12 de março de 2022

COROAÇÃO DA RAINHA ELIZABETH II



A seguir reproduzimos a homenagem que na edição deste mês a revista Catolicismo prestou à Rainha Elizabeth II pelos 70 anos de reinado da primeira monarca britânica a celebrar Jubileu de Platina. Homenagem à qual nos associamos de todo coração. 


 

  Plinio Corrêa de Oliveira

A
ssisti ao filme da coroação da rainha da Inglaterra Elizabeth II em 1953. Sua ascensão ao Trono ocorreu em 1952, mas foi coroada no ano seguinte. Uma verdadeira maravilha a cerimônia da coroação! Uma filmagem lindíssima! 

Na nave da Abadia de Westminster, em Londres, o clero anglicano com paramentos vagamente parecidos com os da Igreja Católica e os nobres nas tribunas especiais. Todos os monarcas presentes portavam condecorações próprias aos seus títulos de nobreza. Bem em frente ao altar, o trono no qual se sentaria a nova rainha. À direita e à esquerda, os assentos para os membros da casa real inglesa. Presentes também muitos membros das casas reais de outros países. Uma cena belíssima! 


O número de pessoas do povo que assistiu à cerimônia foi muito grande. Uma parte dentro da própria catedral, que é imensa, outra do lado de fora vendo o longo cortejo da rainha que se deslocava desde o palácio de Buckingham até Westminster. Essa multidão assistia também à passagem de todas as personalidades em suas carruagens tradicionais douradas, com pinturas, com janelas de cristal, com plumas, com lacaios usando chapéus de três bicos etc. Toda a nobreza desfilava, príncipes europeus com os seus belíssimos uniformes, mas também marajás, sultões, a rainha de Tonga, potentados do mundo ainda misterioso do Oriente. O império britânico estava ali representado na sua plenitude. 

Nesse cortejo passavam homens eminentes — por exemplo, Churchill — que tinham salvado a Inglaterra durante a guerra. Também as corporações de mutilados de guerra. O público manifestava um entusiasmo enorme. 

Para que tudo isto? — Para ungir, para recobrir com o azeite da compreensão e da admiração as relações entre a rainha e o povo. Mas também para a rainha ver seu povo entusiasmado que a saudava e aplaudia. Em tudo transparecia que o principal fundamento das boas relações é o recíproco amor. Nesse mútuo entendimento as instituições tornam-se sólidas, o reinado permanece íntegro. Não apenas nos grandes dias, como naqueles da coroação, mas na vida quotidiana. Um reinado deve ser como que uma coroação contínua. 



____________ 
Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 28 de julho de 1993. Esta transcrição não passou pela revisão do autor.

11 de março de 2022

“Estamos no borde de uma guerra nuclear, não estou exagerando”

Hoje (11-3-2022) tropas russas bombardearam zonas residenciais em Dnipró, no Oeste da Ucrânia

 Plinio Maria Solimeo

Estas terríveis palavras foram pronunciadas nada menos que pela jornalista russa Maria Baronova [foto abaixo], editora em chefe de Russia Today (mais conhecida como RT) depois de renunciar ao seu alto cargo ao condenar o sangrento ataque desfechado por tropas russas à sua vizinha Ucrânia. Russia Today é um dos meios estatais a serviço de Putin obrigada, como toda a mídia sob seu controle, a não chamar à criminosa invasão por seu nome, mas usando para isso o eufemismo “operação militar especial”. 

Em chamada por WhatsApp desde Moscou, a jornalista explicou por que renunciou a seu cobiçado cargo: “Não renunciaria, e não perderia meu salário e meu trabalho, se tivesse a segurança de que vamos estar vivos por muitos anos; não sei realmente o que vai passar conosco”, afirmou referindo-se à possibilidade de uma guerra nuclear. 

Baronova acrescenta que a atual “é uma situação muito perigosa” para seu país e para o mundo. Como trabalhava já há tempos visando os interesses do governo russo, afirma que conhece muito bem os dirigentes russos: “Eles nunca enviam ameaças [em vão], simplesmente matam. Há um silêncio estranho a meu redor, mas creio que estamos a borde de uma guerra nuclear neste momento. Não estou exagerando”

Pois, conhecendo bem a Putin, o mundo teme que ele, num acesso de loucura, faça uso de armas nucleares. O que para Baronova converteria a Rússia em alvo de um ataque catastrófico por parte do Ocidente. Ela sabe que, se sai uma ordem do Kremlin desta magnitude, receberá uma resposta das mesmas proporções. “Suspeito que o mundo ocidental responderá da mesma forma”, afirma. 

A situação pessoal de Maria Baronova é complicada por causa de sua condenação da atitude do governo russo. Pois ela não pode sair da Rússia: “Tenho um filho, e não posso ir porque seu pai não me permite ir-me com ele [com o filho]. Assim, prefiro ficar em Moscou. [...] Parece-me que estamos na Coréia do Norte ou vamos ser assassinados por um fungo termonuclear”

A jornalista não se preocupa em engrossar a lista dos detidos. Pois a repressão na Rússia não é só nas ruas. Putin também decidiu encarcerar todos que contradigam seu discurso. Esse presidente tornado ditador assinou na semana passada uma lei, aprovada por ambas câmaras do Parlamento a ele submissas, que criminaliza a difusão de “notícias falsas” com relação ao exército russo, com pena de prisão de 10 a 15 anos. E para quem busque "desprestigiar" as tropas sob seu comando, de cinco anos. 

Esse é o presidente “conservador” que tantos incautos da direita em todo o mundo enaltecem e mostram como modelo... 

____________ 

Fonte: https://panampost.com/jose-gregorio-martinez/2022/03/08/al-borde-de-una-guerra-nuclear

9 de março de 2022

RÚSSIA x UCRÂNIA — Movimentações nos ventos da guerra (Parte III)

Neste dia 9 de março, a maternidade da cidade de Mariupol foi bombardeada…

 


Aseguir reproduzimos um texto, publicado como um quadro ilustrativo da matéria de capa da revista Catolicismo deste mês — artigo redigido às vésperas da efetiva invasão da Ucrânia por ordem do déspota Vladimir Putin.

A revista elenca episódios que antecederam o início da guerra, que se pode dizer que oficialmente foi iniciada no dia 21 de fevereiro com o decreto de Putin, o covarde stalinista russo, declarando a independência de duas regiões da Ucrânia (Donetsk e Luhansk). Decreto que foi estopim para a explosão da guerra com o oficial envio de tropas russas, com o objetivo de excluir para sempre a identidade do povo ucraniano, mas que o cínico Putin denominou de “missão de paz”!

Mariupol ficou arrasada com o bombardeio russo em 9-3-22.

A ESCALADA DAS MOVIMENTAÇÕES RUMO À GUERRA

Segue um breve elenco de alguns dos episódios transcorridos apenas em fevereiro último, todos baseados em informações de agências de notícias sérias, que reforçam a ideia de que a tensão aumentou muito na região fronteiriça Rússia/Ucrânia. E isso apesar dos esforços diplomáticos de líderes mundiais para obter a pacificação e dos reiterados desmentidos de Vladimir Putin de que não desejava o conflito — nos quais poucos acreditaram.

Residencias de Mariupol arrasadas com o bombardeio russo de hoje (9-3-22)
  1. Vladimir Putin, ex-oficial da KGB, há 22 anos como mandatário absoluto da Rússia, ordena a expulsão do vice-embaixador americano em Moscou, Bartle Gorman;
  2. A Rússia no início de fevereiro contava com aproximadamente 100 mil soldados mobilizados na fronteira com a Ucrânia. Putin declarou que eles estavam sendo retirados. Entretanto, em meados daquele mês o contrário aconteceu, o número de soldados dobrou;
  3. Alguns países, como Brasil, Estados Unidos, Japão, Reino Unido, Coreia do Sul, Holanda, Letônia, Noruega, expedem ordens de retirada de seus cidadãos da Ucrânia. Somente dos EUA são 30 mil americanos;
  4. Joe Biden reforça o pedido de retirada dos cidadãos americanos dizendo que a situação é muito grave, que não estavam lidando apenas com uma organização terrorista, mas sim com um dos maiores exércitos do mundo e que “as coisas podem perder o controle e se tornarem apaixonadas rapidamente”;
  5. Tropas russas participam de manobras na Bielorrússia em meio ao aumento da tensão na Ucrânia, e testam inclusive lançamento de mísseis intercontinentais. Manobras que foram supervisionadas diretamente por Putin;
  6. Imagens de satélite revelam um substancial aumento de tropas, veículos e aviões russos na Bielorrússia e na Península da Criméia (anexada pela Rússia há sete anos, na região de Kursk, a 100 quilômetros da fronteira com a Ucrânia);
  7. Aumento do número de navios de guerra russos, abarrotados de equipamento militar, no Mar Negro;
  8. Antony Blinken, secretário de Estado americano, afirma que “estamos em uma janela em que uma invasão pode começar a qualquer momento […] Continuamos a ver sinais muito preocupantes da escalada russa, incluindo novas forças chegando à fronteira”;
  9. Jake Sullivan, conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, afirmou que “a maneira como Putin mobilizou suas forças e as colocou no terreno, juntamente com os outros indicadores que coletamos por meio de inteligência, deixa claro que existe uma possibilidade muito alta de que a Rússia deva lançar uma operação militar, e há razões para acreditar que isso pode acontecer em um prazo razoavelmente curto”;
  10. Por sua vez, o presidente alemão, Frank-Walter Steinmeier, declarou: “Há um perigo de conflito militar, uma guerra no leste da Europa, e a Rússia tem responsabilidade por isso”;
  11. Boris Johnson, primeiro-ministro inglês, disse que a Rússia está planejando a “maior guerra na Europa desde 1945. […] Que poderá ocorrer uma geração de derramamento de sangue e miséria”;
  12. Governos ocidentais emitem novos alertas sobre o risco de uma iminente invasão russa à Ucrânia;
  13.  O secretário-geral da OTAN, Jens Stoltenberg, também fala em “risco real” de conflagração armada envolvendo a Europa, inclusive com a utilização de armas russas “cibernéticas”;
  14. Como tentativa de enfraquecer ou mesmo derrubar o governo ucraniano, ciber-ataques são operados por russos contra instituições e bancos;
  15. Linda Thomas-Greenfield, embaixadora dos EUA nas Nações Unidas, declarou que Rússia se dirige para uma “invasão iminente” da Ucrânia, apesar dos anúncios de Putin sobre a falaciosa retirada de tropas;
  16. Declaração do secretário de Defesa dos EUA, Lloyd Austin, dizendo que, como atestam documentos de Inteligência americana, a Rússia não diminuiu a presença militar e que novas tropas russas vão se aproximando da Ucrânia;
  17. Elevando o tom ainda mais, Biden — durante coletiva de imprensa na Casa Branca e após uma ligação com líderes ocidentais — declarou estar convencido de que Vladimir Putin tomou a decisão de invadir a Ucrânia, incluindo um ataque à capital, Kiev. E que sua convicção se fundava em relatórios da inteligência americana;
  18. No dia em que fechamos esta matéria (21 de fevereiro), Putin deu o passo que todo o mundo ocidental temia: numa violação flagrante da legislação internacional, da integridade e da soberania territorial da Ucrânia, decretou a independência de duas regiões claramente ucranianas (Donetsk e Luhansk), conforme os acordos de Minsk (2014 e 2015) e, algumas horas após a assinatura do decreto, ordenou o envio de tropas para ocupar essas regiões. Durante tal declaração, Putin — não escondendo seu anseio de restaurar a antiga URSS — novamente lamentou as perdas que a Rússia teve quando a União Soviética se desfez em 1991.
A cidade de Mariupol arrasada com o bombardeio russo de hoje (9-3-22)

8 de março de 2022

RÚSSIA x UCRÂNIA — Movimentações nos ventos da guerra (Parte II)

Complementando o post de ontem, aqui reproduzimos um artigo de Plinio Corrêa de Oliveira [foto], redigido no longínquo 1951, no qual ele prevê uma III Guerra Mundial e anuncia os malefícios incalculáveis que ela causará com um “choque de civilizações”, de culturas e de ideologias.


NUMA GUERRA, QUAL É A

POSIÇÃO CATÓLICA?

“Seria de pasmar se as pessoas que amam verdadeira e seriamente a Religião Católica não indagassem quais os efeitos de uma possível guerra sobre as atividades e as próprias condições de vida da Igreja em nosso século”

 

✅  Plinio Corrêa de Oliveira

Catolicismo, abril de 1951

Inútil seria enumerar os muitos motivos que tornam iminente uma nova guerra mundial. São eles tantos, tão graves, tão evidentes, que já passaram do conhecimento das chancelarias para os parlamentos, dos parlamentos para a imprensa, e daí para a rua, de tal forma que todos hoje, homens, instituições, governos, vivem em função da guerra.

Não há pessoa de critério e responsabilidade que, fazendo planos para o futuro, não tome em consideração as modificações que uma possível guerra imporia à marcha regular de suas previsões.

Seria, pois, de pasmar que as pessoas que amam verdadeira e seriamente a Religião Católica, também não indagassem quais os efeitos de uma possível guerra sobre as atividades e as próprias condições de vida da Igreja em nosso século. Para tratar deste assunto que tortura tantas almas zelosas é que deliberamos publicar em Catolicismo este estudo. É óbvio que não poderemos considerar senão os aspectos mais gerais do complexíssimo problema. As questões de pormenor alongariam desmedidamente os quadros, de per se já tão vastos de nosso trabalho.

Esta provável guerra terá algumas notas preponderantes, que influirão em todos os seus outros aspectos.

Primeiramente, será “mundial” num sentido muito mais real e profundo do que o conflito de 14-18 [Primeira Guerra Mundial], ou mesmo o de 39-45 [Segunda Guerra]. De um lado, os campos de operações militares serão muito mais numerosos.

Todas estas circunstâncias exigirão uma participação militar e econômica muito mais efetiva, das próprias nações que não forem diretamente atacadas em seus cidadãos e seus territórios. O esforço de guerra mobilizará pois, de um modo ou de outro, os recursos do mundo inteiro.

Em segundo lugar, esta guerra em que todas as nações talvez tomem parte, será principalmente uma guerra entre duas nações. Os russos e americanos de tal maneira se avantajam em força e poder sobre os respectivos aliados que a vitória de qualquer dos dois blocos não será senão o triunfo da nação-líder do bloco vencedor.

Em terceiro lugar, a guerra será ideológica. Se a nação vencedora for a Rússia, imporá ela ao mundo seu modo de pensar, de sentir e de viver. Contra esta perspectiva se armam as nações que não estão dispostas a renunciar às suas tradições, seus costumes e sua própria alma nacional. Em outros termos, há duas civilizações, duas culturas, dois mundos ideológicos inteiramente distintos e antagônicos, em presença um do outro. E a sobrevivência da hegemonia mundial da cultura ocidental será impossível se a vitória couber ao bloco liderado pelos bolchevistas.

Em quarto lugar, vem uma decorrência do que acabamos de dizer. Se a guerra for ideológica e se a questão ideológica que estiver na raiz da luta for a questão social, é bem de ver com que facilidade em vários países se manifestará a tendência de complicar com uma guerra de classes intestina, a guerra mundial. É, pois, possível que a guerra mundial seja agravada por uma revolução social que, se não for mundial, por certo poderá ser internacional.

Em quinto lugar, tudo leva a crer que a guerra será científica e trará consigo possibilidades de destruição ainda não bem conhecidas pelo público, mas por certo muito amplas. A técnica será mobilizada contra o homem, e poderá determinar convulsões, destruições e hecatombes inimagináveis. Há quem pense que a própria civilização humana poderá desaparecer da Terra. Sem responder pela afirmativa nem pela negativa, aceitamos a hipótese muito menos improvável de que, simplesmente, as destruições acarretem para civilização um retrocesso que ainda é prematuro tentar medir.

Este o quadro das perspectivas sombrias que a guerra abre diante de nós.

Os estados vermelhos representam os governos comunistas que foram alinhados com a União Soviética. Os amarelos (Somália e Albânia) representam os estados com governos comunistas que foram alinhados com a República Popular da China. Os estados em preto (Coreia do Norte e Iugoslávia).

A Igreja e o comunismo

Cumpre-nos examinar agora que influências estas perspectivas podem ter sobre a segurança, esplendor e dilatação da Cristandade. Para isto, analisemos a posição da URSS e dos EUA perante a Igreja. Comecemos pela URSS. As relações entre o comunismo e a Igreja são tema já mil vezes versado. Parece-nos, entretanto, que muito raramente se tem posto nos seus verdadeiros termos o problema.

Segundo a doutrina católica, Deus pôs os homens neste mundo para O amar e servir, e assim conquistar a visão beatífica e a vida eterna. Mas Deus não deixou a nosso critério servi-Lo como bem entendêssemos. Ele promulgou uma Lei que não revogou e jamais revogará, a mesma para todos os homens, em todos os lugares e todos os tempos até a consumação dos séculos. Esta Lei nos manda professar a verdadeira Religião, guardar a pureza segundo nosso estado, respeitar a propriedade alheia, e acatar com amor toda a superioridade legítima, como é arquetipicamente a do intelectual sobre o trabalhador manual.

Assim, não nos é lícito constituir um estado de coisas baseado sobre a impiedade, o adultério, o latrocínio e a revolta, e esperar que a Igreja acabe se acomodando com isto. Para que tal acomodação fosse possível, seria mister, ou que a Igreja abandonasse a Lei de Deus, ou que Deus reformasse sua própria Lei. Ora, quem admite qualquer destas duas hipóteses, cai em heresia. A Igreja condena como herética a simples suposição de que algum dia a Lei no todo ou em parte seja modificada por Deus ou abandonada por Ele.

Como se vê, a oposição entre o Comunismo de um lado o Catolicismo de outro é a maior que se possa imaginar. Ora, os soviéticos não se limitam a viver segundo estes princípios. Desejam reformar ao sabor deles toda a face da Terra. Prova-o a existência, em todos os países, de partidos comunistas mantidos e dirigidos por Moscou; e principalmente a bolchevização brutal de todas as regiões que, deste ou daquele modo, caíram sob o jugo russo, como aconteceu temporariamente com a Espanha e o México, e aconteceu com a Romênia, a Bulgária, a Hungria, a Tchecoslováquia, a Polônia e a China.

Em outros termos, a guerra de conquista da URSS contra o mundo ocidental é estritamente uma guerra ideológica, uma espécie de cruzada cuja vitória significará o fim da civilização atual e a revogação do edito de Milão com o qual, em 313, Constantino reconheceu à Igreja o direito de existir.

Em consequência, os católicos têm de lutar em nosso século contra os comunistas, como lutaram do século XI ao século XVII contra os sarracenos. Somos obrigados a levar a cabo contra a foice e o martelo uma verdadeira cruzada. Isto é perfeitamente claro. Significa isto que todos os inimigos da URSS são cruzados, e que podemos ver em Truman, por exemplo, um Godofredo de Bouillon?

A Igreja e os EUA

Eis outra grave questão. A primeira coisa que se deve dizer sobre ela é que não é nova. De fato, ela já se pôs aos cruzados medievais. Tinham estes no Império Romano do Oriente, um aliado natural. Com efeito, os maometanos haviam feito da monarquia bizantina sua bigorna preferida.

Contra ela eram seus melhores golpes. O desejo de a destruir era sua mais alta ambição, que iam satisfazendo com método implacável, e que chegaram a realizar no século XV quando as tropas de Constantino XIII, os Dracosès, foram dizimadas sob os muros e pelas ruas de Constantinopla pelos soldados vitoriosos de Maomé II.

Dada a orientação implacável e ferozmente antibizantina da política muçulmana, tudo levaria a crer que os cruzados da Europa Ocidental obtivessem o apoio do Império do Oriente para a reconquista dos Lugares Santos, tanto mais que os bizantinos, como cristãos, tinham os mesmos motivos religiosos do que os cruzados para se interessar pela libertação do Santo Sepulcro.

É bem verdade que os cruzados eram católicos, e os bizantinos greco-cismáticos. Mas não seria o caso de fazer calar os motivos de dissensão entre cristãos, à vista do adversário comum, formidável, e sanhudamente anticristão? A resposta só poderia ser pela afirmativa. Fez-se o acordo.

E a colaboração entre cismáticos e cruzados funcionou tão mal que não haveria talvez nenhum exagero em se afirmar que melhor teria sido para estes enfrentar os muçulmanos sem qualquer auxílio bizantino. É que, em mais de uma ocasião decisiva, o Império do Oriente, receoso de um excessivo poderio dos ocidentais, se mancomunou com os muçulmanos, deixando inopinadamente os cruzados — falhos do auxílio prometido — frente a frente com o inimigo.

O que nos ensina este fato histórico? Que jamais deve haver alianças entre católicos e acatólicos? Seria levar longe demais a tese. Pio XI, segundo se conta, afirmava que, se devesse colaborar com o próprio demônio para o bem da Igreja, aceitaria a colaboração. Mas... e entra aí o pormenor que os cruzados não tomaram na devida consideração, o demônio é sempre demônio, mesmo quando acidentalmente nos serve de instrumento.

Os pactos de aliança temporária que façamos com ele não o transformarão em Anjo de luz. E toda a cooperação com ele só não será absolutamente ruinosa se nos lembrarmos sempre das reticências muito consideráveis com que se deve agir em relação a tal colaborador!

Não queremos forçar a nota. O exemplo não pode ser aplicado ao problema de uma cooperação mundial de todas as forças anticomunistas senão com uma imensidade de nuances que seria gravemente injusto não explicitar cuidadosamente. Mas, de qualquer forma através deste exemplo, temos sempre os dois princípios de qualquer colaboração com os adversários da Igreja:

a) em tese, é possível;

b) nunca deve ser feita sem cautelas e reservas muito importantes, à falta das quais a cooperação pode ser quase tão onerosa como a própria derrota.

No caso presente, a cooperação não é apenas possível, mas necessária. Quando nos falam na eventualidade de grupos se constituírem como uma terceira força na hipótese de uma luta soviético-americana, temos vontade de sorrir. Com efeito, dir-se-ia que não estamos vitalmente interessados no êxito da luta. Se os soviéticos vencerem, as potências do grupo neutro serão conquistadas num abrir e fechar de olhos. Lutando para esmagar a URSS, os norte-americanos lutarão pelo destino de todas as nações livres do mundo. Seria, pois, inconcebível que estas presenciassem a luta de braços cruzados.

Entretanto, não se segue daí que a cooperação com os americanos deva ser aceita pelo mundo católico sem cautelas, nem condições, nem apreensões. Lembremos, antes de tudo, que o anticomunismo americano é muito heterogêneo em sua composição. Há anticomunistas que o são por um sincero horror ao bolchevismo. Mas há os que o são num espírito pagão, de mera preservação de situações pessoais vantajosas.

Há ainda os que são anticomunistas pelo desejo de acrescer a prosperidade das grandes empresas americanas. Como há também os que veem na URSS não tanto uma potência ideologicamente hostil, mas um agressor que põe em risco a estabilidade da pátria. Entre os anticomunistas americanos, há sindicalistas ferrenhos, que desejam para sua pátria uma organização econômica e social. Há políticos que não têm o menor desejo de extirpar o comunismo de qualquer canto da Europa desde que daí não se irradie para a América. E há até os que veem de muito bom grado os comunistas como aliados, desde que sejam anti-stalinistas.

Bem se vê que os católicos, aceitando lealmente a cooperação americana, e sobretudo prestando aos americanos apoio decidido face ao adversário comum, não podem viver esta cooperação com chefes e soldados americanos como os cruzados — irmanados na mesma Fé e combatendo todos por um mesmo ideal — podiam colaborar entre si sob a direção de um católico da envergadura de Godofredo de Bouillon. Muito pelo contrário!

Diante das graves ameaças que rondam o Ocidente, envolvendo não só as nações numa eventual guerra mundial, mas também com sérias consequências para a Igreja, estamos diante de uma situação única na História, e que clama por novos “Godofredos de Bouillon”. A esperada intervenção da Providência anunciada em Fátima, em que direção se manifestará?


Não basta ganhar a guerra, é preciso ganhar a vitória

E concluamos estas considerações lembrando que o espírito com que se combate é o espírito com que se vence; o espírito com que se vence é o espírito com que se organiza a vitória.

Se, na refrega iminente, as nações católicas e latinas não conservarem a consciência muito viva de sua missão providencial, do imenso futuro histórico que representam, das tradições de civilização e cultura inestimáveis que possuem; se as nações católicas e especialmente as nações latinas não se lembrarem de que, pobres ou ricas, armadas ou desarmadas, têm direito a ocupar pelo próprio fato destas tradições e desta missão um lugar de primeiríssimo realce na direção do mundo, de sorte que toda a ordem internacional que se construa sem elas seja considerada fundamentalmente injusta e inaceitável; se, pois, estas nações não se munirem das melhores garantias de que tal será sua situação depois da vitória, terão transgredido, por ingenuidade, por moleza, por imprevidência, o mais sagrado de seus deveres.

Imaginemos por um instante o que seria uma vitória americana conquistada sem a participação de nós católicos, ou sem a garantia de que na mesa da paz nossa participação nos traria um justo lugar de honra e de poder. O que viria a ser esta paz? Algo de imensamente melhor do que a vitória de Moscou, isto é certo.

Assim, pois, a verdadeira fórmula da colaboração deve ser esta: fervorosa, porém não ingênua ou incondicional.

Isto mais claro se tornará se considerarmos outra característica do conflito que se aproxima. A guerra será mundial, dizíamos, e será sobretudo a vitória de uma nação, URSS ou EUA. Equivale isto a dizer que, se vencerem os EUA, praticamente serão eles os únicos vencedores, e seu poder será imensamente maior do que o de César ou de Carlos V. Não haverá outros grupos que possam atender esta soberania mundial, se antes e durante a colaboração com o adversário comum não forem tomadas as necessárias precauções.

Este, pois, é o momento em que as nações latinas — o grande bloco ibero-americano sobretudo — jogarão as cartas para saber se podem, ou não, ganhar a vitória. Porque, começado o conflito, a hora da diplomacia terá passado, e será preciso lutar ou morrer.


7 de março de 2022

RÚSSIA x UCRÂNIA — Movimentações nos ventos da guerra (Parte I)

Coluna de tanques russos

 “A Rússia espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja”

 

Fonte: Revista Catolicismo, Nº 855, Março/2022

Tendo como fundo de quadro o grave conflito que vem se acentuando ao longo das fronteiras entre Rússia e Ucrânia — sobretudo depois da assinatura do pacto entre Rússia e China de “aliança sem limites”, acordado em Pequim no dia 4 de fevereiro último —, muitos analistas internacionais passaram a sentir “cheiro de pólvora” se espalhando pelos ares de várias nações.

Alguns deles vislumbraram a possibilidade da realização de velho sonho do autocrata Vladimir Putin de restabelecer a antiga URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), para o que a invasão da Ucrânia seria apenas o primeiro passo. Outros levantam inclusive a hipótese de que tal conflito possa se degenerar numa III Guerra Mundial, até mesmo com o emprego de arsenal atômico.

Temendo o perigo de que esse sonho de Putin se transforme em realidade, alguns países outrora subjugados pela falida União Soviética — como Polônia, Hungria, Romênia, Bulgária, Lituânia, Letônia e Estônia — mobilizaram tropas para defender suas fronteiras.

No quadro [aqui o reproduziremos amanhã] elencamos algumas informações que mostram como os ventos da guerra avançaram rapidamente até chegar ao decreto do dia 21 de fevereiro, com o qual Putin deixou cair a máscara, mostrando sua sinistra face stalinista. Com efeito, com esse decreto ele violou a integridade e a soberania territorial da Ucrânia ao declarar a independência de duas regiões claramente ucranianas (Donetsk e Luhansk), conforme os acordos de Minsk (2014 e 2015); tendo ordenado logo em seguida o envio de tropas para essas regiões — o que o governante absoluto da Rússia, hipocritamente, chamou de “missão de paz”...

Análise sob o ponto de vista católico

Nós, enquanto católicos que procuram analisar meticulosamente o panorama político internacional, não podemos deixar de relacionar esse conflito com as proféticas palavras de Nossa Senhora de Fátima. Com efeito, no dia 13 de julho de 1917, na terceira aparição aos três pastorinhos, Lúcia, Jacinta e Francisco, Ela profetizou:

“Quando virdes uma noite alumiada por uma luz desconhecida, sabei que é o grande sinal que Deus vos dá de que vai punir o mundo de seus crimes, por meio da guerra, da fome e de perseguições à Igreja e ao Santo Padre. Para a impedir, virei pedir a consagração da Rússia ao meu Imaculado Coração e a comunhão reparadora dos primeiros sábados. Se atenderem aos meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja; os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas; por fim, o meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-Me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz”. 1

Em carta do dia 12 de maio de 1982, dirigida ao Papa João Paulo II, a Irmã Lúcia escreveu : “Porque não temos atendido a este apelo da Mensagem, verificamos que ela se tem cumprido, a Rússia foi invadindo o mundo com seus erros. E se não vemos ainda, como fato consumado, o final desta profecia, vemos que para aí caminhamos a passos largos”. 2

Guerra de civilizações, de culturas, de ideologias

Enquanto católicos não podemos deixar de apontar os efeitos que uma nova guerra poderá causar à Igreja e influenciar todos os aspectos da sociedade temporal. É o que o nosso principal colaborador, o muito saudoso Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, comenta em seu prenunciativo texto publicado em nossa edição de abril de 1951 [aqui o reproduziremos no dia 9 próximo].

Com a invasão da Ucrânia pela Rússia, a situação de guerra poderá levar o mundo a um novo e brutal “choque de civilizações” e a uma “guerra cultural”, gerando revoluções sociais e/ou guerras civis, provocando destruições incalculáveis, não apenas materiais, mas culturais, no sentido da expansão da IV Revolução. 3 Ou seja, será uma guerra ideológica entre “duas civilizações, duas culturas, dois mundos ideológicos inteiramente distintos e antagônicos, em presença um do outro. E a sobrevivência da hegemonia mundial da cultura ocidental será impossível se a vitória couber ao bloco liderado pelos bolchevistas”, escreveu o Prof. Plinio no referido artigo.

Uma vez iniciada a invasão da Ucrânia pela Rússia, a situação de guerra poderá levar o mundo a um novo e brutal “choque de civilizações” e a uma “guerra cultural”. 

“Morto o comunismo? E o anticomunismo também?”

Uma objeção poderia ser levantada: a URSS não existe mais; a União Soviética era uma coisa e a Rússia de hoje, outra. Sem dúvida, o objetor fictício tem razão. Mas também tem razão quem vê o perigo do retorno do regime próprio da “União Soviética” — que subjugou povos por sete longas e negras décadas —, prenunciado na pretensão de dominar a vizinha Ucrânia. Tudo isso se agrava exponencialmente com o recente pacto sino-russo.

Ademais, constitui grave equívoco julgar que o “comunismo morreu” e que a Rússia pós URSS já não é mais dominada pela antiga nomenklatura do regime comunista. A respeito, aconselhamos a leitura do manifesto “Morto o comunismo? E o anticomunismo também?”, de autoria de Plinio Corrêa de Oliveira, publicado em nossa revista (edição de outubro de 1989 — link indicado no final desta matéria).4

Nesse documento, o autor demonstra que no desmoronamento da União Soviética o comunismo não morreu, mas apenas se metamorfoseou por meio de duas políticas cosméticas denominadas Glasnost (transparência), em 1985, e depois Perestroika (reestruturação), em 1986, ambas levadas a cabo pelo velhaco político Michail Gorbachev.

Como a carranca marxista-leninista do comunismo assustava a opinião pública ocidental, os dirigentes russos resolveram dar a impressão de que “o velho comunismo morreu”, desmobilizando desse modo as reações anticomunistas, ao mesmo tempo que conservavam os países satélites da Rússia. Tudo não passou de mera cirurgia cosmética — como agora estamos vendo com o projeto de Putin, antigo coronel da KGB da ex-URSS.

Ele próprio já afirmou que a maior tragédia geopolítica do século XX foi o fim da União Soviética, tendo aliás renovado essa afirmação no dia 21 de fevereiro último, ao lamentar as perdas causadas à Rússia pelo desfazimento da União Soviética em 1991. Não é, pois, de estranhar que Putin queira restabelecer o antigo sistema de domínio soviético ao subjugar o próprio país e os vizinhos, entre os quais a Ucrânia, a fim de restabelecer aquela espúria união de países comunistas para fazer face ao mundo ocidental.

“Espada de Dâmocles” pairando sobre o Ocidente

Nestes dias em que redigimos esta matéria, a tensão nos ventos da guerra é altíssima — sobretudo porque poderá ocorrer uma conflagração armada envolvendo Rússia, China, Estados Unidos, Ucrânia e nações vizinhas. Bem vislumbramos que esses ventos poderão mudar de direção de um dia para outro, e quando esta edição estiver em mãos de nossos leitores, a tensão poderá ter aumentado, diminuído ou mesmo cessado. Quem viver, verá!

         Mesmo que o clima de guerra venha aparentemente arrefecer, enquanto Vladimir Putin e Xi Jinping — o qual pretende fazer com Taiwan o mesmo que o mandatário russo quer fazer com a Ucrânia — estiverem aboletados no poder de suas imensas nações, tal clima persistirá ainda que seja como “espada de Dâmocles” pairando sobre a civilização ocidental e cristã.

Chamberlain, no retorno a Londres, exibe o “acordo de Munique” após encontro com Hitler

“Escolhestes a vergonha, agora tereis a guerra”

        

Não somos partidários do “ceder para não perder”, mas sim de lutar para vencer! Imaginamos que também nossos leitores sejam admiradores desse princípio católico, em oposição a certos líderes mundiais entreguistas, partidários do princípio “ceder para não perder”. Conforme se desenrolarem os acontecimentos, a eles poderemos aplicar a histórica censura proferida por Churchill [foto ao lado] ao entreguista Chamberlain (Primeiro-Ministro do Reino Unido entre 1937 e 1940) quando este retornou a Londres celebrando o “acordo de Munique” após um encontro com Hitler — às vésperas da eclosão da Segunda Guerra Mundial —, na vã tentativa de apaziguar a agressividade nazista: “Tínheis a escolher entre a vergonha e a guerra. Escolhestes a vergonha, agora tereis a guerra”.

Assim sendo, não “baixemos a guarda”, estejamos com os olhos bem abertos, pois não podemos ver de modo otimista o perigo que nos ameaça, nem com olhos “chamberlainescos”... Pelas mesmas razões, consideramos que o artigo a seguir seja mais atual do que no próprio ano em que foi redigido, décadas atrás, por Plinio Corrêa de Oliveira. Dele eliminamos apenas algumas frases concernentes especificamente à geopolítica naquele remoto ano.

Da Redação de Catolicismo

____________

Notas:

1.        1. Um caminho sob o olhar de Maria – Biografia da Irmã Lúcia Maria de Jesus e do Coração Imaculado, Carmelo de Coimbra, Edições Carmelo, Coimbra, 2013, pp. 63-64.

2.        2. Antonio Augusto Borelli Machado, Catolicismo, Nº 597, Setembro/2000.

3.        3. Plinio Corrêa de Oliveira, Revolução e Contra-Revolução, Artpress, S. Paulo, 4a. edição em português, 1998, Parte III. (na qual o autor descreve o nascimento da IV Revolução - a Revolução Cultural, que procura implantar uma sociedade tribal e anárquica).

4.        4. http://catolicismo.com.br/Acervo/Num/0466/P04-05.html

3 de março de 2022

Os que esperam só ser comidos no fim...

Churchill e De Gaulle alertaram a Europa do perigo de acreditar num pacifismo míope diante da ameaça da Alemanha nazista. Hoje repete-se o mesmo erro do "pacifismo míope" diante da ameaça do restabelecimento da antiga URSS...

✅  Plinio Corrêa de Oliveira 

A perspectiva de nova conflagração mundial tornou-se ainda mais sinistra do que as anteriores, em razão dos trágicos progressos que tem feito a arte de matar. Teve isto sobre os homens um efeito catastrófico. 

Em lugar de ver no debate de ideias um destro e arejado torneio de erudição e de cultura, no qual as partes contendem para encontrar a verdade, o debate cultural ou técnico passou a ser tido, em nossos dias, como fagulha perigosa, da qual podem surgir controvérsias apaixonadas. E destas, por sua vez podem nascer, possivelmente, confrontações internacionais que resultem na temida guerra. 

Tomado de pânico, o pacifista contemporâneo incondicional apostrofa ecumenicamente os polemistas: “Não vos recordais das intransigências de Hitler, de Mussolini, de Stalin”? 

Nesta visualização, toda controvérsia deve ser abafada. E quando alguém redargue ao pacifista, “e você não se lembra de homens ainda mais culpados pelas guerras, pois foram símbolos da capitulação e do fracasso, como Chamberlain e Daladier?”, o pacifista muda de assunto. 

Porém vê-se que, no fundo, essa dupla do fracasso corresponde ao seu ideal. E que, nem de longe, lhes ocorre a lembrança de homens como Churchill e De Gaulle, que souberam ser polemistas vigorosos, mas sem fanatismo. 

A fórmula mágica do “neochamberlainismo” ou do “neodaladierismo” contemporâneo é o relativismo. Para ele, todas as verdades e todos os erros são relativos. Toda afirmação categórica não é senão respingo de algum fanatismo. A verdade está sempre e unicamente no meio-termo. Isto é, numa acomodação entre todas as opiniões, por mais diversas que sejam, e por mais contraditórias que se apresentem. 

Quando as certezas morrem, a atividade intelectiva perde sua meta natural. E a modorra se apodera da opinião pública. A modorra dos pacifistas a todo preço, que Churchill assim definia: “Apaziguador é aquele que alimenta um crocodilo, esperando que este o coma por último”... 
____________ 
Excertos do artigo de Plinio Corrêa de Oliveira, em 11-4-88, para a “Folha de S. Paulo”.

2 de março de 2022

Desejar a paz é estar disposto a pegar em armas para conquistá-la


Nesses dias de uma guerra que poderá se estender pela Europa, talvez até para todos os Continentes, seguem alguns pensamentos para refletirmos 

“Ouvireis falar de guerras e de rumores de guerra. Atenção: que isso não vos perturbe, porque é preciso que aconteça. Mas ainda não será o fim.” 
(São Mateus 24, 6) 


“Preparai-vos, sede corajosos e estai prontos desde a manhã para o combate a essas nações que estão unidas para nos arruinar, a nós e tudo o que possuímos de sagrado.” 
(I Judas Macabeu 3,58) 


“Eu não temeria ir à guerra. Com que alegria, por exemplo, no tempo das cruzadas, teria partido para combater os hereges. Sim! Eu não temeria levar um tiro, não temeria o fogo!” 
(Santa Teresinha) 


“Pax quaeritur bello.” 
[Procura-se a paz por meio da guerra] 
(Expressão latina) 


“É próprio ao belicismo fanático delirar e agredir. É próprio ao pacifismo fanático fechar os olhos, ceder, recuar.” 
(Plinio Corrêa de Oliveira) 


“Não sabemos a totalidade das armas da terceira guerra mundial, mas as da quarta serão o arco e a flecha.” 
(Albert Einstein) 

1 de março de 2022

Rússia/Ucrânia: tensão nos ventos da guerra. Estamos às vésperas de uma III Guerra Mundial?


Fonte: Editorial da Revista Catolicismo, Nº 855, Março/2022

Aqueceu, e muito, a temperatura no clima de uma guerra que pode se tornar mundial. Vladimir Putin, agindo como um novo czar com poderes absolutos sobre toda a Rússia, ameaçou os países ocidentais dizendo que se intervierem contra a invasão na Ucrânia, sofrerão “consequências que eles nunca viram na História”. Uma ameaça de ataque nuclear? Só Deus sabe! 

Dois misseis russos atingiram uma área residencial
de Kharkiv, a 2ª maior cidade da Ucrânia, em 1-3-22.
Com essa declaração e com a traiçoeira e premeditada invasão da Ucrânia pelas tropas russas — fazendo exatamente aquilo que na véspera havia negado que faria —, Putin deixou cair sua máscara. Isso ajudou inúmeras pessoas a perder suas ilusões e a ver claramente a sinistra carranca stalinista do autocrata do Kremlin, com ambições expansionistas próprias a um tirano do império soviético. Para tal, modificou a constituição russa para poder continuar como presidente até 2036... 

Frente a esse tenebroso panorama, como reagirá o mundo ocidental, ex-cristão, otimista e decadente? Bem sabemos que se a Rússia tomar inteiramente a Ucrânia e não houver uma reação à altura, logo outras nações poderão também ser invadidas, sobretudo aquelas que antes do desmoronamento do regime comunista em 1991 eram satélites da URSS e jaziam sob a bota dos déspotas comunistas. 

Torre de TV bombardeada, neste primeiro
dia de março, em Kiev, capital ucraniana
Se o Ocidente preferir seguir a política do “ceder para não perder” e ver a ameaça como o avestruz “vê” o perigo, tudo o que está eclodindo no Leste europeu poderá degenerar numa III Guerra Mundial. Em alguns dias? Alguns meses? Alguns anos? Repetimos: só Deus sabe! 

Em qualquer caso, todos esses acontecimentos, dentro de um período de pandemia e com calamidades flagelando várias regiões do Brasil e do mundo, parecem sinais da Divina Providência para alertar e preparar seus filhos para os castigos anunciados por Nossa Senhora em Fátima em 1917, devido à grande infidelidade aos preceitos divinos, que são calcados aos pés em nossos dias.

Essas e outras candentes questões — como o confronto ideológico numa guerra entre duas civilizações e a posição que a Igreja e os católicos devem tomar em caso de guerra — são expostas na matéria principal da edição de março da revista Catolicismo [capa acima]. Ela foi redigida antes da invasão russa à Ucrânia. 

Aconteça o que acontecer, tenhamos confiança e peçamos a proteção da Virgem Santíssima que, como as Sagradas Escrituras A proclamam, é “terrível como um exército em ordem de batalha” (Cant. 6,10). Que Ela livre o Brasil dos males de um eventual governo que pretenda aqui “espalhar os erros da Rússia”...
____________ 
Para fazer uma assinatura da revista Catolicismo envie um e-mail para catolicismo@terra.com.br