4 de abril de 2026

“RESSUSCITOU AO TERCEIRO DIA”


Na edição anterior publicamos as 15 meditações, especialmente apropriadas para a Semana Santa, sugeridas por Santo Afonso Maria de Ligório (1696-1787), extraídas de sua obra A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo

Esse grande Doutor da Igreja, fundador dos missionários Redentoristas, aconselhava refletirmos com fervor nas estações da Via Crucis d´Aquele que sofreu e morreu por cada um de nós, para a Redenção do gênero humano. 

Segundo o santo autor, o que mais favorece a salvação eterna das almas, levando-as à conversão e à santidade, são essas meditações quando feitas frequentemente.

Continuando nesse sacrossanto tema, segue um extraordinário sermão de Mons. Tihamer Toth, pronunciado na capela da Universidade de Budapeste, na qual foi professor de eloquência sacra. Foi também superior do Seminário Central da Hungria e Bispo-coadjutor de Veszprém, sagrado em 1938 pelo Papa Pio XI. 

Como se sabe, a vida de Nosso Senhor não termina com o 4º artigo do Credo “padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado”. Nele, também rezamos que Ele “ressuscitou ao terceiro dia” — verdade fundamental que é o pilar de nossa Fé, como afirmou taxativamente o Apóstolo São Paulo: “Se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa pregação, vã também é a vossa fé” (I Coríntios, XV, 14). 

É o que explicita com muita verve e unção o célebre orador e escritor húngaro, demonstrando por que a Páscoa é a festividade magna da Cristandade e a Ressurreição um dos fatos mais comprovados da História Antiga. 

Da Redação de Catolicismo

Cristo Triufador – Maerten de Vos (1532–1603). Museu Real de Belas Artes de Antuérpia, Flandres, (Bélgica).


ELE RESSUSCITOU!

MEUS IRMÃOS,

Se o nosso Símbolo [o Credo, conhecido também como “Símbolo dos Apóstolos”] terminasse no ponto a que chegamos no comentário que dele fizemos nos sermões que ouvistes, então a fé cristã — apesar de sua incomparável beleza — permaneceria um sistema filosófico inacabado, incompleto e impotente.

Se o “Credo” terminasse onde parei na minha última instrução — “padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e foi sepultado” —, a carreira terrestre de Nosso Senhor Jesus Cristo terminaria numa nota trágica, então todo o Cristianismo desabaria como um saco vazio, como um edifício sem estrutura, como uma casa sem fundamentos.

Certamente, mesmo assim o Cristianismo ainda seria um magnífico sistema filosófico, a doutrina de Cristo permaneceria ainda um conjunto de sublimes verdades morais; mas quem poderia ainda observar, ao preço de numerosos sacrifícios, os difíceis mandamentos de Cristo, quem poderia amar sem vacilar até o último suspiro a fé cristã, se o seu Fundador não fosse senão um homem — um homem virtuoso, um sábio, um santo, mas apenas um homem que seus inimigos insultaram, pisaram aos pés e mataram?

Sim, se o nosso Símbolo ficasse por aí!

Mas não fica. Há uma continuação. E essa continuação proclama algo particularmente impressionante, inaudito, incrível, que jamais aconteceu: “Ressuscitou dos mortos ao terceiro dia”. São Paulo já o havia compreendido e diz expressamente que toda a fé cristã gira em torno desta questão: Cristo ressuscitou ou não? Com efeito, “se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa pregação, vã também é a vossa fé” (I Coríntios, XV, 14).

É verdade! Se Cristo não ressuscitou, que me importa a mim, homem do século XX, que tenha vivido outrora, há 2000 anos, sobre a terra, um homem extremamente bom, extremamente sábio, extremamente amável, cheio de amor pelos homens, que curava os doentes, que perdoava os pecadores… que me importa, se ele também morreu, se também foi sepultado e se também virou em pó?… Talvez eu o admirasse como se admira um grande homem, talvez o honrasse como se honra um homem de bem — mas amá-lo, adorá-lo, observar seus mandamentos por uma vida de sacrifícios, permanecer-lhe fiel durante toda a vida? Quem sacrificaria a própria vida por um cadáver reduzido a pó? Quem? Se Cristo não ressuscitou…

Mas se Ele ressuscitou?… Sim, se Ele ressuscitou? Se Ele me impõe respeito não somente por uma vida de virtude, por palavras de bênção, pelo idealismo de seu caráter, por seus milagres, mas se Ele ainda marcou finalmente sua vida incomparável e suas palavras que proclamam sua consciência divina com o selo mais grandioso, mais extraordinário, mais inaudito: se Ele saiu por seu próprio poder do túmulo?

E se eu vejo que milhares e milhões aceitaram o martírio por esta fé no Ressuscitado; se vejo que, sobre as pegadas do Ressuscitado, floresceram as virtudes mais heroicas e mais belas? Então?

Então? Então não resta senão reconhecê-lo: Cristo não pode ter sido um homem como eu, como vós, como qualquer outro. Cristo era Deus. Inclinar-se diante d’Ele é prova de sabedoria; insurgir-se contra Ele é pura loucura.

Sim, é exatamente isso, se Cristo ressuscitou.

Também é compreensível que, há 19 séculos [hoje, 20 séculos], os inimigos do Cristianismo tenham tentado tudo para aniquilar esta fé na ressurreição. Com efeito, eles sabem muito bem: se Cristo realmente ressuscitou, isso é um sinal tão inaudito, tão impressionante de sua divindade, que seria loucura fazer algo contra Ele e continuar ainda a combater o Cristianismo.

Importa, portanto, a nós, cristãos fiéis, aprender a conhecer de modo nítido e claro este dogma fundamental da nossa fé.

I. Como sabemos que Cristo realmente ressuscitou? — perguntar-nos-emos na primeira parte do sermão de hoje. Depois,

II. Vamos encarar claramente os expedientes pelos quais os inimigos de Cristo querem negar a sua ressurreição.

As santas mulheres encontram o túmulo vazio — Fra Angelico (1395–1455). Museu de São Marcos, Florença, Itália.


I
COMO SABEMOS QUE CRISTO RESSUSCITOU?

A ressurreição de Cristo no dia de Páscoa não é uma lenda, mas um fato histórico. Ao menos um fato tão certo e garantido por tantos testemunhos oculares e auriculares quanto qualquer outro acontecimento da história do mundo. É um fato histórico que Nosso Senhor realmente morreu e foi sepultado. É um fato histórico que, no dia de Páscoa, os amigos e os inimigos de Cristo foram ao seu túmulo e o encontraram vazio. Enfim, é um fato histórico que Nosso Senhor, depois da Páscoa, apareceu com bastante frequência a numerosas pessoas e falou com elas; portanto, Ele vivia.

É verdade, já faz muito tempo que Cristo ressuscitou, já se passaram 19 séculos. Mas A) os testemunhos da Sagrada Escritura e B) as mudanças ocorridas na alma dos discípulos tornam este acontecimento pelo menos tão crível — e até muito mais crível — do que qualquer outro episódio da história antiga.

A) A Sagrada Escritura é, em primeiro lugar, testemunha da ressurreição de Cristo.

a) Basta, meus irmãos, tomar os Evangelhos e ler atentamente o capítulo XXVIII de São Mateus, o capítulo XVI de São Marcos, o capítulo XXIV de São Lucas e o capítulo XX de São João.

Todos afirmam unanimemente: Cristo morreu na cruz, depois foi sepultado, uma grande pedra foi rolada diante do túmulo... e esse Cristo bem morto ressuscitou na manhã de Páscoa.

b) Mas não são apenas os evangelistas que afirmam e proclamam a ressurreição de Cristo; são também os outros apóstolos.

São Pedro, o primeiro, afirma-o em seu sermão de Pentecostes, portanto já 50 dias após a ressurreição. Pedro começa assim a pregar diante do povo reunido na praça.

Vistes Jesus na cruz? — pergunta ele.

Nós O vimos — respondem.

Vistes que Ele estava morto? — Nós O vimos.

Vistes como o sangue e a água correram do seu coração aberto pela lança? — Nós o vimos.

Pois bem! Eu, e comigo seus apóstolos e discípulos, nós O vimos vivo depois de sua morte, nós O vimos ressuscitado. “A este Jesus, Deus o ressuscitou: do que todos nós somos testemunhas” (Atos, II, 32).

Que Cristo tenha ressuscitado, São Pedro apresenta a coisa como um fato conhecido que não necessita de prova.

Ele fala disso com tanta naturalidade e serenidade como alguém que sabe que todos em Jerusalém estão cientes, e que ninguém pode levantar objeção contra esse fato bem conhecido. E daquele gigantesco auditório, 3000 homens se converteram naquele dia (Atos, II, 41).

São Pedro fala igualmente da ressurreição de Cristo à porta do Templo de Jerusalém, após a cura do paralítico (Atos, III, 15). Ele não prova a ressurreição de Cristo, mas simplesmente a invoca como um fato bem conhecido em toda Jerusalém.

Mas fora de Jerusalém foi necessário prová-la, pois nem todos sabiam o que havia acontecido na capital. Assim, na casa de Cornélio, em Cesareia, São Pedro falou assim: “Quanto a nós, somos testemunhas de tudo o que Ele fez na região da Judeia e em Jerusalém. Depois O mataram, suspendendo-O no madeiro. Mas Deus O ressuscitou ao terceiro dia e permitiu que Ele se manifestasse... a nós, que comemos e bebemos com Ele depois de sua ressurreição dentre os mortos” (Atos, X, 39-41).

Ao lado de São Pedro, também São Paulo prega a ressurreição de Nosso Senhor. Em Antioquia, ele fala assim aos judeus: “Depois de cumprirem tudo o que estava escrito a respeito d’Ele, tiraram-nO da cruz e O colocaram num sepulcro. Mas Deus O ressuscitou dentre os mortos. Durante muitos dias Ele se manifestou àqueles que com Ele haviam subido da Galileia para Jerusalém, e que agora são suas testemunhas diante do povo” (Atos, XIII, 29-31).

Outra vez ainda ele dá testemunho com estas palavras: “Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras; e apareceu a Cefas, depois aos Doze. Em seguida apareceu de uma só vez a mais de quinhentos irmãos… Depois apareceu a Tiago, depois a todos os apóstolos. E, por último de todos, apareceu também a mim” (I Coríntios, XV, 3-8).

B) Mas, além desse testemunho patente da Sagrada Escritura, a transformação espiritual dos apóstolos é também um testemunho eloquente da realidade da ressurreição.

Todos conhecemos o desmoronamento moral que a morte de Nosso Senhor produziu nos apóstolos. Nenhuma tempestade de granizo pode devastar a colheita como o fim lamentável do Salvador quebrou a alma dos apóstolos. Ouvi apenas com que desolada desesperança falam os discípulos de Emaús: “Nós esperávamos que fosse Ele quem libertaria Israel” (S. Lucas, XXIV, 21). Mesmo quando, na manhã de Páscoa, as santas mulheres vieram apressadamente e com alegria anunciar que o túmulo de Cristo estava vazio, eles permaneceram sem compreender (S. Lucas, XXIV, 22), e ainda na tarde de Páscoa trancaram cuidadosamente as portas por medo dos judeus.

E é nessas almas covardes, trêmulas e abatidas que de repente se acende a chama da coragem dos mártires. Aqueles que haviam acabado de trancar as portas atrás de si vêm agora pregar em plena praça pública e desafiam intrepidamente a proibição dos sumos sacerdotes.

Quem poderia compreender tal atitude, se Cristo não tivesse ressuscitado? Acaso um morto seria capaz de produzi-la? Não há efeito sem causa. Ora, é um fato incontestável que os apóstolos, esses simples pescadores, introduziram no mundo, no terreno religioso, moral, social e intelectual, uma mudança — poder-se-ia dizer uma proeza — tal que a História não pode apresentar fenômeno semelhante.

Quem pode dar sua explicação, se Cristo não ressuscitou? Em verdade, podemos dizer que, se se põe em dúvida a realidade da ressurreição de Cristo, então não há absolutamente mais nenhum fato histórico no mundo.

Quando o Salvador apareceu a Maria Madalena, ela O tomou por um jardineiro.


II
EXPEDIENTES CONTRA O FATO DA RESSURREIÇÃO DE CRISTO

Se examinarmos a fundo essas provas que fortalecem a nossa fé na ressurreição de Cristo, as tentativas pelas quais os inimigos de Cristo procuram esquivar-se da força peremptória do fato da ressurreição nos parecerão esforços bem miseráveis.

A) Antes de tudo, eles não sabem o que fazer com o túmulo vazio de Cristo

As santas mulheres que, na manhã de Páscoa, queriam prestar as últimas honras ao corpo de Jesus, encontraram o túmulo vazio. Aterrorizadas, informaram os apóstolos. São Pedro e São João foram imediatamente ao sepulcro e também o encontraram vazio (S. João, XX, 8). Que realmente o corpo de Jesus já não estava no túmulo é demonstrado também pelo espanto e desorientação dos sumos sacerdotes judeus; pois eles poderiam ter desmentido imediatamente a notícia que se disseminava sobre a ressurreição, se tivessem podido apresentar o cadáver de Cristo.

O túmulo estava, portanto, incontestavelmente vazio. Mas como se tornou vazio? Para onde foi o corpo?

a) Foi roubado — esta era a ideia que podia surgir primeiro no espírito. Os sumos sacerdotes judeus recorreram imediatamente a esse expediente e ofereceram dinheiro aos soldados que guardavam o túmulo para que anunciassem por toda parte: Enquanto dormíamos, os discípulos de Jesus vieram e roubaram o corpo.

Que contradição e que impossibilidade psicológica há nessa afirmação! Os discípulos medrosos e dispersos teriam de repente se tornado suficientemente corajosos para ousar aproximar-se do túmulo guardado por soldados! Os soldados afirmam ter dormido — mas, então, como viram que os apóstolos roubavam o corpo? E, se não dormiam, por que assistiram ao roubo sem agir? E se os soldados romanos, pertencentes ao exército mais disciplinado do mundo, dormiram durante a guarda, teriam permanecido sem castigo? Ora, em vez de punição, lemos que receberam dinheiro — muito dinheiro.

b) Os negadores da ressurreição compreenderam a gravidade dessas dificuldades e tentaram outra explicação: Cristo estava morto apenas em aparência; voltou a si graças ao frescor do túmulo e saiu dele.

Essa tentativa de explicação talvez seja ainda mais lamentável que a anterior.

Com efeito, é um fato certo que Cristo estava realmente morto, e não apenas em letargia.

Cristo estava morto? Poderia quase responder: jamais a morte de um homem foi mais profundamente certa do que a de Cristo. Já no caminho da cruz, Ele não era mais que uma sombra vacilante, um homem meio morto, derramando seu sangue por mil feridas. E depois: na cruz, fizeram-lhe quatro grandes feridas nas mãos e nos pés… a lança de um soldado fez-lhe uma quinta no coração… Finalmente: o túmulo selado é guardado por soldados.… Em verdade, naquela hora os homens fizeram tudo para afastar de seu caminho o profeta importuno.

Imaginemos, aliás, que Cristo, meio morto, tivesse saído do túmulo e ido até seus discípulos, que O tratassem e cuidassem, e que finalmente tivesse sucumbido aos seus ferimentos — pode-se imaginar psicologicamente que esse fim miserável tivesse produzido em almas abatidas aquele efeito sem precedentes de que falei anteriormente?

B) Mas toda essa fé dos apóstolos na ressurreição não seria pura fantasia, um produto da imaginação, uma visão, uma alucinação? Aqueles que querem escapar a todo custo à imensa força probante da ressurreição também tentaram esse expediente.

a) Mas quem poderia levar a sério essa explicação? O túmulo de Jerusalém não teria destruído toda visão e alucinação com a mão brutal da dura realidade? Se esse túmulo não está vazio, se uma grande pedra o cobre e se sob ela está Cristo morto, então toda visão é impossível.

b) Além disso, nos apóstolos faltam as condições mais elementares para uma alucinação.

Quem tem visões e está sujeito a alucinações? Não é aquele que espera algo com impaciência, febrilmente? Quando um hóspede anunciado deve chegar, já se ouvem seus passos, e, no entanto, ele não vem. Mas os apóstolos não esperavam de modo algum a ressurreição de Cristo. E mesmo quando as santas mulheres lhes trazem a notícia pela primeira vez, eles não acreditam. Os discípulos de Emaús dizem ainda à tarde que “as mulheres os assustaram”. E São Tomé não acredita, embora os outros apóstolos já tenham visto o Ressuscitado.

Eles estavam tão pouco predispostos a visões, que nem sequer reconheceram o Salvador quando Ele apareceu. Maria Madalena tomou-O por um jardineiro; os discípulos de Emaús, por um estrangeiro.

Além disso, são os homens nervosos que estão sujeitos a alucinações, e não pescadores endurecidos pela vida ao ar livre.

c) Se Cristo ressuscitado tivesse aparecido apenas uma ou duas vezes, talvez ainda se pudesse admitir que fosse apenas imaginação, uma visão, um fantasma. Mas Ele apareceu frequentemente durante quarenta dias. São Pedro encontrou-O, Maria Madalena encontrou-O. As santas mulheres encontraram-nO. Os dez apóstolos — com exceção de São Tomé — encontraram-nO. Depois, todos os apóstolos — inclusive São Tomé — encontraram-nO... e assim por diante. E quando São Paulo escreve aos Coríntios, invoca o fato de que ainda vivia entre eles um grande número de homens que tinham visto com seus próprios olhos o Salvador ressuscitado (I Coríntios, XV, 6). Pode um acontecimento histórico ser mais bem provado? Um homem isolado pode às vezes ser vítima de uma visão enganosa, mas 500 homens juntos viram Cristo — teriam todos esses 500 visto um fantasma? E, por outro lado, no quadragésimo dia, dia da ascensão de Cristo, as aparições cessaram de repente. Por quê? No entanto, as bases psicológicas permaneceram as mesmas depois.

A ressurreição de Cristo é, portanto, um fato histórico. Temos como testemunhas as santas mulheres que, ao se dirigirem ao túmulo, esperavam tudo, menos a ressurreição de Cristo. Temos como testemunhas os apóstolos que, a princípio, acolheram a notícia com hesitação; mas, quando foram convencidos por seus olhos, seus ouvidos e suas mãos da sua realidade, deram a vida por ela. Temos como testemunha a multidão dos primeiros cristãos aos quais o Salvador apareceu depois de sua ressurreição. Temos como testemunha toda a vida da Igreja, vinte vezes centenária.

Com efeito, diante da coragem dos mártires, da elevação moral e da intrepidez que resultam da fé na ressurreição, podemos com razão perguntar: se Cristo não ressuscitou, mas permaneceu no pó do túmulo, quem pode compreender tudo isso? Quem pode crer que um morto tenha podido realizar tudo isso?

A ressurreição de Cristo é a coroação de sua obra, a prova suprema de que Ele é realmente o Filho de Deus. Quando Cristo estava pregado na cruz, seus inimigos O insultavam com estas palavras: “Salvou os outros e não pode salvar-se a si mesmo; se é rei de Israel, desça agora da cruz e creremos n’Ele” (S. Mateus, XXVII, 42). Agora, porém, Cristo deu uma prova ainda maior de sua divindade. Não foi da cruz que Ele desceu, mas foi do túmulo selado que Ele saiu vivo.

Compreendemos agora por que a Páscoa é a maior festa do Cristianismo. É porque a ressurreição de Cristo é o fundamento da nossa fé, o triunfo da verdade, um encorajamento em nossa vida cheia de lutas e o sinal da nossa própria ressurreição.

A incredulidade de Tomé – Maerten de Vos (1532–1603). Museu Real de Belas Artes de Antuérpia, Flandres, (Bélgica)


Meus irmãos, é a tarde de Páscoa. Os apóstolos estão reunidos; faltam apenas dois: Judas, o traidor, e Tomé. Onde estava Tomé, não o sabemos. Os espíritos estão abatidos, cheios de angústia. O corpo de Cristo desapareceu; os sumos sacerdotes mandaram divulgar pela cidade que os discípulos o haviam roubado. Desde então não é prudente sair pelas ruas. Estão tão inquietos que trancaram cuidadosamente a porta. O que vai acontecer? O que será dos desígnios de Cristo? Como esses pescadores medrosos empreenderão a conquista do mundo?

E então… então… de repente Cristo está no meio deles. As portas ainda estão fechadas, mas Cristo está no meio deles. “Sou eu, não temais!” É como se tivesse dito: Agora é preciso acabar com esse pessimismo medroso. Vede, cumpri a minha palavra. Sou eu, eu vivo. Mas agora preciso de soldados, preciso de mártires que me deem testemunho diante do mundo.

E “os discípulos alegraram-se ao ver o Senhor”, diz a Sagrada Escritura, e uma força nova encheu suas almas abatidas. E desde então a figura sublime de Cristo ressuscitado tornou-se para eles uma fonte de energia sempre nova. Cada dia ela passa jubilosa por milhões de lábios: “Ressuscitou dos mortos ao terceiro dia”.

Sim, Cristo vive. Cristo é uma realidade viva. Não é uma lenda, nem um mito, nem um símbolo. Cristo que percorria os caminhos da Palestina percorre hoje os caminhos do mundo. Cristo que falava há 19 [hoje 20] séculos aos habitantes da Terra Santa hoje ainda nos acena como vencedor da morte com a palma da vitória; hoje ainda Ele nos fala, nos consola, nos fortalece, nos ilumina, nos ajuda e nos espera… nos espera na pátria eterna.

Meus irmãos, vivamos, pois, com a graça de Deus, de tal maneira que onde está a cabeça estejam também os membros. Vivamos de modo que, onde nosso Irmão glorioso nos precedeu, cheguemos também nós; e que, por sua paixão e sua cruz, alcancemos também a glória da ressurreição, por Jesus Cristo, Nosso Senhor. Amém.

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(*) Le symbole des Apôtres (Quarta Parte). La Résurrection - l´Ascension - La Virge Marie. Sermões traduzidos do húngaro para o francês pelo Pe. Marcel Grandclaudon. Éditions Salvator, Mulhouse (Haut-Rhin), 2ª edição, 1938, pp. 5-18.

 Fonte: Revista Catolicismo, Nº 903, abril/2026



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