2 de abril de 2025

A APOTEOSE DE SANCHO PANÇA

 

O encontro de Sancho Pança com seu asno ruço. Detalhe da pintura de Moreno Carbonero. Esse personagem de Cervantes em sua obra “Dom Quixote de la Mancha” tornou-se o homem-símbolo do comodismo, do imediatismo mesquinho, da imprevidência e da poltronice.

✅  ROBERTO DE MATTEI

No início de março de 2022, duas semanas após a invasão russa da Ucrânia, o jornalista Vittorio Feltri concluiu um artigo no jornal "Libero" com estas palavras: "Gostaríamos de sugerir a Zelensky que não seja um valentão, esqueça. Melhor derrotado do que morto."

Alguns dias depois, comentamos as palavras de Feltri na RadioRomaLibera (https://www.radioromalibera.org/meglio-russi-che-morti/).

A situação de Zelenski naquela época parecia muito mais perigosa do que a de hoje. Os russos avançavam e o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, evocou o risco de uma terceira guerra mundial "nuclear e devastadora". Os ucranianos, no entanto, resistiram por três anos, infligindo à Rússia e ao Ocidente uma derrota que não é militar, mas moral, à qual vale a pena voltar.

A exortação de Feltri à rendição lembrou o slogan da esquerda europeia nos anos oitenta, "Melhor vermelho do que morto", lançado para se opor aos mísseis americanos Pershing 2, instalados para responder aos mísseis SS20 que os russos haviam implantado para atingir alvos contra a Europa. Mas desta vez o slogan é bem recebido por muitos paleoconservadores ou neotradicionalistas, e até, ao que parece, pelo novo governo americano. Perguntamo-nos então: por que o católico, mas mesmo antes disso, o homem naturalmente justo, diante de um perigo que ameaça a existência de seu país, nunca dirá vermelhos ou russos melhores do que mortos, assim como ele nunca pode dizer melhor preto ou verde do que morto?

Por uma razão muito simples: porque existem valores morais que transcendem a vida humana entendida em um sentido puramente biológico. Aqueles que adotam o slogan "Melhor vermelho do que morto" expressam uma concepção materialista e hedonista da vida, pela qual não há valores morais pelos quais valha a pena lutar e, se necessário, morrer. Pelo contrário, aqueles que rejeitam este slogan, antes de fazerem uma escolha política, fazem uma escolha moral: afirmam uma dimensão ética da vida. Esta dimensão ética da vida faz parte da tradição da civilização ocidental e cristã. Em abril de 1984, a Fundação Gioacchino Volpe dedicou seu décimo segundo encontro ao tema "Sim à paz, não ao pacifismo" (https://lanuovacontrocorrente.it/libro/si-alla-pace-no-al-pacifismo/?srsltid=AfmBOoq1P25H5Ctxqe9ebgGuzRzbye4xhdzDV1qb0qxY-Fa6pf4vEFLYI). Falando nesta conferência, lembrei que nenhum slogan como esse "melhor vermelho do que morto"  nega radicalmente os princípios e o espírito da civilização ocidental e cristã.

"Qual tem sido de fato a alma da civilização ocidental ao longo dos séculos? O espírito de sacrifício. O que é o espírito de sacrifício? É saber renunciar a um direito ou a um bem, mesmo a um grande, em vista de um bem maior. Espírito de sacrifício significa ter ideais elevados e lutar por eles, lutar pelo que é melhor, à custa da dor, das lutas, da renúncia. A riqueza material e espiritual das famílias e dos povos é filha deste espírito de sacrifício. O verdadeiro progresso, o verdadeiro desenvolvimento na vida dos homens está intimamente ligado a este espírito de sacrifício. Daqui nascem as alturas da santidade e do heroísmo. Em que se baseia o espírito de sacrifício? Sobre o amor. Quanto mais amamos um bem, maiores serão as renúncias e os esforços que nos imporemos para alcançá-lo. E quanto mais alto for um bem, mais esse bem merecerá ser amado".

Mas, antes de mim, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira havia escrito estas palavras na "Folha de S. Paulo" de 16 de outubro de 1983: o conteúdo do slogan "Melhor vermelho do que morto",

“O conteúdo desse slogan consiste em que a vida — sim, a vida terrena — é o bem supremo do homem. De onde se infere que o amor à Fé, à independência pátria, à dignidade pessoal, à honra, tem de ser menor do que o amor à vida. Imbecis todos os mártires e todos os guerreiros que até aqui entenderam o contrário. E em confronto com os quais eram menoscabados como poltrões os que, para salvar a própria pele, renegavam a Fé, fugiam do campo de batalha, ou aquiesciam vilmente a qualquer insulto. 
A velha tábua de valores foi invertida. Os mártires e os heróis de guerra, que figuravam com destaque nas fileiras de escol da humanidade, devem ser vistos daqui por diante como idiotas. Como idiotas, também, os moralistas, os oradores, os poetas que realçavam aos olhos do povo a suposta sublimidade com que aqueles imbecis corriam ao holocausto. Cumpre calar afinal os velhos ditirambos ao heroísmo religioso ou civil. Pois o elogio da imbecilidade arrasta os fracos a segui-la. 
Pelo contrário, viva os poltrões. Chegou para eles a era da glória. A prevalecer o ‘better red than dead’, eles constituem o creme mais fino da humanidade. Formam a grei securitária e astuta dos endeusadores do egoísmo. 
É a apoteose de Sancho Pança. Para que este século terminasse coerente com o longo processo de decadência no qual ele estava engajado quando despertou para a História, seria mesmo necessário que ele descesse assim tão baixo”...

Quarenta anos se passaram desde então e hoje não nos perguntamos se vale a pena morrer, mas mesmo se vale a pena baixar nosso padrão de vida para garantir a independência e a liberdade da Ucrânia. Esse espírito de renúncia ao sacrifício e à luta incentiva o expansionismo do chefe do Kremlin, que já prevê que os europeus de nosso tempo, após a conquista russa da Ucrânia, eles se perguntarão se vale a pena morrer ou empobrecer para salvar os países bálticos.

É verdade, é a apoteose de Sancho Pança. E a alternativa ao astuto e ganancioso Sancho Pança não é o quimérico Dom Quixote, mas é o cristão que luta com as armas da coragem e da honra, da oração e do sacrifício. Ele baseia a sua esperança de vitória neste realismo, porque sabe que “Quem ama a sua vida, perdê-la-á; mas quem odeia a sua vida neste mundo, conservá-la-á para a vida eterna”. (Jo 12, 25).

 

Um comentário:

Anônimo disse...

Fantástico seu artigo sobre o “sanchopaçachismo” dos covardes que preferem viver como sapos agarrados à terra.