Plinio Maria Solimeo
✅ Fonte: Revista Catolicismo, Nº 911, novembro/2026
Os acontecimentos da vida moderna se
sucedem numa tal celeridade, que sem nos darmos bem conta chegamos novamente às
celebrações de Todos os Santos e Finados.
A festa de Todos
os Santos comemora aqueles que, tendo falecido na graça de Deus, gozam já
da felicidade eterna e veem a Deus face a face. Por isso, independentemente de
terem sido beatificados ou canonizados, são chamados “santos”.
A Igreja, essa Mãe e Mestra que no decurso do ano
celebra a festa de cada santo em particular, os reúne todos neste dia numa
solenidade comum, na qual, numa visão grandiosa, engloba a multidão inumerável
daqueles outros falecidos na graça de Deus, não beatificados ou canonizados,
cujo nome só Ele conhece. Eles procedem “de
todas as nações, tribos, povos e línguas, [os quais] de pé diante do trono e
diante do Cordeiro, vestidos com túnicas brancas e de palmas na mão” (Ap 7,
9), aclamam Aquele que os resgatou com seu Sangue preciosíssimo.
No dia seguinte, Finados, a Igreja comemora todos
aqueles “que nos precederam com o sinal
da fé e dormem o sono da paz” (Cânon Romano, Memento dos mortos) e por isso
se salvaram, mas que, não tendo saldado em vida o débito de todas as suas
faltas, permanecem no Purgatório (ver quadro que
postaremos amanhã, dia 2 de novembro).
Necessidade de se meditar nos “Novíssimos”
As solenidades litúrgicas de Todo os Santos e Finados
nos convidam a meditar, como aconselha o livro do Eclesiástico (7,40), naquilo
que nos acontecerá depois da morte: “Em
todas as tuas obras, lembra-te dos teus novíssimos, e jamais pecarás.”
“Novíssimos” (do latim “novus”, último, que vem em
último lugar) é como a Igreja designa os últimos e definitivos eventos a que
todo ser humano deve passar ao fim da vida terrena: a morte, o juízo
particular, a desgraça eterna ou a eterna bem-aventurança. A tradição popular
os reduziu a uma rima, para facilitar a memorização: “morte, juízo, inferno,
paraíso”.
Deles ninguém escapa, seja Papa, Imperador ou
carvoeiro, como nos lembra a liturgia da Quarta Feira de Cinzas, quando as
recebemos das mãos do sacerdote: “Memento
homo quia pulvis es et in pulverem reverteris” (“Lembra-te, homem, de que
és pó, e ao pó voltarás” (Gn 3,19).
Finados: comemoração das almas do Purgatório
A Santa Madre Igreja, Esposa Mística do Cordeiro,
não podia se esquecer daqueles que, tendo morrido na graça de Deus, ainda
precisam remir-se de faltas ou imperfeições no Purgatório.
Essa celebração litúrgica surgiu na Idade Média — “a doce primavera da fé”, como a definiu
o historiador francês Montalembert — com Santo Odilon, Abade de Cluny, ao
determinar que em todos os mosteiros dependentes de sua Ordem o dia seguinte ao
da festa de Todos os Santos fosse
dedicado ao sufrágio das almas dos falecidos pertencentes a ela. Seguindo seu
exemplo, a Igreja estendeu essa comemoração à Igreja Universal.
A expressão “finados” se refere somente àqueles que
se encontram no Purgatório; não inclui os que já estão no Céu nem, menos ainda,
os falecidos que não se salvaram. Pois a Santa Igreja, por mais que seja Mãe
compassiva, não poderia comemorar as almas daqueles a quem Deus, em sua
Justiça, rejeitou.
Nesse sentido, São Tomás de Aquino afirma que é
desnecessário rezar pelas almas que estão no Céu (pois já estão salvas) e é
inútil implorar pelas que estão no inferno (pois já estão condenadas); umas e
outras atingiram seu destino eterno, definitivo, imutável.
Purgatório, dogma do qual muitos se esquecem
O teólogo belga Pe. François Xavier Schouppe S.J.
escreveu um excelente e detalhado livro sobre o Purgatório,1 objeto principal da celebração
do Dia de Finados.
Na introdução, ele lamenta: “O Dogma do Purgatório está muito esquecido pela maioria dos fiéis
católicos. A Igreja Padecente, na qual temos tantos parentes para socorrer e
para onde prevemos que um dia iremos, parece-nos uma terra estranha. As
principais causas disso são a ignorância e a falta de fé; porque hoje em dia as
nossas noções concretas sobre o Purgatório são muito vagas, e nossa fé muito
fraca.”
Esse esquecimento daqueles que se foram é resumido
pelo gênio francês em uma só frase: “Les
morts vont vite”... (Os mortos vão rápido...).
Pecado – o maior mal que há no mundo
Não se pode tratar do Purgatório nem do
Inferno sem falar do pecado. Pois o Inferno foi criado para punir o pecado dos
anjos que se revoltaram, como disse o Divino Mestre (Mt 25, 41): “Apartai-vos de mim, malditos. Ide ao fogo
eterno, preparado para o diabo e seus anjos.”
Quanto ao Purgatório, se a Igreja
sempre rezou pelas almas dos mortos que nele estão, é porque sempre creu que
essas almas deveriam purgar, nesse lugar de expiação, os pecados e imperfeições
que não expiaram estando na Terra.

Santo Agostinho (Irmanda
de do Cachorro [Filhote] de
Triana, Sevilha, Espanha).
O que é o pecado?
De acordo com os ensinamentos de Santo Agostinho e
São Tomás de Aquino, pecado é qualquer “ato,
palavra ou desejo contrário à lei eterna”, ou seja, à lei divina,2
que é a primeira e suprema regra moral, fundamento das demais.
A definição clássica da teologia moral católica para
descrever a essência do pecado está contida na célebre fórmula cunhada pelo
Santo bispo de Hipona: “Aversio a
Deo et conversio ad creaturas” (afastar-se de Deus e voltar-se para as
criaturas).
Condições para que haja pecado, mortal ou venial
Recordemos brevemente o que nos ensina a Igreja:
Para que haja pecado mortal, segundo a doutrina católica, três condições devem
ocorrer simultaneamente:
·
Matéria
grave: O ato deve ser uma violação séria da lei natural ou
dos Mandamentos (exemplo: aborto, assassinato, furto, adultério).
·
Pleno
conhecimento: A pessoa deve ter total consciência de
que o ato é pecaminoso e grave no momento em que o comete.
·
Consentimento
deliberado: A ação deve ser escolhida e praticada
com total liberdade, sem coação externa ou medo insuperável.
Se faltar alguma dessas três condições em um ato que
é objetivamente grave, o pecado é considerado venial.
Apesar
de o pecado venial ser uma ofensa mais leve, que não rompe a comunhão com Deus,
ele não é sem consequências.
O Catecismo da Doutrina Católica, também chamado
Catecismo de São Pio X, enumera os prejuízos para a alma causado pelo pecado
venial: “Enfraquece e esfria em nós a
caridade; dispõe-nos para o pecado mortal; faz-nos merecedores de grandes penas
temporais neste mundo e no outro.” Ou seja, teremos que expiá-lo no
Purgatório.
O pecado é a raiz de todos os outros males
Para os filósofos ateus, os pagãos e, infelizmente,
até para certos eclesiásticos, o maior mal do mundo seria o sofrimento humano
(sem referência a Deus) em suas diversas formas, como a ignorância, a
injustiça, a violência, a fome e a desigualdade. E não só a dor humana: também
o sofrimento dos animais e insetos, das plantas e até das pedras. Sobretudo o
sofrimento da “Mãe Terra” (Pachamama...).
O pecado é o maior mal que há no mundo, porque é a
raiz de todos os outros males, por representar um rompimento do homem com Deus
e com o próximo. Em última análise, na frase lapidar de Santo Agostinho, é “o amor de si próprio levado até ao desprezo
de Deus”.3
O Papa Pio XII (1939-1958) se lamentava: “Hoje o maior pecado do mundo é talvez o de
terem os homens começado a perder o sentido do pecado.” (Discorsi, VIII, p.
288). Isso naquela época. O que diria ele de nossos dias?

Catecismo da Doutrina Católica de São Pio X,
publicado em 1913 por Fratelli Lanzani Tipografi.
Horror ao pecado, mesmo venial
Não era assim nos
tempos de maior fé.
A grande Santa Teresa dizia às suas filhas do
Convento São José, de Ávila, no seu livro Caminho da Perfeição, escrito
especialmente para elas: “Deus nos livre
de qualquer pecado, por menor que seja, cometido com pleno conhecimento, uma
vez que estamos pecando contra tão grande Soberano mesmo realizando que Ele nos
está olhando. Isso me parece ser um pecado de malícia premeditado. É como se se
dissesse: ‘Senhor, embora Vos desagrade, eu o farei. Eu sei, Senhor... mas
prefiro seguir meu próprio capricho e desejo que vossa vontade.”
Era tão grande o horror que o pecado causava aos
santos, que uma vez São Luís Gonzaga desmaiou aos pés de seu confessor ao ter
que confessar dois pequenos pecados veniais.
Infelizmente, incontáveis pessoas vivem no mundo
habitualmente em pecado mortal. O que lhes acontecerá se, não se arrependendo e
se confessando antes da morte, forem chamadas por Deus para prestarem contas?
Santa Teresa comenta também que se o pecador pudesse
compreender o que sucede à alma que está em pecado mortal, “não seria possível a ninguém pecar, mesmo que tivesse que empreender
os maiores esforços que se possa imaginar para evitar pecar”.4
Resposta a uma objeção
Se as almas que estão no Purgatório se salvaram e
não podem mais pecar, por que têm que continuar a sofrer tanto no lugar de
expiação?
Essa objeção poderia ser formulada de outro modo: “Por que castigar com uma pena eterna um
pecado que dura apenas um momento?” É como a formula em uma de suas obras
Santo Afonso Maria de Ligório, Doutor da Igreja e um de seus maiores
moralistas, fundador e missionário. Como resposta, ele interpela o suposto
objetante: “E como pode o pecador ter a
audácia de ofender, por um prazer momentâneo, uma Majestade infinita?”.
Muito didático, ele explica que “até a justiça humana, como diz São Tomás, mede a pena não pela
duração, mas pela qualidade do crime. Por isso, uma ofensa feita a um Deus
infinito merece um castigo infinito. Como a criatura humana, por ser finita,
não é capaz de sofrer uma pena infinita em intensidade, é com justiça que Deus
torna a pena infinita em sua duração”.5
Nosso dever para com as almas do Purgatório
As almas que estão no Purgatório podem rezar por
nós, mas não por si mesmas, porque o tempo de merecimento para elas terminou no
momento da morte. Já estão salvas, mas como não acumularam méritos suficientes
em vida, dependem inteiramente da intercessão dos que fazem parte da Igreja
Militante na Terra para o alívio de suas penas.
A Santa Missa é a maior dádiva que se pode oferecer
a uma alma do Purgatório, pois é o sacrifício do próprio Corpo, Sangue e Alma
de nosso Divino Salvador. Por isto, um dos meios mais eficazes para socorrermos
os nossos falecidos é rezar por eles, principalmente mandar celebrar Missas na
intenção de suas almas: de sétimo dia, de mês, de ano, atitude tão comum até
pouco tempo atrás, mas que está desaparecendo devido à paganização crescente do
mundo. Nesse sentido, há uma antiga tradição, a das chamadas Missas Gregorianas. (ver quadro que postaremos no dia 3 de novembro).
Outro grande meio de auxiliar a alma de um parente,
amigo ou mesmo às almas em geral, é oferecendo por elas as indulgências por nós
merecidas.
Indulgência é a remissão, perante Deus, da pena
temporal devida aos pecados cuja culpa já foi apagada; remissão que o fiel,
devidamente disposto, obtém em certas e determinadas condições, pela ação da
Igreja, a qual, enquanto dispensadora da Redenção, distribui e aplica por sua
autoridade o tesouro das satisfações de Cristo e dos santos.
A indulgência é chamada parcial ou plenária conforme
liberta parcialmente ou na totalidade da pena temporal devida ao pecado. O fiel
pode lucrar indulgências para si mesmo, ou aplicá-las aos defuntos. Não pode,
porém, aplicá-las às pessoas vivas, porque elas têm a possibilidade de fazê-lo
por si mesmas.
Valor das boas obras
Sobre o valor das boas obras, o Concílio de Trento
(1545–1563) definiu que, para os católicos, as boas obras realizadas em estado
de graça têm um valor meritório autêntico. Segundo esse Concílio, as boas obras
não são apenas um reflexo da fé, mas merecem da parte de Deus o aumento da
graça santificante nesta vida e o aumento da glória no Céu.
As obras de misericórdia são ações de caridade
essenciais no catolicismo. A Igreja ensina que socorrer o próximo em suas
necessidades materiais (corporais) e espirituais é um meio de obter a vida
eterna, um caminho de santificação e uma condição para o perdão final.
Ora, uma das obras de caridade mais eminentes é a
obtenção de indulgências, aplicáveis aos entes queridos falecidos que sofrem no
Purgatório e às pobres almas em geral.
Ditosos seremos se, com São Paulo, pudermos dizer no
fim da vida: “Combati o bom combate,
terminei minha carreira, guardei a fé. Já me está preparada a coroa da justiça,
que naquele dia me outorgará o Senhor, justo juiz, e não só a mim, porém a
todos os que amam a sua vinda” (2 Tm 4, 7).
____________
Notas:
1.
O Dogma do Purgatório, Ilustrado pelas
Vidas e Lendas dos Santos [Purgatory Illustrated by the Lives and Legends
of the Saints] Disponível em https://archive.org/stream/purgatory00scho/purgatory00scho_djvu.txt
2. Santo Agostinho, Contra Faustum manichoeum,
22, 27: PL 42, 418
3. Santo Agostinho, De civitate Dei, 14, 28.
4.
Castelo Interior, n. 2.
5. Meditações para todos os dias do ano, edição
Magnificat, 2019, p. 138.

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