2 de novembro de 2026

PURGATÓRIO

 

Cristo ressuscitado desce ao Purgatório – Philippe de Champaigne (1652). Museu dos Agostinianos, Toulouse (França).

[Continuação do post de ontem]

A palavra “Purgatório” vem do latim “purgare”, “limpar”, “purificar”, “isentar de culpa” ou “livrar de impurezas” que é o que acontece com as almas que nele estão, para que possam entrar no Céu.

O Purgatório é um estado intermediário de punição e purificação antes do Céu, e está implícito na prática judaica de oração pelos mortos (2 Macabeus 12,39-46).

Os primeiros cristãos adotaram e continuaram essa prática, como mencionado pelos primeiros Padres da Igreja. São Paulo se refere a uma prova de fogo das obras de nossa vida em 1 Coríntios 3,13-15. O próprio Jesus mencionou o perdão de certos pecados após a morte e a uma prisão da qual os impiedosos não serão libertados “até que se pague o último centavo” (Cf. São Mateus 5,26; São Lucas 12,59).

Embora o conceito da necessidade de purificação já aparecesse antes de Cristo no Judaísmo, a formulação oficial da doutrina foi desenvolvida pela Igreja Católica ao longo dos séculos, sendo confirmada em concílios como o de Florença (entre 1438 e 1445) e, sobretudo, o de Trento (1545–1563), face às heresias protestantes.

 

Concílio de Trento

No Catecismo de Trento (também conhecido como Catecismo Romano, promulgado pelo Papa São Pio V em 1566), o Purgatório é definido como o estado de purificação final para as almas que morrem na graça de Deus, mas ainda carregam o peso de pecados veniais ou penas temporais devidas a pecados já perdoados.

A doutrina definida pelo Concílio de Trento foi sistematizada no Catecismo nos seguintes pontos:

* Estado de Purificação: As almas que partem desta vida arrependidas e no amor divino, mas com imperfeições, passam por um “fogo purificador” para alcançar a santidade absoluta antes de entrar no Céu.

 

* Distinção Clara: É um estado temporário e absolutamente distinto do Inferno, pois a salvação da alma já está garantida.

 

* Eficácia da oração: O Catecismo de Trento sublinha fortemente a Comunhão dos Santos. Ele declara que os vivos podem aliviar e acelerar o processo de purificação das almas no Purgatório por meio de orações, esmolas, boas obras e, principalmente, pelo Santo Sacrifício da Missa.



Brevíssimo Catecismo sobre o Purgatório

Ø O que é exatamente o Purgatório?

— A palavra Purgatório é entendida por vezes como um lugar, e outras vezes como um estado intermediário entre o Inferno e o Céu.

É, propriamente falando, a condição das almas que, no momento da morte, estão em estado de graça, mas que não expiaram completamente as suas faltas nem alcançaram o grau de pureza necessário para desfrutar da visão de Deus — isto é, para entrar no Céu.

Isso ocorre porque no Paraíso não pode entrar nenhum vestígio de pecado ou mancha. Portanto, aqueles que ainda não pagaram completamente pelos seus pecados precisam passar pelo Purgatório.

Ø Por que o Purgatório é necessário?

Deus é a própria Santidade — muito mais do que o sol é a luz —, e nem sequer uma sombra de pecado pode subsistir diante da Sua face.

Quando a iniquidade se manifesta nas criaturas, a Santidade de Deus exige expiação; e, quando essa expiação se realiza em todo o rigor da justiça, ela é terrível.

É por isso que a Escritura diz: “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria” (Pv 9,10), como se dissesse: “A sua justiça é terrível porque a sua santidade é infinita”.

Em outras palavras, é preciso que haja um meio de purificarmos a nossa alma antes de entrarmos no Céu. Apenas os santos — que não tenham pecados a expiar — vão diretamente para o Céu.

Ø O Purgatório é eterno ou transitório?

— O Purgatório não é eterno. Um dos primeiros efeitos da ressurreição geral e do juízo final será pôr fim ao Purgatório. Após o juízo final, as almas do Purgatório serão conduzidas ao Céu por São Miguel.

O Purgatório é, portanto, para a alma que morreu em estado de graça, um estado transitório que culmina numa vida de felicidade sem fim.

Não é uma prova na qual se possa ganhar ou perder mérito, mas um estado de reparação e expiação: as almas no Purgatório não podem mais ir para o Inferno, apenas para o Céu.

Ø Que dogmas de fé a Igreja propõe a respeito do Purgatório?

— A Igreja propõe duas verdades claramente definidas como dogmas de fé:

1. Existe um Purgatório;

2. As almas que nele se encontram podem ser auxiliadas pelos sufrágios dos fiéis, especialmente pelo Santo Sacrifício da Missa.

Ø Os protestantes aceitam o Purgatório?

— A doutrina do Purgatório foi negada pelos albigenses, pelos hussitas e pelos protestantes. Lutero começou, em 1517, negando o valor das indulgências, afirmando que elas não tinham valor diante de Deus para a remissão da pena devida aos nossos pecados. Passou depois a sustentar que o Purgatório não pode ser comprovado pelas Sagradas Escrituras; que as almas no Purgatório não têm certeza de sua salvação; e que as almas no Purgatório podem pecar ao tentar escapar dos sofrimentos pelos quais passam.

Calvino e Zwinglio seguiram Lutero ao negar as indulgências, o sacrifício da Missa e o Purgatório.

Sem propriamente aceitar a doutrina católica, alguns protestantes da atualidade distanciaram-se um tanto de seus mestres nesse assunto e admitem um estado intermediário entre o Inferno e o Céu. Eles não o chamam de Purgatório, e afirmam que as almas ali presentes ainda podem adquirir méritos e satisfazer a justiça divina. Alguns sustentam que os sofrimentos do Inferno não são eternos. Ora, esse “inferno temporário” em nada se assemelha ao Purgatório ensinado pela Igreja Católica, segundo o qual todas as almas no Purgatório estão em estado de graça e não podem mais pecar.

Ø O Purgatório está na Bíblia?

— É verdade que a palavra “Purgatório” não aparece no texto sagrado, mas a ideia de uma purificação após a morte está presente, sem a menor dúvida.

Há inúmeras passagens, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, que mostram claramente que as pessoas piedosas acreditavam que os pecados dos mortos podiam ser expiados pelos vivos. Ora, esse é um elemento constitutivo daquilo que os católicos chamam de “Purgatório”.

Os Padres da Igreja, desde o início, atestaram que essas passagens se referiam ao Purgatório.

Apenas alguns exemplos:

No Antigo Testamento

Após uma batalha contra um exército pagão, quando os soldados de Judas Macabeu foram sepultar seus companheiros caídos, descobriram que vários deles haviam usado, durante o combate, amuletos que invocavam os ídolos da cidade de Jânia (também chamada de Jabneel ou Yabnel). Judas organizou uma coleta para pagar por sacrifícios expiatórios a serem oferecidos no Templo de Jerusalém.

Sua ação é louvada no Livro Sagrado: “Ao fazer isso, agiu de maneira muito excelente e nobre, visto que tinha em mente a ressurreição; pois, se não esperasse que os caídos ressuscitassem, teria sido supérfluo e insensato rezar pelos mortos. Mas, se o fez tendo em vista a recompensa esplêndida que aguarda aqueles que adormeceram na piedade, foi um pensamento santo e piedoso. Assim, ele ofereceu expiação pelos mortos para que fossem absolvidos de seus pecados” (2 Macabeus 12,38-46).

Novo Testamento

* São Paulo, 1 Cr 3,13-15: “A obra de cada um aparecerá. O dia (do julgamento) demonstrá-lo-á. Será descoberto pelo fogo; o fogo provará o que vale o trabalho de cada um. Se a construção resistir, o construtor receberá a recompensa. Se pegar fogo, arcará com os danos. Ele será salvo, porém passando de alguma maneira através do fogo.”

* São Mateus 5,25-26: “Entra em acordo sem demora com o teu adversário, enquanto estás a caminho com ele para o tribunal, para que o adversário não te entregue ao juiz, e o juiz ao guarda, e sejas lançado na prisão; em verdade te digo: não sairás de lá enquanto não pagares o último centavo.”

As provas da posição católica, tanto nas Escrituras quanto na Tradição, estão também ligadas à prática de rezar pelos mortos. Por que rezar por eles, se não se acredita no poder da oração de proporcionar alívio àqueles que ainda estão privados da visão de Deus?

Ø Qual é a importância do Purgatório no “Corpo Místico de Cristo”?

— O Purgatório ocupa um lugar de destaque em nossa santa Religião. Ele constitui uma das partes principais da obra de Jesus Cristo e desempenha um papel essencial na economia da salvação do homem.

Lembremo-nos de que a Santa Igreja, considerada em sua totalidade, é composta por três partes: a Igreja Militante, a Igreja Triunfante e a Igreja Padecente, ou Purgatório.

Essa Igreja tríplice constitui o Corpo Místico de Jesus Cristo, e as almas no Purgatório são membros dele tanto quanto os fiéis na Terra e os eleitos no Céu.

No Evangelho, a Igreja é frequentemente chamada de Reino dos Céus. Assim, o Purgatório, tal como as Igrejas celeste e terrena, é uma província desse vasto reino.

Ø O que é a “Comunhão dos Santos”?

— As três Igrejas irmãs mantêm relações incessantes entre si e uma comunicação contínua, a que chamamos de Comunhão dos Santos.

Essas relações não têm outro objetivo senão conduzir as almas à glória eterna, a meta final para a qual todos os eleitos se dirigem.

As três Igrejas auxiliam-se mutuamente no povoamento do Céu, que é a cidade permanente das almas, a Jerusalém gloriosa.

Ø Com que espírito devemos ter devoção pelas almas do Purgatório?

— As orações, sacrifícios e sufrágios que oferecemos pelos falecidos fazem parte do culto católico, e o Espírito Santo infunde nos corações dos fiéis, com a caridade, a devoção pelas almas do Purgatório.

A Sagrada Escritura diz: “É, pois, um pensamento santo e salutar rezar pelos mortos, para que sejam purificados dos pecados” (2 Macabeus 12,46).

Para ser perfeita, a devoção pelas almas do Purgatório deve ser animada por um espírito que combine temor e confiança.

Por um lado, a santidade de Deus e a sua justiça inspiram-nos um temor salutar. Por outro, a sua infinita misericórdia concede-nos uma confiança ilimitada.

Ø Por que o temor do Purgatório é salutar?

— De fato, o temor do Purgatório é salutar. Seu efeito é despertar em nós não apenas uma compaixão caridosa pelas almas que sofrem no Purgatório, mas também um zelo vigilante pelo nosso próprio bem espiritual.

Pensemos no fogo do Purgatório e assim nos esforçaremos para evitar as menores faltas; pensemos no fogo do Purgatório e faremos penitência para satisfazer a Justiça Divina neste mundo, e não no outro.

Ø Como manter o equilíbrio entre o temor e a confiança?

— Guardemo-nos, porém, do temor excessivo e não percamos a confiança. Não esqueçamos a misericórdia de Deus, que não é menos infinita do que a sua justiça.

Se estivermos animados por esse duplo sentimento, se a nossa confiança na misericórdia de Deus for igual ao temor que a sua justiça nos inspira, teremos o verdadeiro espírito de devoção às almas do Purgatório. 

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