31 de dezembro de 2024

POR QUE O ANO COMEÇA À MEIA NOITE DE 1º DE JANEIRO?

Detalhe da sepultura do Papa Gregório XIII celebrando a introdução do calendário gregoriano

✅  Evaristo de Miranda 

Uma das contribuições mais significativas da civilização cristã e ocidental à humanidade é a contagem do tempo e o atual calendário. Foram séculos até o Ocidente criar e adotar o calendário atual. No início do cristianismo, havia três calendários: judaico, romano e litúrgico. Nenhum satisfatório. 

O calendário judaico era essencialmente lunar. Os nomes dos meses são de origem assiro-babilônica, assimilados no exílio na Babilônia, no século IV a.C.. São necessários ajustes complexos para encaixar-se no ano solar e para a Páscoa acontecer sempre na primavera. Os anos são contados desde a “criação do mundo”, 5.784 anos atrás. Um planeta bem rejuvenescido. 

O calendário romano ou juliano era solar e herdado dos sacerdotes egípcios. Eles estabeleceram um ano de 365 dias, por volta do ano 2800 a.C. Os anos eram contados a partir da fundação de Roma, o ano 753 a.C. A data de início de cada ano era fixa, no primeiro dia de março. Passou por evoluções. Ainda é utilizado pelos cristãos ortodoxos, como calendário religioso. 

Nos primeiros séculos, a referência principal do calendário litúrgico cristão era a Páscoa, data da morte de Jesus. Com as divergências entre o calendário judaico e o romano, havia várias datas para o início do ano e a Páscoa. 

No século V, o Papa João I decidiu dar fim às “querelas pascais”. Para ajustar o calendário litúrgico, o lunar judaico e o solar romano, ele designou o monge Dionísio, um erudito, canonista, tradutor, astrônomo e matemático. 

No ano 525, ele sugeriu ao Papa a revisão completa da divisão do tempo e sua contagem não mais na morte, mas no nascimento de Cristo. E tomou essa data como início da Era Cristã: 25 de dezembro do ano 753 do calendário romano. Encerrou a Era dos Césares. O conceito do Ano do Senhor, Anno Domini (A.D.) está em vigor até hoje. Agora, A.D. 2025. 

A Igreja Católica arbitrou e definiu para início do ano, 1 de janeiro e não 25 de dezembro, por razões religiosas. A vinculação oficial de Jesus ao seu povo e a Deus ocorreu no dia da circuncisão, da apresentação no templo, de sua primeira manifestação pública e quando recebeu seu nome. 

Só por esse deslocamento de data, Jesus já teria nascido um ano antes do ano 1 da Era Cristã. Não havia ano zero no cálculo. O ano 1 a.C. foi sucedido pelo ano 1 d.C.. O primeiro século da Era Cristã teve 99 anos. Esse e outros fatores levaram Dionísio a um pequeno erro. Jesus nasceu entre os anos 3 e 6, antes da Era Cristã. O Papa Bento XVI mostrou esse erro na obra “A Infância de Jesus”. 

Sob o calendário juliano, com imprecisões e deriva temporal, os equinócios se distanciaram da data real em 10 dias no século XVI. Por determinação do papa Gregório XIII [quadro ao lado], matemáticos e astrônomos jesuítas das universidades de Salamanca e Coimbra trabalharam nas bases de um novo calendário. Em 24 de fevereiro de 1582, pela bula Inter gravíssimas, o papa lançou o Calendário Gregoriano, adotado em Portugal, Espanha e Estados Pontifícios. Logo nos países protestantes e, hoje, no planeta. 

O calendário gregoriano é o padrão internacional de registrar o tempo, reconhecido pela ONU e pela União Postal Universal, tanto pelo peso da tradição ocidental, quanto por sua precisão astronômica. Ele estabeleceu até uma ISO específica para se datar: a ISO 8601. 

Existe um discurso Woke, politicamente correto, associado à cultura do cancelamento e da censura, onipresente na Internet, sobre o calendário e a marcação do tempo. Ele busca eliminar as referências a Cristo no calendário. Anacrônicos, esses canceladores e censores ideológicos apontam as datas estabelecidas pela Igreja ao longo de séculos como arbitrárias. 

As datas do atual calendário foram arbitradas, e não arbitrárias, com os melhores critérios em seu contexto histórico. Inúmeras questões necessitam de arbítrio. Não há livre arbítrio no calendário. Nem há receita bíblica para calcular o tempo. Ele foi arbitrado várias vezes, com recurso aos melhores cientistas de cada época, por uma das maiores autoridades temporais, a Igreja. O Tempo Ocidental se impôs aos do Oriente e alhures. 

O calendário universal é Ocidental. Na vida civil e civilizada, ele substituiu outros calendários (muçulmano, judaico, chinês, juliano...), limitados hoje a usos religiosos e tradicionais. Quem regula voos de aviões, satélites, tratados internacionais, GPS de máquinas agrícolas, pagamento de boletos e o cotidiano de bilhões de pessoas é o calendário cristão e romano, criado e estabelecido progressiva e cientificamente pela Igreja.

29 de dezembro de 2024

PRÍNCIPE DA PAZ, SENHOR DOS EXÉRCITOS

 


Para esta oitava de Natal, solenidade recordada na época natalina que se inicia no dia 25 de dezembro e se encerra em 1º de janeiro, seguem algumas passagens da Sagrada Escritura para meditarmos a respeito do magno acontecimento que foi Nascimento do Divino Infante. 


“Porque um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado; a soberania repousa sobre seus ombros, e Ele se chama: Conselheiro admirável, Deus forte, Pai eterno, Príncipe da paz. Seu império será grande e a paz sem fim sobre o trono de Davi e em seu reino. Ele o firmará e o manterá pelo direito e pela justiça, desde agora e para sempre. Eis o que fará o zelo do Senhor dos exércitos.” 
 (Profeta Isaías - 9, 5-6) 

“Eis que vos anuncio uma boa nova que será alegria para todo o povo: hoje vos nasceu na Cidade de Davi um Salvador, que é o Cristo Senhor. Isto vos servirá de sinal: achareis um recém-nascido envolto em faixas e posto numa manjedoura.” (São Lucas - 2,10-12) 

“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos sua glória, a glória que o Filho único recebe do seu Pai, cheio de graça e de verdade.” 
(São João Evangelista - 1,14) 

“Jesus Cristo nos amou e entregou-se a Deus por nós, como vítima e oblação de odor agradável.” 
(São Paulo Apóstolo - Efésios, 5, 2)


28 de dezembro de 2024

COMUNICADO do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira



Na véspera do Natal, resolução do CONANDA abre as portas à prática do aborto no Brasil. Rejeitamos tal decisão favorável ao aborto em menores de idade, sem limite de tempo, desrespeitando o direito dos pais, dos médicos e a moral cristã.

 

Na antevéspera do Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Brasil foi surpreendido por uma resolução do CONANDA (Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente) a favor do pecado do aborto realizado em menores de idade.

O CONANDA é integrante da estrutura básica do Ministério dos Direitos Humanos do atual Governo do PT.

Ao final das deliberações, os conselheiros se saudaram com “Feliz Natal”, enquanto aprovavam uma Resolução que buscava garantir o chamado “aborto legal” a menores de idade, sem a necessidade do consentimento dos pais ou de seus representantes legais e, em alguns casos, até mesmo em oposição à vontade deles.

Para o CONANDA, de forma contraditória, uma criança que ainda não tem maturidade biológica ou psicológica para ser mãe, seria madura o suficiente para decidir pelo aborto, ocasionando a morte de um outro ser humano ainda não nascido.

Ademais, os Hospitais católicos seriam obrigados a realizar o aborto e o médico, mesmo desconfiando de que a gestante estivesse mentindo sobre ter sofrido violência sexual, não poderia deixar de realizar o aborto.

Causa profunda dor, especialmente entre os católicos, a grave omissão da CNBB, cujo representante não participou da votação, permitindo que a resolução fosse aprovada sem sua manifestação.

Convém lembrar que o Concílio Vaticano II, em sua constituição pastoral Gaudium et spes (7 de dezembro de 1965), condenou o aborto como um crime abominável.

Nos últimos 25 anos, o aborto foi sendo gradualmente implantado no Brasil através de interpretações judiciais, à revelia do processo legislativo.

Em uma democracia, cabe ao Congresso votar Leis e ao Poder Judiciário julgar os casos segundo as leis aprovadas. Todavia, não houve alteração legislativa na lei do aborto desde 1940, apenas resoluções, normas técnicas ou decisões judiciais.

O Código Penal, de 1940, tipifica o aborto como crime, não o punindo em duas situações (gravidez resultante de estupro e risco de vida da mãe). Posteriormente, há cerca de dez anos, o STF incluiu uma terceira situação em que o crime de aborto não é punido (fetos anencéfalos).

Até 1998, o aborto não era realizado em nenhum hospital do Brasil. Em 1998, o então Ministro da Saúde de Fernando Henrique Cardoso, José Serra, publicou uma “norma técnica” autorizando o aborto no Brasil nos casos em que o Código Penal não punia. Por uma “interpretação” feita através de uma norma técnica que não tinha nem sequer o valor de uma lei, o “crime não punido” passou a ser um direito, ao qual se deu o nome de “aborto legal”.

De lá para cá, a situação foi sendo gradualmente ampliada.

A esquerda, que hoje diz defender a Democracia, diante do crescimento da Opinião Pública conservadora no Brasil, decidiu mudar de estratégia e contornar o processo legislativo.

Apenas a título exemplificativo, elencamos algumas das absurdas deliberações do CONANDA (a numeração dos artigos pode ser alterada até a publicação oficial da resolução):

1) A criança ou adolescente, vítima de violência sexual, deve ser informada “sobre a interrupção da gestação” mesmo na “ausência dos pais ou do representante legal” (Art. 8º. §3º)

2) “O aborto legal é um direito humano de crianças e adolescentes vítimas de violência sexual” (Art. 9º.) (Grifos nossos).

3) Nenhuma notificação ou comunicação, seja ao Conselho Tutelar ou à autoridade policial, podem, “em hipótese alguma, ser impostas como condições para o acesso a serviços e procedimentos de saúde” (Art. 14). Ademais, na mesma linha, “O atendimento de saúde deve ser assegurado independentemente da comunicação tratada neste dispositivo” (Art. 17, parágrafo único).

4) A mesma criança que deve ser amparada e protegida pelo CONANDA por sua vulnerabilidade, é considerada capaz de uma autonomia em relação à própria família e ao Estado: “É dever do Estado, da família e da sociedade respeitar a autonomia de crianças e adolescentes em relação ao exercício de seus direitos, abstendo-se de qualquer ato que constranja, ameace ou provoque medo, vergonha ou culpa em decorrência da decisão de interromper a gestação ou de realizar a entrega protegida” (Art. 21).

5) Os pais seriam contactados se houvesse “concordância da criança ou adolescente”, mas não necessariamente para que os pais decidam sobre o procedimento do aborto, mas para que possam “acompanhar o atendimento, receber as devidas informações” (Art. 24).

6) Se a criança tiver capacidade de “tomada de decisão” (a resolução não especifica quem será o responsável por atestar essa capacidade, mas deixa claro que não são os pais), o “profissional deve garantir que o procedimento de escuta, manifestação da vontade e quaisquer outros tratamentos ou cuidados, devidamente consentidos, sejam realizados sem qualquer impedimento (Art. 25). (Grifos nossos).

7) Se houver divergência entre a vontade dos pais e da criança e a situação chegue ao Poder Judiciário, a resolução do CONANDA chega ao absurdo de tentar orientar a decisão dos juízes, garantindo à criança, que seu caso seja analisado “a partir de sua vontade manifestada..., que reconhece a condição de sujeitos de direitos de crianças e adolescentes, abstendo-se de atos que deem prevalência à vontade dos pais ou responsáveis legais em detrimento da vontade manifestada pela criança ou adolescente...” (Art. 28, IV). (Grifos nossos)

8) Para deixar mais patente a virtual abertura do aborto no Brasil, bastando a palavra da vítima para ter acesso ao aborto em decorrência de violência sexual, o CONANDA afirma, em sua resolução: “O acesso à interrupção legal da gestação não dependerá: da lavratura de boletim de ocorrência, de decisão judicial autorizativa do procedimento, da comunicação aos responsáveis legais quando isso puder ocasionar danos à criança ou adolescente” (Art. 31).

9) O aborto pode ser realizado até os nove meses de gestação: “O limite de tempo gestacional para a realização do aborto não possui previsão legal, não devendo ser utilizado pelos serviços como instrumento de óbice para a realização do procedimento” (Art. 32).

10) Hospitais católicos ou confessionais, que se oponham ao aborto, não podem se negar ao procedimento: “A objeção de consciência é um direito individual que não pode ser alegado por instituições que prestam serviços de saúde” (Art. 34).

11) O médico que desconfiar da adolescente gestante que alegar ter sofrido violência sexual, não poderá alegar essa desconfiança para se abster de realizar o aborto: “Configura conduta discriminatória, inapta de ser caracterizada como objeção de consciência, a recusa em realizar a interrupção da gestação com base meramente na descrença em relação à palavra da vítima de violência sexual” (Art. 34, §1º).

Essa resolução, votada na antevéspera de Natal, mostra até onde a esquerda quer levar o nosso querido Brasil, a Terra de Santa Cruz.

"Matança dos Inocentes" (ordenada por Herodes), quadro de Duccio Di Buoninsegna (1308), Museu dell'Opera del Duomo (Siena, Itália).


Quando nascia Nosso Senhor Jesus Cristo, cuja festa comemoramos neste dia 25 de dezembro, um personagem de nome Herodes ficou marcado na História por ter ordenado a morte dos inocentes.

Arrancados dos braços de suas mães, essas crianças verteram seu sangue como consequência de uma sociedade que já não valorizava a Moral, mas o prazer e o poder.

O Brasil, corrompido por essa mesma mentalidade, se aproxima mais do paganismo do que do Cristianismo.

Mas é nas grandes decadências, como essa que atravessamos, que a História mostra as grandes ressurreições.

Estamos no Natal d’Aquele que é a Luz do Mundo. Diante de seu Presépio peçamos, por meio de Nossa Senhora Aparecida, as graças necessárias para não apenas permanecermos fiéis, mas para defendermos a sua Lei contra as artimanhas que se abatem sobre nossa nação.

Em breve, temos a certeza, as trevas desse neopaganismo serão vencidas pela Luz de Cristo que já começa a brilhar em incontáveis almas que se voltam para a verdadeira Fé, do Verdadeiro Deus, nascido da Virgem Maria em Belém.

São Paulo, 24 de dezembro de 2024

Frederico R. de Abranches Viotti

Diretor de Comunicação

Instituto Plinio Corrêa de Oliveira


27 de dezembro de 2024

NATAL DE UM CHOUAN


 

  ✅  Paulo Henrique Américo de Araújo

De 1793 a 1800, a região de Fougères, no nordeste da França, foi palco da luta épica dos Chouans — camponeses que se levantaram contra a Revolução Francesa em defesa da Monarquia e da Igreja. Numa noite de inverno de 1795, uma coluna de militares da República revolucionária caminhava por uma trilha através de uma floresta.*

Estavam entediados e cansados pelo peso das mochilas e mosquetes que carregavam nas costas. Levavam como prisioneiro um camponês, um jovem chouan, que tinha tentado emboscá-los. O camponês, depois de atacar os revolucionários com seu mosquete, havia sido capturado e desarmado. Ele ia sendo puxado pelos militares: mãos amarradas, semblante desolado. Dois soldados amarraram cordas em seus pulsos e por aí o mantinham preso.

Na encruzilhada de Servilliers, o sargento ordenou uma parada. Os homens, exaustos, empilharam suas armas e jogaram suas mochilas na grama. Juntaram galhos e folhas secas com as quais fizeram uma fogueira no meio da clareira. Ao mesmo tempo, dois deles amarraram o camponês a uma árvore.

O chouan atentamente observava tudo a sua volta. Não tremia, nem dizia uma palavra, mas a angústia transparecia em suas feições: a morte se aproximava.

Sua apreensão foi notada por um dos Azuis, como eram conhecidos os soldados da Revolução. Este homem havia sido destacado para ficar de olho no prisioneiro. Era um adolescente magro, com uma língua zombeteira e cortante. Ele provocou o prisioneiro, dizendo com forte sotaque parisiense:

— Não tenhas medo, rapaz! Não morrerás agora; tens ainda seis horas de vida...

Suas palavras foram interrompidas por uma voz sonora e áspera do outro lado da clareira.

— Amarre-o bem, Pierre! Não podemos deixá-lo escapar!

— Não te preocupes, Sargento Torquatus, vamos levá-lo inteiro para o general!

Então o rapaz voltou às zombarias:

— Olhe, seu cão, não penses que serás tratado como aqueles nobres. Faltam guilhotinas na República. Tu receberás tua cota de balas de chumbo: seis na cabeça e seis no peito!

O camponês ficou quieto como se não estivesse ouvindo, um olhar impenetrável se instalou em seu rosto.

Após aquele dito, o soldado Pierre sentou-se ao lado de seus companheiros perto do fogo e começou a limpar o mosquete. Tomou uma bala e, segurando-a entre os dedos, disse ao camponês:

— Vês isto, irmãozinho? Esta é para ti! – E colocou a bala na culatra.

Todos começaram a rir, cada um tentando superar o outro naquele jogo macabro de tormentos ao infeliz prisioneiro.

— Também tenho uma boa reserva de chumbo para ti! – vociferou outro.

— Tu ficarás igual peneira – gargalhou o Sargento Torquatus.

O camponês permanecia calmo e em silêncio, sob aquela torrente de ameaças. Parecia ouvir sons distantes que os gritos e risadas dos soldados impediam-no de discernir bem. De repente, abaixou a cabeça, pensativo. Das profundezas da floresta, ecoava o som de sinos tocando através da noite. Soava alto e claro ao seguir a brisa fria. Então o vento mudou para o norte, e imediatamente outro sino, de tom mais profundo, começou a soar. Logo outro — mais melodioso — se juntou a este vindo da direção oposta.

Os Azuis ficaram em silêncio, surpresos e apreensivos. Também se esforçavam para ouvir.

— O que é isso? – perguntou o sargento. Por que os sinos estão tocando?… Será um sinal?… Os rebeldes devem estar soando o alarme!

Então, começaram a imprecar o prisioneiro e a gritar uns com os outros. Vários deles pegaram em armas. O camponês levantou a cabeça e, olhando-os serenamente, disse:

— É Natal.

— É o quê? – perguntou o sargento.

— Natal... Estão tocando os sinos para a Missa do galo.

Os soldados perceberam sua própria tolice e começaram a xingar e resmungar. Depois ficaram em silêncio, enquanto tomavam seus lugares de novo ao redor do fogo. Por um tempo, ninguém falou. Natal… Missa do galo… Havia muito que eles não ouviam essas palavras. Isso despertava vagas lembranças de épocas mais felizes, de ternura de há muito esquecida, de paz.

Com as cabeças baixas, eles ouviram aqueles sinos que lhes falavam um idioma esquecido. O Sargento Torquatus largou o cachimbo, cruzou os braços e fechou os olhos como quem saboreia uma sinfonia. Então, envergonhado por esse sinal de fraqueza, virou-se para o prisioneiro e perguntou em tom rude:

— Tu és desta região?

— Eu sou de Coglès, não muito longe daqui.

O sargento se interessou — Então há padres na tua cidade?

— Os Azuis não conquistaram tudo... Do outro lado do rio ainda há liberdade. Não podes ouvir? O sino de Parigué que está tocando agora. O outro mais fraco é do castelo de Bois-Guy. E o mais distante é o sino de Montours. E com o vento favorável, poderíamos até ouvir o grande sino de Landéans.

Um dos soldados, chamado Gil, tinha ficado em silêncio, enquanto os outros provocaram o chouan. Ouvia tudo atentamente e parecia comovido. Os outros, após um momentâneo sentimento de ternura, já tinham fechado seus corações.

Naquele momento, vindo de todos os lados, o badalar dos sinos de aldeias distantes podia ser ouvido. Era uma doce melodia que aumentava e diminuía de acordo com a brisa.

Gil abaixou a cabeça e escutou. Pensava no passado... Lembrou-se da igreja de sua aldeia natal, resplandecente com velas acesas, a manjedoura com seus belos adornos, onde cintilavam pequenas lâmpadas vermelhas e azuis. Recordou-se dos alegres hinos de Natal, cantados por gerações. Músicas inocentes, tão antigas como a França, falando de pastores, flautas, estrelas e crianças; de paz, perdão e esperança... Ele sentiu seu coração apertar com o calor dessas imagens gentis que ele havia abandonado por tanto tempo.

Os sinos continuaram a tocar de longe. Torquatus ordenou que todos dormissem e colocou Gil no primeiro turno de vigília. Os Azuis, exaustos pela refrega do dia e desejando esquecer o som daqueles sinos que lhes trouxeram tantas memórias de suas infâncias felizes, adormeceram.

O fogo ainda crepitava... Apenas Gil e o chouan estavam acordados. O azul aproximou-se do chouan amarrado.

— Tu sabes? – disse o soldado – De onde eu venho costumávamos fazer uma manjedoura enorme na igreja e colocávamos o Menino Jesus lá cercado por Nossa Senhora e São José.



E então disse:

— Tu queres ir embora?

— E tu? Eles vão te executar.

— Eu irei contigo. Estou farto dessa maldita República! Eu fui forçado a me alistar. Minha família é católica. Em casa, desde os meus primeiros dias, eles me ensinaram a respeitar o Rei.

— Então venha comigo, – respondeu o chouan. – Torna-te fiel outra vez. Vou levar-te a um padre para que possas te confessar. Juntos, lutaremos por Nosso Senhor Jesus Cristo e pelo Rei.

O azul não disse mais nada. Tomou uma faca e cortou as cordas que prendiam o prisioneiro. Não demorou muito para que ambos escapassem por meio da escuridão da noite.

Não se podia mais ouvir os sinos ao vento, mas eles continuaram a soar nos corações dos dois homens. Era Natal!

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* Adaptado de: https://www.returntoorder.org/2016/12/the-christmas-of-a-Chouan/?pkg=xpmasport , com base na obra “Legendes de Noel – Contes Historiques” do historiador francês G. Lenôtre (pseudônimo de Théodore Gosselin Lenotre, 1857-1935).

Fonte: Revista Catolicismo, dezembro/2024

26 de dezembro de 2024

“Pousadas”: tradição mexicana que ilumina o Natal



No Natal, piedoso costume mexicano faz reparação à recusa de hospedagem feita a São José e a Nossa Senhora em Belém

 

 ✅  Luis Dufaur

A doçura e as alegrias de Natal contrastam com a dureza da recusa a São José e à Santíssima Virgem quando pediram pousada em Belém, a cidade do rei David, fundador da estirpe da Sagrada Família.

São José bateu à porta da hospedaria explicando que sua esposa estava prestes a dar à luz. Responderam-lhe que não havia lugar. Ele bateu em outras portas, mas ninguém se apiedou da humildade da alta nobreza empobrecida, mas que era daquela cidade e pedia em grande necessidade.

Na fria noite de inverno, só lhes restou irem se abrigar numa gruta que era refúgio de animais!

Em Jerusalém, cidade enriquecida pelas ofertas ao Templo para atrair a vinda do Messias, onde residiam as maiores figuras do povo hebraico como o Sumo Sacerdote, o Sinédrio, o rei usurpador Herodes, a classe sacerdotal e os ricos comerciantes, nem pensavam que o Messias estivesse por nascer em Belém, como deveriam saber pelos anúncios dos profetas.

Isaías assim profetizara tal insensibilidade: “O boi conhece o seu proprietário, e o asno o estábulo do seu dono; mas Israel não conhece nada, e meu povo não tem entendimento. Ai da nação pecadora, do povo carregado de crimes, da raça de malfeitores, dos filhos desnaturados! Abandonaram o Senhor, desprezaram o Santo de Israel, e lhe voltaram as costas” (Isaías 1, 3-4).

Nosso Senhor Jesus Cristo deveria ter nascido em alguma dependência do Templo, ou o rei deveria ter-lhe cedido seu palácio. O Menino Jesus deveria ser aclamado pela nação inteira. Nada disso aconteceu, e o divino recém-nascido foi depositado numa manjedoura, cumprindo-se a profecia de Simeão de que Ele seria a pedra de escândalo para a perdição e salvação de muitos, e para que se conhecessem as cogitações ocultas dos corações (Lc 2, 34-35).



Natal transmite a santa alegria

A Sagrada Família, entretanto, nem parecia incomodada por essa recusa. Pelo contrário, ninguém poderia imaginar a alegria de Nossa Senhora e de São José junto àquele misérrimo — e quão glorioso! — presépio da gruta de Belém. Eles adoravam o Menino recém-nascido, Filho d’Ela e Filho de Deus, a divindade encarnada na natureza humana, o Messias anunciado havia séculos!

Nele viam o executor de tudo o que foi prometido aos profetas: a Redenção do gênero humano, a fundação da Santa Igreja, a expansão da civilização cristã em todos os continentes ao longo de todos os séculos.

Nossa Senhora chamou alguns para participar da sua sacrossanta alegria na Santa Gruta de Belém. A começar pelos três santos pastorinhos e, pouco depois, pelos três Reis Magos que vieram do Oriente guiados por uma maravilhosa estrela.

Não há na Terra gáudio mais autêntico do que a alegria do Natal, porque nele o amor religioso toca o mais profundo dos corações. E esse amor, se é autêntico, inspira ódio ao mal, pois do contrário não seria verdadeiro. Prova é que hoje os corações endurecidos renovam sua rejeição ao Santo Casal com um Natal comercial que profana a sublimidade desse grande acontecimento.



Reparação das “pousadas”

É oportuno indagar se não há almas sensíveis que pelo menos com um simples gesto reparem a dureza de coração — “não havia lugar para eles na estalagem” (Lc 2, 7) — que fechou portas ao augusto casal.

Reconforta-nos na Fé, no amor e na alegria natalina uma bela tradição do México católico. Pois naquela grande nação os bons católicos fazem uma celebração religiosa reparando a cruel recusa de Belém e do povo eleito em geral.

São as “pousadas”. Trata-se de uma piedosa novena de festas populares, celebradas de 16 a 24 de dezembro, para dar à Virgem Maria e a seu castíssimo esposo a acolhida que não lhes foi dada antes do nascimento de Jesus.

Essa prática foi introduzida em 1587 pelo Frei Diego de Soria, superior do convento de Santo Agostinho de Acolman, com aprovação do Papa Sisto V. Posteriormente ela se expandiu para vários países da América Central, tendo sido levada pela migração até os EUA, onde é hoje muito praticada.

No que consistem as “pousadas”?

Elas formam uma procissão de 10, 15, 20 ou mais casais acompanhando São José e Nossa Senhora prestes a dar à luz, batendo nas portas das casas pedindo pousada.

Meninos e meninas chamados de “pastores” se formam em duas alas, uma para elas e outra para eles. Na noite de 24 de dezembro, vestindo uma roupa especial que evoca os tempos do império espanhol e usando chapéus decorados, tocam um chocalho, dançam e cantam para o Menino Jesus no portal de Belém.

Cada criança recita um verso enquanto oferece um presente na festa. O conjunto chama-se “pastorela”, pois leva alguma reprodução de São José e da Virgem no tradicional burrico à procura de hospedagem pelas vielas de Belém. Ou até uns figurantes representando-os.

Os peregrinos batem à porta de uma casa — previamente combinada — entoando a primeira das 12 estrofes tradicionais do pedido de pousada que, embora variem um pouco em cada lugar, dizem: “Em nome do Céu / peço-te pousada / porque minha amada esposa não pode andar”.

O grupo dentro da casa então nega o ingresso: “Aqui não é pousada / continua / não posso abrir para ti / pode ser que sejas um ladrão”.

Inicia-se uma troca verbal de alguns minutos. Os peregrinos insistem: “Não sejas inumano, / tem caridade. / O Deus dos Céus / vai te premiar /. Peço-te uma pousada / senhor querido / porque a Rainha do Céu vai ser Mãe”.

A resposta é sempre negativa: “Podem ir embora logo e não incomodar mais / porque se ficar bravo vou te bater”.

Nada desanima os fiéis na rua. que dizem em coro: “Chegamos esgotados de Nazaré, / eu sou o carpinteiro de nome José”.

E o retorno é ainda um menosprezo: “Pouco me importa o nome, / deixa-me dormir, /pois eu te digo que não vou abrir”.

E mais uma vez, a insistência: “Pousada te pede, amado caseiro, / por só uma noite, a Rainha do Céu”.

Ante essas palavras o coração duro diz: “Pois bem, se é uma Rainha que solicita / como é que anda tão sozinha na noite?”

E a resposta: “Minha esposa é Maria, /é Rainha do Céu, /e vai ser Mãe do Verbo Divino”.

De dentro se ouve cantar: “És tu José? Tua esposa é Maria? / Entrai, peregrinos, /não vos conhecia”.

Na rua, então, entoam: “Deus te pague, senhor, pela tua caridade / e te encha o Céu de felicidade”.

      Do interior da casa as vozes se aproximam: “Ditosa a casa que neste dia hospeda / a Virgem pura, a formosa Maria”.

Quando as portas se abrem, todos entoam em coro: “Entrai, Santos Peregrinos, /aceitai esta casinha que, apesar de pobre morada, / vos dou de coração”.

A “pastorela”, ou procissão, ingressa na casa precedidos pelo “mistério” — imagens de Jesus e Maria, ou pessoas fantasiadas representando-os, e até um anjo e um burrinho, segundo a piedosa fantasia.



A oração, a “pinhata” e a festa

Todos juntos então rezam um terço, entoam ladainhas e/ou canções natalinas. Depois servem-se frutas da estação, como tangerinas, cana-de-açúcar e tejocotes (pequenas maçãs locais), além de doces e amendoins, um quentão — nesta época faz frio na região — feito com frutas como goiaba, cana-de-açúcar, maçã e canela. Variam de acordo com cada receita de família e com o toque pessoal de quem prepara a bebida.

Chega então o momento preferido das crianças. Elas devem destruir a “pinhata”, que consiste num pote de barro, ou papelão com uma estrutura de arame forrada de papel machê intensamente colorido.

Ela deve ter o formato de uma estrela de sete pontas em que cada uma representa um pecado capital, ou o próprio diabo, que com suas cores vivas e enfeites seduz a alma inocente, levando-a ao pecado.

Cada criança com os olhos vendados representa o fiel que, embora sem ver, com a virtude teológica da fé derrota o pecado recuperando o dom sobrenatural da graça. Com um bastão na mão, símbolo do poder do próprio Deus que dá forças para vencer as tentações, procura acertar golpes na “pinhata” pendurada do teto. Antes de começar, as crianças são viradas três vezes, em memória dos trinta e três anos que Cristo viveu.



Quando alguma criança acerta e quebra a “pinhata”, todos celebram a vitória do Bem sobre o Mal. Então chovem sobre as crianças guloseimas, doces e frutas de que a “pinhata” está repleta, simbolizando as graças e os dons de Deus que nos irriga com seu amor e que, ao destruir o mal, obtém para nós as bênçãos do Céu. Em certas cidades, a tradição manda reproduzir a cena no átrio da igreja, reunindo todos os habitantes da vila ou comunidade, mudando as famílias a cada dia da novena. As famílias são responsáveis por oferecer a cada um dos participantes frutas da época, doces, bebidas e alguns petiscos.

Por fim, no final da “pousada”, há troca de lembranças na forma de saquinhos com doces, frutas e salgadinhos. 

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Fonte: Revista Catolicismo, dezembro/2024


25 de dezembro de 2024

O MARAVILHOSO ESPLENDOR DAS CERIMÔNIAS NATALINAS DE OUTRORA

 

O precioso escrínio de cristal que abriga as tábuas da manjedoura na qual nasceu Jesus. Essa sagrada relíquia pode ser venerada na “Cripta da Natividade”, também conhecida como “Cripta de Belém”, sob o altar-mor da Basílica de Santa Maria Maior, em Roma.

A sublimidade dos costumes de Natal da Santa Igreja Católica Apostólica Romana que tanto atraíam os fiéis do mundo inteiro

 

Fonte: Revista Catolicismo, dezembro/2024

Visitando Roma num abençoado dia 25 de dezembro de 1841, Mons. Jean-Joseph Gaume1, escritor francês, católico contra-revolucionário, ficou extasiado com a magnificência das cerimônias natalinas que teve a graça de presenciar nas Basílicas de São Pedro e de Santa Maria Maior.

Na primeira basílica, o Monsenhor assistiu, por exemplo, a Missa Pontifical da Noite de Natal e o tradicional costume da bênção da espada e da armadura, símbolos da disposição do católico de lutar por Deus, pela Igreja e pela ordem na sociedade; na segunda, ele pôde contemplar o próprio Presépio no qual nasceu o Menino Jesus. Esse verdadeiro e eternamente venerável Presépio, do qual podemos dizer que foi o berço da civilização cristã, fica exposto nessa monumental basílica na chamada “Cripta de Belém”.

Os atos solenes que tanto empolgaram Mons. Gaume, infelizmente se desvaneceram em nosso século, muitos deles até mesmo se extinguiram. Tudo causado pelo sinistro processo de “autodemolição da Igreja”, acelerado sobretudo a partir do Concílio Vaticano II. Com isso, a pompa praticamente desapareceu dos ambientes da Santa Igreja, bem como do mundo.

Em nome de uma demagógica defesa dos pobres — mais propriamente de uma pobreza miserabilista, tipo comunismo cubano —, “teólogos da libertação” como que excomungaram o esplendor que irradiava da Igreja e que tanto atraía os fiéis do mundo inteiro, inclusive os mais pobres, justamente aqueles que lotavam as igrejas para se encantarem com a suntuosidade das cerimônias católicas, como aquelas que se realizavam na Semana Santa, em Corpus Christi, no Natal etc.

Nós, pobres mortais do triste e apagado século XXI, neste mundo neopagão, no qual fomos privados da graça de assistir às cerimônias de outrora, poderemos sentir seus perfumes lendo a narração que o autor fez das que ele presenciou na Cidade Eterna em meados do século XIX, durante o glorioso Pontificado do grande Papa Pio IX.

As saudades de coisas católicas de um tempo que não conhecemos, poderão antecipar os planos de Deus para a restauração da Cristandade de um modo nunca visto na História. Entre outras razões, este é o objetivo que almejamos com a transcrição2 que nas páginas seguintes oferecemos aos nossos leitores neste Natal de 2024.

Redação de Catolicismo


1. Mons. Jean-Joseph Gaume (1802–1879) foi um teólogo francês, autor numerosos livros tratando de teologia, história e educação. Cavaleiro da Ordem Reformada de São Silvestre, membro da Academia da Religião Católica de Roma, Doutor em teologia da Universidade de Praga, membro de diversas sociedades de eruditos, vigário-geral da Diocese de Nevers, vigário-geral honorário de várias dioceses, recebeu do Papa Pio IX, em 1854, o título de Protonotário Apostólico.

2. As Três Romas, Diário d´uma viagem à Itália, Mons. Jean-Joseph Gaume, Porto, Tipografia de Francisco Pereira d´Azevedo, 1857, tomo primeiro, pp. 297 a 313.


MONUMENTAIS E BELAS TRADIÇÕES DE NATAL

 

O belo dia de Natal, dia que eu tanto havia desejado ver em Roma, se mostrou tal qual eu gosto dele para estar em harmonia com a festa.

Na França e nos países do Norte, quero que ele seja muito frio, muito glacial; que as estrelas cintilem no azul do firmamento; que a neve estale debaixo dos pés, a fim de excitar nos corações a mais terna, a mais viva compaixão do Infante divino que tirita e chora sobre a palha, no seu berço exposto aos quatro ventos.

Em Roma e nos países quentes, na falta de gelo e neve, quero um nevoeiro mais ou menos espesso, mais ou menos penetrante, e chuva mais ou menos fria, mais ou menos abundante: fomos servidos como desejávamos.

Às oito horas estávamos no Vaticano. Seja-me permitido dizê-lo em elogio da nossa curiosidade, nós fomos dos primeiros. Ora, naquele dia, está combinado que não se vai a São Pedro para rezar, mas para contemplar; a menos que contemplar não seja também rezar, o que eu creria de boamente, ao menos para o católico respeitoso que assiste às cerimônias papais. Seja o que for, nós nos pusemos a contemplar. O primeiro objeto que nos chamou a atenção foram os alabardeiros do Papa, uma companhia dos quais entrou pouco depois de nós e foi tomar posição defronte do altar da Confissão de São Pedro, a fim de guardar o recinto reservado. Nada mais pitoresco e gracioso que o seu uniforme: calções pretos, vermelhos ou amarelos; couraça redonda da Idade Média, com braçais articulados; gargantilha em volta do pescoço, capacete redondo de aço, coroado de um penacho vermelho; largo talabarte amarelo, e longa alabarda à antiga; dir-se-ia a ressurreição dos tempos cavalheirescos.

 

Tradições da Santa, Una e Imortal Igreja

Este espetáculo tão novo serviu de tema às seguintes reflexões: Vede como Roma é essencialmente conservadora! Percorram-se todos os Estados da Europa, em nenhuma parte se encontrará, a não ser talvez no pó dos museus, este traje de um tempo que já não existe. Só a cidade eterna o conserva e expõe à luz do dia como uma página de história que cada qual pode ler. Mais de uma vez, sem dúvida, os viajantes almiscarados do século passado deviam de sorrir à vista deste imutável e gótico uniforme; mas o inteligente artista da nossa época o admira e estuda, em tanto que o cristão abençoa o pensamento que preside à sua conservação.

Este pensamento romano manifesta-se por toda a parte, assim nas pequenas coisas como nas grandes. Essas Ordens religiosas, cujos filhos póstumos percorrem as ruas e ruínas da cidade pontifical, tais, por exemplo, como os Trinitários e os cavaleiros de Malta, que são aos olhos do observador, senão a tradução viva do mesmo pensamento? Parece-vos que a lei devora sancionar uma supressão já operada de fato: o vosso zelo vos desvaira. Como Deus, Roma cria e conserva, mas não destrói; guarda todas estas ordens caducas como as relíquias de um passado venerável, como os anéis da cadeia tradicional. Verdade é que o Trinitário já não irá a Tunes levar o resgate dos cativos, porém resgatará outros prisioneiros, os do pecado; trabalhará no ministério das almas. Do mesmo modo, o cavaleiro de Malta já não desembainhará a sua gloriosa espada contra o maometismo, mas desempenhará junto do chefe da cristandade nobres funções, no enquanto os perigos da fé ou os interesses da humanidade não o chamam a novos combates.

O mesmo espírito de conservação se manifesta nos monumentos da Antiguidade. Se a Áustria, a França, a Inglaterra, a Rússia, ou qualquer outro povo fosse senhor de Roma por 50 anos, é muito de recear que tudo ali fosse transtornado. O gênio de cada povo, a atividade de uns, a incúria dos outros, as colisões políticas, o espírito mercantil e industrial comprometeria rapidamente a existência da maior parte das ruínas monumentais. Sob a guarda da Igreja não tem elas nada a temer. O mais cativo, o mais inteligente gênio da conservação vela por elas; e Roma é sempre um incomparável museu onde os costumes e as coisas de todos os tempos, cuidadosamente conservados, são oferecidos ao estudo e à admiração do mundo inteiro.

Daqui nasce involuntariamente uma reflexão mais alta: não se deve duvidar; este espírito de conservação é evidentemente providencial, e a Igreja que o manifesta parece dizer a seus filhos: “Se eu emprego tantos cuidados em salvar do olvido e da destruição usos e monumentos de um interesse secundário, qual pensais que deve ser a minha solicitude para conservar intacto o depósito sagrado da fé? Confiai na vossa Mãe; ela nada deixará perecer do vosso divino patrimônio”.

 

O Grande Cerco de Malta por Charles-Philippe Larivière (1798-1876). Sala das Cruzadas, Versalhes. No centro, com a espada na mão, o heroico Grão-Mestre da Ordem de Malta, Jean Parisot de la Valette

Na Igreja, a beleza dos mistérios que nos atraem

O tempo havia fugido, eram mais de nove horas; a Basílica de São Pedro tinha-se enchido de uma multidão imensa, quando um tiro de peça anunciou a partida do Santo Padre. Saindo dos seus quartos, o augusto ancião desceu, pela escada interior do palácio, a uma capela lateral da Igreja. Brevemente se viu, dominando todas as cabeças, com pálio brilhante de ouro e seda, depois dois largos leques da maior beleza, gloriosa recordação da magnificência imperial; e debaixo desse pálio, assentado na Sedia gestatória [troneto portátil utilizado para levar os Papas], resplandecente de ouro e púrpura, o Vigário de Jesus Cristo, com a tiara na cabeça, glorioso emblema da sua tripla dignidade de Pai, Rei e Pontífice.1 Caminhava majestosamente, levado aos ombros dos oficiais da sua casa, com vestidos de cerimônia vermelhos.

O sacro Colégio abria a marcha, a guarda nobre formava a ala e seguia o cortejo que veio parar diante de nós, por trás do altar da Confissão de São Pedro. Depois de ter deposto a tiara e feito uma breve adoração ao pé do altar, o Sumo Pontífice subiu a um trono colocado à direita, entoou Terça, tomou a mitra c se assentou. Por que sucede a mitra à tiara?

Esta misteriosa troca principiou para mim uma longa série de enigmas cuja solução muito me atormentou o espírito. Compreendi bem depressa que se o Santo Padre era Rei sobre a Sedia gestatoria, no altar não era mais que Pontífice, e a substituição da mitra à tiara explicou-se por si mesma. Porém dois novos hieróglifos me embaraçaram mui diversamente, um que eu via, e outro que não via. O Santo Padre, o Bispo dos bispos, não trazia bacilo; debalde procurei, mas este atributo distintivo do cargo pastoral não figurava de modo algum entre as insígnias; por que é isto? Primeiro enigma.

Dois prelados domésticos, que precediam o Santo Padre, traziam, um, uma soberba espada de punho de ouro, stocco; outro, um chapéu ducal, cimeiro, de veludo carmesim, forrado de arminho, ornado de pérolas e cercado de um cordão de ouro com uma pomba no meio, símbolo do Espírito Santo; a espada e o chapéu foram depostos no canto do altar, onde se conservaram durante a Missa: por que é tudo isto? Segundo enigma.

Procurei em torno de mim algum Édipo capaz de me explicar estes dois mistérios: os meus esforços não tiveram bom êxito. A Missa começou, continuou, acabou; e aquele chapéu, aquela espada, aquele báculo, não me saíram da cabeça. Confesso a minha distração; para a expiar, condenei-me a longas investigações sobre a causa que a produzira, e a fim de poupar a mesma pena àqueles que viessem depois de mim, vou dar a explicação dos dois enigmas.

 

Em nome de São Pedro, uma ressurreição


Relíquia de São Materno
(tesouro da Basílica de Nossa Senhora,
 em Liège, Bélgica)

O pontificado de São Pedro em Roma durou 25 anos. Posto que as nossas histórias galicanas não nos dizem coisa alguma dos trabalhos do Apóstolo durante esta longa permanência, sabe-se muito bem que ele não esteve de braços cruzados. Os antigos monumentos, os arquivos e as tradições das Igrejas da Itália nos falam a cada instante das viagens do pescador Galileu, dos missionários que ele enviou a todas as partes da Península e até além dos Alpes; tais, por exemplo, como São Fronte, à Aquitânia, e São Materno, à Germânia.
2 Com este último, partiram para Trèves Santo Eucherio e São Valério, todos três discípulos do Príncipe dos Apóstolos. Ao cabo de 40 dias Materno morreu. Um dos seus companheiros de apostolado voltou a Roma a dar essa nova a São Pedro, e rogar-lhe enviasse um novo obreiro em lugar do defunto. O Apostolo contentou-se com lhe dizer: “Pegai o meu bastão, tocai com ele o morto e lhe direis da minha parte: Levantai-vos e pregai”. À ordem daquele cuja única sombra curava os doentes, operou-se o milagre: Materno saiu cheio de vida da sepultura, continuou a sua missão e veio a ser o segundo bispo de Trèves. Em memória eterna deste milagre, os sucessores de São Pedro não trazem bordão pastoral, exceto na diocese de Trèves, quando ali se acham.

Este fato, que nada tem de surpreendente quando se conhece o miraculoso poder dos Apóstolos e a necessidade dos prodígios para acreditar a fé nascente, repousa além disso em ilustres autoridades. Citarei só duas; o Papa Inocêncio III, e São Tomás de Aquino — o primeiro foi o maior homem do seu século, o segundo, a razão mais sã e forte da Idade Média.3 Feliz com a minha descoberta, admirei de novo o espírito de conservação que faz a glória particular da Igreja de Roma, e bendisse minha mãe por nos haver guardado, num dos seus usos, a recordação dos fatos miraculosos realizados em torno do nosso berço.

 

Tradição de Natal: o Papa abençoava uma espada e uma armadura


O Papa Pio VIII (1829-1830),
 na Sedia Gestatoria, na Basílica de São Pedro
— Emile Jean Horace Vernet (1829).
 Palácio de Versalhes, França.
 
Mas o que significava a espada e o chapéu ducal? A explicação deste novo enigma veio ainda rematar num tributo de admiração e reconhecimento. Nos séculos mais remotos, quando teve lugar a encarnação do cristianismo nas nações europeias, o direito da força houve de regular-se pelo direito moral. Instrumento de paixões pessoais, de opressão pública e de iniquidade no mundo idólatra, tornou-se a espada, nas mãos dos príncipes e dos guerreiros cristãos, uma arma destinada a proteger a verdade, a equidade, e a ordem social. Esta nova missão do ferro foi incessantemente recordada àqueles que Deus encarregava de a desempenharem. E eis que na mesma noite em que o Menino Deus veio despedaçar todas as tiranias, o seu Vigário abençoa uma armadura que envia ao imperador, ao rei, ao príncipe, ao guerreiro que combateu valorosamente ou que deve combater os inimigos da verdade, da justiça e da paz do mundo. No século XVI, Sixto IV chamava já a este eloquente uso, um costume vindo dos Santos Padres; e de fato, os séculos anteriores tinham visto Urbano VI dar a armadura sagrada a Fortiguerra, presidente da república de Lucca; Nicolau V, ao príncipe Alberto, irmão do imperador Frederico; Pio II, a Luís VII, rei de França. Roma continua a benzer todos os anos a espada e o chapéu ducal do guerreiro cristão; e se há ocasião, o Pai comum das nações a envia ao príncipe, ao capitão que dela se tornou digno pelas suas façanhas e pelo seu comportamento.4

 

Esplendor da Missa Pontifical na Noite de Natal

Se, nestes usos preliminares, eu pudera ler uma página da nossa bela Antiguidade, a missa pontifical me revelou quase inteira. Depois da confissão aos pés do altar, o Santo Padre foi tomar lugar num trono preparado no fundo do coro, imediatamente por baixo da cadeira de São Pedro. À direita e à esquerda, sobre estrados forrados de vermelho, se assentavam os membros do sacro Colégio: contei 24 de casula e mitra brancas ricamente bordadas.

Por trás dos cardeais, viam-se os bispos, os chefes de ordem e os prelados: por cima destes longos assentos havia duas ordens de tribunas: as tribunas superiores, reservadas aos príncipes e embaixadores; as outras, ocupadas pelas pessoas munidas de bilhetes. Não se pode dizer quão grave, e verdadeiramente católico é este espetáculo.

Em memória da antiga união da Igreja oriental e da ocidental, em testemunho perpétuo da catolicidade da fé que falou e deve até ao fim falar todas as línguas, a epístola e o evangelho foram cantados primeiro em latim por dois eclesiásticos de Roma, depois em grego por um subdiácono e um diácono armênios revestidos com o seu magnífico traje oriental.

Aproximando-se o momento da consagração, o Santo Padre desceu do seu trono. Depois do cumprimento do formidável mistério, o augusto ancião pegou a santa Vítima, a imagem do Menino Jesus, em suas venerandas mãos, e elevando-a acima da cabeça, apresentou-a aos quatros pontos do céu; depois, antes de tornara colocá-la no altar, deu silenciosamente a bênção ao universo. Aquele silêncio profundo, os cabelos brancos do Vigário de Jesus Cristo, todas aquelas cabeças de príncipes e reis inclinadas até à terra, à vista da augusta Vítima elevada entre o Céu e a Terra, tudo isto produz na alma uma impressão que se é feliz em tê-la experimentado, porém que se não pode traduzir.

Antes da comunhão, o Santo Padre voltou ao seu trono; viu-se o cardeal-diácono deixar o altar e trazer-lhe, precedido de tochas, o adorável Corpo do Salvador. Neste momento solene toda a gente caiu prosternada, até um inglês que eu tinha à minha direita. O Santo Padre assentado, com as mãos juntas, a cabeça respeitosamente inclinada, tomou a Santa Hóstia e administrou a comunhão a si próprio; depois, pegando noutra, a ofereceu ao cardeal-diácono que comungou da mão do Vigário de Jesus Cristo. O diácono voltou ao altar donde levou, com as mesmas cerimônias, o precioso Sangue, de que o Santo Padre bebeu com um canudinho de ouro segundo o costume da primitiva Igreja, depois do que o diácono absorveu o resto da mesma maneira. Esta dupla comunhão ressuscita os primeiros tempos da Igreja e do mundo no Pontífice assentado no seu trono, vede o Filho de Deus assentado no meio dos seus Apóstolos e distribuindo-lhes o pão de vida; no diácono recebendo em pé o Cordeiro divino, vede o Israelita, no momento de transpor o mar Vermelho, comendo em pé e na atitude do viajante, o Cordeiro pascal, viático da sua peregrinação e penhor do seu livramento.

A este espetáculo, a inteligência do cristão, o seu coração, a sua existência toda, superabundam numa alegria doce, intima, profunda: quatro mil anos de amor acabam de lhe passar por diante dos olhos.

O próprio Presépio do Salvador exposto à veneração dos fiéis


 

O verdadeiro Presépio exposto na Basílica de Santa Maria Maior

Terminada a Missa, o Santo Padre foi reconduzido aos seus quartos na Sedia gestatoria, do alto da qual abençoava, ao atravessar a imensa basílica, o povo inumerável que acudira para o ver. Todos os cardeais, com a mitra na cabeça, precediam o Sumo Pontífice, seguido dos bispos, dos prelados e da guarda nobre, que fechava a marcha. Muito nos custou a arrancar-nos daquelas tribunas donde havíamos contemplado o mais belo espetáculo da nossa vida. Contudo força foi descermo-las: como todas as alegrias deste mundo, a augusta pompa desaparecera.

Quando havíamos partido para São Pedro, tinham-nos dito: “Não vos deixeis absorver em demasia; tende cuidado; encontram-se inevitavelmente nas cerimônias papais filhos de Rômulo apaixonados pelos lenços do seu próximo”.

Preocupados do que tínhamos visto, do que tínhamos sentido, não sei como nos veio à lembrança, ao lançar-nos na multidão, tomar certa medida de segurança. Graças a Deus, nenhum de nossos vizinhos se achou no pré-citado caso e saímos sãos e salvos com armas e bagagens.

Livres dos gatunos, caímos nas mãos dos vetturini. A chuva continuava a cair a torrentes: em Roma, como em Paris, em dia de festa e de mau tempo, os coches são reis. Depois de termos por muito tempo esperado, procurado, suplicado, encontramos por fim uma dessas majestades populares, que teve por bem obrigar-se a conduzir-nos à casa mediante cinco paulos e meio. De tarde, foi-nos de novo necessário implorar aos potentados dos becos; porque as cataratas do céu estavam sempre abertas, e nós queríamos a todo o custo visitar Santa Maria Maior [foto abaixo]. Naquele dia somente o próprio Presépio do Salvador fica exposto à veneração dos fiéis.

Eram cerca de quatro horas quando chegamos à Basílica Libéria [Santa Maria Maior]. Segundo o antigo costume, o Sumo Pontífice cantava lá as vésperas; mais de mil tochas iluminavam a Igreja e faziam-lhe cintilar os dourados; nunca o ouro do Novo Mundo brilhou com um fulgor mais vivo.

Terminado o ofício, a guarda pontifical faz evacuar a Igreja, cujas portas são fechadas. Só ficam nela um pequeno número de escolhidos: nós fazíamos parte dele, graças a um de nossos amigos. Mais um pouco, e vai nos ser dado ver com os nossos olhos o próprio Presépio de Belém, tocante testemunho do amor de um Deus feito nosso irmão.

Desde o princípio, rodearam os cristãos da Judéia dum respeito e de um culto solícito os lugares e os objetos santificados pela presença ou pelo toque do Salvador. Na medida em que o Evangelho estendia as suas conquistas na Palestina, conduzia ao reconhecimento e à fé multidões numerosas de peregrinos idos do Oriente e do Ocidente. A imperatriz Santa Helena para lá se dirigiu em pessoa, e mandou revestir o presépio de lâminas de prata e a gruta sagrada dos mais preciosos mármores.5

No tempo de São Jerônimo, era a afluência tão continua e numerosa, que o santo doutor escrevia de Belém: “Acode aqui gente do globo inteiro; a cidade não se despeja de homens de todas as nações;6 não se passa um dia, uma hora em que não vejamos chegarem bandos de irmãos que nos obrigam a fazer do nosso silencioso mosteiro um caravançará”[hospedaria].7


Intensa veneração ao Presépio do Menino Jesus

Guardado com mais amor que a Arca da Aliança, com mais respeito que o Tugurium de Rômulo, rodeado por gerações não interrompidas de cristãos fiéis, coberto dos ósculos de muitos milhões de peregrinos, regado com suas ardentes lágrimas, o Presépio deixou o Oriente por ocasião da invasão do maometismo. Foi no segundo ano do pontificado do Papa Theodoro, no ano 642. Roma o depositou na basílica Libéria8 com o corpo de São Jerônimo, igualmente trazido da Palestina: ela não quis que o santo doutor, guarda vigilante do Presépio durante a sua vida, fosse separado dele depois da sua morte.9

Ora, se a velha Roma fez consistir parte da sua glória em conservar a cabana de Rômulo, julgai a Roma cristã quanto mais feliz e orgulhosa se mostra por possuir o berço do Menino-Deus!10

O Presépio é o seu tesouro, a sua joia, faz a sua felicidade, a sua glória. Ela o guarda com um amor cioso, rodeia-o de uma veneração que não podem os séculos enfraquecer; conserva-o numa caixa de bronze e não o expõe às vistas senão uma vez cada ano.

Na noite que precede este dia tão desejado pelo peregrino católico, é o Presépio colocado primeiro sobre um altar na grande sacristia; o mais apreciável incenso arde em sua honra; depois os quatro cônegos mais moços de Santa Maria pegam a preciosa relíquia aos ombros, precedidos de todo o clero, a transportam solenemente para a capela de Sixto V. Depois da missa da Aurora tornam a buscá-la e a expõem no tabernáculo do altar-mor. Todo o clero se dirige depois à capela Borghese, situada defronte à de Sixto V, para nela descobrir a milagrosa imagem de Maria; é um modo de convidar a divina Mãe a contemplar o triunfo de seu Filho e a gozar ela mesma do seu próprio triunfo.

Oh! se estiverdes algum dia em Roma, não deixeis de venerar esta imagem de Maria. É ela a mesma que foi pintada por São Lucas, segundo a tradição;11 a mesma que Sixto III quis honrar, segundo o desejo do seu coração, mandando fazer os preciosos mosaicos do abside, e renovando a basílica em quase todas ao suas partes; a mesma aos pés da qual os santos Papas Símaco, Gregório III, Adriano I, Leão III, Pascoal I passavam as noites em oração; a mesma diante da qual Clemente VIII vinha, logo ao romper da aurora, descalço, oferecer o augusto sacrifício; a mesma à qual o ilustre Bento XIV não deixava sábado algum de render as suas homenagens, assistindo ao canto das ladainhas lauretanas.12

A recordação de tantas orações, de tantas lágrimas, de tantos brilhantes testemunhos de fé e piedade, produz indizível confiança, e nós teríamos ficado prostrados ao pé dessa imagem tantas vezes venerável, se o Presépio não houvesse dado outro curso aos sentimentos de nossos corações.

 

Menino Jesus venerado na Missa de Natal, na Basílica de São Pedro. 


Divino berço, eternamente venerável

Quando, pois, tudo estava pronto, dois cônegos de Santa Maria Maior desceram o Presépio do tabernáculo e o depuseram num altarzinho portátil. O cardeal protetor adiantou-se e foi o primeiro que veio render as suas homenagens ao divino berço; o clero o seguiu; chegou a nossa vez, e eu pude ver de perto, ver com os meus próprios olhos, o pobre Presépio em que Maria deu à luz o Salvador do mundo, envolvido em faixas!!!

O Presépio já não conserva a sua forma primitiva. As cinco pequenas taboas que lhe formavam as paredes estão todas reunidas. As mais compridas podem ter dois pés e meio de comprimento por quatro ou cinco polegadas de largura; são delgadas e de uma madeira enegrecida pelo tempo. Este berço, eternamente venerável, repousa num relicário de cristal, engastado numa moldura de prata esmaltada de ouro e de pedras preciosas: esplêndida oferenda de Felipe IV, rei de Espanha.

Terminada a veneração, lavrou-se o processo verbal, certificando a identidade do Presépio e as particularidades da cerimônia: depois do que a santa relíquia foi encerrada no tesouro, para não sair dele senão no ano seguinte em igual época.

O nosso dia estava completo. Tudo o que a religião tem de mais majestoso, a missa papal; tudo o que tem mais terno, o Presépio, tinha estado diante dos nossos olhos. Por isso o nosso coração estava contente, mas contente como o não pode estar senão em Roma, em dia de Natal, quando se viu, com olhos cristãos, o duplo espetáculo que acabo de dizer.

 

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Notas:

 

1. Pondo-a ao Pontífice o cardeal lhe diz: “Accipe tiaram tribus coronis ornatam, et scias te esse patrem principum et regum, rectorem orbis in terra Vicarium” etc. Os italianos chamam a tiara Triregno: é uma bela palavra.

2. Foggiuio, De romano divi Petri itinere et episcopatu, in-4.o, Exercit. XIII, XIV, XIX.

3. Eis as suas palavras: Inocêncio III diz: “Romanus autem Pontifex pastor alivirga non utitur, pro eo quod beatus Petrus Apostolus baculum suum misit Eocherio primo epíscopo Trevirorum, quem una cum Valerio et Materno ad praedicandum Evangelium genti Teutonicae destibavit. Cui successit in episcopatu Maternus, qui per baculum sancti Petri de morte fuerat suscitatus. Quem baculum usque hodie cum magna veneratione Trevirensis servat Ecclesia. De sacrif. Miss., c. VI. O mesmo Pontífice escrevendo ao patriarca de Constantinopla, repete o mesmo fato. De sacra unct., cap. unic., versus fin. — O doutor angélico exprime-se assim: “Romanus Pontifex non utitur baculo, quia Petrus mísit ipsum ad suscitandum quemdam discipulum suum, qui postea factus est episcopusTrevirensis, et ideo ín dioecesi Triverensi Papa baculum portat, et non in aliis”. Q. 3 , art, 3, dtstinct. 24, lib. IV. — A esta razão histórica ajuntam os autores varias razões misteriosas, para explicarem a ausência do báculo nas mãos dos sumos Pontífices; eis a principal: “Quia per baculum designatur correctio sive castigatio; ideo alii pontífices recipiunt a suis superioribus baculos, quia ab homine potestatem accipiunt. Romanus Pontifex non utiturbaculo, quia potestatem a solo Deo recipit” Desacr. unct. ad verb. Mystic, Vêde também Dnrandus, Rationalediv. Offic.) lib. III, c. 15; Àlzedo, De prcecelent. Episcop. dignit., p. I, c. 13 , n. 70; Hieron. Venerius, De exam. Epxscop.,lib, IV, cap. 20, n. 21; Barbosa, De offic. Et potest. episcop. , p. I, tit. I, n. 11 etc. etc. — Na Dissertação ad hoc que colocou no fim dos seus Monim, veter I. III, p. 209, faz o sábio Ciampini observar muito bem que a Ferula, espécie de bordão direito que se apresentava aos Papas no dia da sua eleição, e que se acha gravado nos antigos túmulos, não é um báculo, mas o emblema do seu poder temporal. — Pois se trata aqui do báculo episcopal, não posso resistir ao prazer de citar os versos seguintes de um autor da Idade Média, sobre a significação deste cajado espiritual e sobre o uso que o pontífice deve fazer dele:

In baculi forma, praesul, datur haec tibi norma:
Attrahe per primum, medio rege, punge per imum.
Attrahe peccantes, age justos, punpe vagantes:
Attrahe, sustenta, stimula, vaga, morbida, lenta.
(Gloss. De sacr. unct.c.unic).

4.Costanzi, Instituzioni di Pietà di Roma, t. 1, p. 8.

5. Euseb., Hist., lib. III, c. 41 e 43.

6. De Toto huc orbe concurritur; plena est Civitas universi generis hominum, et tanta utriusque sexus constipatio, ut quod álibi ex parte fugiebas, hic totum sustinere cogaris. Epist.XIII ad Paulinum.

7. Nulla hora nullumque momentum, ín quo non fratrum occurramus turbis, et monasterii solitudinem hominum frequentia commutemus. Id. , c. VII in Ezecfi.

8. Vêde os dois sábios autores da Historia do Presépio, Giov. Batelli e Fr. Bianchini, De Translat. sacr. cunabul AC praesep. Dom., etc. Vêde também Cancell., Notte di Natale, c. XXVI. p.88; Benedicto XIV, De die natali etc.

9. Arringhi, Rom. subterr., t. II, p. 269, ediç. Paris, in-foL

10. Porro Christi natalis nobile monumentum, ex ligno confectum Roma possidet, eoque multo felicius illuslratur, quam tugurio Romulí, quod in textum ex stipula eorum majores ad saecula de industria conservaveruot.Baron,, t. I, an. I, n. 5.

11. Baron., an. 530. Cancellieri, Notte di Natale, c. XXVI, p. 80.

12. Costanzi, lib. II, p. 27.