13 de julho de 2021

Devoção mariana, fundamento para a organização da vida na sociedade temporal


A impregnação do espírito da Santa Igreja Católica na sociedade para que tudo esteja voltado para a maior glória de Deus com o objetivo de se alcançar a restauração da civilização e para que ela seja na Terra um reflexo do Céu 

Transcrição do editorial da revista Catolicismo Nº 847, Julho/2021

A Cristandade pode ser considerada como uma civilização sacralizada, composta por uma família de nações cristãs cujos membros — mesmo aqueles que não pertencem a uma Ordem religiosa — procuram impregnar a esfera temporal com o espírito da Santa Igreja. E também viver na sociedade civil de modo hierárquico, sempre de acordo com a sapiencial ordem estabelecida por Deus em todas as coisas, criadas harmonicamente desiguais.

Em tal ambiente sacral, contemplando as criaturas visíveis, os homens têm maior propensão a elevar suas mentes a Deus. Pela admiração das criaturas que vemos, podemos mais facilmente chegar ao Divino Criador que não vemos, porquanto os objetos criados refletem as insondáveis e invisíveis perfeições divinas. 

Sendo a Santa Mãe de Deus a obra-prima da Criação e síntese de todas as perfeições da ordem e da estética do universo, podemos mais facilmente, enquanto A veneramos, chegar a compreender, amar e adorar a Perfeição absoluta que é Deus. 

Como leigos devotos da Santíssima Virgem, devemos prestar a Ela um ato de vassalagem, consagrando-nos inteiramente como seus verdadeiros vassalos, além de procurar organizar a sociedade temporal, mesmo no âmbito limitado de cada um, para que esteja sempre voltada para a maior glória de Deus e da Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Desse modo, estaremos trabalhando para a restauração de uma civilização autenticamente cristã, que se esforce para ser na Terra um reflexo do Céu. 

Em resumo, esta é a principal temática desenvolvida na matéria de capa da edição de revista Catolicismo deste mês [foto ao lado], na qual celebramos Nossa Senhora do Carmo, principal comemoração de julho, cuja festa é fixada no dia 16. Neste mês completam-se também 770 anos desde que São Simão Stock (1164-1265), Prior Geral da Ordem do Carmo [foto abaixo], recebeu em 16 de julho de 1251 o santo escapulário diretamente das mãos da Soberana Senhora do Monte Carmelo, berço da Ordem Carmelitana. 


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7 de julho de 2021

TERESINHA SETÚBAL

 

Teresinha, primeira à direita, com seu pai e irmãos

Informações complementares sobre a menina paulista predileta do Menino Jesus

✅  Plínio Maria Solimeo 

Tendo suscitado grande interesse meu artigo publicado na edição de abril (“Teresinha Setúbal – Adolescente paulista morta em odor de santidade”), alguns leitores pediram-me que aprofundasse mais o tema citando outros fatos, omitidos então por brevidade. Assim sendo, e baseando-me sempre no texto de Da. Francisca Souza Aranha Setúbal, mãe de Teresa Setúbal, apresentarei aspectos de sua riquíssima existência, ressaltando principalmente fatos indicativos da sua santidade. 

Cumpre lembrar que Teresinha descendia pelo lado materno de antiga e nobre estirpe. Era trineta do Visconde de Indaiatuba e do Barão de Souza Queirós, sobrinha-trineta do Visconde de Vergueiro, do Barão de Limeira e da Marquesa de Valença. Era também tetraneta do senador Vergueiro, um dos mais influentes políticos do Império. 

Alguns exemplos de virtude 

Teresinha vivia continuamente na presença do Menino Jesus, a quem se entregara, e que regulava até seus menores atos. 

Um exemplo disso ocorreu num cenário que se diria impróprio — uma praia do Rio de Janeiro. Passando um mês na Cidade Maravilhosa, Teresinha teve de ir todos os dias tomar banho de sol com a família, como era muito recomendado pelos médicos. Importa ter presente que se tratava de uma praia dos idos de 1935, ou seja, sem a pasmosa imoralidade comum nas praias de nossos dias. Basta dizer que o próprio pai, Paulo Setúbal, vestido de terno e gravata, levava os filhos à praia e ali se sentava com eles enquanto tomavam sol. 

Da. Francisca Souza Aranha Setúbal, mãe de Teresinha ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte
e Cultura Brasileiras. São Paulo:
Itaú Cultural, 2021.

Teresinha estava lá por obediência à família, mas gozava da companhia do Menino Jesus. Comenta Da. Francisca [foto]: “Quando ela estava na praia, mesmo em seu traje de banho, notava-se que ela só via o mar e o céu. Aquele movimento na praia lhe causava horror, mas nada dizia”. 

Às vezes o Menino-Deus queria “conversar” com ela na hora destinada às aulas, levando-a com isso a ignorar a presença da professora. Quando esta lhe fazia perguntas, respondia maquinalmente. Mas o Menino Jesus a ajudava em suas dificuldades no estudo, e suas notas eram ótimas! Como ela não gostava de Matemática, neste caso Ele a fazia aprender sozinha. 

A propósito do livro do pai, a quem ela pediu que o rasgasse, Teresinha disse à mãe, depois que o pai faleceu: “Senti, mamãe, que eu precisava falar [sobre o livro], foi uma coisa aqui dentro (e apertava com sua mão o coração). Senti que se papai publicasse o livro, seria a glória humana [...]. Mas papai... (seus olhos encheram-se de lágrimas)”. Ela colocava reticências onde caberia tratar de assuntos penosos. Neste caso, possivelmente considerava que, querendo seu pai publicar um livro imoral, mostrava estar longe de levar a religião a sério. Ela continua: “Ah, mamãe, como eu sofri. [...] Sentia a luta de papai, acompanhei seu sofrimento [...] e eu não podia fazer nada... falar... e papai sofrendo... e eu sabia quanto ele estava sofrendo [...] e eu sentia muito... e o escuro era completo”. 

Teresinha via a luta do pai para vencer os maus hábitos do ‘homem velho’. Nesse período ele já tinha deixado de frequentar festas e vivia cercado apenas da família e de amigos próximos. Passou a frequentar fervorosamente a igreja da Imaculada Conceição, próxima de sua casa, e lia livros religiosos, principalmente a Sagrada Escritura e a Imitação de Cristo. No entanto não era ainda o pai que ela queria, voltado todo para Deus. Via também que ele sofria, por estar minado pela doença e sentir-se próximo da morte. Mas o passado festeiro e despreocupado do pai gerava em Teresinha o receio de que ele fraquejasse em seus propósitos. Por isso acrescenta: “Só tive paz depois da morte de papai” (ele morreu após receber todos os Sacramentos da Igreja). Da. Francisca comenta: “Esta foi a primeira e única vez que falou no assunto [do livro]; quando o fato se deu, eu estava na cidade; e quando voltei, ela apenas me disse: ‘Papai queimou o livro’. Mais nada, e nunca comentamos”. Insistimos em ressaltar que, para uma menina de dez anos, este procedimento mostra muita virtude e força de alma.

Aceitando as cruzes postas em seu caminho 

Paulo Setúbal decidiu que sua filha Vivi ingressaria no Colégio Des Oiseaux, e perguntou a Teresinha: “Você também gostaria de nele entrar?”. Ela baixou os olhos, que começaram a lacrimejar. Os pais tomaram isso como uma recusa, e disseram que estavam apenas brincando, que não a poriam no Des Oiseaux. Teresinha disse depois à mãe o motivo de suas lágrimas: “Era meu ardente desejo, depois que fiz a Primeira Comunhão, ir para Des Oiseaux. Tinha tanta vontade de estudar, de poder [e baixando o tom de voz] ajudar as outras, eu tinha facilidade, eu queria ser amiga e ajudar aquelas [meninas] que tivessem dificuldades, mas logo Jesus disse: ‘Não!’. Fiquei muito triste, tive lutas, eu queria tanto, mas Ele não queria que eu aparecesse, que tivesse convivência com as outras meninas”. Jesus queria, muito provavelmente, afastá-la das muitas ocasiões que haveria para desviá-la do reto caminho.

Em abril de 1937, perguntou-lhe o Menino Jesus: “Teresinha, você quer sofrer?”. Dois dias depois: “Teresinha, Eu vou te mandar uma grande cruz!”. Ela acrescenta: “Alguns dias depois papai ficou doente, e eu sabia que ele ia...”. Minado pela tuberculose, Paulo Setúbal lutava entre a vida e a morte. Comenta Da. Francisca: “Sentia-se, durante os dias em que o pai esteve na cama, a dor [de Teresinha]. No entanto, nenhuma palavra. Silêncio. [...] Paulo não teve coragem de se despedir das duas meninas”, o que deve ter sido outro grande sofrimento para Teresinha. 

Rezando e sofrendo, ela passou em claro a noite que precedeu a morte do pai, ouvindo tudo o que se passava no quarto ao lado, onde ele agonizava. Mas não chamou ninguém, nem disse palavra, até que de manhã alguém lhe comunicou a morte do pai, aos 44 anos de idade. Sobre este desenlace, Da. Francisca comenta: “Dizer o que aquele coraçãozinho amoroso sofreu é impossível, só Deus sabe”.

Obedecendo sempre ao Menino Jesus 

Essa predileta do Menino Jesus comenta como Ele regulava tudo: “Quantas vezes estou lendo um romance que me interessa, no melhor ponto tenho que parar [...] nenhuma linha mais, e tenho que fechar o livro. Ah, minha mãezinha, tudo, tudo, desde que abria os olhos, era determinado por Ele. Ele estava sempre a meu lado”, mesmo durante as refeições e os jogos. “Ah minha Mamãe, dos 8 aos 12 anos foi bem difícil, com o meu ‘geninho’, eu sempre tinha que fazer o contrário de minha vontade, [...] às vezes me custava muito, eu queria a minha vontade [...]. E desde manhã até a noite, sempre tudo como o Menino Jesus queria. Mas Ele não me deixava um minuto, estávamos sempre juntinhos, Ele me fazia carinhos e me ajudava. Nunca, nunca desobedeci, mesmo nas menores coisas, nas mais pequeninas coisas, sempre fazia a vontade do Menino Jesus”. 

Anúncio de sua prematura morte: “Dia 13 de outubro de 1937, Jesus me perguntou se eu queria sofrer, eu disse que sim. Pensei que dessa vez fosse Mamãe, ou bem o Olavo ou a Vivi [seus irmãos]. Aceitei, mas sofri muito [...]. Alguns dias depois vi que era eu”. 

Narra Da. Francisca: “No dia 18 de outubro, muito recolhida, recebeu a Santa Comunhão na sala onde costumava passar deitada o seu dia. Foi então que Jesus lhe disse: ‘Levante os olhos e olhe para a frente’. [A filha explica:] ‘Olhei e vi o Crucifixo branco da sala, e me atraiu unicamente a cabeça coroada de espinhos. Não vi mais nada, nem as chagas, só a coroa de espinhos’”. 

Recomeçaram então as terríveis dores de cabeça, que nenhum analgésico podia aliviar. Deram-lhe várias injeções e fizeram uma punção na espinha. Diz a mãe: “Todos os exames negativos, e as dores sempre fortíssimas”. 

No dia 3 de novembro de 1936 Teresinha recebeu a Extrema-Unção e fez sua consagração a Nossa Senhora na qualidade de escrava. Mas depois, tendo o Menino Jesus perguntado se ela queria sofrer mais pelos pecadores, e ela dito que sim, teve uma melhora. 

Da esq. para a dir.: Da. Francisca, Olavo, Vicentina, Paulo Setúbal e Teresinha

Sofrendo com os tratamentos médicos 

Da. Francisca comenta que alguns médicos julgavam Teresinha uma criança mimada, e que se faziam todas as suas vontades. Sofreu muito nas mãos deles. De um especialista, ela comenta: “Não ligou a menor importância à sua dor; e muito autoritário, sem a examinar, já com o diagnóstico feito, tirou com energia todos os analgésicos. ‘Luxo. Nada disso’. — ‘Como, Doutor, nada?’ — ‘Absolutamente nada, isso tudo é nada, é luxo, mesmo que não durma, não tem importância’ (Isso quando a dor de cabeça era fortíssima. Ela nem se preocupou). Teresa, quando soube que o Dr. V. [esse médico] estava muito mal, muito se preocupou, pedia sempre notícias, e ficou tão consolada sabendo que ele tinha recebido a Extrema-Unção”. 

Como as dores de cabeça continuavam violentas, o Dr. S. resolveu chamar um especialista. Este, após examinar Teresinha, quis falar a sós com ela. Relata a mãe: “Depois da conversa entre os dois, voltei ao quarto e Teresa, que ignorava a especialidade do Dr. PS., me disse: ‘Que engraçado, Mamãe, este médico dá uma volta tão grande para perguntar as coisas. É tão mais simples perguntar e eu responder, no entanto ele dá uma volta [...]. Quando ele começou, ele me assustou com o modo, mas logo compreendi. [...] Ele quer tirar as coisas [...]. O que for de saúde, eu digo tudo, mas, Mamãe, na minha alma ele não tem direito de entrar, não é verdade? Por isso ele pode dar todas as voltas, o Menino Jesus está comigo, e eu não falo”. 

Sobre esse médico, Teresinha relata ainda: “No dia em que o Dr. PS. veio, eu pensei: quem sabe se é esse que vai me curar. Logo Jesus me disse: ‘Com essas ideias (repetiu bem) com essas ideias e esse tratamento, ele não consegue nada’”. 

O Menino Jesus dissera a Teresinha: “Quero que você sofra mais, mas eu te ajudarei”. Ela comentou depois: “Recebi [do Menino Jesus] uma proibição e uma ordem. Ele me disse para contar tudo o que Mamãe perguntasse. Depois ele conversou um pouco. Mas... isso é só para mim... [o que terá se passado entre o Menino Jesus e essa alma de escol?] Sempre depois de querer que eu sofra, Ele me agrada. Ele me disse que me quer muito, muito bem. Que está contente comigo, e que eu tivesse, apesar de tudo que acontecesse, coragem e confiança”. 

Teresinha sofria muito nas mãos dos médicos. Mas se vingava a seu modo, rezando pela salvação eterna deles. Um dia pediu à mãe que rezasse muito em suas intenções. A mãe lhe perguntou quais eram. Ela disse que era por seus médicos, e acrescentou: “Esses três, MS, PS e AP estão me dando um trabalho daqueles. [...] Mas custe o que custar (acentuou bem) eu hei de conseguir. O mais duro é o PS (o que queria entrar em sua alma), este é duríssimo... MS também, mas tem mais vislumbre, é menos duro. Eu estou dando trabalho para eles, mas olhe Mamãe, acho que eles estão me dando um trabalho bem maior”. 

Chamou-se então outro especialista em doenças da cabeça, Dr. CB, para examinar Teresinha. Após ele lhe prescrever nova punção na cabeça, disse: “Se a punção não der certo, a senhora internará a menina”. Da. Francisca respondeu peremptoriamente: “E a minha consciência de mãe? Tenho certeza de que minha filha não tem nada de imaginação. Porque não sabem o que ela tem, o Sr. quer que eu ceda? E se a minha filha morrer lá? O Sr. se esquece que eu sou a responsável, e que sou eu que tenho que dar conta a Deus” [do que ocorrer à Teresinha]. 

Sofri tudo o que tinha que sofrer 


Tomando conhecimento do que se passava, Teresinha disse à mãe: “Que importa que eles pensem que tenho alguma coisa (e mostrou com a mão a cabecinha, e com suavidade na voz): Jesus, que é Filho de Deus, não lhe vestiram a camisa branca dos loucos?”. 

No final de um tratamento, Teresinha estava “malíssima, desenganada”. O Dr. MS disse a Da. Francisca: “Você sabe, ela poderá ter algumas horas de vida. Se quiser chamar um padre, eu vou dar tudo para ela poder falar”. 

Teresinha recebeu os Sacramentos e teve uma leve melhora. Disse à mãe: “Eu sou do Menino Jesus. Mamãe já me deu, não é verdade? Agora eu sou só do Menino Jesus. Minha Mamãezinha, eu ficarei sempre bem pertinho da senhora, eu nunca deixarei ‘a minha Mamãe’, e mandarei muitas, muitas graças para Mamãe”. 

No dia 29 de outubro de 1938, Da. Francisca disse a Teresinha: “Como você está sofrendo, filhinha”. Ela respondeu: “Sim, Mãezinha. Mas agora sofri tudo o que tinha que sofrer”. Dois dias depois ela entregava sua bela e cândida alma ao Menino Jesus. 

Depoimento final de um médico atencioso 

Por fim transcrevemos, com data de 19 de março de 1939, o depoimento de um dos médicos de Teresinha, insuspeito por não acreditar no caráter sobrenatural de sua doença e de seus sofrimentos. Respondendo a uma carta de Da. Francisca, onde perguntava quanto lhe devia por ter tratado de sua filha, escreveu: 

“Recebi, por intermédio do seu procurador, o seu delicado recado, de mandar eu a nota dos serviços médicos prestados à sua Filhinha. Nada me deve a senhora por isso, antes sou eu que lhe sou devedor de me ter permitido assistir de perto a imolação de uma santinha, para conversão nossa a uma vida melhor, e para contrabalançar os nossos pecados de algum modo. Se, de um lado, eu lhe envio a expressão sentida e cheia de emoção de meus sentimentos, por outro quero lhe dizer que Deus lhe julgou digna de consentir a semelhante sacrifício, pedindo-lhe a filha extremada. Com todo o respeito e simpatia. CB.”
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Fonte: Revista Catolicismo, Nº 846, Junho/2021.

5 de julho de 2021

Quem subsistirá ao dia da ira?


✅  Padre David Francisquini

Tratei recentemente da escalada de corrupção moral envolvendo crianças, tendo prometido voltar ao assunto, tamanha a sua gravidade. Infelizmente, se na estrutura familiar ainda perduram alguns valores morais, estes não remontam aos princípios, mas a meros atavismos, muito mais fáceis de serem tragados pela maré montante da Revolução gnóstica e igualitária. 

Tornou-se rotina, por exemplo, pessoas provenientes de casamentos desfeitos realizarem uma ou mais uniões, agravando ainda mais a precariedade da estrutura que muitos ainda teimam em chamar de “familiar”, na medida em que trazem filhos de uma união para conviver com outros que não são seus genitores ou irmãos. 

Como não perceber que esse arranjo dito familiar resulta da falta de princípios e de convicções religiosas que constituíam até um tempo não muito remoto a salvaguarda do casamento, mas igualmente da instituição da família? 

A união entre um homem e uma mulher que desejassem constituir família se dava num Cartório de Registro Civil (não havia ainda a lei do divórcio), mas era, sobretudo, sacramentado no Altar, onde os nubentes juravam diante de Deus fidelidade mútua — até que a morte os separasse — e a educação da prole. 

O casamento indissolúvel, consubstanciado num Sacramento da Santa Igreja, redunda no bem dos cônjuges, dos filhos e da sociedade. Foi ensinado nos santos evangelhos com validade para todos os tempos e lugares, não devendo o homem separar aquilo que Deus uniu. Este é um arcabouço sólido para se edificar a união entre o homem e a mulher. 

No entanto, na medida em que a Revolução anticristã prossegue seu processo multissecular para implantar todo um estado de coisas avesso à ordem — que é a paz de Cristo no Reino de Cristo —, ela vai derrubando os obstáculos com os quais se depara, sendo o principal deles a família, um dos pilares da civilização cristã. 

Aqui no Brasil, a ministra Damares Alves vem denunciando reiteradas vezes o tráfico de crianças para os piores fins, inclusive para serem abusadas sexualmente, com todas as sequelas que tais aberrações acarretam. 

Se Deus julga e sentencia quem escandaliza e desvia uma criança que para ele seria melhor uma mó ao pescoço e ser lançado nas profundezas do mar, qual é a ameaça que pesa sobre os articuladores que se utilizam das crianças como instrumentos de seus planos para eliminar a ideia de Deus da face da Terra? 

Outro reflexo dos dias tenebrosos em que vivemos é o Projeto de Lei, 3.369/2015, do comunista Orlando Silva (PCdoB), conhecido como Estatuto das Famílias do Século XXI, que na opinião de publicações e pessoas autorizadas visa à legalização do incesto e da união entre duas ou mais pessoas. 

Como sacerdote de Nosso Senhor Jesus Cristo, eu tenho o dever de ensinar os fiéis a cuidar de suas almas e a se santificar pela frequência habitual dos sacramentos. O ensinamento de hoje é apontar nas Escrituras Sagradas algumas passagens sobre a ira de Deus e os castigos infligidos por Ele àqueles que violam a sua santa Lei. 

Deus fala em deixar a cidade em ruínas, desolada e arrasados os seus santuários, sem ofertas nem sacrifícios, a ponto de deixar as pessoas perplexas quando os inimigos ocuparem seus países e habitações, como aconteceu nas nações dominadas pelos regimes ditatoriais e ateus. 

O Senhor fala em propagar entre as nações a espada, a desolação e a ruína de suas cidades. Recairá sobre elas o castigo de repente, como a águia se atira sobre a presa, porque rejeitaram obedecer aos decretos de sua santa Lei: 

“Porque é chegado o grande dia de sua ira, e quem subsistirá?” (Ap. 6, 17). 

“Da sua boca saía uma espada afiada para com ela ferir as nações; ele as regerá com uma vara de ferro, e ele é o que pisa o lagar do vinho do furor da ira do Deus Todo-poderoso” (Ap. 19, 15). 

“Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira que vos ameaça? Fazei, portanto, frutos dignos de penitência [...] porque o machado já está posto à raiz das árvores. Toda árvore que não dá bom fruto, será cortada e lançada ao fogo” (Lc 3. 7 e ss.). 

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* Sacerdote da Igreja do Imaculado Coração de Maria – Cardoso Moreira (RJ).

2 de julho de 2021

CREIO EM DEUS

Imagem de São Tomé venerada em San Giovanni di Laterano (Roma). Obra do escultor francês Pierre Legros (1666 -1719), pertenceu à escola barroca [Foto PRC]

O mundo inteiro ficou suspenso ao dedo de São Tomé. Entretanto, muitos em nossos dias veem e não creem. Uma obstinada incredulidade! 

Neste dia 3 de julho a Santa Igreja celebra o Apóstolo São Tomé. Segundo a tradição, ele pregou o Evangelho na Armênia, na Média, na Pérsia e na Índia, onde foi martirizado. Afirma também que esteve na América, inclusive no Brasil — onde os índios diziam que, antes da chegada dos portugueses, passou por aqui para lhes ensinar a Religião o “Pai Zumé”. 

Por seu apostolado e sua morte, confessou a Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, da qual duvidara por momentos. 

O Apóstolo São Tomé não estava no Cenáculo quando Jesus apareceu aos discípulos. Quando voltou, eles lhe disseram: — Vimos o Mestre! Apareceu aqui e falou conosco.

Tomé sorriu e objetou: — Se eu não vir no seu lado aberto, não acreditarei. 

São Tomé não quis crer. Tudo aquilo, em sua opinião, era uma ilusão.

Oito dias depois, os discípulos estavam novamente reunidos no Cenáculo. Tomé achava-se presente. Inesperadamente, envolvido numa luz misteriosa, Jesus apareceu no meio deles, dizendo: — A paz esteja convosco. 

Os Apóstolos alegraram-se vendo Jesus. Tomé, pelo contrário, abaixou a cabeça. Jesus aproxima-se dele, dizendo severamente: — Tomé põe o teu dedo nas minhas feridas e coloca a tua mão sobre o meu lado, e não sejas mais incrédulo. 

São Tomé, confundido, caiu de joelhos aos pés de Jesus e exclamou, entre lágrimas de comoção: — Senhor meu e meu Deus. 

E Jesus erguendo-o disse: — Creste, ó Tomé, porque viste. Bem-aventurados os que não viram e creram. 

A respeito desta passagem do Evangelho, Plinio Corrêa de Oliveira comentou em artigo no “O Legionário”, em 25-4-1943: 

“Muito se tem falado... e sorrido a respeito da relutância de São Tomé em admitir a Ressurreição. Haverá talvez, nisto, certo exagero. Ou, ao menos, é certo que temos diante dos olhos exemplos de uma incredulidade incomparavelmente mais obstinada do que a do Apóstolo. 

Com efeito, São Tomé disse que precisaria tocar Nosso Senhor com suas mãos, para n’Ele crer. Mas, vendo-O, creu mesmo antes de O tocar. 

Santo Agostinho vê na relutância inicial do Apóstolo uma disposição providencial. Diz o Santo Doutor de Hippona que o mundo inteiro ficou suspenso ao dedo de São Tomé, e que sua grande meticulosidade nos motivos de crer serve de garantia a todas as almas timoratas, em todos os séculos, de que realmente a Ressurreição foi um fato objetivo, e não o produto de imaginações em ebulição. Seja como for, o fato é que São Tomé creu assim que viu. E quantos são, em nossos dias, os que veem e não creem? 

Temos um exemplo desta obstinada incredulidade no que diz respeito aos milagres verificados em Lourdes, e também com Teresa Neumann em Ronersreuth, em Fátima. Trata-se de milagres evidentes. 

Em Lourdes, há um bureau de constatações médicas, em que só se registram as curas instantâneas de moléstias sem qualquer caráter nervoso, e incapazes de ser curadas por um processo sugestivo; as provas exigidas como autenticidade da moléstia são, em primeiro lugar um exame médico do paciente, feito antes de sua imersão na piscina; em segundo lugar, ainda antes dessa imersão, a apresentação dos documentos médicos referentes ao caso, das radiografias, análises de laboratório etc. 

A todo esse processo preliminar podem estar presentes quaisquer médicos de passagem por Lourdes, ficando autorizados a exigir exame pessoal do doente, e das peças radiográficas ou de laboratório que traga consigo; finalmente, verificada a cura, deve esta ser observada pelo mesmo processo por que se verificou a doença, e só é considerada efetivamente miraculosa quando, durante muito tempo, o mal não reaparecer. 

Aí estão os fatos. Sugestão? Para eliminar qualquer dúvida a este respeito, aponta-se o caso de curas verificadas em crianças sem uso da razão por sua tenríssima idade, e que, por isto, não podem ser sugestionadas. A tudo isto, o que se responde? Quem tem a nobreza de fazer como São Tomé, e, diante da verdade segura, ajoelhar-se e proclamá-la sem rebuços? 

Parece que Nosso Senhor multiplica os milagres à medida que cresce a impiedade. O caso de Teresa Neumann, Lourdes, Fátima, o que mais? Quanta gente sabe destes casos? E quem tem a coragem de proceder a um estudo sério, imparcial, seguro, antes de negar esses milagres?”

29 de junho de 2021

Procissão do Preciosíssimo Sangue de Jesus


No dia 1º de julho celebra-se a festividade instituída pelo Papa Beato Pio IX em 1849, em ação de graças pela libertação de Roma, com a vitória dos exércitos franceses e pontifícios sobre a Revolução nacionalista anti-clerical que o obrigara a exilar-se em Gaeta. São Pio X fixou-a para este dia. Mas na Alemanha essa importante festividade remonta ao século XI. 


✅  Luis Dufaur 

Em anos normais se realiza a Blutritt [Procissão do Preciosíssimo Sangue]. A procissão é realizada a cavalo, em honra de uma relíquia do Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. 

Acontece na cidade de Weingarten, Baden-Württenberg (Alemanha), na 6ª feira após a Ascensão, ou Blutfreitag [Sexta-feira do Sangue]. A tradição ordena que só os homens participem. 

A Abadia de Weingarten conserva, há mais de 950 anos, uma relíquia do Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ela é exposta uma vez ao ano na igreja do Mosteiro. 

No dia da festa, um sacerdote ou ‘Cavaleiro do Sangue’ a leva pelas ruas da cidade. É acompanhado por três mil cavalarianos, pertencentes a mais de 100 grupos, em fraque e cartola. Uma banda de 80 componentes desloca-se em torno ao Cavaleiro do Sangue. 

A procissão é religiosa e civil. Romeiros de toda a Suábia Superior e da Baviera vêm à festa.

São Longino, o centurião miraculado 

foi um dos primeiros propagadores 

da Fé de Jesus Cristo. 

Procissão nas Filipinas


Esse Sangue foi colhido por São Longino após a cura de seu olho. Ele foi o centurião romano que atravessou o lado de Nosso Senhor morto na Cruz. Na momento em que perfurou com sua lança no Sagrado Coração de Jesus, brotaram algumas gotas de sangue que atingiram seus olhos e o curaram da semi-cegueira que padecia. 

Ele conservou esse Sangue, junto a uma porção de terra do Calvário, numa caixa de chumbo.

Batizado, partiu São Longino para Mântua (Itália). Antes sofrer o martírio, ele escondeu a caixa, e o local ficou esquecido. No ano de 804, quando Carlos Magno imperava sobre o Ocidente, o local foi milagrosamente revelado ao cego Aldibero. 

Esse cego se dirigiu ao duque de Mântua, ao Imperador e ao Papa. Levado ao local da visão, a caixa foi encontrada e Aldibero recuperou a vista imediatamente. 

Grande devoção passou a cercar a relíquia. O Papa São Leão III a venerou publicamente. Porém, voltou a desaparecer durante as invasões húngaras e normandas.

Em 1048, ela foi redescoberta, tendo sido solenemente reconhecida pelo Papa São Leão IX na presença do imperador Henrique III e muitos dignitários. 

A Sagrada Lança está
conservada na
Sainte Chapelle de Paris

Judite, duquesa da Baviera, irmã do conde Balduíno V de Flandres e de Santa Adela da França, doou o relicário à abadia de Weingarten. Ali, a relíquia é venerada há quase um milênio. Ela está exposta numa capela ao lado da basílica de São Martinho. 

A procissão a cavalo remonta à Idade Média. Porém, o primeiro registro escrito que faz menção a ela data de 1529. 

As festas começam na missa da Ascensão, com uma procissão das velas até a vizinha cidade de Kreuzberg. A procissão equestre inicia-se no dia seguinte, após a missa dos cavalarianos às 6 da manhã. Fanfarras e coros também fazem a romaria. 

A procissão percorre as ruas da cidade acompanhada por mais de 30 mil romeiros. Ela se detém em quatro estações do caminho e termina a meio-dia diante da basílica. Ali, a relíquia é venerada pelos fiéis durante a tarde toda. 


 

História da abadia 


A abadia beneditina de Weingarten foi fundada em 1056, por Guelfo I, duque da Baviera. Os monges elaboraram famosas iluminuras de manuscritos, a mais famosa das quais é o Sacramentário de Berthold, de 1217. 

Em 1274, o mosteiro ganhou estatuto de feudo independente de qualquer poder temporal, exceto do imperador. Seu território era de 306 km2, incluindo muitas florestas e vinhedos. 

A primeira igreja românica foi construída entre 1124 e 1182. Entre 1715–24 foi substituída por uma maior, em estilo barroco, ricamente decorada. Em 1803, a revolução anticristã se voltou contra o Sacro Império e aboliu os estados menores independentes, como Weingarten. 

A abadia foi dissolvida e suas propriedades confiscadas pelo principado de Nassau-Orange-Fulda, e depois pelo reino de Würtemberg. 

Naquela ocasião os riquíssimos relicários de ouro e pedras preciosas foram roubados de modo vergonhoso pelo laicismo rompante. Em 1812, sob os efeitos revolucionários das invasões de Napoleão, a procissão foi proibida. Mas retomou em 1849 e persiste até os presentes dias. 

Em 1922, a abadia de Weingarten foi refundada por monges beneditinos da arquiabadia de Beuron e da abadia de Erdington (Inglaterra). 

Em 1940, o nazismo expulsou os monges, mas eles voltaram após o fim da guerra. Os monges pertencem em parte ao rito romano e em parte ao rito bizantino. [Mais dados em Wikipédia]. 

Vídeo: Procissão do Preciosíssimo Sangue de Jesus

13 de junho de 2021

GUERRA ENTRE REVOLUÇÕES

Alanna Smith, jovem velocista americana, fala durante ato de protesto pedindo vetar atletas “trans” nos EUA

Paulo Henrique Américo de Araújo 

Desenrola-se há anos uma espécie de conflito velado entre duas correntes revolucionárias, ambas com vinculações evidentes por seu ódio à civilização cristã. Propugnadores da ideologia de gênero, tida como “avançada”, consideram agora “ultrapassada” a vetusta onda feminista. A recente ascensão de Joe Biden à presidência dos Estados Unidos trouxe notoriedade ao entrechoque das duas posições, e não há mais como escondê-lo do público. 

O caso, como veremos, traz à luz uma das constatações mais sagazes de Plinio Corrêa de Oliveira, na sua obra mestra Revolução e Contra-Revolução: No processo de decadência do Ocidente cristão, iniciado nos fins da Idade Média, as revoluções de ontem vão sendo inevitavelmente devoradas pelas revoluções de hoje. 

Controvérsia por direitos iguais 

Alanna Smith, jovem velocista americana, tinha pela frente uma carreira promissora nas pistas de corrida de seu país. Tal oportunidade lhe surgiu, entre outros motivos, porque o movimento feminista havia reivindicado, durante muitas décadas, o direito das mulheres à prática de esportes geralmente restritos antes aos homens. A partir de meados do século passado, com o avanço da dita “igualdade entre os sexos”, as mais variadas formas de competição foram abertas às mulheres: natação, atletismo, esportes coletivos, e até mesmo um inimaginável pugilismo feminino. 

Seus esforços foram paulatinamente reconhecidos no mundo das atletas, exatamente como ocorria com os homens. O pressuposto óbvio era que entre as mulheres esportistas vigoraria o chamado “fair play”, ou jogo justo. Em outras palavras, homens disputariam com homens, e mulheres disputariam com mulheres. Seria um disparate imaginar mulheres competindo com homens, por exemplo, em uma disputa de boxe... 

Entretanto, quando a mãe de Alanna lhe perguntou sobre sua estratégia para vencer uma competição juvenil em 2019, a resposta foi taxativa: “Nada vai adiantar, mãe! Não tenho como vencer, porque hoje vou competir contra rapazes!”.(1)

Como!? Então cessou de valer o “fair play”!? Mulheres vão ser obrigadas a competir com homens, em tão flagrante desigualdade de condições??!! Era bem isso, mas também não era bem isso... Acontece que a revolução de hoje decidiu dar um grande passo, tão grande como outras loucas violações da natureza, para cuja vitória ela tem de ‘devorar’ a revolução de ontem. Expliquemo-nos. 

O feminismo batalhou com todas as suas armas pela “igualdade de direitos” das mulheres. Avançaram, avançaram, avançaram, e hoje quase não há atividade que seja proibida às mulheres. Mas recentemente interessou à revolução dar impulso a outra “igualdade”, antinatural e insensata como tantas outras: “igualdade de gênero”. Ocorre, no entanto, que essa “igualdade” entra em contradição com a “igualdade de direitos” das mulheres. A consequência prevista por Alanna se concretizou, e ela ficou bem atrás dos dois “transgêneros” (homens identificados como mulheres) que disputavam a corrida naquele dia.

Outro caso emblemático ocorreu com Selina Soule.(2) Em 2018 ela havia galgado o mais alto posto das velocistas juvenis em Connecticut. Contudo, numa corrida pelo campeonato estadual no mesmo ano, ela cruzou a linha de chegada muito, mas muito depois de “outras duas competidoras”. Tratava-se na realidade de dois competidores, que biologicamente falando eram rapazes, mas correndo na mesma pista com as moças. Terminando em terceiro lugar, Selina perdeu uma vaga na universidade, a classificação para futuros campeonatos e outras vantagens advindas da carreira de esportista. 

O mais intrigante no caso de Selina é que os dois vencedores não teriam chance numa disputa contra homens, pois seus tempos de corrida estavam bem abaixo de outros competidores do sexo masculino na mesma categoria. Aliás, os dois “transgêneros” não teriam condições nem sequer para disputar o campeonato estadual com outros rapazes, apesar de terem vencido mulheres de verdade. Sua classificação era simplesmente muito aquém da média das competições masculinas. Alegando serem “mulheres”, venceram a competição contra mulheres em nome da “igualdade de gênero”

Não temos a menor simpatia pela “igualdade de direitos” das mulheres (a revolução de ontem), mas devemos ressaltar que agora está sendo cometida de fato uma flagrante injustiça contra mulheres (consequência nefasta da revolução de hoje).

Feministas e transgêneros em batalha judicial 

Em 2019, Selina, Alanna e duas outras atletas juvenis, apoiadas pela associação Aliança em Defesa da Liberdade, entraram com ação judicial no estado de Connecticut.(3) A demanda intenta proteger o direito ao clássico “jogo justo”, excluindo das competições femininas os “atletas transgêneros”, isto é, homens biologicfamente falando, que preferem ser tidos como mulheres. Até o fechamento desta edição, a decisão judicial ainda não havia sido proferida. De qualquer forma, note-se que o Departamento de Educação dos Estados Unidos, durante o governo Trump, vinha tomando uma atitude favorável às jovens esportistas. Sob o novo governo, porém, tal apoio foi retirado. 

Analistas preveem(4) outras querelas judiciais do mesmo tipo no país, em razão da ordem executiva baixada pelo presidente americano Joe Biden no início de seu mandato, em janeiro deste ano. A “Ordem executiva para a prevenção e combate à discriminação baseada em identidade de gênero e orientação sexual” declara, em sua 1ª seção: “As crianças devem ser inseridas no aprendizado, sem a preocupação de terem o acesso negado a banheiros, vestiários ou esportes escolares”. 

No Brasil, a problemática ainda não veio à tona como na América do Norte. Mas a guerra já desponta no horizonte com a tramitação, na Assembleia Legislativa de São Paulo, de um Projeto de Lei de 2019 para a proibição de “transgêneros” nos esportes.

Em 2019, Alanna, Chelsea e Selina (de esq. à dir.) atletas juvenis, apoiadas pela associação Aliança em Defesa da Liberdade, entraram com ação judicial no estado de Connecticut. A demanda intenta proteger o direito ao clássico “jogo justo”, excluindo das competições femininas os “atletas transgêneros”

A lei natural esmagada por contradições 

Os argumentos a favor e contra mergulham num mar de contradições e conclusões tortuosas. Os defensores dos “transgêneros” nos esportes femininos argumentam que é possível diminuir ou até neutralizar a natural disparidade biológica entre os sexos. Tratamentos para inibição de hormônios masculinos passaram a ser apresentados como prova de “igualdade de condições” nas competições internacionais e olímpicas. Isto significa, na realidade, tentar consertar um erro com outro erro. 

Por outro lado, especialistas afirmam que certas características masculinas não podem ser minimizadas, mesmo com tratamentos hormonais.(5) Dentre as naturais vantagens físicas dos homens sobre as mulheres figuram: ombros mais largos, algo que proporciona maior capacidade pulmonar e respiratória; maior massa muscular; maior densidade óssea nos braços. 

Eis uma comparação. Se a velocista norte-americana Allysson Felix — ganhadora de seis medalhas de ouro olímpicas e tida como uma das mulheres mais rápidas do mundo — disputasse os 400 metros rasos, fazendo o melhor tempo de sua carreira (49.26 segundos), ela perderia a corrida para aproximadamente 300 rapazes, atletas não profissionais, estudantes do ensino médio, apenas considerando os participantes dos Estados Unidos.(6)

Não quero desmerecer a famosa atleta, desejo apenas apontar o óbvio: há diferenças biológicas entre os sexos que influenciam os resultados esportivos. Mas as sentinelas da ideologia de gênero não querem enxergar a questão assim. Para elas, retirar o direito de “homens transgêneros” à participação em competições femininas traduz-se por “discriminação de gênero”. Chegam até a qualificar as jovens esportistas acima citadas como “más perdedoras” e “preconceituosas”. 

Contradições que fazem a Revolução avançar 

Apenas na civilização nutrida pela doutrina
 milenar da Santa Igreja Católica pode haver
bases firmes e equilibradas para os legítimos
papéis do homem e da mulher na sociedade,
cada qual com sua dignidade,
 importância e particularidades próprias.
Foto do ambiente de Londres nos anos
 da Rainha Vitória.


Não consta que qualquer movimento feminista tenha levantado a voz contra tão flagrante violação dos “direitos das mulheres”. Por quê? Ao que tudo indica, porque a onda revolucionária do “gênero” vai ‘pondo para escanteio’ a revolução feminista, suscitando querelas e contradições nas suas próprias fileiras. Por exemplo, o ativismo feminista usa geralmente a expressão “igualdade de gênero” como um conceito favorável aos direitos das mulheres.(7) No entanto, diante da controvérsia dos “transgêneros” nos esportes femininos, a mesma expressão vai sendo utilizada em sentido oposto. 

Tantas são as contradições, tão antinaturais todos esses aspectos impensáveis até bem pouco tempo atrás, que não conseguimos imaginar como poderia um juiz sensato prolatar sentença justa nessa situação paradoxal de “Revolução dos bichos”, na qual todos são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros. Quanto aos legisladores, como elaborar leis sensatas num mundo em que a insensatez disputa corrida com os que fogem à “lanterna de Diógenes”? 

Na realidade, a Revolução anticristã vive de contradições e lutas internas. O que importa para ela é a destruição dos restos de Cristandade em nossos dias, mesmo que para isso seja necessário desprezar e derrubar suas bandeiras do passado; ou seja, devorar aquilo que foi ultrapassado pelo próprio processo revolucionário. 

Apenas na civilização nutrida pela doutrina milenar da Santa Igreja Católica pode haver bases firmes e equilibradas para os legítimos papéis do homem e da mulher na sociedade, cada qual com sua dignidade, importância e particularidades próprias. E longe, muito longe dos disparates igualitários deste nosso mundo paganizado. 

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Notas

1. Cfr. <https://www.youtube.com/watch?v=SrMem2TiAqQ>

2. Cfr. <https://www.youtube.com/watch?v=navQkMFvmDc>

3. Cfr. <https://www.ctpost.com/sports/article/Lawsuit-against-allowing-transgender-athletes-to-15982666.php>

4. Cfr.<https://www.uol.com.br/esporte/colunas/lei-em-campo/2021/02/02/decisao-de-biden-aumenta-sobre-transgeneros-afeta-o-esporte.htm>

5. Segundo o Journal of Applied Physiology, citado aos 4m e 45s do vídeo: <https://www.youtube.com/watch?v=b--cafK5mxY>

6. Cfr. aos 2m e 32s do vídeo: <https://www.youtube.com/watch?v=navQkMFvmDc>

7. Cfr. o penúltimo parágrafo do artigo: https://atletasnow.com/mulheres-no-esporte-conheca-suas-trajetorias-e-conquistas/

12 de junho de 2021

Católicos norte-americanos se unem em associações para defender sua fé


  Plinio Maria Solimeo 

Em nossos conturbados dias está cada vez mais difícil criar a família segundo os preceitos tradicionais da Igreja Católica. A degradação moral, tanto da religião quanto da família e dos costumes em geral tornam quase impossível manter-se fiel a esses preceitos sem que haja interferência do governo, da pressão do lobby homossexual, da teoria de gênero, enfim, do “politicamente correto”. 

Em resposta a esses desafios impostos pela cultura secular, alguns pais de família se viram obrigados a optar por matricular seus filhos em escolas católicas mais conservadoras, ou a educá-los em casa. Por isso é cada vez maior o número dos que estão considerando mesmo a opção de se mudarem com suas famílias para alguma parte do país em busca de uma comunidade onde a fé seja respeitada e nutrida, em algum local mais tradicional no qual seus filhos possam receber uma boa orientação religiosa e cultural, onde as pessoas compartilhem sua fé e os valores católicos de sempre. 

Um desses polos aglutinadores é o da paróquia de Nossa Senhora do Rosário [foto acima], em Greenville, na Carolina do Sul. Ele está atraindo famílias das mais variadas partes do país, num movimento a que chamam de “Relocatio”, neologismo para significar “localizar-se de novo”, ou seja, mudar de rumo ou mesmo de cidade e Estado. O fato de que agora se tem de trabalhar em casa usando a Internet facilitou muito essas mudanças. 

Só em abril deste ano, 14 novas famílias de 11 estados diferentes se “relocalizaram” em Greenville, para gozarem dos benefícios dessa paróquia e de sua escola. E muitas outras estão a caminho. 

O que atrai tantos católicos à igreja Nossa Senhora do Rosário e à sua escola? 

Alguns dos novos frequentadores da paróquia ficaram sabendo de sua existência pelo blog do seu vigário, Pe. Dwight Lognecker, palestrante proeminente e muito conservador. Outros ficaram impressionados sabendo que em 2019 a paróquia dedicou uma nova bela igreja num estilo tradicional, o românico. 

Mas, sobretudo, o que atrai as famílias é o fato de a escola estar ligada à Igreja. Em sua home-page pode-se ler: 

“Sob o patrocínio da Bem-Aventurada Virgem Maria, a missão da Escola Católica Nossa Senhora do Rosário é apoiar os pais no seu papel de educadores primários dos filhos. Nosso rigoroso treinamento clássico extrai dos alunos o desejo natural de sabedoria e virtude. Ao promover o amor pela verdade, beleza e bondade, buscamos formar discípulos de Jesus Cristo, libertos para realizar todo o seu potencial, vivendo com alegria de acordo com a verdade revelada por Deus através da natureza e da Igreja Católica” (grifo nosso).

A família Dardis foi uma das atraídas por Nossa Senhora do Rosário. Ela se mudou para Greenville após cruzar todo o país. Um dos fatores de sua decisão foi o fato de a cidade em que morava ter-se tornado a de maior população de moradores de rua per capita dos EUA, com infinidades de barracas, agulhas de droga nas calçadas, sem falar de toda a agitação que faziam. Como a família é católica conservadora, encontrou na Internet o site daquela paróquia e resolveu mudar-se. O casal Pat e Michelle Langowski teve razões parecidas: 

“Não gostamos da forma como o lugar em que morávamos estava mudando, e começamos a ver essas mudanças afetando nossos filhos e seu aprendizado. O foco parecia cada vez menos em educação de qualidade e bons valores, e mais em promover uma agenda específica”; quer dizer, ideologizada. Por isso, diz Michelle: “Tomamos a decisão de mudar nossa família (avós também) para o outro lado do país, para morar em um lugar onde as pessoas não tivessem que pedir desculpas por serem católicas”. [...] Além disso, temos a confiança de saber que nossos filhos estão recebendo uma educação de qualidade, clássica e autenticamente católica. Sabemos que frequentam uma escola onde os valores católicos são explicados e celebrados. Vemos que o mundo está muito ansioso para impor seus valores às crianças. Estamos entusiasmados porque o lugar onde nossos filhos passam a maior parte do dia é um lugar católico, clássico, amoroso e atencioso”

O diretor dessa escola da igreja Nossa Senhora do Rosário, Curtin explica: “Isso começou há alguns anos. Mas acelerou quando teve início o lockdown. As pessoas começaram a ver a cultura católica como ela era. Elas estão prontas para fazer mudanças radicais [para seguirem fielmente sua religião] que antes pareciam impensáveis — mas agora são imagináveis.” Isso às vezes até mudando-se de um extremo do país ao outro. 

Iniciativa semelhante em outra parte dos Estados Unidos que está atraindo muitos católicos é a chamada Vertitatis Splendor

Sua idealizadora, Kari Beckman, é uma partidária do homeschooling que lutava contra os efeitos do isolamento social e as pressões culturais recentes. Ela afirma: “Ficou muito claro para mim que devemos preservar a fé agora. Este é apenas o primeiro round da crise, o que o futuro nos reserva pode ser muito pior. Se nós, como leigos, não preservamos o que realmente temos [a fé católica] e o guardamos com cada grama de nosso ser como o presente precioso que é, então vamos perdê-lo.” 

Ela imaginou então uma propriedade rural isolada [foto], onde houvesse um oratório, alguns institutos católicos, centro de retiros etc., dirigida por uma comunidade de sacerdotes que celebrassem as festas católicas tradicionais, como procissões e outras celebrações, como havia antigamente. Esses institutos seriam também um meio de restaurar o pensamento e a filosofia corretos, e não a progressista atual, em uma sociedade cada vez mais confusa. 

Mas onde e como fazer? Kari necessitava sobretudo de assistência religiosa. Ocorreu-lhe então que o bispo Joseph Strickland [foto], de Tyler, no Texas, conservador, fora dos poucos prelados americanos a permitir que as igrejas de sua diocese ficassem abertas durante a pandemia para missas e adoração. Daria assistência religiosa aos participantes desse novo programa caso se mudassem para Tyler? 

Foi a pergunta que lhe fez Kari quando o visitou. O prelado quis então saber o nome da instituição. Quando ela disse que seria Veritatis Splendor, ele ficou surpreso, pois dias antes havia considerado com seu secretário sobre como pôr em prática essa encíclica. Isso concorreu para que ele concordasse com o plano, e enfatizasse: “É responsabilidade dos pais proteger seus filhos da loucura que está lá fora, e também prepará-los para enfrentar essa loucura com a luz de Cristo. [...] Existem muitas ideias malucas. Mas Cristo diz: ‘Não tenha medo’. Portanto, não agimos por medo, mas fortemente, com alegria, acreditando sobre o que é a mensagem de Cristo”

Outro casal, Lisa e Tim Wheeler, pais de cinco filhos adotivos, acreditaram que Deus os estava chamando para construir uma comunidade de acolhimento familiar conservadora, mas não sabiam ainda como. Então Kari Beckman lhes fez a proposta de se juntarem a ela no seu ousado plano. Após oração e reflexão cuidadosa, os Wheelers entenderam que sua visão se fundia facilmente com a de Beckman, e se juntaram ao esforço como cofundadores.

Os planos estão avançando. Confiando em Deus de que darão frutos, os Beckman já venderam sua casa na Geórgia e, quando o ano escolar de sua filha terminar, planejam se mudar oficialmente para Winona e fixar residência na nova propriedade no Texas.

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Fontes: 

- https://www.ncregister.com/news/massive-catholic-center-planned-for-east-texas 

- https://www.churchpop.com/2021/05/17/a-huge-blessing-why-3-families-moved-across-the-country-to-live-in-a-catholic-community/?utm_campaign=ChurchPop&utm_medium=email&_hsmi=127909105&_hsenc=p2ANqtz-9ikZn0_vXYpQIDk5zVg1_-J4rvsUQqSFc12aLKP-znwszjtQh9jspfH-zHYIqTtJ4APss81ECjFLQgMrEzwmV3tenOSA&utm_content=127909105&utm_source=hs_email

9 de junho de 2021

Igreja do Sagrado Coração de Jesus


A
festividade do Sagrado Coração é comemorada na sexta-feira que segue a Oitava de Corpus Christi, como prolongamento da solenidade que celebra o “Corpo de Cristo”, portanto neste dia 11.

Segundo o bispo de Poitiers, Louis-Édouard François Désiré Pie — depois mais conhecido como Cardeal Pie (1815 - 1880) — “O culto ao Sagrado Coração é a quintessência do cristianismo, o compêndio e sumário de toda a religião”

Para esta memorável festa transcrevemos um trecho de uma conferência de Plinio Corrêa de Oliveira na qual ele comenta a seriedade e grandeza do ambiente sacral da Igreja do Sagrado Coração de Jesus [Fotos PRC], na capital paulista. 


N
a Igreja do Sagrado Coração de Jesus há proporção entre altura, largura, extensão e partes laterais. Algo de muito sério convida à reflexão, favorece a meditação. 

O ambiente no interior é muito diferente do que se encontra fora. A luz que penetra pelos vitrais revela cores combinando harmonia doce e suave com agradável penumbra, tornando o conjunto muito envolvente. Tem algo de balsâmico, como um discreto azeite perfumado envolvente em toda a igreja. 

O altar é alto, robusto, forte. Na parte superior do tabernáculo, um mosaico de boa qualidade representa o Padre Eterno e a Santíssima Trindade. 


Dentro de uma luminosidade difusa em meio à névoa, as imagens têm rostos lisos, sérios, com olhares descontraídos. Elas olham para quem está em baixo, prontas para socorrer e ajudar a quem suplica. Sobretudo isto se nota nas imagens do Sagrado Coração de Jesus e de Nossa Senhora Auxiliadora. 

A imagem do Coração de Jesus, tocando o coração com a mão, é muito sacral e digna, como quem diz: Eu lhe dou meu coração. A imagem de Nossa Senhora Auxiliadora é triunfante, com o cetro na mão, mas virginal, pura, leve, condescendente, misericordiosa e muito segura. Nela vemos bem o que desejamos. 

Com seriedade e grandeza que impõem silêncio, essa é a Igreja do Sagrado Coração, com a qual tenho muita consonância.

5 de junho de 2021

DITADURA DA MEDIOCRIDADE

       

A vida mental dos medíocres cifra-se na sensação do imediato — a abastança do dia, a poltrona cômoda, os chinelos e a televisão — não vai além disso o seu pequeno paraíso.


Os medíocres impõem às almas de largos horizontes a ditadura da mediocridade

Plinio Corrêa de Oliveira 

A mediocridade é o mal dos que, inteiramente absorvidos pelas delícias da preguiça, pela exclusiva deleitação do que está ao alcance da mão, pelo inteiro confinamento no imediato, fazem da estagnação a condição normal de suas existências. Não olham para trás, pois falta-lhes o senso histórico. Nem olham para frente ou para cima, não analisam nem prevêem. Têm preguiça de abstrair, alinhar silogismos, tirar conclusões, arquitetar conjecturas. 

A vida mental dos medíocres cifra-se na sensação do imediato — a abastança do dia, a poltrona cômoda, os chinelos e a televisão — não vai além disso o seu pequeno paraíso. Paraíso precário, que procuram proteger com toda espécie de seguros: de vida, de saúde, contra o fogo, contra acidentes etc. 

Agradam aos medíocres as veleidades da aventura, a despreocupação ante a iminência do risco, o deslumbramento com miragens. Pelo contrário, fogem aos esforços necessários para atingir os céus da Fé, para os largos horizontes da abstração, para os imensos voos da lógica e da arte, para a grandeza de alma e o heroísmo. 

Com os artifícios mediocrizantes do sufrágio universal, os medíocres fizeram tantas leis, tantos regulamentos, instituíram tantas repartições públicas, que tornou-se impossível qualquer fuga das almas superiores para fora dos cubículos dessa mediocridade organizada. Sem mesmo terem a intenção de o fazer, entretanto, os medíocres impõem às almas de largos horizontes a ditadura da mediocridade.

Como todas as ditaduras, também esta só se prolonga quando consegue monopolizar os meios de comunicação social. Consequentemente, cada vez mais as mediocracias vão penetrando nos jornais, revistas, rádio e televisão. 
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(Excertos, com ligeiras adaptações, do artigo de Plinio Corrêa de Oliveira na “Folha de S. Paulo” de 20 de junho de 1981).

2 de junho de 2021

SOLENIDADE DE CORPUS CHRISTI

Em Orvieto, no final da belíssima procissão de Corpus Christi, a benção do Santíssimo Sacramento, no dia 2 de junho de 2013 [Foto PRC].

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 Paulo Roberto Campos 

A festividade de Corpus Christi (ou Corpus Domini) foi estabelecida para publicamente honrar e adorar o Santíssimo Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo realmente presente na Eucaristia.

A primeira cidade na História a comemorar em ruas e praças públicas essa festa eucarística foi Orvieto, na região italiana da Úmbria, conhecida como a “Cidade do Corpus Christi”. Até nos presentes dias, nela se transcorrem as mais belas procissões portando num magnífico andor o célebre “Milagre de Bolsena” [na foto ao lado, atrás do ostensório], que está na origem da primeira procissão pública de Corpus Christi. Para essa ocasião os citadinos se vestem com riquíssimos trajes, como os usados no século XIII. 

Em 11 de agosto de 1264, com a bula Transiturus de hoc mundo, o Papa Urbano IV estendeu a todo o Orbe católico a Festa de Corpus Christi. Ela é realizada na quinta-feira — em lembrança da celebração, na Quinta-Feira Santa, da primeira Missa, quando Nosso Senhor instituiu o Sacramento da Eucaristia. 

Infelizmente, nesta quinta-feira de Corpus Christi deste ano, poucas solenidades ocorrerão. Tudo em nome do falso pretexto da pandemia. Mesmo assim, não deixemos nós de adorar o Santíssimo Sacramento de modo especial. Para esse momento de adoração seguem alguns evocativos pensamentos que poderão nos auxiliar. 

“Isto é o meu sangue, o sangue da Nova Aliança, derramado por vós e por muitos em remissão dos pecados”. 

(Jesus Cristo, em Mt 26, 28) 


“A devoção à Eucaristia é a mais nobre de todas as devoções, porque tem o próprio Deus por objeto; é a mais salutar, porque nos dá o próprio autor da graça; é a mais suave, pois suave é o Senhor. Se os anjos pudessem sentir inveja, nos invejariam porque podemos comungar”. 

(Papa São Pio X) 


“É uma graça [a Eucaristia] de heroísmo na luta; seu efeito próprio é não só o de amortecer em nós o fogo das paixões, como o de tornar-nos invencíveis contra todas as potências infernais”.

(Santo Tomás de Aquino) 


“Deus, como ser infinitamente sábio e infinitamente poderoso, não poderia e nem saberia dar-nos mais precioso mimo do que o da Eucaristia; visto que, neste dom, se nos dava a Si mesmo”. 

(Santo Agostinho) 


“Se acreditamos que Deus pode criar do nada todos os seres, devemos crer mais facilmente que possa permutar uma substância por outra. Se todos os dias, por virtude natural e não menos incompreensível, o pão e o vinho se transformam no corpo e no sangue daqueles a quem servem de alimento, por que não haveremos de crer que, por divina virtude, os mesmos objetos se transformem no corpo e no sangue de Jesus Cristo?”. 

(Santo Ambrósio) 


“Ninguém cônscio de pecado mortal, por mais contrito que se julgue, se aproxime da Sagrada Eucaristia sem ter recebido antes o Sacramento da penitência”. 

(Concílio de Trento)