24 de março de 2026

“O Anjo do Senhor Anunciou a Maria e Ela concebeu do Espírito Santo”

Anunciação – Joos van Cleve (1485–1541). Metropolitan Museum of Art, Nova York.


A Igreja Católica fixou no dia 25 de março a festividade para se comemorar a Anunciação e a Encarnação do Verbo de Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo, no seio virginal da Santíssima Mãe. “O Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1, 14).

Acontecimento anunciado — sete séculos antes do Nascimento de Jesus — pelo Profeta Isaías: “Uma virgem conceberá e dará à luz um filho, e o chamará Deus Conosco” (Is, 7, 14).

A respeito desta magna celebração, seguem excertos de uma conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira para sócios e cooperadores da TFP na véspera do dia da Anunciação em 1984.

No texto, inserimos subtítulos e adaptamos a linguagem falada à escrita, sem passar pela revisão do autor.

“Eis aqui a escrava do Senhor. 

Faça-se em mim segundo a vossa palavra”

A respeito da festa da Encarnação, celebrada nos dias 25 de março de cada ano, muitos aspectos poderiam ser expostos. Eu começaria por abordar o seguinte.

Se considerarmos o universo, veremos que ele é constituído de incontáveis maravilhas criadas por Deus. Qualquer coisa do universo é uma maravilha: uma gota d´água é uma maravilha, um passarinho, uma pedra; até mesmo coisas não bonitas como as formigas, por exemplo. Vendo-as por meio de um microscópio parecem monstros, entretanto elas são maravilhas de organização e de sabedoria.

Concepção de um plano maravilhoso

Como essas maravilhas do universo seriam no Paraíso terrestre? Haveria formigas? Seriam belas ou feias? Como seria uma gota d´água no Paraíso? Como lá seria uma taça de água? Haveria taças ou haveria flores magníficas, à maneira de copos de leite, nos quais os homens beberiam?

Uma coisa é positiva: é que Deus, fazendo tantas maravilhas no universo, dificilmente se poderia compreender que Ele não coroasse todas elas com uma maravilha complementar e acima de todas.

Imaginem um joalheiro que tenha um cofre cheio de joias e um escrínio cheio de pedras preciosas. Mas essas pedras preciosas ainda não engastadas como joias. Ele as esparrama sobre a mesa, acende sobre elas uma lâmpada as fica olhando, encantado com todas elas.

Se ele for um joalheiro inteligente, mais cedo ou mais tarde lhe virá a ideia seguinte: como constituir com essas pedras um conjunto? São tão belas que merecem ser integradas num todo ainda mais belo! E a joia na qual se encaixariam essas pedras seria ainda mais bonita, porque o conjunto das coisas ordenadas é mais bonito do que o puro amontoamento  desarticulado delas. A ordem é um degrau a mais para o esplendor; a beleza propriamente dita decorre não só da beleza de cada parte, mas da ordenação com que todas as partes estão dispostas. Esta é a beleza das belezas.

E o joalheiro não poderia deixar de classificar as pedras e dizer: “Vou constituir com elas uma joia”. Ele estuda as pedras e diz: “No centro irá aquele brilhante magnífico. Mas para que a beleza irradie mais, vou pôr daquele lado rubis, mais adiante safiras, depois esmeraldas.” Ele idealiza toda a sua joia e por fim a contempla dizendo: “Que bela joia eu concebi!”.

Um homem no ápice da Criação

Menino Jesus do Sagrário 
– Juan Martí nez Montañés, 
madeira de cedro da Havana (1606), 
com policromia de Gaspar 
 de Ragis (Sevilha, Espanha).

Deus, tendo feito todas as maravilhas que vemos no universo visível, era impossível que não procurasse pôr uma ordem nelas. Como centro dessa ordem, Ele colocou o homem. Criou Adão e Eva. Mas era intenção d’Ele que houvesse governo em todas essas maravilhas. Então estabeleceu o gênero humano para governar. Estabeleceu que houvesse homens gradativamente mais perfeitos, mais santos, mais admiráveis, e, no ápice, um homem tão perfeito, tão inteligente, tão sábio, tão poderoso, que excedesse em beleza, em sabedoria, em virtude, em poder todos os demais homens criados. Em torno desse homem se disporiam todas as perfeições do universo criado.

Veio então o anuncio do Homem-Deus que algum dia deveria nascer. Filho dos homens e Filho de Deus, que seria o hífen de ouro ligando magnificamente o Céu e a Terra.

Considerem todas as grandezas que a História apresenta: todos os sábios, os santos, os potentados, os reis, os magnatas, os oradores etc. Somem todos eles e nada é comparável nem de longe ao Homem-Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo.

Ele, de carne e osso como nós, é um homem que está ligado à natureza divina. Nele há duas naturezas. Uma humana e outra divina, formando uma só pessoa.

Todas as belezas do mar, do céu, aquelas que estão nas entranhas da Terra, toda a variedade dos animais, das plantas, todas as grandezas e belezas que tiveram os homens de todos os tempos, tudo isso são sinais precursores do ápice da História: Jesus Cristo.

Claudica qualquer comparação com Jesus

No Santo Sudário de Turim — o precioso tecido que envolveu o cadáver sagrado nos três dias trágicos em que Nosso Senhor esteve jazendo na sepultura — se vê a face d’Ele como realmente era.

No corpo do homem, o mais expressivo é a face, e, nesta, o mais expressivo é o olhar. No Santo Sudário os olhos estão fechados, mas o olhar transparece através dessas pálpebras fechadas! Que grandeza! Que magnificência! Que verdadeira maravilha!

Quando se olha o Sudário, não passa pela cabeça comparar com nenhum outro homem. Não há nenhuma comparação possível! Ele é único, é supremo, é divino! Entretanto, Ele é também humano.

Imaginemos o que aconteceu com a Verônica. Ela enxugou o rosto divino num pano e nele ficou estampada a face de Jesus. Ela guardou essa relíquia preciosíssima com a fisionomia d’Ele e fez disso a sua felicidade.

Certamente, no momento daquele ato de Verônica, Jesus, levando a Cruz às costas, olhou para ela agradecendo. Assim, mais do que no pano, ficou marcado no fundo da retina, do coração e da alma dela aquele olhar divino, aflito e carregado do sinal da dor, mas comprazido, que dizia numa linguagem muda, e de uma eloquência que nenhum orador alcançou: “Minha filha, obrigado!”

Única solução: a vinda à Terra do Redentor

Toda beleza, maravilha, santidade, sabedoria etc., havia de um modo inimaginável na natureza humana de Nosso Senhor, que foi a gota de orvalho nascida dentro da concha de uma flor perfeita, que foi Maria.

Num quadro da Anunciação pintado por Fra Angélico [foto acima], a Virgem Maria encontra-se numa casinha pequena, modesta, limpíssima e em inteira ordem, num claustro composto de umas arcadazinhas. Ela está sentada com um livrinho de meditação no colo. Uma atmosfera de paz impregna todo o ambiente, quando o arcanjo São Gabriel aparece e se ajoelha diante d’Ela. E Maria, um pouco inclinada, ouve o anjo falar.

É o fato extraordinário que se deu naquela ocasião. Ela não pensava na possibilidade de um anjo visitá-La, nem na mensagem que ele vinha trazendo.

Havia milênios que a humanidade esperava Aquele que deveria vir ao mundo — Aquela criatura perfeita que seria o centro de todas as coisas.

Em virtude do pecado original, os homens estavam imersos num caos. Na pior das formas da desordem encontravam-se os povos pagãos, e também o povo eleito. O povo judaico, que tinha sido escolhido para ser depositário da promessa, estava na maior decadência e no maior afastamento de Deus. Na Terra, nada mais se salvava.

Entretanto, uma Virgem concebida sem pecado original — nascida de Santa Ana e de São Joaquim, e que depois se casaria virginalmente com São José —, meditava. Ela percebia que a única solução para a salvação dos homens era a vinda do Messias, a fim de redimir o gênero humano. Ela meditava, lia a Sagrada Escritura com uma inteligência maior do que jamais ninguém teve e pensava a respeito do Messias.

“Eis aqui a escrava do Senhor”

Assim meditando, Ela foi levada pelo desejo de que nascesse o Messias e pedia por essa vinda. Ela foi compondo a figura d’Ele, com base nas Escrituras e em conjecturas, até imaginar como Ele seria. Sua sabedoria, virtude e amor de Deus auxiliaram-na nessa composição.

Na paz da sua meditação, quando Ela acabou de pôr o último traço na imaginação de como Nosso Senhor Jesus Cristo seria, uma iluminação dentro do jardim! Aparece o anjo e lhe diz: “Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco. Bendita sois Vós entre todas as mulheres”.

Ela se perturbou, pois não sabia qual era a finalidade dessa saudação. O anjo, então, explicou-Lhe que Ela seria Mãe do Filho de Deus e que o Verbo de Deus, o Messias, nasceria d’Ela.

Pode-se imaginar a surpresa, pois Ela se julgava indigna de ser a escrava da Mãe do Messias e pedia a graça de poder conhecer a Mãe do Messias e de servi-la. Era o que aspirava. Entretanto, mesmo considerando esse favor arrojado, o anjo anuncia que Ela própria seria a Mãe do Messias!

O Espírito Santo engendrou n’Ela, de modo divino, espiritualmente, o Filho que nasceria. Tal foi o cúmulo de graças e favores, que é difícil calcular como Nossa Senhora se sentiu confundida naquele momento, mas ao mesmo tempo elevada, porque era perfeita e, vendo tais obras de Deus, Ela não podia deixar de se alegrar enormemente. Vendo que Deus A escolhera para tais obras, a gratidão d’Ela não tinha limite e a alegria de se sentir unida a Deus devia ser maior na alma d’Ela do que todos os oceanos.

Entretanto, sua resposta humílima: “Eis aqui a escrava do Senhor. Faça-se em mim segundo a vossa palavra”. Quer dizer, com Deus não se discute. Ele manda e Ela aceita, não vai analisar.

Mistérios e primícias incomparáveis na Encarnação

Na Encarnação do Verbo de Deus no seio puríssimo de Maria paira um mistério divino do qual não temos noção. Mistério sublime, que eu gostaria de estudar profundamente pelo que sobre ele escreveu Cornélio a Lápide (1567-1637), o grande exegeta jesuíta belga. Esse estudo seria um modo de me preparar para chegar ao Céu, se até lá me levar Nossa Senhora.

Desejaria saber tudo a respeito da Encarnação e dos desponsórios do Espírito Santo com Maria Santíssima; gostaria de estudar tudo o que nos diz a doutrina da Igreja a esse respeito; e como foram, desde aquele momento sublime, as relações d’Ela com o Divino Espírito Santo. Isso é algo admirável, que eu desejaria enormemente conhecer.

O Espírito Santo gerou Jesus Cristo no claustro de Maria, e a partir da carne e do sangue d’Ela começou a gerar a carne e o sangue d’Ele. Santo Agostinho escreveu: “Caro Christi, caro Mariæ” (a carne de Cristo, de algum modo, é a própria carne de Maria).

Todos os homens são formados da carne de seu pai e de sua mãe, mas Jesus Cristo foi formado exclusivamente da carne de Maria, sem participação do esposo, o castíssimo São José, que foi apenas o pai legal, o pai adotivo de Jesus.

O Divino Espírito Santo engendrou Nosso Senhor, e desde o primeiro instante Ele começou a existir no claustro de Maria, de modo perfeitíssimo.

Pode-se imaginar qual foi a primeira palavra de amor d’Ele para sua Santa Mãe, e qual foi a resposta d’Ela sentindo o carinho do Filho de Deus. Teria Ela dito ‘Meu Deus e meu Filho?’ Ou teria dito ‘Filhinho?’. Que riqueza de alma era preciso ter, para responder adequadamente a esse primeiro carinho! Que noção dos matizes e das situações Ela tinha! Que perfeita disponibilidade de alma para corresponder a tudo perfeitamente, e oferecer ao Divino Filho primícias incomparáveis: o primeiro ato de amor que o gênero humano oferecia a Deus feito homem!

Virgem como ninguém e Mãe como ninguém!

Virgem e o Menino – Enric Monserday 
Vidal (1850-1926). Coleção Particular.

É muito bonito na vida de Nossa Senhora fazer a correlação entre o primeiro ato de amor que Ele manifestou a Ela na Encarnação, e o último ato de amor d’Ele para com Ela quando morria crucificado. Não tenho dúvida de que Ele, instantes antes de morrer, disse a Ela, ao menos numa comunicação de alma a alma, alguma coisa que Ela entendeu e que era o ato de amor último que fechava o circuito desta vida, por onde o amor que Ele tinha à Mãe Santíssima durante a vida inteira se condensasse numa veneração e numa carícia suprema.

Como foi o primeiro ato de amor d’Ela? E o último ato, vendo seu Filho morrer naquela situação tão trágica? Quanto mais Ele sofria, mais Ela O amava!

Fazer essas correlações emite uma beleza toda especial que, pelo menos a mim me encanta e me entusiasma.

Entretanto, essa correlação, por mais magnífica que seja, abre apenas o pórtico para uma série de maravilhas de que não temos ideia. Por exemplo, o corpo Sacratíssimo de Nosso Senhor Jesus Cristo no claustro de Maria nutriu-se de todo o elemento necessário para crescer, tomar o tamanho normal para poder nascer. Houve, portanto, durante esse tempo todo, uma entrega de substância, se assim posso me exprimir, do corpo d’Ela para o d’Ele, e de assimilação, que é a própria gestação.

Pode-se imaginar que esse processo não se deu apenas no terreno orgânico, na formação do Corpo de Jesus pela natureza da Mãe, mas também por uma união de alma cada vez maior entre Eles.

De maneira que, quando Ele esteve pronto para nascer, a alma de Nossa Senhora se encontrava adornada com todos os adornos inexprimíveis que lhe vinham de uma união tão íntima com o Filho.

Ele, o esperado havia milhares de anos por todos os homens retos, cantado pelos Profetas, glorificado pelos Anjos, nasceu após passar nove meses exclusivamente na companhia de Maria, em confidências que não fez a ninguém, num convívio que não teve com ninguém mais.

Pode-se imaginar o que isto representa de união. Enquanto o Corpo Sacratíssimo ia crescendo em formosura e santidade, n’Ela aumentava todo o esplendor de uma Virgem e a majestade de uma Mãe! Virgem como ninguém — antes, durante e depois do parto — e Mãe como ninguém! De maneira que, olhando para esta Mãe Virginal, fica-se sem saber o dizer. Ó Virgem! Ó Mãe! O que exclamar?

Assim se foi adornando a pessoa d’Ela. E quando nasceu o Menino Jesus, Ela O apresentou a São José. Significava a apresentação do Salvador ao gênero humano! Era o inefável e glorioso termo dos nove meses de gestação de Nossa Senhora. Quanto mistério! Quanta maravilha! 

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