3 de abril de 2025

Santo Isidoro de Sevilha, “luminar esplendoroso e incorruptível”

 


Considerado o homem mais douto de seu tempo, Santo Isidoro foi um precursor, tanto no campo eclesiástico como no civil, podendo ser considerado um dos pais da Idade Média

 

✅  Plinio Maria Solimeo


Isidoro nasceu em 560 na cidade espanhola de Cartagena. Filho de Severiano e Teodora, ambos de alta nobreza e virtude, foram seus irmãos São Leandro, que o precedeu na Sé de Sevilha, São Fulgêncio, bispo de Ecija, e Santa Florentina, da qual se diz que governou 40 conventos e mil monjas.

         Embora sendo um dos autores mais lidos e plagiados de seu tempo, esse grande Doutor da Igreja não teve um biógrafo contemporâneo. Assim, sua vida, além dos traços gerais conservados pela tradição, tem de ser adivinhada em seus inúmeros escritos.

         O certo é que Isidoro era muito inteligente, de memória fabulosa, e muito aplicado ao estudo e à leitura. Em 579, seu irmão Leandro foi nomeado arcebispo de Sevilha. Mas um ano depois ele foi desterrado com seu irmão Fulgêncio, por combaterem a heresia ariana.

         Essa perseguição terminou com a morte do ímpio rei Leovigildo. Ariano fanático, ele não recuou em dar a morte a seu próprio filho, Santo Hermenegildo, por ter este se convertido à Igreja Católica. Ascendeu ao trono seu filho Recaredo, que também abjurou a heresia ariana.

Tendo Leandro e Fulgêncio, que haviam sido desterrados, retornado às suas dioceses, Isidoro retirou-se para um mosteiro, onde continuou seus estudos, chegando a dominar inteiramente o latim, o grego e o hebreu. Dedicou-se também a formar uma biblioteca, que dificilmente encontrará similar em toda a Idade Média.

          Além de sábio, Isidoro era exímio organizador. Dando-se conta de que a legislação que regulava a vida monástica era falha e obscura em muitos pontos, escreveu para os vários mosteiros da Espanha uma Regla de los Monjes, onde tudo é claro, simples e metódico.

 

O Rei Recaredo abjura a heresia ariana diante de São Leandro, irmão de Santo Isidoro [A conversão de Recaredo – Antonio Muñoz Degrain (1888). Palácio do Senado, Madri].


Na Sé arquiepiscopal de Sevilha

No ano 600, tendo falecido Leandro, Isidoro foi escolhido pelo rei e pelo povo para substituí-lo na Sé de Sevilha, então a principal de toda a Espanha. Como bom pastor, Isidoro “prega ao povo, governa a diocese, reúne concílios — um em 619 e outro em 625 —, promulga sábios decretos para promover a cultura e melhorar os costumes, defende a ortodoxia, converte um bispo oriental, que propagava no sul da Espanha o eutiquianismo, e confunde um prelado godo que se havia levantado à frente de uma reação ariana”.(1) Mais ainda: “não poupou nada para exterminar o arianismo, que infestava ainda grande parte de sua diocese; para reformar os costumes dos fiéis, que se tinham corrompido sob o reino dos heréticos; para restabelecer em seu esplendor a disciplina eclesiástica e fazer com que os ofícios da Igreja fossem celebrados com a majestade e a devoção que pedem a grandeza do Deus que neles se honra e louva”.(2)

         Isidoro era adornado de todas as virtudes: “Eram admiráveis sua humildade, sua caridade, sua benignidade, sua afabilidade e modéstia, sua paciência e mansidão. Era piedosíssimo com os pobres, aprazível com os ricos, forte com os poderosos, devotíssimo na igreja, vigilante na reforma dos costumes, constante na disciplina eclesiástica, suavíssimo para todos, e para si rigoroso e severo”.(3)

        

Aglutinador de raças, obra civilizadora

         “As antigas instituições e o ensino clássico do Império Romano estavam desaparecendo rapidamente. Na Espanha, uma nova civilização começava a transformar-se pela fusão dos elementos raciais que formavam sua população. Por quase dois séculos os godos a tinham controlado inteiramente, e suas maneiras bárbaras e desprezo pelo saber ameaçavam grandemente fazer retroceder o progresso da civilização. Compreendendo que o bem-estar tanto espiritual quanto material da nação dependia da total assimilação dos elementos estrangeiros, Santo Isidoro pôs-se à obra de unir numa nação homogênea os vários povos que formavam o reino hispano-gótico. Para esse fim, utilizou-se de todos os recursos da religião e da educação. E seus esforços encontraram completo sucesso”.(4)

         Para isso dedicou especial atenção à educação da juventude, fundando vários colégios e seminários. Esses colégios eram verdadeiras universidades, das quais saíram homens ilustres como São Bráulio, depois arcebispo de Saragoça, e Santo Ildefonso, os quais posteriormente fizeram o catálogo das inúmeras obras de Santo Isidoro.

         Enfim, Santo Isidoro fundou também vários mosteiros, nos quais a regularidade monástica e o louvor a Deus se faziam de modo exímio. Um dos primeiros atos de seu episcopado foi o de pronunciar um anátema contra qualquer eclesiástico que molestasse os mosteiros.

 

Verdadeira enciclopédia ou dicionário universal

Urna com os restos
mortais de Santo Isidoro.
Para seus estudantes, escreveu “uma multidão de tratados, cuja extensão e profunda doutrina pasmam os maiores engenhos, porque abraçam todos os conhecimentos humanos daquela época, desde a mais sublime teologia até a agricultura e economia rural. A principal de suas obras, ou seja, os vinte livros das ‘Orígenes o Etimologías’, é uma verdadeira enciclopédia ou dicionário universal, que faz descobrir o raro e agudo engenho de seu autor, como também sua extraordinária erudição e assombroso trabalho de investigação”.(5) Ele foi, assim, o primeiro escritor cristão a reunir, para os católicos, uma suma dos conhecimentos universais. Muitos fragmentos do estudo clássico foram preservados nessa obra, sem a qual teriam desaparecido irremediavelmente. A fama desse trabalho deu novo ímpeto aos trabalhos enciclopédicos, produzindo abundantes frutos nos subsequentes séculos da Idade Média.

 

Obras de teologia, gramática e ciências

         No campo teológico, seus três livros Sentencias podem ser considerados a primeira Suma Teológica. Redigiu ainda para seus estudantes a obra De la diferencia de la propiedad de las palabras, como complemento para o estudo da gramática e retórica. E também as obras históricas La Crónica, La Historia de los Reyes de España e El Libro de los Varones eclesiáticos.

Mesmo as ciências naturais e o estudo do mundo físico deveriam fazer parte do currículo de seus colégios, pois afirmava que “não é coisa supersticiosa o conhecer o curso dos astros, os movimentos das ondas, a natureza do raio e do trovão, as causas das tempestades, dos terremotos, da chuva e da neve, das nuvens e do arco-íris”.(6) De todas essas questões, trata em dois interessantes livros: De la naturaleza de las cosas — que dedicou ao rei Sisebuto, de quem foi amigo e conselheiro, e a quem incentivou em seus trabalhos literáriose Del Orden de las creaturas.

 

Alma dos Concílios de Toledo e de Sevilha

Altar com a urna
que contém os restos
mortais de Santo Isidoro.
Além de combater a heresia ariana, que tinha penetrado profundamente na Espanha entre os visigodos, Santo Isidoro erradicou totalmente a dos “acéfalos”, que foi morta em seu nascedouro.

         “Como Leandro, ele teve a mais proeminente participação nos Concílios de Toledo e de Sevilha. Com toda justiça, pode-se dizer que foi em grande medida devido ao trabalho esclarecido desses dois ilustres irmãos que a legislação visigótica, que procedeu desses concílios, é vista por historiadores modernos como exercendo a mais importante influência nos começos do governo representativo”.(7)

         Em dezembro de 633, se bem que avançado em anos, Santo Isidoro presidiu o IV Concílio de Toledo, do qual participaram todos os bispos da Espanha. Ele foi a origem da maior parte de seus decretos, como por exemplo, o que determinava a todos os bispos que estabelecessem seminários em suas dioceses para a formação do clero, na linha dos colégios fundados por ele em Sevilha. Desse modo, Santo Isidoro foi a mola propulsora do movimento educativo que teve Sevilha como centro. Empenhou-se também para que fossem promulgados 74 cânones, muito úteis para a explicação da fé e o restabelecimento da disciplina da Igreja. A pedido dos padres conciliares, trabalhou num novo missal e breviário para unificar os costumes e a liturgia em todo o reino: “Seria um absurdo que tivéssemos distintos costumes os que professamos uma mesma fé e formamos parte de um mesmo império”, costumava dizer.

Também nesse IV Concílio, a pedido do rei Sisenando, deu forma à constituição política do reino, consolidando o regime de estreita união entre os poderes civil e religioso, e amoldando a legislação com base nos princípios do Direito Canônico. Foi o primeiro a assinar o decreto que mudava a Sé metropolitana de Cartagena para Toledo, a nova capital visigótica.

Nesse concílio ainda foi incentivado o estudo do grego e do hebreu, bem como das artes liberais. O Santo arcebispo suscitou também o interesse pelo direito e pela medicina, muito antes dos árabes, e despertou o interesse pela filosofia grega, introduzindo Aristóteles entre seus conterrâneos.

Relíquia, fragmento do crânio de
Sto. Isidoro
.
Isidoro faleceu em 636. Foi o último dos antigos filósofos cristãos, tendo sido cognominado “luminar esplendoroso e incorruptível” por São Bráulio de Saragoça. Indubitavelmente, ele foi o homem mais sábio de sua época, tendo exercido, como vimos, profunda influência em todo o sistema educativo da Idade Média. Seu discípulo São Bráulio o via como um homem suscitado por Deus para salvar o povo espanhol da avalanche de barbárie que ameaçava a civilização na Espanha. Diz ele: “Teus livros nos levam à casa paterna, quando andamos errantes e extraviados pela cidade tenebrosa deste mundo. Eles nos dizem quem somos, de onde viemos e onde nos encontramos. Eles nos falam das grandezas da pátria e nos dão a descrição dos tempos. Ensinam-nos o direito dos sacerdotes e das coisas santas, a disciplina pública e a doméstica, as causas, as relações e os gêneros das coisas, os nomes dos povos e a essência de quanto existe no Céu e na Terra”.(8)

O VIII Concílio de Toledo, reunido em 653, denominou-o “Doutor insigne de nosso século, novíssimo ornamento da Igreja católica, o último na ordem dos tempos, mas não na doutrina; o homem mais douto nestes críticos momentos de fim das idades”.(9)

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Notas:

Fonte: Revista Catolicismo, Nº 892, abril/2025

1. Fr. Justo Perez de Urbel, O.S.B., Año Cristiano, Ediciones Fax, Madrid, 1945, tomo II, p. 41.

2. Les Petits Bollandistes, Vies des Saints, Bloud et Barral, Paris, 1882, tomo IV, pp. 187-188.

3. Pe. Pedro de Ribadeneira, S.J., Flos Sanctorum, apud Dr. Eduardo Maria Vilarrasa, La Leyenda de Oro, L. González y Compañia – Editores, Barcelona, 1896, tomo II, p. 21.

4. John B. O'Connor, St. Isidore of Sevilla, The Catholic Encyclopedia, Volume VIII, Copyright © 1910 by Robert Appleton Company, Online Edition Copyright © 2003 by Kevin Knight.

5. Edelvives, El Santo de Cada Dia, Editorial Luis Vives, S.A., Saragoça, 1947, tomo II, p. 356.

6. Fr. Justo Perez de Urbel, op.cit. pp. 45-46.

7. John B. O'Connor, The Catholic Encyclopedia, online edition.

8. Fr. Justo Perez de Urbel, op.cit., p. 49.

9. Id., ib.

2 de abril de 2025

A APOTEOSE DE SANCHO PANÇA

 

O encontro de Sancho Pança com seu asno ruço. Detalhe da pintura de Moreno Carbonero. Esse personagem de Cervantes em sua obra “Dom Quixote de la Mancha” tornou-se o homem-símbolo do comodismo, do imediatismo mesquinho, da imprevidência e da poltronice.

✅  ROBERTO DE MATTEI

No início de março de 2022, duas semanas após a invasão russa da Ucrânia, o jornalista Vittorio Feltri concluiu um artigo no jornal "Libero" com estas palavras: "Gostaríamos de sugerir a Zelensky que não seja um valentão, esqueça. Melhor derrotado do que morto."

Alguns dias depois, comentamos as palavras de Feltri na RadioRomaLibera (https://www.radioromalibera.org/meglio-russi-che-morti/).

A situação de Zelenski naquela época parecia muito mais perigosa do que a de hoje. Os russos avançavam e o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, evocou o risco de uma terceira guerra mundial "nuclear e devastadora". Os ucranianos, no entanto, resistiram por três anos, infligindo à Rússia e ao Ocidente uma derrota que não é militar, mas moral, à qual vale a pena voltar.

A exortação de Feltri à rendição lembrou o slogan da esquerda europeia nos anos oitenta, "Melhor vermelho do que morto", lançado para se opor aos mísseis americanos Pershing 2, instalados para responder aos mísseis SS20 que os russos haviam implantado para atingir alvos contra a Europa. Mas desta vez o slogan é bem recebido por muitos paleoconservadores ou neotradicionalistas, e até, ao que parece, pelo novo governo americano. Perguntamo-nos então: por que o católico, mas mesmo antes disso, o homem naturalmente justo, diante de um perigo que ameaça a existência de seu país, nunca dirá vermelhos ou russos melhores do que mortos, assim como ele nunca pode dizer melhor preto ou verde do que morto?

Por uma razão muito simples: porque existem valores morais que transcendem a vida humana entendida em um sentido puramente biológico. Aqueles que adotam o slogan "Melhor vermelho do que morto" expressam uma concepção materialista e hedonista da vida, pela qual não há valores morais pelos quais valha a pena lutar e, se necessário, morrer. Pelo contrário, aqueles que rejeitam este slogan, antes de fazerem uma escolha política, fazem uma escolha moral: afirmam uma dimensão ética da vida. Esta dimensão ética da vida faz parte da tradição da civilização ocidental e cristã. Em abril de 1984, a Fundação Gioacchino Volpe dedicou seu décimo segundo encontro ao tema "Sim à paz, não ao pacifismo" (https://lanuovacontrocorrente.it/libro/si-alla-pace-no-al-pacifismo/?srsltid=AfmBOoq1P25H5Ctxqe9ebgGuzRzbye4xhdzDV1qb0qxY-Fa6pf4vEFLYI). Falando nesta conferência, lembrei que nenhum slogan como esse "melhor vermelho do que morto"  nega radicalmente os princípios e o espírito da civilização ocidental e cristã.

"Qual tem sido de fato a alma da civilização ocidental ao longo dos séculos? O espírito de sacrifício. O que é o espírito de sacrifício? É saber renunciar a um direito ou a um bem, mesmo a um grande, em vista de um bem maior. Espírito de sacrifício significa ter ideais elevados e lutar por eles, lutar pelo que é melhor, à custa da dor, das lutas, da renúncia. A riqueza material e espiritual das famílias e dos povos é filha deste espírito de sacrifício. O verdadeiro progresso, o verdadeiro desenvolvimento na vida dos homens está intimamente ligado a este espírito de sacrifício. Daqui nascem as alturas da santidade e do heroísmo. Em que se baseia o espírito de sacrifício? Sobre o amor. Quanto mais amamos um bem, maiores serão as renúncias e os esforços que nos imporemos para alcançá-lo. E quanto mais alto for um bem, mais esse bem merecerá ser amado".

Mas, antes de mim, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira havia escrito estas palavras na "Folha de S. Paulo" de 16 de outubro de 1983: o conteúdo do slogan "Melhor vermelho do que morto",

“O conteúdo desse slogan consiste em que a vida — sim, a vida terrena — é o bem supremo do homem. De onde se infere que o amor à Fé, à independência pátria, à dignidade pessoal, à honra, tem de ser menor do que o amor à vida. Imbecis todos os mártires e todos os guerreiros que até aqui entenderam o contrário. E em confronto com os quais eram menoscabados como poltrões os que, para salvar a própria pele, renegavam a Fé, fugiam do campo de batalha, ou aquiesciam vilmente a qualquer insulto. 
A velha tábua de valores foi invertida. Os mártires e os heróis de guerra, que figuravam com destaque nas fileiras de escol da humanidade, devem ser vistos daqui por diante como idiotas. Como idiotas, também, os moralistas, os oradores, os poetas que realçavam aos olhos do povo a suposta sublimidade com que aqueles imbecis corriam ao holocausto. Cumpre calar afinal os velhos ditirambos ao heroísmo religioso ou civil. Pois o elogio da imbecilidade arrasta os fracos a segui-la. 
Pelo contrário, viva os poltrões. Chegou para eles a era da glória. A prevalecer o ‘better red than dead’, eles constituem o creme mais fino da humanidade. Formam a grei securitária e astuta dos endeusadores do egoísmo. 
É a apoteose de Sancho Pança. Para que este século terminasse coerente com o longo processo de decadência no qual ele estava engajado quando despertou para a História, seria mesmo necessário que ele descesse assim tão baixo”...

Quarenta anos se passaram desde então e hoje não nos perguntamos se vale a pena morrer, mas mesmo se vale a pena baixar nosso padrão de vida para garantir a independência e a liberdade da Ucrânia. Esse espírito de renúncia ao sacrifício e à luta incentiva o expansionismo do chefe do Kremlin, que já prevê que os europeus de nosso tempo, após a conquista russa da Ucrânia, eles se perguntarão se vale a pena morrer ou empobrecer para salvar os países bálticos.

É verdade, é a apoteose de Sancho Pança. E a alternativa ao astuto e ganancioso Sancho Pança não é o quimérico Dom Quixote, mas é o cristão que luta com as armas da coragem e da honra, da oração e do sacrifício. Ele baseia a sua esperança de vitória neste realismo, porque sabe que “Quem ama a sua vida, perdê-la-á; mas quem odeia a sua vida neste mundo, conservá-la-á para a vida eterna”. (Jo 12, 25).