhos, orelhas pequenas. Sua voz era forte, doce, clara e sonora; os dentes eram unidos, alinhados e brancos, os lábios pequenos e delgados, a barba era preta e um tanto rala; seus ombros eram direitos, os braços curtos, as mãos delicadas com dedos longos, as pernas delgadas, pés pequenos, pele fina e sempre muito magro.

“Sua visão de si mesmo era, porém, oposta: descrevia-se como ‘um franguinho preto’, e o retrato pintado no ‘Fioretti’ segue a mesma linha, mostrando-o como um homem miúdo de aspecto muito desprezível e vil, e que, por este motivo nunca conseguia muitas esmolas entre gentes que não o conheciam.”

Amor abrasado à Sagrada Eucaristia

[Francisco] “Encontrara a liberdade interior dos filhos de Deus; ele extraía sua força de sua íntima união com Jesus na Sagrada Comunhão. O mistério da Sagrada Eucaristia, sendo uma extensão da Paixão, ocupava um lugar preponderante em sua vida, e ele não tinha nada mais importante do que tudo o que dizia respeito ao culto do Santíssimo Sacramento. Assim, não apenas ouvimos falar de Francisco exortando o clero a demonstrar o devido respeito por tudo o que se relaciona com o Sacrifício da Missa, mas também o vemos varrendo igrejas pobres, buscando vasos sagrados para elas e providenciando hóstias feitas por ele mesmo.”

Isso é confirmado por São Boaventura que, na sua Legenda Maior, diz: “O sacramento do Corpo do Senhor inflamava-o de amor até o mais íntimo do coração: pasmava de admiração perante uma misericórdia tão amante e um amor tão misericordioso. Comungava com frequência e com uma devoção irradiante que contagiava quem o ouvia. Ao saborear o Cordeiro Imaculado, como inebriado, era muitas vezes arrebatado em êxtase. Dedicava um amor indizível à Mãe de Jesus, por ter sido Ela que nos deu por irmão o Senhor de majestade, e por meio dela termos alcançado misericórdia. Depois de Cristo, era nela que depositava a maior confiança, e por isso a escolheu como padroeira para si e para os seus, e em sua honra jejuava com grande fervor desde a festa de S. Pedro e S. Paulo até à Assunção.”

Participação no mistério da Cruz

 Na obra acima citada, diz ainda São Boaventura que “o mistério da cruz, profundo e insondável, irradiante de carismas e graças, fonte de mérito e de virtude, tesouro de sabedoria e de ciência, permanece oculto aos sábios e prudentes deste mundo. Mas foi plenamente revelado a esse pequenino e humilde servo de Cristo, de tal sorte que a sua vida não foi outra coisa senão seguir o caminho da cruz, saborear a doçura e pregar a glória da mesma cruz. E assim, logo no princípio da sua total entrega ao Senhor, pôde com verdade dizer como o Apóstolo: ‘Longe de mim gloriar-me, a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo’. Posteriormente, já mais avançado no caminho da perfeição, poderia acrescentar com não menos verdade: ‘Todos quantos seguirem esta norma, sobre eles desça a paz e a misericórdia’. Finalmente, ao consumar-se a sua união com Cristo, diria por certo, e se possível ainda com mais verdade: ‘Trago no meu corpo as chagas do Senhor Jesus’”.

Tentativas de converter os infiéis

         São Francisco, em seu fervor missionário, desejava ardentemente converter os infiéis, sobretudo os muçulmanos. Por isso ele fez várias tentativas de ir para o Oriente.

         Narra o Pe. Paschal Robinson em seu artigo na The Catholic Encyclopedia:

“No outono do mesmo ano (1212), o ardente desejo de Francisco pela conversão dos sarracenos levou-o a embarcar para a Síria; mas, após naufragar na costa da Eslavônia, teve de retornar a Ancona.”

Porém, o Santo não esmoreceu com esse fracasso. Tanto assim que “[em 1214] partiu para o Marrocos, em outra tentativa de alcançar os infiéis e, se necessário, derramar seu sangue pelo Evangelho; mas, enquanto ainda estava na Espanha, foi acometido por uma doença tão grave que foi obrigado a retornar à Itália mais uma vez”.

Persistente, novamente “Francisco partiu de Ancona em 21 de junho rumo a São João de Acre, e esteve presente no cerco e na tomada de Damieta. Após pregar às forças cristãs ali reunidas, destemidamente se dirigiu ao acampamento infiel, onde foi feito prisioneiro e levado perante o sultão. Segundo o testemunho de Jacques de Vitry, que estava com os cruzados em Damieta, o sultão recebeu Francisco com cortesia, mas, além de obter deste governante a promessa de um tratamento mais indulgente para os cativos cristãos, a pregação do santo parece ter surtido pouco efeito. Antes de retornar à Europa, acredita-se que o santo tenha visitado a Palestina e ali obtido para os frades o apoio que ainda hoje mantêm como guardiões dos lugares sagrados”.

Concluindo o artigo, citamos como surgiu o primeiro presépio, segundo relatado por Thomas de Celano.

São Francisco celebra o Natal em 1223 — Giotto di Bondone (1266–1337). Afresco na Basílica Superior de São Francisco de Assis


Tradição dos presépios

A bela tradição de montar presépios para comemorar o nascimento do Menino Jesus foi-nos legada por São Francisco de Assis. Tomás de Celano conta como São Francisco celebrou o Natal no ano de 1223:

“O que ele [São Francisco] fez no aniversário de Nosso Senhor Jesus Cristo, perto da pequena cidade chamada Greccio, no terceiro ano antes de sua gloriosa morte, deve ser especialmente lembrado e recordado com reverência. Naquele lugar havia um homem chamado João, de boa reputação e vida ainda melhor, a quem o bem-aventurado Francisco amava com um amor especial.

“O bem-aventurado Francisco mandou chamar esse homem, como costumava fazer, cerca de quinze dias antes do nascimento do Senhor, e disse-lhe: ‘Se queres que celebremos a festa de Nosso Senhor em Greccio, vai depressa e prepara diligentemente o que te disser. Pois desejo fazer algo que nos faça recordar o Menino que nasceu em Belém e que mostre aos nossos olhos, de alguma forma, as dificuldades das suas necessidades infantis, como jazia numa manjedoura, como, com um boi e um jumento ao lado, se deitou sobre a palha onde fora colocado.’ Quando o bom e fiel homem ouviu estas coisas, correu depressa e preparou naquele lugar tudo o que o santo lhe havia dito.

“Mas o dia da alegria se aproximava, chegava o tempo do grande júbilo. Os Irmãos foram chamados de seus respectivos lugares. Homens e mulheres daquela vizinhança prepararam, com corações alegres, de acordo com suas posses, velas e tochas para iluminar aquela noite que iluminava todos os dias e anos com sua estrela brilhante. Finalmente, o santo de Deus chegou e, encontrando tudo preparado, viu e se alegrou. A manjedoura estava pronta, o feno havia sido trazido, o boi e o jumento foram trazidos. Ali a simplicidade era honrada, a pobreza exaltada, a humildade louvada, e Greccio se tornou, por assim dizer, uma nova Belém. A noite estava iluminada como o dia e encantou homens e animais. O povo veio e se encheu de nova alegria com o novo mistério. A mata ressoava com as vozes da multidão e as rochas respondiam à seu júbilo. Os Irmãos cantaram, pagando sua dívida de louvor ao Senhor, e toda a noite ecoou com sua alegria. O santo de Deus estava diante da manjedoura, suspirando, tomado de amor e repleto de uma felicidade maravilhosa. As solenidades da Missa foram celebradas sobre a manjedoura e o sacerdote experimentou uma nova consolação.

O vilarejo medieval de Greccio, localizado na província de Rieti, na região do Lácio, na Itália. O local é famoso por sua arquitetu ra de pedra nas encostas das montanhas Sabine e por sua forte ligação com São Francisco de Assis, que ali criou o primeiro pre sépio da história em 1223. (Creative Commons: Fiaba77).


“O santo de Deus estava vestido com as vestes de diácono, pois era diácono, e cantava o santo Evangelho com voz sonora. E sua voz era forte, doce, clara, sonora, convidando a todos às mais altas recompensas. Então, ele pregou para o povo que ali estava, e proferiu palavras encantadoras sobre o nascimento do pobre Rei e a pequena cidade de Belém. Frequentemente, quando desejava chamar Cristo Jesus, chamava-o simplesmente de Menino de Belém, transbordando de amor por Ele; e ao pronunciar a palavra Belém, sua voz era mais como o balido de uma ovelha. Sua boca estava mais cheia de doce afeto do que de palavras. Os dons do Todo-Poderoso se multiplicaram ali, e uma visão maravilhosa foi vista por um certo homem virtuoso. Pois ele viu uma criança deitada sem vida na manjedoura, e viu o santo homem de Deus aproximar-se e despertar a criança como de um sono profundo. Essa visão não era inadequada, pois o Menino Jesus havia sido esquecido no coração de muitos; mas, pela ação de sua graça, Ele foi trazido de volta à vida por meio de seu servo São Francisco e gravado em suas memórias fervorosas. Por fim, a solene celebração noturna chegou ao fim, e cada um retornou para sua casa com santa alegria.

“O feno que havia sido colocado na manjedoura foi guardado para que o Senhor pudesse salvar os animais de carga e outros animais por meio dele, multiplicando sua santa misericórdia. E, de fato, muitos animais de toda a região circunvizinha, que sofriam de diversas doenças, foram curados após comerem desse feno. [...] e um grande número de pessoas de ambos os sexos daquele lugar, que sofriam de várias doenças, obtiveram a saúde que buscavam. Mais tarde, o local onde a manjedoura havia ficado foi santificado com a construção de um templo do Senhor, e um altar foi erguido em honra do beatíssimo padre Francisco sobre a manjedoura, e uma igreja foi construída”.