14 de fevereiro de 2026

VENEZUELA — Um país que foi próspero, comunistizado por Chávez e Maduro


A capital venezuelana sendo bombardeada

Chávez morreu e Maduro está preso. Mas o governo comuno-chavista continua dilapidando as riquezas, abolindo o direito de propriedade, deteriorando as instituições, oprimindo seu infeliz povo, desmantelando o que resta de civilização cristã. Até quando?

 

  Paulo Roberto Campos

 

Um acontecimento sem precedentes na América do Sul deixou pasmo o mundo inteiro: Na madrugada do dia 3 de janeiro, Nicolás Maduro e sua mulher Cilia Flores foram capturados ‘em pijamas’, dentro de seu próprio território. Houve por toda parte manifestações comemorativas.

Nicolás Maduro na chegada a Nova York, na sede da DEA (agência de combate às drogas), após sua captura em Caracas. 


O ditador venezuelano temia uma invasão americana, e passava seu tempo mudando de lugar, de um esconderijo a outro. Militares americanos, sem enfrentar grandes dificuldades, retiraram o casal de seu aposento tido como ‘inexpugnável’, dentro do próprio Fuerte Tiuna — o maior complexo militar do país, no sul de Caracas, com túneis e bunkers, abrigando também o ministério da defesa, comandos militares e paiol de armas.

O casal foi levado facilmente para os Estados Unidos, a fim de ser julgado por crimes de narcoterrorismo, tráfico de cocaína e porte de armas de guerra. Graves delitos, evidentemente, mas seu principal crime foi “cubanizar” a Venezuela, transformando um dos países mais ricos em um dos mais pobres.

A capital venezuelana sendo bombardeada

Supremacia americana

O governo americano havia oferecido várias saídas para Maduro, desde que renunciasse à presidência. Inicialmente o ditador impôs condições, mas inaceitáveis. Depois, não aceitou renunciar.

Donald Trump ordenou o ataque à Venezuela, com membros de elite da Força Delta do Exército americano. Segundo uma fonte do jornal The New York Times, serviços de inteligência da CIA, infiltrados no governo venezuelano, monitoravam a localização de Maduro e conheciam todos seus esconderijos, passos e hábitos.

A ação militar foi precisa. Em apenas duas horas, foram bombardeados lugares estratégicos, de onde eventualmente poderiam partir contra-ataques. Depois ocorreu, em apenas alguns minutos, a investida de captura, não encontrando resistência significativa. A operação foi executada com derramamento mínimo de sangue, sem nenhuma baixa entre militares americanos.

Chegada na capital cubana dos restos mortais dos agentes cubanos que faziam a guarda de Nicolás Maduro. Eles morreram durante a incursão dos EUA para capturar o caudilho venezuelano.

Surpreendidos, os militares venezuelanos e cubanos foram neutralizados. De nada valeram para a proteção de Maduro os ‘fortes’ esquemas montados por técnicos chineses e russos, com sofisticados radares e baterias antiaéreas destinadas a interceptar qualquer ataque; nem a proteção por 32 agentes comunistas cubanos, cujos cadáveres foram remetidos para Cuba no dia 15 de janeiro.

O esquema de defesa foi inútil, fracassado e vergonhoso. Uma humilhação, sobretudo para a Rússia e China, cujos sistemas de defesa demonstraram ser “gigantes com pés de barro”, quase nada em comparação com o poderio militar americano.

Como informou O Estado de S. Paulo (12-01-26), “os avançados sistemas de defesa aérea da Venezuela, fabricados pela Rússia, nem sequer estavam conectados ao radar quando os helicópteros americanos chegaram para capturar o ditador Nicolás Maduro. Segundo autoridades americanas, isso deixou o espaço aéreo venezuelano surpreendentemente desprotegido muito antes de o Pentágono lançar sua ação militar de captura”.

Por esses “avançados sistemas de defesa”, a República Bolivariana da Venezuela — como o país foi rebatizado por Hugo Chávez, quando assumiu o governo em 1999 — pagou em petróleo, só para a Rússia, 4 bilhões de dólares.

 

Maduro caiu, mas seu governo continua de pé

Há muitas incoerências nas atitudes do presidente Trump em relação à Venezuela. Só compreenderemos de modo claro a realidade quando proximamente virmos as consequências dessa ação. Não basta ter retirado Maduro do poder, se seu governo despótico continua. Sua captura deveria ser apenas um começo, para se proceder depois a uma mudança dentro do governo bolivariano.

Tudo permanecerá na mesma se, após tê-lo apeado à força e levado vivo para a prisão em Nova York, a situação política continuar, uma vez que todos os membros de seu governo são chavistas: ministros, militares, juízes, políticos encastoados nos mais altos cargos.

O jornalista Leonardo Coutinho, especialista em ameaças transnacionais, informou em artigo para a Gazeta do Povo (10-1-26): “A mineração ilegal, os negócios de armas com o Irã, a proteção de grupos guerrilheiros colombianos como o ELN e dissidentes das FARC e até mesmo a aproximação diplomática com o Hezbollah são fios de uma teia que conecta a elite governante da Venezuela a redes criminosas e terroristas transnacionais que independem de Nicolás Maduro.”

 


Tudo como dantes no quartel bolivariano?

Pairam ainda dúvidas sobre o panorama político venezuelano.

Tudo permanecerá na mesma se, por exemplo, continuarem com seus poderes de repressão quase absolutos a temida Força Armada Nacional Bolivariana e a Dirección General de Contrainteligencia Militar. Esse sistema foi criado ao longo de duas décadas com a ajuda cubana, e tem um ‘currículo’ recheado de violações aos direitos humanos, tortura, perseguição política e cruel repressão aos manifestantes contrários ao governo.

Tudo permanecerá na mesma, se dezenas de milhares de civis chavistas armados continuarem controlando casa por casa; e se os milhares de milicianos cubanos e os chamados “coletivos” (uma espécie de ‘polícia popular’ ou quadrilha de terroristas urbanos) continuarem a intimidar, torturar e executar cruelmente aqueles que se opõem à implantação da ditadura comunista do proletariado, batizada pelo coronel Hugo Chávez com denominação ‘tranquilizante’: Socialismo do Século XXI.

Tudo permanecerá na mesma, se o governo formado por Maduro continuar dando guarida ao narcotráfico; aos responsáveis pela astronômica corrupção de chavistas que aparelharam o Estado; e aos responsáveis pelo sucateamento do setor energético e petrolífero, atualmente enferrujado, caindo aos pedaços por falta de manutenção. Alguns especialistas afirmam que, em alguns casos, é melhor começar do zero do que reformar essa sucata. A própria indústria do petróleo, que era a riqueza principal do país, encontra-se quebrada devido à estatização socialista, e o que sobrou foi adquirido por russos e chineses.

Pelo contrário, tudo melhorará se uma sábia ação americana conseguir ‘descubanizar’ a outrora próspera nação, nascida com o nome de ‘pequena Veneza’ (Venezuela). Tudo melhorará se conseguir livrá-la da ingerência russa, chinesa, iraquiana e cubana. Seria assim possível salvar a o país das garras do comuno-chavismo, e seu povo estaria livre para escolher novos dirigentes e reerguer a Venezuela que jaz na miséria.

Se isso acontecer, poder-se-á aplaudir a ação americana, que de fato terá valido a pena. Mas se limitar-se à prisão de Maduro, permanecendo seus sequazes na cúpula do governo, Trump terá falhado. E será talvez uma das maiores falhas de seu governo.

 

Presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, junto com a cúpula “chavista” que continua à cabeça do governo após a prisão de Maduro [Foto: @Miraflores]

Governo Maduro sem Maduro

Sobre o curto período pós-Maduro, uma das incoerências na política do governo Trump é estabelecer relações com a atual presidente interina, Delcy Rodríguez Gómez, que era vice do ditador venezuelano. Se Maduro era presidente ilegítimo, logicamente a vice-presidente também o é, pois ambos foram eleitos fraudulentamente.

Inicialmente a Sra. Rodríguez condenou a invasão americana: “Não seremos uma colônia, nem escravos dos EUA”. Depois afirmou querer aliança com os EUA, a fim de colaborar trabalhando juntos. Soa isso muito estranho, pois ela sempre foi uma fanática comuno-chavista ‘anti-imperialista’. Seria essa uma aliança apenas para conseguir sobreviver no poder, juntamente com seus companheiros sequazes de Maduro? Ou convocará novas eleições, conforme exige a lei venezuelana? Serão também estas fraudadas?

Soa ainda mais estranho que Trump tenha manifestado desejo de se aliar a ela. Seria isto uma continuação do ‘chavismo’, sem Chávez e sem Maduro. Trump advertiu que, se a Sra. Rodríguez “não fizer a coisa certa, vai pagar um preço muito alto, provavelmente maior do que Maduro”. Mas depois elogiou-a como “uma pessoa formidável”. A marca política de Trump tem sido a imprevisibilidade, podendo-se aplicar a ele o que jocosamente dizia Nelson Rodrigues sobre as incertezas do Brasil: “Até o passado é imprevisível”...



Em carta de 12 de janeiro à Casa Branca, a prefeita de Miami-Dade, Daniella Levine Cava [foto], manifestou-se contrária à aliança Trump/Rodríguez, pedindo ao presidente americano que formalize imediatamente a liderança de Edmundo González Urrutia e
María Corina Machado, pois González comprovadamente obteve 67% dos votos nas eleições presidenciais de julho/2024, mas Maduro ‘decretou’ sua ‘vitória esmagadora’ sobre o adversário. E negou-se a apresentar as atas, como é sabido.1 Com o atendimento do pedido de Levine Cava, a legitimidade de ambos se reforçaria para governar a Venezuela.2

Como conseguirão governar, se todo o staff comuno-chavista permanece no poder? Um deles é Diosdado Cabello, o todo poderoso ministro do Interior e mentor de Maduro, uma das figuras mais dominantes do chavismo. Acusado de tráfico de drogas, ele era procurado pela justiça americana mediante a recompensa de 25 milhões dólares por informações que levassem à sua prisão. Isso é apenas um exemplo para se temer que o ‘madurismo’ continue, mesmo sem Maduro, se persistirem no comando autoridades desse naipe, assim como toda a nomenclatura militar.

Apesar da extrema pobreza, o país conta com 2.000 generais e almirantes, que dominam as grandes instituições e empresas. Esse número é mais que o dobro do quadro militar dos EUA. No Brasil, com população sete vezes maior que a da Venezuela, eles são 396.

No dia seguinte ao encontro de María Corina com Trump na Casa Branca, em 15 de janeiro (quando ela o presenteou com a medalha do recebida como Prêmio Nobel da Paz 2025), em Washington ela teceu fortes críticas à nova mandatária da Venezuela, acusando-a de comunista (o que é público e notório) e de manter laços com Moscou e Teerã (o que parece de toda evidência).

 


Divisão do mundo em três zonas de influência

O mandatário americano disse também que vai administrar a Venezuela: “Vamos liderar o país até que possamos garantir uma transição segura, adequada e sensata.” Como isso se fará? Com envio de tropas? Ou fazendo alianças com o próprio governo comuno-bolivariano? Alguns analistas internacionais insinuam que, já antes da operação que capturou o caudilho marxista, membros do governo venezuelano, entre eles a Sra. Rodríguez, já estavam em conversações com membros do governo americano. O que eles tramaram?

Caracas nega tal diálogo. Mas, caso ele se confirme, revelaria uma nova estratégia de intervenção no estilo trumpismo. Estilo bem diverso da intervenção feita no Iraque, em 2003, no governo de George W. Bush. Ou seja, intervenção sem derrubar um governo, mas aliando-se com ele, sem se importar com a sua ideologia.

Dois dias após a captura de Maduro, o Departamento de Estado dos EUA publicou no X (antigo Twitter) a seguinte mensagem: “Este é o NOSSO hemisfério, e o Presidente Trump não permitirá que nossa segurança seja ameaçada.” A fim de manter a hegemonia regional, os EUA pretendem impedir a influência geopolítica de potências externas no bloco constituído pelas três Américas.

Vamos aguardar e observar os acontecimentos, pois ainda é cedo para se concluir algo preciso. Mas pode-se levantar outra pergunta importante, tendo em vista uma futura conclusão: Concordarão a Rússia e a China em os EUA fiquem se ocupando com a ‘administração da Venezuela’ e de outras nações do Hemisfério Ocidental, para que estas sejam ‘quintais dos EUA’? Enquanto isso, os russos e chineses vão se ocupar de outras partes do mundo.

Seria um ressurgimento da velha “Doutrina Monroe”. O republicano James Monroe (1758-1831), duas vezes presidente dos EUA, implementou essa política (que se pode resumir no lema “A América para os americanos”) para aumentar a influência americana nas Américas em detrimento da influência na Europa.

Nessa nova “Doutrina Monroe”, que está sendo divulgada como um “Trump Corollary” (Corolário Trump), os EUA marcariam fortemente sua presença nas Américas, ficando out (fora do seu ‘quintal’) todos os demais países, sobretudo Rússia e China. Atualmente é bem forte a presença chinesa, devido aos seus empreendimentos não só na Venezuela, mas também no Brasil e países vizinhos.

Com tal projeto estratégico, os EUA se despreocupariam da Europa e do resto do mundo, deixando os russos e os chineses livres para continuarem seus intentos de conquista de outros ‘quintais’. Estariam ‘costurando’ tal projeto para que não se intrometa um no ‘quintal’ do outro? Assim, Putin, o novo ‘czar’ da Rússia, poderia livremente continuar sua tentativa de tomar a Ucrânia, em seguida outros territórios que eram dominados pela antiga URSS. Quanto a Xi Jinping, uma espécie de novo Imperador da China comunista, estaria livre para empreender a conquista de Taiwan, e depois outras nações asiáticas.

Soa como combinação maquiavélica uma divisão do mundo em três zonas de influência: uma com os EUA, outra com a Rússia e outra com a China. Terão os três mandatários dessas nações combinado dividir assim o mundo? Desejam eles estabelecer um triunvirato global ditando os rumos da política internacional? Fiquemos muito atentos a essa hipotética manobra revolucionária.


Confirmando tal hipótese, e r
eafirmando a nova “Doutrina Monroe”, o governo americano publicou em dezembro último um documento oficial de 33 páginas, intitulado National Security Strategy (Estratégia Nacional de Segurança), disponível integralmente no site da Casa Branca (link abaixo)3, no qual afirma taxativamente: “Após anos de negligência, os Estados Unidos irão reafirmar e aplicar a Doutrina Monroe para restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental e para proteger nossa pátria e nosso acesso a localidades geograficamente estratégicas em toda a região.”

 

Encontro entre Maduro e Lula no Palácio do Planalto (Ricardo Stuckert/PR)

Qual a posição do Brasil?

Envergonhando o Brasil, e negando todas as evidências de que o povo venezuelano vive oprimido por uma ditadura, em 2023 Lula da Silva estendeu tapete vermelho para Maduro, recebendo-o em Brasília com todas as pompas, como se fosse um legítimo presidente de República.

No caso atual, Lula condenou a intervenção norte-americana como sendo uma interferência num “país soberano”. Ele, que sempre apoiou a ditadura chavista e trata Maduro como “companheiro”, disse que “os bombardeios em território venezuelano e a captura de seu presidente ultrapassam uma linha inaceitável”.4 No entanto, não condenou as referidas ingerências comunistas russa, chinesa, iraniana e cubana. A julgar por suas próprias palavras, a Venezuela não pode ser tutelada pelos EUA, mas pode sê-lo pela China, Rússia, Irã e Cuba.

O que era negado por Caracas e Havana, o próprio ditador cubano, Miguel Díaz-Canel — vendo a ilha castrista no “apagão”, e agora percebendo que ela está ficando até sem o petróleo venezuelano —, acabou admitindo a interferência do regime de Cuba na Venezuela, com a atuação de agentes comunistas, afirmando que em Caracas “perderam a vida em ações combativas 32 cubanos, que cumpriam missões de representação das Forças Armadas Revolucionárias e do Ministério do Interior”.5

Como vimos, de há muito a Venezuela não é mais um “país soberano”, ao contrário do que alegou Lula. Além da interferência da China, Rússia, Irã e Cuba, encontra-se invadido internamente pelas gangues chavistas que controlam tudo em todas as cidades, quarteirão por quarteirão.

Em artigo assinado por Luiz Inácio Lula da Silva no The New York Times, em 18-1-26, ele voltou a fazer algumas críticas à operação que capturou Maduro. Entretanto, percebendo que Trump estava mantendo diálogo com o governo chavista, atenuou um pouco seu discurso. Mas fingiu desconhecer que o povo venezuelano não é livre: “O futuro da Venezuela deve permanecer nas mãos do seu próprio povo”.6

O povo venezuelano não pode sequer se manifestar. Quem for visto, por exemplo, comemorando a prisão de Maduro, poderá ser denunciado e encarcerado, como se tivesse cometido um ato terrorista contra o Estado. Não é sem razão que, numa população de 28 milhões habitantes, mais de 8 milhões se exilaram contra a própria vontade, para fugir da repressão, do desemprego, do desabastecimento, da miséria e da fome. A maioria desses milhões de desditosos conheceu — como também conheci, quando vivi em Caracas — a impressionante prosperidade ‘saudita’ do país antes da tomada do poder pelo déspota Hugo Chávez, em 1999. A Venezuela produzia então, segundo fontes da OPEP, 3 milhões de barris de petróleo/dia. Atualmente, devido à falta de investimento e deterioração de suas estruturas, a média não chega a um milhão barris/dia.

Jovens da TFP venezuelana em campanha pública em Caracas


Tirania socialista da Venezuela perseguiu a TFP

Vem de longe essa tragédia que comunistizou a Venezuela. Em 1984, ascendeu ao governo o presidente esquerdista Jaime Lusinchi, cujas medidas socialo-comunistas prepararam a situação política para a tomada do poder por Hugo Chávez em 1999.

No ano em que Lusinchi se tornou presidente, a Asociación Civil Resistencia — entidade venezuelana coirmã das TFPs (Tradição, Família e Propriedade) — sofreu um espantoso ‘estrondo publicitário’, que bombardeava diariamente, de modo torrencial, por meio da mídia impressa e falada, as mais injuriantes e inverossímeis suspeitas e delirantes difamações. Todas elas eram refutadas em manifestos publicados por Resistencia. Os difamadores não replicavam. Pelo contrário voltavam a repetir as mesmas calúnias, sem apresentarem uma prova sequer.


Apesar de inverídicas as calúnias, elas serviram como pretexto para o governo socialista de Lusinchi fechar Resistencia, por meio de um tirânico decreto do Poder Executivo datado de 13-11-1984. Esse decreto foi lido em rede de televisão pelo ministro da Justiça, José Manzo González, que em março de 1988 foi obrigado a renunciar devido ao seu envolvimento com o tráfico de drogas. Decreto ilegal e sem fundamento jurídico, entretanto muito aplaudido por líderes e órgãos comunistas, como o Izvestia (edição de 20-11-1984) [foto ao lado], órgão oficial do governo da URSS, e a revista cubana Bohemia (de 7-12-1984), vinculada ao Comitê Central do Partido Comunista de Cuba.

         Devido ao fechamento da entidade coirmã da TFP, seus membros foram obrigados a deixar a Venezuela, a fim de não serem perseguidos e presos por ordem do governo socialista. Em 15-5-1986, o Judiciário emitiu sentença definitiva exarando como carentes de fundamento as acusações assacadas contra a TFP (vide no final deste artigo) comunicado que Catolicismo publicou em sua edição de dezembro de 1984).

         Encerrando esta parte do artigo, levanta-se uma pergunta: se as atividades anticomunistas da TFP na Venezuela não tivessem sido proibidas, e assim silenciada sua voz, teria o país sido tomado por líderes marxistas, que o arruinaram tão profundamente como estamos vendo hoje? Muitos afirmaram que, para se implantar ali um regime comunista, antes seria preciso ‘cancelar’ a TFP.

         A atual presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez (apelidada la czarina, devido ao seu imenso poder), manifestou-se contra a TFP, apesar de a entidade estar ausente do país desde seu injusto fechamento em 1984. Falando na Assembleia Nacional Venezuelana em 3 de abril de 2024, contra aqueles que ela considera “fascistas” — e que criticam o governo Maduro —, atacou sem nenhum fundamento a TFP da Venezuela: “Havia [referindo-se a 1984] a chamada seita Tradição, Família e Propriedade (TFP), composta por jovens membros de famílias anticomunistas ricas da Venezuela, de ascendência e sobrenomes, onde era realizado treinamento paramilitar, e que foi finalmente proibida pelo então presidente da República Luis Herrera Campíns”(sic).7

         Ela se enganou no que diz respeito à TFP, como também quanto ao presidente da República na época. Em novembro de 1984, quando a TFP na Venezuela foi proibida, o presidente não era Luis Herrera Campíns, mas sim o socialista Jaime Lusinchi.

A Sra. Rodríguez repetiu o mesmo que anos atrás também disseram contra a TFP os ditadores Hugo Chávez e Nicolás Maduro. Não vou reproduzi-las aqui, mas os que desejarem conhecer melhor esse ‘estrondo publicitário’ podem vê-lo nos links abaixo.8 e 9

La Virgen de Coromoto, la Reina y Patrona de Venezuela [Foto PRC]


Queira Nossa Senhora de Coromoto — que no terceiro centenário de sua aparição (celebrado em 1952) foi coroada Rainha e Padroeira da Venezuela — interceder pelos seus sofridos filhos venezuelanos, dando-lhes forças para resistir à narco-ditadura marxista, agora com nova face. Que o povo venezuelano consiga reconstruir a nação, salvando-a do regime de terror iniciado por Lusinchi, agravado por Chávez e Maduro. E que Ela também nos ajude a resistir aos “erros do comunismo espalhados pelo mundo”, a fim de a desgraça que arruinou a Venezuela não venha a se repetir no Brasil.

 

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Notas:

1.        https://catolicismo.com.br/acervo/num/0885/P01.html

2.        https://www.diariolasamericas.com/florida/levine-cava-insta-trump-oficializar-liderazgo-gonzalez-y-machado-y-reactivar-el-tps-venezolanos-n5388680

3.        https://whitehouse.gov/wp-content/uploads/2025/12/2025-National-Security-Strategy.pdf?utm_source=chatgpt.com

4.        https://www.reuters.com/business/aerospace-defense/brazil-says-us-crossed-unacceptable-line-over-military-strikes-venezuela-2026-01-03/

5.        https://veja.abril.com.br/coluna/mundialista/o-que-faziam-32-segurancas-cubanos-no-circulo-mais-intimo-de-maduro/

6.        https://g1.globo.com/economia/noticia/2026/01/18/lula-artigo-eua-venezuela-nyt.ghtml

7.        https://diariolajornada.com/?p=148335

8.        https://catolicismo.com.br/acervo/num/0408/P06-07.html

9.        https://www.pliniocorreadeoliveira.info/venezuela-coleccion-de-documentos-para-la-historia-en-espanol-y-en-portugues/#gsc.tab=0

 

Reprodução de fotos de jornais e reportagens de televisão da perseguição contra a Associação Civil Resistência na Venezuela. Nas duas últimas fotos, registra-se a invasão da sede pela turbamulta de agitadores esquerdistas


EM 1984, O FECHAMENTO DA ENTIDADE VENEZUELANA COIRMÃ DAS TFPs

Perseguição ideológico-religiosa na Venezuela.
Nuvem negra baixa sobre o país irmão

Fonte: Catolicismo, Nº 408, dezembro/1984

 

A DIREÇÃO nacional da Ação Democrática (AD) (partido governamental filiado à Internacional Socialista) deliberou ontem, por unanimidade, pedir ao Presidente da República da Venezuela que cancele o funcionamento da "Associação Civil Resistência".

Esta última é uma entidade conhecida em todo o país, pois há vários anos vem prestando, dentro da ordem e da lei, os mais insignes serviços para a preservação daquela nação contra o socialismo e o comunismo, por meio do estímulo aos valores da tradição, família e propriedade.

Com essa atitude, a AD tenta arrancar o caso da decisão do Judiciário e pôr ponto final arbitrariamente a uma longa perseguição ideológico-religiosa cujos numerosos lances abaixo se descreverão sumariamente.

Está, assim, prestes a baixar uma negra nuvem de tirania e de perseguição sobre a nação irmã, cujas liberdades começam a ser calcadas aos pés por motivos iniludivelmente ideológicos.

* * *

Com efeito, a partir de 6 de outubro [de 1984], uma torrencial campanha publicitária começou a se desenvolver simultaneamente contra "Resistência" pelas colunas de todos os jornais caraquenhos. Distorções, difamações, calúnias que procuravam envolver, com "Resistência", o conjunto das organizações TFP [Tradição, Família e Propriedade], passaram a ser veiculadas pela imprensa e pelas TVs. E com os mesmos modos sofisticados de certa propaganda difamatória moderna: imputações berrantes e todas elas carentes de provas, repetidas em meio a uma zoeira incessante, hipervalorização dos fatos insignificantes.

Se necessário, de tudo isto será informada mais pormenorizadamente, e em tempo oportuno, a nação brasileira.

Desta orquestração publicitária ensurdecedora se retirou logo de início o maior e mais conceituado quotidiano venezuelano, "El Universal", o qual vem mantendo atitude exemplar, imparcial no assunto.

Qual a origem dessa ação publicitária, em cuja dianteira figuram fogosamente, desde o início, os órgãos de informação das principais correntes socialistas, e o boletim oficial do PC do país?

A pergunta, que um número cada vez maior de venezuelanos vinha se pondo, começou a encontrar resposta quando, no dia 15 de outubro, os deputados José Antonio Martínez, do Movimento Eleitoral do Povo (socialista), e Henrique Ochoa Antich, do Movimento para o Socialismo, pediram que a Comissão de Política Interior da Câmara dos Deputados apurasse a realidade das versões veiculadas contra "Resistência" pela imprensa e pela televisão.

Certa de sua inteira inocência, a entidade assim visada declarou pela imprensa, logo depois de aprovada a investigação pela Comissão da Câmara, que colaboraria de bom grado com esta para a apuração da verdade.

Mas, logo desde a primeira — e até aqui única — reunião da referida comissão, ficou claro que "Resistência" não estava diante de um órgão voltado a investigar, mas sim a perseguir.

Com efeito, o deputado socialista David Moralles Bello, presidente da Comissão, abriu os trabalhos dela com a leitura de um violento libelo de acusação contra "Resistência". Os demais componentes da mesa da Comissão eram absolutamente solidários com a atitude do Sr. Moralles Bello. E quando o Sr. José Rodríguez Iturbe, deputado democrata-cristão, se levantou para pedir que fosse examinado antes de tudo se havia provas dos fatos alegados contra "Resistência", e quais deles eram ilegais, esta proposta proba e de bom senso elementar foi acolhida agressivamente pela mesa, do que se originou até um incidente.

Justamente receosa dos resultados a que pudesse chegar uma Comissão de Inquérito desse naipe, "Resistência" se valeu de um recurso que o Processo Penal do país lhe faculta. Isto é, "Resistência" requereu ao Poder Judiciário que abrisse uma completa investigação sobre suas atividades. Assim, um poder apolítico e imparcial, por definição, iria julgar das provas — ainda não mencionadas por ninguém — e da pretensa ilegalidade das ações de "Resistência". Mais límpida, mais honesta, mais pacífica a ação da entidade não poderia ser.

Pelo contrário, mais agressiva e mais arbitrária não poderia ser a atitude do socialismo reinante na Venezuela. É o momento de dizer uma palavra sobre este.

*

As eleições de dezembro de 1983 deram a maioria à Ação Democrática (AD), partido filiado à Internacional Socialista. Esta última tem, aliás, em Caracas, uma sede ativa.

Em consequência do voto socialista majoritário, a representação parlamentar da AD — acrescida de pequenas bancadas de outras correntes socialistas e de representantes do PC — ficou com a maioria no Legislativo. Foi eleito também o candidato da AD à presidência da República, Sr. Jaime Lusinchi. E o seu ministério também pertence à AD. A esquerda socialista domina o país. Não espanta, pois, que, mesmo antes de instalada a investigação parlamentar, já os ministros do Interior e da Justiça tivessem feito declarações (aliás espantosamente inconsistentes do ponto de vista legal) contra "Resistência".

Igualmente não espanta que, também anteriormente à investigação parlamentar, houvesse sido aberta, por iniciativa do Ministério Público, uma ação penal contra "Resistência" por acusações rocambolescas, como sequestro, lavagem cerebral, uso de drogas etc.

Esta ação, comportando longos interrogatórios de estilo nazicomunista, que constituíam clara tortura moral, evidentemente não deu em nada.

No dia 12 do corrente [novembro de 1984], a "Fiscalía", ou seja, o Ministério Público, iniciou, pois, outra ação análoga.

Como acaba de ser dito, havia duas ações judiciais em curso, uma de iniciativa de "Resistência" e outra do Ministério Público, quando, na manhã de hoje, os jornais caraquenhos deram uma notícia espantosa. Com o efeito evidente de arrancar a matéria ao Poder Judiciário, a direção nacional da Ação Democrática majoritária e socialista, reunida no dia 12 do corrente, deliberou por unanimidade de votos pedir ao Sr. Presidente da República que decretasse a "proscrição" de "Resistência". Medida que acarretaria o fechamento da sua sede, o sequestro de todos os bens que ali se encontrassem, e a dispersão da entidade.

É digno de nota que o pedido procedente dos arraiais políticos socialistas não consta que tenha sido apoiado por uma só entidade política com expressão na sociedade venezuelana. Com exceção de três sacerdotes aggiornati e de um grupo cerrado de 5 ou 6 casais com filhos maiores de idade inscritos em "Resistência". Este grupo, uma minoria de dez por cento do total dos pais com filhos na entidade, desde o começo agiu em exata sincronia com os líderes socialistas. E, ideologicamente opostos a "Resistência", faziam a esta críticas sem consistência jurídica nem científica do bem conhecido gênero "lavagem cerebral", "seita" etc.

Segundo as TVs e rádios estão anunciando com insistência na Capital venezuelana, de um momento para outro o chefe de Estado poderia tomar essa medida. E à margem do Judiciário.

Considerada em seu conjunto esta dramática sucessão de fatos, importa notar um aspecto, quer do estrondo [publicitário], quer dos debates da Comissão de Investigação. E o realce ímpar dado pelos adversários de "Resistência" às acusações de caráter religioso levantadas contra a entidade. Antes de tudo, esta imputação tipicamente novelesca: que membros da mais alta aristocracia europeia, entre os quais o príncipe alemão de Thurnund Taxis, o arquiduque Otto de Habsburgo e os príncipes da Casa de Bragança (ramo português e ramo brasileiro) haviam maquinado as tentativas de assassinato contra João Paulo II na Praça de São Pedro e em Fátima. "Resistência" era apontada como longa manus dessas personalidades, e tramava um atentado sacrílego contra João Paulo lI, proximamente em visita à Venezuela!

Ademais, "Resistência" era fortemente interrogada sobre sua posição perante o Concílio Vaticano II, as reformas litúrgicas estabelecidas por este, o movimento renovatório da Igreja pós-conciliar. Era evidente o propósito de perseguir com tudo isto elementos tradicionais da Igreja, dando, entretanto, livre curso aos elementos progressistas.

Ora, num Estado separado da Igreja, como o é o da Venezuela, tais perguntas extrapolam evidentemente do quadro legal, e conferem a toda esta perseguição contra "Resistência" o caráter de uma perseguição que, além de nitidamente ideológica (socialismo versus antissocialismo)é também religiosa.

No momento em que esta nota é redigida, o que se sabe pela imprensa é que a direção da AD foi, incorporada, ao chefe de Estado para pedir-lhe que consume a tenebrosa ação persecutória, silenciando o judiciário, e chamando a si a imolação arbitrária de "Resistência".

*

Diante deste fato, a TFP brasileira não vê meios senão denunciar que a tirania socialista vai baixando sobre a Venezuela como uma densa nuvem escura. Um ato persecutório atrai sempre outros: "Um abismo clama por outro abismo", diz a Escritura (Ps. 41, 8).

À maneira de seu malogrado e querido amigo Salvador Allende, é de temer que o Sr. Jaime Lusinchi aceda às instâncias do partido que o elegeu, e que seja levado pelo curso dos fatos a fazer cessar outras e depois mais outras oposições.

A experiência socialista mostra que, na América do Sul, ela é inseparável de um clima de suspeitas, de intolerância e de perseguição.



Protestando ante Deus e ante Nossa Senhora de Guadalupe, Patrona das três Américas, contra esta perseguição ideológico-religiosa de que "Resistência" está sendo objeto, a TFP brasileira alerta para tal a consciência de quantos costumam erguer-se indignados, sempre que consideram ter sido violado um direito humano em pessoas de esquerda. Homens os há, tanto na esquerda, quanto no centro ou na direita. É de esperar que a tutela dos direitos humanos não lhes seja menos cara quando são perseguidos os que são de direita, como os beneméritos jovens de "Resistência".

São Paulo, 13 de novembro de 1984

Paulo Corrêa de Brito Filho

Diretor de Imprensa da TFP

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