21 de julho de 2024

Uniforme para alunos nas escolas públicas francesas



O Ministério da Educação da França começou a estimular o uso de uniformes pelos alunos nas escolas públicas. 

O presidente francês quer generalizá-lo em 2026, para reforçar a autoridade no ensino. 

A pressão das modas cria atritos e favorece a indisciplina, prejudicando os estudos e a ordem.

Em quatro escolas de Béziers, no sul do país, que foram as primeiras a adotar uniformes, as famílias pediam o seu retorno desde 2014. Ele “é um passo em defesa dos valores, da ordem e do respeito”, disse o prefeito de Reims, que deseja melhorar o nível educativo na sua cidade no norte do país.

16 de julho de 2024

Aspectos de requinte de civilização e debilidades na fisionomia de Luís XVII

* Louis-Charles de France (Versailles, 1785 – Paris, 1795), segundo filho de Luís XVI e da Rainha Maria Antonieta. Após a decapitação de seu pai na sanguinária Revolução Francesa — cujo marco inicial foi a Queda da Bastilha, em 14 de julho de 1789 —, foi reconhecido como titular da coroa da França pelas potências coligadas e por seu tio, o futuro Luís XVIII. Morreu nas garras daquela Revolução, na prisão do Templo. (Quadro de Alexander Kucharski - 1792).

  Plinio Corrêa de Oliveira

Ao ver esse quadro com a figura de Luís XVII*, a impressão que me causou foi de fragilidade, dignidade e mando. Não o mando concebido de um modo abrutalhado e prepotente, como quem dissesse: “Me traga um copo d’água!” Mas um mando noutro sentido, como de quem pergunta: “Quereria me trazer um copo d’água?” 

Não passaria pela cabeça de quem recebe o pedido, de responder-lhe: “NÃO”. Porque a amabilidade e dignidade são tantas, que o indivíduo sente que deve trazer o copo d’água; muito menos pelo medo do que pela noção de superioridade que está incutida nesse estilo apresentado no quadro. 

Esta noção de mando vem com uma conotação confusa de contraste entre a revolucionária falta de dignidade e a superioridade. 

Não estou fazendo um elogio incondicional dessa gravura. Depois farei as críticas. Agora estou justificando a primeira impressão que tive. 

Esse requinte de civilização nem sempre fica claro, por causa dos preconceitos revolucionários de desprezar sob o pretexto de que tem grandeza. 

O Príncipe Real da França aparece muito consciente de que tem o direito de ser servido, que é normal que assim seja. Aparece também um tanto da debilidade censurável que resulta de algo que não é censurável: a ideia de que é tão normal ser servido, que não precisa fazer esforço para tal. Não há dúvida que é uma posição eminentemente aristocrática.

Ao mesmo tempo, essa figura me causa outra impressão: uma espécie de massa mole, onde existe mais carne do que osso. Há nas maçãs do rosto do Príncipe qualquer coisa de mole, que nunca se contraíram numa atenção, num sofrimento, numa oração. 

Observem as sobrancelhas. Elas “comentam” o olhar; sem elas se teria dificuldade de interpretar o olhar. Há sobrancelhas nas quais se percebe, por um imponderável qualquer, que houve o hábito de cerrá-las, que é produto da reflexão, e há sobrancelhas despreocupadas. 

Os olhos são grandes e tomam boa parte da face. O olhar não é ininteligente e é plácido; aparentemente desanuviado, mas crítico. Todo olhar tem algo de “anuviado”, mas ele disfarçou esse aspecto, o que é sinal da educação. 


A Rainha Elizabeth II [ao lado], por exemplo, tem um olhar que é absolutamente imóvel e não exprime nada do que pensa. Isso por diplomacia. Isso é categoria! 

Nesse quadro de Luís XVII se nota alguém que não fez outra coisa senão ver jardins bonitos, mármores, cristais, com fontes jorrando, gente fazendo reverência, e ele olhando sem entender muito... Dessa impressão se pode deduzir algo a respeito da mentalidade.

Nessa figura, o que há de Revolução e Contra-Revolução? Tudo que tem de aristocrático, dignidade e essa forma de mando representa Contra-Revolução. 

De Revolução notam-se: debilidades, molezas, tendências para o igualitarismo, por incrível que pareça. 


Nessa pintura, onde está a tendência para o igualitarismo? Comparem com o grande Luís XIV [ao lado], de quem é descendente. Em comparação com o Rei Sol, o Príncipe é um gatinho, um ratinho. É o igualitarismo que foi amesquinhando. 

Luís XVII em relação ao avô é um plebeu. Em relação a nós é um príncipe, porque estamos numa época de proletarismo debandado. 

O fato de ele não ser capaz de se impor pela força também é Revolução, porque nenhum homem pode pretender impor-se apenas por sua superioridade, pois muitas vezes os outros não atendem, então é preciso saber berrar e ir para frente. Ele precisava ser um homem que soubesse pegar uma espada ou um chicote, ou — muito melhor que isso — tivesse o olhar de Luís XIV! Pois vale mais do que a espada e o chicote! O olhar pode paralisar o adversário em seu devido lugar!
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Excertos da conferência (sem data) proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira. Esta transcrição não passou pela revisão do autor.

15 de julho de 2024

Escapulário do Carmo, penhor seguro de salvação





Nossa Senhora do Carmo com São João da Cruz, Santa Teresa de Jesus e Santa Teresinha, Igreja Santa Maria della Vittoria, Roma

Particular proteção de Nossa Senhora do Carmo aos portadores do seu Escapulário, sinal de salvação eterna, proteção nos perigos, aliança com Ela 

  Plinio Maria Solimeo 

O comum dos católicos vive hoje com a veleidade de que irá para o Céu, sem necessidade de fazer o menor esforço para o merecer. Ele pratica bem ou mal os Mandamentos, vai à Missa quando quer, reza quando tem vontade ou necessita de alguma graça, e no mais “deixa o barco correr”. Não lhe passa pela cabeça que ainda que tenha vivido religiosamente, deverá passar pelo Purgatório a fim purgar a pena devida aos pecados perdoados na confissão, mas dos quais não fez suficiente penitência para apagar a dívida por eles merecida. 

Se pensa nisso, tem uma ideia muito light do que é o Purgatório, e por isso faz muito pouco para evitá-lo. 

Sobre o Purgatório, diz o Catecismo da Igreja Católica: 
“Os que morrem na graça e na amizade de Deus, mas não estão completamente purificados [o que acontece com quase todos os que não foram elevados à honra dos altares], embora tenham garantida sua salvação eterna, passam, após sua morte, por uma purificação, a fim de obter a santidade necessária para entrar na alegria do Céu. A Igreja denomina ‘Purgatório’ esta purificação final dos eleitos, que é completamente diferente do castigo dos condenados” (CIC 1030-1031). 

Ora, as penas do Purgatório são terríveis, pois visam purificar a alma de qualquer vestígio de culpa, por menor que seja, a fim de que ela possa ser digna de ir ver o Deus Santíssimo face a face no Céu. 

Por isso, segundo São Tomás de Aquino e Santo Agostinho, quanto ao sofrimento, as penas do Purgatório são análogas às do inferno. Segundo esses Doutores da Igreja, é o mesmo fogo que purifica uns, e atormenta os outros. 


A pena temporal dos pecados 

É preciso lembrar que quando se recebe a absolvição dos pecados por meio da Confissão Sacramental, se a confissão for bem feita, a culpa dos pecados é removida. Quer dizer, o castigo eterno devido a eles, se mortais, é apagado. Entretanto, ainda permanece a pena temporal exigida pela Justiça Divina ultrajada. Essa pena deve ser cumprida na vida presente ou depois da morte; ou seja, no Purgatório 

A Santa Igreja, Mãe carinhosa, no exercício do Poder das Chaves e da aplicação dos méritos superabundantes de Nosso Senhor Jesus Cristo e dos Santos, põe à nossa disposição recursos que nos auxiliam a remitir parcial ou totalmente essa pena devida aos pecados cometidos, por meio das indulgências. 

Estas são parciais quando remitem parte da culpa, ou plenárias, que remitem toda a pena temporal devida ao pecado. As indulgências podem ser aplicadas às almas do Purgatório.

Sacramentos e sacramentais 

Além das indulgências, que podemos lucrar, temos também os chamados sacramentais, que nos concedem abundantes recursos para receber as indulgências, ajudando-nos no caminho da perfeição. 

O Catecismo da Igreja Católica define os sacramentais como 
“sinais sagrados instituídos pela Igreja, cujo objetivo é preparar os homens para receber o fruto dos sacramentos, e santificar as diferentes circunstâncias da vida”. 
A diferença entre o sacramento e o sacramental é que o segundo não confere a graça do Espírito Santo, como acontece com o sacramento. Mas, pela oração da Igreja, ele prepara para o recebimento da graça (cf. CIC 1670). 

Entre os vários sacramentais, em primeiro lugar estão as bênçãos, que podem ser de pessoas, de objetos de piedade e até profanos, lugares etc. O número de sacramentais é muito grande. Por exemplo, desde que sejam abençoados, temos cruzes, imagens e estampas de santos, água benta, sal bento, e o santo Rosário. Os escapulários de todo gênero são dos sacramentais mais acessíveis ao homem, pois basta levá-los ao pescoço para receber as bênçãos e graças a eles ligadas. 

São Simão Stock recebe o escapulário das mãos de Maria Santíssima – Escola Flamenga, autor desconhecido. Coleção Particular

O escapulário do Carmo 

Anos atrás, o escapulário ou “bentinho” do Carmo, símbolo da devoção a Nossa Senhora, esteve muito em voga. Podia ser visto no metrô, na rua, em lojas, por toda parte, sobretudo em jovens. 

Contudo, não é temerário conjecturar que a maioria o portava para estar em dia com a moda, como mero “enfeite”, ou quase como amuleto para “dar sorte”. Com isso deixavam de ganhar as inúmeras graças ligadas ao escapulário, e sobretudo de merecer as grandes promessas que lhe são vinculadas. 

Sobre ele, afirmou o Papa Pio XII: 
“Certamente ninguém ignora quanto contribuiu para avivar a fé católica e emendar os costumes o amor à santíssima Mãe de Deus, especialmente através daquelas expressões de devoção com as quais, preferentemente às outras, parece que as mentes se enriquecem de doutrina sobrenatural e as almas são solicitadas ao cultivo da virtude cristã. Entre estas, figura em primeiro lugar a devoção ao santo Escapulário dos carmelitas que, adaptando-se por sua simplicidade à índole de todas as pessoas, e com ubérrimos frutos espirituais, está amplissimamente difundida entre os fiéis cristãos” (Doctrina Pontificia, IV, Documentos Marianos, Hilario Marín, S.I., BAC, Madrid, 1954, pp. 626-627). 

Origem do Escapulário e “privilégio sabatino” 

São Simão Stock, Superior Geral da Ordem do Carmo, nasceu na Inglaterra em 1165. Conforme ele narra ao Frei Pedro Swayngton, seu secretário e confessor, no dia 16 de julho do ano de 1251, devido às perseguições que sofriam os Carmelitas, ele recorria à Santíssima Virgem com muitas lágrimas, suplicando-lhe proteção para a sua Ordem, e que lhe manifestasse por meio de um sinal sua aliança com ela. 

Enquanto rezava com fervor a bela oração Flos Carmeli, que compusera, de repente a Santíssima Mãe de Deus lhe apareceu resplandecente de luz, trazendo o Menino Jesus num dos braços, e no outro um escapulário formado por duas peças de lã unidas por uma fita.

“Recebe, meu filho, este escapulário de minha confraternidade”, disse-lhe Ela. E lhe prometeu que, todo aquele que morresse com o escapulário ao peito, não padeceria do fogo eterno, pois “ele é um sinal de salvação, seguro nos perigos; aliança de paz e de pacto sempiterno”, acrescentou a Mãe do Redentor. 

Um século depois, aparecendo ao Papa João XXII (1249-1334), a Santíssima Virgem foi ainda mais longe em sua maternal proteção àqueles que portassem o seu escapulário: não se limitou apenas em prometer que os libertaria do fogo do inferno, mas que os livraria do Purgatório no primeiro sábado após sua morte. 

Essa segunda surpreendente promessa ficou conhecida como “privilégio sabatino”.

Como entender o “privilégio sabatino” 

Qual é o sentido exato dessa promessa sublime da salvação eterna? Evidentemente não pode ser o de que, por usar o escapulário, a pessoa pode fazer o que bem entender que sua salvação está assegurada, mesmo se morrer em pecado mortal. Isso seria absurdo e antiteológico. 

Então essa promessa só pode significar que, quem morrer revestido com o Escapulário, se estiver em pecado mortal, terá tempo para se confessar e arrepender-se de seus pecados. 

É por isso que a Igreja geralmente insere na promessa a palavra “piedosamente”: “aquele que com ele morrer piedosamente, não padecerá das penas do inferno”. 

O que leva os teólogos a entenderem que, ao morrer com o Escapulário, a pessoa receberá de Nossa Senhora à hora da morte a graça da perseverança no estado de justiça se nele estiver, ou, caso contrário, a graça da conversão e perseverança final. 

Privilégios ligados ao Escapulário 

Resumindo os privilégios ligados ao Escapulário, temos: 

• A “Grande Promessa”: “Aquele que com ele morrer [piedosamente] não padecerá do fogo eterno”. 

• O “Privilégio Sabatino”: será libertado do Purgatório no sábado seguinte à morte.

Condições para receber os privilégios do Escapulário 

Contudo, para se favorecer desses privilégios, não basta usar piedosamente o escapulário. É preciso que ele tenha sido imposto, pelo menos na primeira vez, por um sacerdote. Atualmente qualquer sacerdote com o uso legítimo de ordens tem esse poder. 

Ademais, o escapulário, como prescreve a Igreja, deve ser feito com dois pedaços de lã — e não de outro tecido ou plástico — ligados entre si por fios. Há escapulários revestidos de plástico, contendo dentro os dois pedaços de lã. Isso os torna válidos. Ele deve ser retangular ou quadrado, de cor marrom, café ou negro, e ser utilizado de forma que uma das partes caia sobre o peito e a outra sobre as costas. 

A pessoa que o porta deve observar a castidade segundo o estado: ou seja, perfeita para os solteiros, e matrimonial para os casados. 

Outra condição é rezar diariamente as orações prescritas pelo sacerdote que o impôs, habitualmente 7 Padre-nossos, 7 Ave-Marias e 7 Glórias ao Padre. 

O Escapulário pode ser imposto mesmo em crianças que não chegaram ao uso da razão, pois servir-lhes-á de “defesa e salvação nos perigos”. Além disso, quando adultos, se tiverem tido a infelicidade de o abandonar e levar vida irreligiosa, como já o teriam recebido uma vez, bastará que o recoloquem no pescoço para gozarem de seus privilégios. 

Medalha-Escapulário 


Através de regulamentação de 16 de dezembro de 1910, emanada pelo Santo Ofício, o Papa São Pio X concedeu a permissão de se usar, em vez de um ou mais pequenos escapulários de diferentes ordens, uma só medalha de metal. Esta deve ter em uma das faces o Sagrado Coração de Jesus, e na outra a Santíssima Virgem. Todas as pessoas validamente revestidas com um escapulário de tecido propriamente imposto, podem trocá-lo pela medalha de metal. Esta pode ser benta com uma bênção simples por qualquer sacerdote. 







Conclusão 

Poderia haver algo mais extraordinário do que essa promessa, não só da salvação eterna, mas também da liberação do Purgatório no primeiro sábado após a morte? Isso é de um alcance tão grande e tão excelso para a vida espiritual, que nunca conseguiremos avaliar suas profundezas. 

Em nossos dias, quando o poder de Satanás ameaça sacudir até os próprios fundamentos da Santa Igreja e do mundo, as promessas ligadas ao Escapulário nos dão alento para enfrentar as vicissitudes da vida com fé sobrenatural, confiados n’Aquela que esmaga as heresias e a cabeça da serpente infernal.

13 de julho de 2024

O ENIGMA DA BASTILHA

 

A Queda da Bastilha, 14 de julho de 1789

O marco da sanguinária, e mesmo diabólica, Revolução Francesa foi a Queda da Bastilha, no dia 14 de julho de 1789, exatamente há 235 anos. Rememorando essa simbólica data, reproduzimos um artigo publicado na revista Catolicismo (edição de julho de 1951) de autoria de um saudoso diretor da revista (+1988) e brilhante advogado e jornalista, o Dr. José Carlos Castilho de Andrade.
 

Como se sabe, a Revolução Francesa marca o fim dos Tempos Modernos e o início da Época Contemporânea. Este acontecimento, que fica situado entre duas eras históricas inteiramente diversas, começou com a capitulação da velha fortaleza real ante o populacho amotinado, que nela via o símbolo da ordem de coisas que queria destruir.

Compreende-se pois que a Bastilha, em torno da qual pairavam lendas tão sinistras e emocionantes, tenha atraído a atenção dos historiadores e a curiosidade do público.

*   *   *

O 14 de Julho assinala o crepúsculo da verdadeira liberdade. Essa Bastilha Santo Antonio, que depois teve tão triste fama, começou a construir-se em 1370, no reinado de Carlos V, chamado o Sábio. Era então apenas uma fortificação para proteger contra os ataques inimigos a entrada de Paris pela Porta Santo Antonio.

Já no século seguinte recebia esporadicamente prisioneiros, pelo menos os de guerra, o que não impedia os Reis de nela realizar grandes festas e hospedar personagens ilustres de visita à cidade.

Prisão de Estado

Ao Cardeal de Richelieu, pontífice do absolutismo francês, é que se deve a transformação da Bastilha em prisão de Estado. Fernando Bournon definiu muito bem o que era uma prisão de Estado no Ancien Régime:

“Por prisão de Estado — e em especial tratando-se da Bastilha — deve-se entender a prisão dos que cometeram crime ou delito que não é de direito comum, daqueles que, com ou sem razão, são julgados perigosos à segurança do Estado, quer se trate da própria nação, de seu chefe, ou de um grupo mais ou menos importante de cidadãos, grupo por vezes restrito a uma, família. Se se juntar a essa espécie de prisioneiros as personagens muito em evidencia para serem punidas, por crime de direito comum, como qualquer malfeitor vulgar, e a quem parecia dever ser reservada uma prisão excepcional, teremos enumerado as diferentes espécies de delitos que, na Bastilha foram expiados desde Richelieu até a Revolução”
.

Uma "lettre de cachet" de 1703 (reinado de Luís XIV ), abrindo "De par le roy" (Em nome do Rei...)

Bastilha, garantia de liberdade

O Rei, no exercício das funções, que o Ancien Régime considerava inerentes à coroa, de chefe supremo das famílias de seu reino, também mandava para a Bastilha os membros da nobreza cujo comportamento não merecia a aprovação de suas famílias. Assim, o jovem Duque de Fronsac, futuro Duque de Richelieu, esteve na velha fortaleza "porque não amava sua mulher".

A princípio a prisão na Bastilha, bem como a libertação, dependiam exclusivamente de uma "ordem de Rei", ou seja, de uma "lettre de cachet", o que significava que não resultavam de processo judiciário regular.

Os contemporâneos não viam nisso a manifestação de uma tirania odiosa, como se poderia supor. Para não nos estendermos na explicação desse fato, limitamo-nos a transcrever a magistral "miseau-point" da questão das "lettres de cachet" feita por Funck-Brentano:

"A autoridade real, por sua existência mesma, era a condição essencial da liberdade na França, e a lettre de cachet era o único meio de que o Rei dispunha para fazer valer essa autoridade. Graças a esse poder latente, que existia em toda a parte, sem se manifestar por fatos tangíveis, as mil e uma autoridades locais eram mantidas em equilíbrio, e no temor de abusar de seu muitas vezes, seu emaranhamento. De onde se chega à conclusão, por certo bem inesperada, de que as lettres de cachet formavam na antiga França a ossatura da liberdade" (L'Ancien Régime, cap. XI).

De resto, a partir da segunda metade do século XVII a Bastilha foi posta sob a autoridade de um personagem de caráter nitidamente judiciário, a um verdadeiro magistrado, embora investido de funções também administrativas: o Lieutenant de Polícia. Ele entra na prisão quando lhe apraz, estabelece comunicação direta e constante com os presos, e inspeciona todos os quartos ao menos uma vez por ano.

Desde então, 24 horas após sua entrada na Bastilha os presos deviam ser interrogados por um Comissário do Châtelet, o tribunal do viscondado de Paris. Embora com algumas exceções, de presos que esperaram duas ou três semanas para comparecer perante o magistrado, essa ordem era conscienciosamente observada.

O Comissário do Châtelet depois de tomar conhecimento das notas que lhe enviava o Lieutenant e de interrogar o preso, remetia o processo verbal do interrogatório, juntamente com sua opinião fundamentada sobre os motivos da prisão, ao próprio Lieutenant, que resolvia se a prisão devia ou não ser mantida. Nos casos mais importantes uma comissão especial, composta de magistrados, é que interrogava os presos. Já não se podia dizer, portanto, que os detidos na Bastilha não eram sujeitos a julgamento.

Reconhecida a injustiça de uma prisão, nova "ordem do Rei" mandava pôr em liberdade o preso. E o melhor é que este era indenizado, quer com uma boa soma em dinheiro, quer com uma pensão vitalícia, quer ainda um emprego público.

No reinado de Luís XVI os conselheiros do Parlamento, juízes da mais alta Corte de justiça de França, inspecionavam a Bastilha com a mesma liberdade que as outras prisões. Por fim, o Ministro Breteuil determinou que nenhuma ordem de prisão fosse aceita pelo Lieutenant da Polícia se não indicasse a duração e os motivos da pena.

Em 1785 foram praticamente abolidas as "lettres de cachet".

Por outro lado, desde meados do século XVIII o Châtelet manda para a fortaleza da porta Santo Antonio, por sua própria autoridade, sem intervenção do Rei, acusados que estão sendo processados perante aquele tribunal, inclusive por crimes de direito comum.

Destarte a Bastilha foi perdendo progressivamente o caráter de prisão de Estado, de prisão do Rei, e muitos anos antes da Revolução já se tornara uma prisão igual às outras, embora muito mais suave, como se verá.

No interior da Bastilha, a câmara do conselho, esboçada em 1785 por Jean-Honoré Fragonard (1732-1806).


Número de detenções

Ao mesmo tempo que se dava essa evolução, o numero das detenções diminuía. A fortaleza só comportava 42 presos alojados separadamente. Sob Luís XIV, de 1660 a 1715, recebeu 2.228 prisioneiros, o que representa uma media de 40 por ano; no reinado seguinte, de 1715 a 1774, esse número elevou-se a 2567, numa media anual de 43; por fim, no reinado de Luís. XVI, baixou a 289, ou seja uma media anual de 19.

De 1783 a 1789, a Bastilha ficou quase deserta; na ocasião de sua queda continha apenas sete presos. Quatro deles estavam sendo julgados no Châtelet, por terem falsificado letras de cambio; outro, o Conde de Solages, cometera um crime monstruoso e fôra recolhido à Bastilha em consideração à sua família, para evitar o escândalo de um julgamento. Os dois últimos eram loucos.

Assim, a velha fortaleza agonizava. Por isso, e como ficasse muito cara a sua manutenção, o governo decidira demoli-la. Os revolucionários de 14 de julho apenas se anteciparam.

A vida na Bastilha

No interior da Bastilha,
esboçada em 1785
por Jean-Honoré Fragonard
(1732-1806).
A principal nota distintiva da Bastilha era não ter nenhum dos característicos de uma prisão no sentido próprio da palavra. “Meu desejo, rezam as ‘ordens do Rei’, é que vos façais conduzir ao meu castelo da Bastilha” mais do que prisão, era ela um castelo forte onde Sua Majestade recolhia súditos cujo comportamento lhe desagradava.

Daí uma primeira consequencia: a estadia na Bastilha não desonra ninguém, nem mesmo as mais altas personagens do reino. Antes pelo contrário, talvez fosse "distinto" ter lá estado, pois ela era reservada de preferência aos membros da aristocracia: O Lieutenant de Policia D'Argenson diz de alguém, que não merece bastante "consideração" para ser mandado para a prisão real.

Esse é um ponto interessante e que se tem procurado esquecer: a Bastilha era destinada principalmente à nobreza.

"A 14 de julho tomaram a Bastilha, escreve o Padre Rudemare; no dia 15 lá fui por curiosidade. Um maltrapilho disse-me então: ‘Não direis, Mr. le Chevalier, que foi para nós que trabalhamos destruindo a Bastilha, mas sim para vós, pois os miseráveis não tinham lá entrada. Para nós a Bicêtre... Não há por aí uns cobres para beber à vossa saúde?"
(Journal d'un Abbé Parisien).

Sebastião Locatelli, Padre bolonhês, que visitou Paris no tempo do Rei-Sol e dispôs de excelentes fontes de informações, escreve:

"É um favor especial do Rei ser-se condenado a uma tão bela prisão... Ali há; é certo, comodidades e prazeres que nem todos os grandes príncipes têm nos seus próprios palácios, e uma liberdade tão grande que os olhos podem ali gozar agradáveis paisagens".

O Castelo dispunha de algumas enxovias, úmidas e mal ventiladas, em parte subterrâneas. Sob Luís XIV só iam para lá os presos da mais baixa esfera e os assassinos. No reinado de Luís XV quase só serviam para os insubordinados que maltratavam os guardas ou os companheiros de prisão, bem como para os soldados da guarnição culpados de grave indisciplina. Muito antes do 14 de julho já não eram utilizadas: desde o primeiro Ministério Necker (1776-1778) era proibido deter nas enxovias fosse quem fosse, e nenhum dos guardas interrogados no dia 18 de julho de 1789 se recordava de nelas ter estado algum preso.

Os "hospedes" habitavam os andares superiores, onde dispunham de quartos amplos e arejados, dotados de grandes janelas (que só receberam grades no fim do reinado de Luís XIV), e aquecidos por lareiras.

Uma pintura de testemunha ocular do cerco da Bastilha por Claude Cholat


"Roteiro" de um prisioneiro

Como o ambiente da Bastilha não era propriamente o de um campo de concentração moderno, não havia necessidade de um grande aparato militar para convencer alguém de se recolher aos seus muros. Geralmente um oficial de polícia notificava ao interessado a "ordem do Rei" e o conduzia em um carro de passeio, tomando o cuidado de não deixar morrer a conversa durante o percurso, conhecedores que eram os policiais de então das usages du monde. É o que contam diversas memórias de antigos prisioneiros.

As pessoas "de qualidade", cientes da "lettre de cachet"; apresentavam-se à prisão sem outro acompanhamento que o de seus parentes ou criados. Entre diversos exemplos lê-se no diário de Du Junca, delegado do Rei na Bastilha, que

"Mr. de Villars tenente-coronel do regimento de infantaria dos Vosges, veio entregar-se à prisão, tendo estado detido na cidadela de Grenoble, de onde veio diretamente sem ser conduzido por ninguém", e que "Mr. de Jones, inglês", veio da Inglaterra, em absoluta liberdade, constituir-se prisioneiro da Bastilha.

Chegado à fortaleza, o novo preso era imediatamente conduzido à presença do governador, que o fazia sentar-se para conversarem um pouco. No tempo de Luís XIV, o governador costumava convidar seu novo jurisdicionado, bem como os amigos ou oficiais da policia que tinham acompanhado, a almoçarem ou jantarem em sua mesa.

Enquanto isso preparavam-se os aposentos do recém-chegado. (Com Mr. de Courlandon, coronel de cavalaria, que se apresentou à Bastilha em 26 de janeiro de 1695, aconteceu um fato muito desagradável: não havendo quarto em condições de o receber, teve que passar a noite numa hospedaria próxima e só pode ser preso no dia seguinte ...).

Depois de pedir ao prisioneiro que esvaziasse os bolsos (só as pessoas de baixa condição eram revistadas), e de fazer um pacote com seu dinheiro, jóias e armas, conduziam-no aos seus aposentos.

O "regime" penitenciário

Diário de Antoine-Jérôme de Losme,
o major da Bastilha,
descrevendo os dias antes da
queda da Bastilha em 1789
Até o interrogatório o preso era mantido incomunicável e só, a menos que lhe tivessem permitido levar consigo algum criado. A administração facilmente concedia licença para isso, chegando a pagar não só a alimentação como também o ordenado dos criados, inclusive para detidos de classe inferior.

Havia também o cuidado de reunir dois e três parentes no mesmo quarto, para evitar o tédio da solidão. Comovido com o isolamento de Mme. de Fontaine, que não tinha parentes entre os prisioneiros, o Lieutenant da Policia, prendeu também seu marido, o que decididamente era levar as coisas um pouco longe.

Terminado o interrogatório os prisioneiros podiam receber visitas de fora, mais comumente na presença de um oficial da guarnição. Em geral só lhes era permitido falar de questões de família ou de interesses, mas não é caso único o de Bussy-Rabutin que tratava livremente com qualquer de suas visitas e chegava a oferecer jantares a amigos da corte.

A raríssimos presos era recusada autorização para passear pelas torres e pátios do castelo. No pátio interior reuniam-se e em grande número para conversar e divertir-se com as visitas e oficiais da guarnição. Era uma verdadeira vida de corte, elegante, frívola e de grande brilho.

Manda a verdade que se diga que muito mais raro era a permissão de passear pela cidade, embora vários presos dela gozassem...

Tudo isso, bem entendido, quando não se tratava de alguém cuja prisão devesse permanecer secreta. Então, o preso era mantido em completo isolamento e podia ser obrigado a usar uma mascara de sêda para não ser reconhecido pelos guardas (daí a lenda do Mascara de Ferro). Esses casos geralmente de espiões e agentes secretos, são raros e deles não há exemplo no reinado de Luís XVI.

Em seus quartos os detidos faziam o que lhes aprouvesse: uns criavam aves e animais, alguns tocavam instrumentos de música, outros cantavam, bordavam, cosiam, jogavam cartas e xadrez. Não faltavam sequer as intrigas elegantes ou políticas, tão do gosto da corte.

O mobiliário

A princípio o mobiliário desses quartos não era dos melhores, pela simples razão de que não existia. Os presos mandavam buscar de suas casas os móveis que desejassem, ou alugavam-nos do tapeceiro do castelo. Aos que nada possuíam, o Rei mandava fornecer dinheiro, por vezes grandes quantias, que lhes permitia decorar os quartos a seu gosto. A partir do início do século XVIII foram sendo mobiliados definitivamente alguns aposentos, de modo que sob Luís XVI quase todos tinham mobiliário, aliás bem modesto. Mas os presos conservaram o direito de, após o interrogatório, mandar vir de fora os objetos que desejassem.

Por isso alguns quartos eram até luxuosas. O do conde de Belle-Isle, por exemplo, tinha um serviço de linho fino para mesa, uma baixela de prata, um leito guarnecido de damasco vermelho bordado a ouro, quatro tapeçarias, dois espelhos, um guarda-fogo com a mesma guarnição que o leito, dois biombos, poltronas, cadeiras estofadas, mesas, cômodas, sofás, castiçais de cobre prateado etc. E para ocupar os ócios, uma biblioteca de 343 volumes.

Parece que essa questão de livros tinha muita importância. Se um detido, mesmo de classe modesta, não encontrava na biblioteca do castelo alguma obra que lhe interessasse, a administração mandava adquiri-la, ainda que custasse bom dinheiro.

A pão e água...

Mas, "primum vivere ..." Antes de se entregarem ao estudo os súditos da Sua Majestade recolhidos ao seu castelo da Bastilha queriam alimentar o corpo (à custa da Real Fazenda, naturalmente). E como comiam! Constantin de Renneville, que esteve preso nos fins do século XVII, no libelo que escreveu contra a Bastilha conta que seu primeiro jantar na prisão constou de

"uma esplêndida sopa de ervilhas e alface, bem preparada e de bom aspecto, com um pedaço de frango; em uma travessa uma suculenta posta de carne, com um molho de salsa; em outra um pastel acompanhado de arroz com vitela; aspargos, cogumelos, trufas, e como último prato uma língua de carneiro guisada. Para sobremesa, biscoitos e maçãs. O carcereiro quis ter a amabilidade de me servir o vinho: era um excelente Borgonha"
.

As sextas-feiras e durante a quaresma os presos deviam jejuar: 

"Eu tinha, diz Renneville, seis pratos e uma sopa de marisco. Entre os pratos de peixe vinham sempre fresquíssimos linguados, percas etc". Passado algum tempo, Renneville começou a receber a pensão dos presos de baixa categoria: "uma boa sopa de pão, um regular pedaço de carne, uma língua de carneiro guisada e dois bolos para sobremesa. E assim se manteve durante todo o tempo em que fui obrigado a permanecer em tão aborrecido local; por vezes o cardápio era aumentado com uma asa ou coxa de frango e dois pequenos pasteis".

A Tavernier, homem de baixa extração e acusado de conspirar contra a vida do Rei, um dos loucos encontrados na fortaleza no dia 14 de julho, recebeu durante o mês de novembro de 1788, além de suas refeições habituais: quatro garrafas de aguardente, 60 de vinho, 30 de cerveja, duas libras de café, três de açúcar, uma perua, ostras, castanhas, maçãs e peras.

"O governador de Launey, conta Poultier d'Elmotte, vinha frequentemente conversar comigo; procurava saber que espécie de alimentação eu queria e ordenava que me fosse servido o que eu desejasse".

O Rei também vestia os presos pobres. Não, naturalmente, como hoje se usa, com uniformes de presidiário, mas com casacões almofadados com pele de coelho, casacos forrados de seda e trajes fantasia, tudo feito sob medida. A mulher do comissário Rochebrune procura por toda a cidade uma fazenda de seda branca com flores verdes, para atender o pedido de uma prisioneira, Mme. Sauvé.

"Snr. Major, escreve o preso Hugonnet, as camisas que trouxeram não são as que pedi, pois lembro-me de ter escrito que queria finas e com punhos bordados e as que me mandaram são grosseiras, de mau pano e com punhos próprios para um carcereiro; peço-vos, portanto, devolve-las ao sr. comissário: que as guarde, para mim não servem".

Bastilha, meio de enriquecimento

Até meados do século XVIII os presos podiam optar por um regime de vida mais modesto e guardar o que sobrasse da importância destinada à sua manutenção. Com isso alguns chegaram a amealhar pequenas fortunas. A partir daquela época, porém, esse dinheiro devia ser aplicado integralmente ao fim a que era reservado.

A liberdade

Por melhor que fosse a vida na Bastilha, os prisioneiros geralmente ansiavam pela liberdade. Esta, como a prisão, resultava de uma "lettre de cachet".


O governador da fortaleza vinha ao quarto do preso noticiar-lhe que estava livre. Cumpridas as formalidades, mandava servir ao que fôra seu hospede um magnífico jantar de despedida. Se se tratasse de pessoa de qualidade, convidava-o para sua mesa e, feitas as despedidas, mandava conduzi-lo em seu próprio carro acompanhando-o por veres até seu destino.

Naturalmente, a ordem de libertação nem sempre era tomada à risca. Se o preso lutava com dificuldades para se instalar lá fora, permitia-se-lhe que ficasse na Bastilha por mais tempo, até arranjar as coisas. E isso se deu muitas vezes. Muitos antigos prisioneiros — Le Maistre de Sacy, Mme. de Staal [quadro ao lado], Fontaine, o Padre Morellet, Dumouriez, o próprio Renneville, entre outros — referiam-se com saudades aos tempos felizes que passaram no castelo de Santo Antonio.



O enigma da Bastilha

Essa é a verdade sobre a Bastilha. Garantem-no a idoneidade e a autoridade do insigne Funck-Brentano, de cuja obra extraíram dados históricos. Garantem-no as fontes de que se serviu aquele historiador, a saber, os arquivos da famosa prisão de Estado, compostos de milhares de documentos, que foram reunidos na Biblioteca do Arsenal, em Paris, bem como as memórias de numerosos antigos prisioneiros. Como então a Bastilha se tornou símbolo da opressão, da tirania, e sinônimo de prisão aspérrima e desumana?

A explicação se encontra na propaganda revolucionaria, que aliás também conseguiu divulgar uma imagem adulterada de tantas outras instituições do Ancien Régime.

Já nos últimos decênios que antecederam a Revolução a lenda da Bastilha criara raízes na fantasia popular.

"A Bastilha, diz Restif de la Bretonne, era um terrível espantalho, para o qual não me atrevia a olhar quando, ao cair da tarde, passava pela rua Saint-Gilles".

Chevalier, major da Bastilha, dirigindo-se ao Lieutenant de Policia, fala das histórias que circulavam a respeito da prisão:

"Ainda que completamente falsas, dizia, julgo-as perigosas pela repetição que delas se faz há muitos anos".

De resto, o mistério de que a Bastilha se criava oferecia campo propicio ao desenvolvimento de toda a sorte de lendas. Quando um preso entrava na fortaleza, em uma carruagem com as cortinas descidas, os soldados da guarda deviam virar-se para a parede ou baixar as viseiras. Todo o pessoal da guarnição estava obrigado a guardar o mais absoluto segredo sobre a identidade dos prisioneiros e a vida que levavam. Ao ser posto em liberdade, o preso era convidado a assinar um compromisso de nada revelar do que tivesse visto no interior dos formidáveis muros do castelo (diga-se de passagem que muitos recusavam-se a assinar tal compromisso, sem que isso retardasse sua libertação, enquanto outros contavam a quem os quisesse ouvir tudo que sabiam e muito do que não sabiam, não constando que tenham sido incomodados por esse motivo).

Já ficou dito que a autoridade do Rei na França de antes da Revolução era a condição mesma da ordem. Seus fundamentos eram a tradição, e o amor e temor do povo. Amor aos filhos pelo pai, a autoridade real tendo se originado historicamente da autoridade paterna. E temor igualmente filial, resultante mais da grandeza, da majestade, do esplendor da realeza do que propriamente de sua força efetiva.

Apresentar a Bastilha como um temível instrumento de opressão e tirania foi um dos muitos meios de que se valeu a propaganda revolucionaria para resfriar o amor do povo pelo Rei.

Mas, por outro lado, isso aumentava o temor, que era justamente o freio daqueles que, constituindo a borra da população, eram os mais seguros cooperadores potenciais da obra revolucionaria. Levando essa mesma ralé a derrubar aquilo que lhe apresentavam como o símbolo do poder real, a Revolução conseguiu fazê-la sentir a fraqueza do Rei e sua própria força.

Perdido o respeito pela autoridade paternal do Rei, o povo entregar-se-á a todos os excessos e a anarquia estender-se-á pela França. Para reimplantar a ordem Napoleão usará um guante de ferro e criará a formidável máquina administrativa e policial do Estado moderno.

A verdadeira importância da jornada de 14 de julho de 1789 reside nisso; no enorme impulso que deu à transição da velha França tradicional e orgânica, com suas liberdades e franquias, para a França administrativa e policial dos tempos modernos. O enigma está em que ainda hoje ela seja comemorada como a aurora da liberdade.

12 de julho de 2024

Há mil anos falecia Santo Henrique II, Imperador do Sacro Império

 



Precisamente mil anos atrás, no dia 13 de julho de 1024, entregava sua alma a Deus no castelo de Grona, perto de Göttingen, Santo Henrique II, Rei da Germânia e Imperador do Sacro Império Romano Alemão.

 

✅ Renato William Murta de Vasconcelos

          

Baluarte da Igreja contra os ataques dos bizantinos e dos muçulmanos, defensor dos direitos e prerrogativas do Papado, propugnador da reforma moral do clero e do celibato eclesiástico, incansável apóstolo dos eslavos, Santo Henrique foi educado por São Wolfgang, Bispo de Regensburg, e se tornou o único Imperador do Sacro Império a receber a honra dos altares. Casado com Santa Cunegundes, da Casa de Luxemburgo, era cunhado de Santo Estevão, primeiro Rei evangelizador da Hungria.

Glorioso jubileu de uma personalidade ímpar na História da Igreja e da Cristandade que não pode cair no olvido.

 

Catedral de Bamberg e abaixo o imenso escrínio de mármore negro com os restos mortais do Imperador Henrique II e de sua santa esposa Cunegundes

Ressurgimento do Sacro Império Romano

O fiel ou o peregrino — hoje seria mais bem um turista — que adentra a Catedral de Bamberg, bela e pequena cidade situada ao norte da Baviera, encontra logo na entrada, em meio às penumbras que envolvem a parte posterior do recinto sagrado, um imponente mausoléu,1 imenso escrínio de mármore negro com os restos mortais do Imperador Henrique II e de sua santa esposa Cunegundes.2

Em cima da tumba, dois gizantes com a imagem do casal imperial, ambos coroados, tendo a seus pés dois leões, a simbolizar a crença na ressurreição dos mortos. O da esquerda ostenta o brasão da Casa da Baviera e o da direita o brasão da Casa de Borgonha, casas principescas das quais descendia o casal imperial. Nas laterais do túmulo, quadros retratam episódios da vida de Santo Henrique e de sua consorte.

Personalidade ímpar, sem sombra de dúvida, a de Santo Henrique. A época em que viveu — entre o fim do século X e início do XI —, caracterizada por Leão XIII como a era histórica em que “o sacerdócio e o império estavam ligados entre si por uma feliz concórdia e pela permuta amistosa de bons ofícios”,3 experimentava grandes desafios.

Na ordem temporal, do esfarelamento do império carolíngio surgira a leste, com os ducados da Francônia, da Suábia e da Saxônia, o reino germânico sob a dinastia otoniana, sempre em luta com os povos eslavos ainda afundados no paganismo. A coroação de Oto I em Roma, no dia 2 de fevereiro de 962 pelo Papa João XII, fizera ressurgir o Sacro Império Romano.

No campo espiritual, a Igreja enfrentava no Ocidente severa crise. Simonia, tremenda decadência moral do clero, ingerência de potentados nas eleições papais e na direção da Igreja, ademais de um pulular de grupelhos de cristãos apóstatas, cujas heresias maniqueias antecederam de dois séculos os perniciosos erros dos albigenses e dos valdenses.  

No Oriente, grassava desde o século IX a heresia trinitária sobre a processão do Espírito Santo e a negação da supremacia de jurisdição do Papa, erros graves que iriam levar ao Grande Cisma de 1054, sem contar as incessantes e calamitosas incursões muçulmanas na península itálica. Neste vasto campo de apostolado e de ação, onde as manobras políticas e diplomáticas se entremeavam com os embates dogmáticos e o choque das armas, desabrochou a personalidade e floresceram as virtudes de Santo Henrique.

 

Discernimento dos grandes problemas da Igreja e do Estado

A coroação de Oto I em Roma,
 no dia 2 de fevereiro de 962,
fez ressurgir o Sacro Império Romano.
Escultura de Oto (Catedral de Magdeburg,
 Alemanha).
Nasceu em 6 de maio de 973 no castelo de Bad Abbach, próximo de Regensburg, na Baviera. Filho de Henrique II, o Briguento, duque da Baviera, e de Gisela, princesa da Casa de Borgonha. Do lado paterno era bisneto do duque Henrique, o Passarinheiro da Baviera, esposo de Santa Matilde, e sobrinho-neto do imperador Oto I, o Grande, cuja esposa foi Santa Adelaide. Pelo lado materno era neto do rei Conrado I da Borgonha. Foi educado na infância por sua mãe Gisela e por Dom Abraham, bispo de Freising. Frequentou a famosa escola eclesiástica de Hildersheim, tendo em vista uma futura carreira eclesiástica. Instruiu-se posteriormente sob a direção de São Wolfgang, Bispo de Regensburg, e de Romwold, abade do mosteiro de Santo Emmeram.

Sua excelente formação moral, intelectual e teológica colocou-o entre os príncipes mais piedosos e cultos de sua época. Com a morte do pai em 995, tornou-se duque da Baviera. Apesar de ainda relativamente jovem, já despontavam nele as qualidades de um governante excepcional: visão clara dos grandes problemas da Igreja e do Estado, profunda penetração psicológica, senso das oportunidades e do momento certo de agir, coragem, prudência e firmeza nas decisões.

Um de seus primeiros atos de governo no ducado da Baviera foi promover o casamento de sua irmã Gisela com Estêvão, rei dos húngaros.3 Tinha em vista garantir a segurança das fronteiras bávaras a leste, mas também e sobretudo favorecer a conversão dos magiares.

Nos umbrais do novo milênio, em data incerta entre 997 e 998, contraiu núpcias com a princesa Cunegundes. Pouco antes, em 996, o Papa Gregório V havia coroado Oto III imperador. Desde então, até o fim de sua vida, o jovem monarca teve em Santo Henrique um vassalo leal, um conselheiro sagaz, que o acompanhou fielmente nas empresas militares e em suas viagens a Roma.

 

Estátua de São Wolfgang, Bispo de Regensburg (abaixo), abade do mosteiro de Santo Emmeram (gravura de 1619). 

Ascensão ao trono germânico


No início de 1002 Oto III morreu na Itália em Castel Paterno, Faleria, aos 22 anos, sem deixar descendência. Santo Henrique, enquanto sobrinho-neto de Oto I, tinha legítimo direito ao trono do Reino Franco do Leste, dos germanos. A sucessão na dinastia otoniana dava-se no ramo da Saxônia. Porém, Santo Henrique pertencia ao ramo secundário, bávaro. Daí o fato de não ter sido reconhecido rei imediatamente.

Quatro pretendentes lhe disputaram o trono. Dois ligados à dinastia — Oto, duque da Caríntia e o conde palatino Ehrenfried da Lorena, casado com uma irmã de Oto III —, e outros dois provenientes de ducados germânicos: Ekkehard, margrave de Meissen, e Hermann, duque da Suábia. Nessa emergência viu-se o despontar de seu tino político.

Sabendo que os restos mortais do falecido imperador vinham da Itália para serem enterrados na catedral de Aachen, Santo Henrique, indo de encontro ao féretro em Polling, na Baviera, apoderou-se das insígnias do poder real para forçar uma situação de fato. Imediatamente, Oto da Caríntia — neto de Oto I, o Grande, e pai do Papa Gregório V — renunciou a seus direitos ao trono em favor de Henrique. Ekkehard foi assassinado por inimigos pessoais em Pöhlde, no dia 30 de abril de 1002. Mas persistia ainda o perigo de guerra pelo poder real.

Para evitar um caos generalizado no Reino, Dom Willigis, Arcebispo de Mainz, que morreu em odor de santidade, ungiu e coroou Santo Henrique em 7 de junho na catedral dessa cidade. No mês seguinte, recebeu a aclamação da nobreza da Turíngia no castelo de Kirchberg, em Jena. A 24 de julho, em Merserburg, foi a vez de o clero e da nobreza da Saxônia proclamá-lo rei dos germanos.

No dia 10 de agosto, o Arcebispo Dom Willigis coroou Santa Cunegundes como rainha na cidade de Paderborn, e sagrou Sofia, irmã de Oto III e apoiadora de Santo Henrique, como abadessa do Convento de Gandersheim. O conde palatino Ehrenfried opôs resistência ainda por algum tempo. E Hermann da Suábia submeteu-se enfim no dia 1º de outubro, em Bruchsal.

Nota-se aqui o método empregado por Santo Henrique para conquistar a coroa: por etapas, convencendo primeiramente a nobreza e o clero de seu próprio ducado; depois do assassinato de Ekkehard, a tentativa inicialmente infrutífera de atrair para seu lado Hermann da Suábia; depois persuadiu os turíngios e os saxões; e finalmente voltou-se para o Oeste, sendo reconhecido pelos representantes dos Bispados ocidentais em Duisburg. Para completar, com o apoio dos príncipes da Baixa Lorena, foi coroado rei em Aachen no dia 8 de setembro, festa da Natividade de Nossa Senhora.

 

Sapiencial programa de governo

Para evitar um caos generalizado no Reino,
Dom Willigis (foto do relicário dele),
Arcebispo de Mainz,
 que morreu em odor de santidade,
ungiu e coroou Santo Henrique
em 7 de junho de 1002,
na catedral dessa cidade.
Santo Henrique procurou revigorar o poder real com apoio do episcopado. Para tal nomeava para as sedes episcopais varões probos e capazes, formados na chancelaria real. À regeneração moral, ao restabelecimento da disciplina e da ordem no clero e no laicato dedicou ele o melhor de seu tempo e de seus esforços. Para tal convocou ao longo dos anos inúmeros sínodos nos quais, com grande dom de eloquência, convencia os recalcitrantes.

Uma fundação predileta sua foi a criação da Diocese de Bamberg, formada com partes territoriais da diocese de Würzburg e de Eichstätt e aprovada em 1007 pelo Sínodo de Frankfurt, do qual participaram 35 bispos. A construção da catedral da nova diocese levou cinco anos. Foi inaugurada solenemente em 1012, com a presença de 45 bispos e arcebispos.

Com a criação da Diocese de Bamberg, Santo Henrique tinha em vista apoiar o esforço missionário para a conversão dos pagãos do leste europeu. Por isso, em sua política exterior procurou estabelecer não somente uma paz duradoura entre a Coroa e a Tiara, mas também manter estreitas relações com a Hungria e conter os avanços do duque Boleslau Chrobry, o Bravo, que aproveitou a convulsão oriunda dos litígios pela disputa do trono alemão, e avançou suas tropas até o Elster. De 1002 a 1018 Santo Henrique teve de empreender três campanhas militares contra Chrobry, que se tornou mais tarde o primeiro rei polonês.

 

Boleslau Chrobry, o Bravo, na Porta Dourada em Kiev – Jan Matejko (1838-1893). Pintura considerada perdida durante a Segunda Guerra Mundial até ser reencontrada em 2004

Vida de luta incansável em prol do Reino e do Papado

Nos seus 22 anos de reinado, Santo Henrique não teve por assim dizer um minuto de descanso. A pacificação interna de seu reino, a defesa deste contra as invasões estrangeiras vinda da Polônia, as alianças com Roberto, o Piedoso, e com o reino da Borgonha, bem como as diversas incursões na península italiana para lutar contra os rebeldes lombardos, defender o Papa contra os patrícios tiranos e as usurpações dos bizantinos e, por fim, o apoio na guerra de expulsão dos bizantinos herético-cismáticos e dos muçulmanos incréus do sul da península italiana, toda essa obra gigantesca foi objeto de seu zelo incansável.

Eis, a título de exemplo, alguns fatos de sua movimentada vida.

Em virtude do segundo casamento de Oto I, o Grande, com Santa Adelaide, da Casa de Borgonha e rainha da Itália setentrional, o rei dos germanos era também rei da Lombardia. Com a ascensão de Santo Henrique ao trono alemão, Arduíno de Ivrea apressou-se em se autoproclamar rei da Lombardia. Seus partidários tinham como bandeira a expulsão dos alemães e a independência lombarda. Em pouco tempo, muitos bispos se aliaram a Arduíno, outros foram obrigados pela força, mas uns e outros retiraram seu apoio quando Arduíno começou a fazer exações e espoliar os bens da Igreja.

No Natal de 1003 o Bispo de Verona e outros grandes dignitários da região visitaram Santo Henrique e o reconheceram como seu legítimo rei. Na primavera do ano seguinte o monarca se dirigiu à Itália. No dia 14 de maio de 1004 foi coroado com a Coroa de Ferro em Pavia, embora houvesse forte reação contrária do populacho.

Enquanto isso, o Papa João XVIII (1003-1009) era oprimido pelo ditador Crescêncio em Roma. Santo Henrique, embora quisesse, não pôde ir socorrê-lo, porque Boleslau Chrobry ameaçava novamente a unidade do Reino. Em junho de 1004 Santo Henrique estava novamente em Mainz; no início de setembro conquistou Praga, forçando Boleslau a abandonar a Boêmia e a refugiar-se em suas terras.

Com apoio dos boêmios, Santo Henrique reconquistou Bautzen, obrigando Chrobry a pedir a paz. O polonês teve que devolver a região entre o Oder e o Elba, abandonando assim o sonho de estabelecer um império eslavo capaz de competir em pé de igualdade com o Sacro Império. O término da guerra não conseguiu ser duradouro. Em 1010 o conflito estourou novamente. Durou quase três anos, até a sua conclusão com o acordo de paz de Merserburg.

 

Da vida de Santo Henrique: Coroação, Apresentação da espada, Visão da Santa Cruz, Confissão, Batalha polaco-alemã – Mestre da lenda de Santa Bárbara (1470–1500). Westphalian State Museum of Art and Cultural History, Alemanha


“Constante defensor da Igreja e leal vassalo de Jesus Cristo”

No Natal de 1012 apareceu em Pöhlden, na Saxônia, onde Santo Henrique se encontrava, um antipapa que viera fugindo de Roma. Nesse mesmo ano faleceram, com pouca diferença de tempo, o Papa Sergio IV e o patrício-ditador Crescêncio, que havia determinado a eleição de vários Papas. Assim, seus rivais, os condes de Túsculo, retomaram o poder e elegeram Papa um filho de Gregório de Túsculo, que tomou o nome de Bento VIII.

Mas o partido contrário elegeu para o sólio pontifício Gregório, um clérigo desconhecido. Sem apoio em Roma, Gregório foi procurar Santo Henrique junto à corte alemã. Este o recebeu com desconfiança, reconheceu nele um usurpador, e prometendo-lhe agir com justiça, retirou-lhe as vestimentas papais e o proibiu de exercer o múnus pontifício. Entrementes, em Roma, Bento VIII necessitava de ajuda e recorreu ao rei alemão.

 Em fins de 1013 Santo Henrique se dirigiu novamente à Itália. Transpôs os Alpes e passou o Natal na cidade de Pavia. Arduíno, que havia retomado o título de rei, fugiu às pressas para seu refúgio nas montanhas e propôs sem sucesso devolver a coroa em troca de um condado. Acabou seus dias, piamente segundo dizem, num convento que ele mesmo fundara. Em Ravena, Santo Henrique encontrou-se com Bento VIII. O rei prometeu ao Papa a restituição dos bens roubados à Igreja. Em contrapartida, o Papa estabeleceu Arnulfo, meio-irmão de Santo Henrique, como Arcebispo de Ravena.

No dia 22 de fevereiro de 1014, festa da Cátedra de Pedro, Santo Henrique entrou em Roma com grande séquito, acompanhado de 12 senadores. O Papa Bento VIII o esperava na Basílica de São Pedro. Após jurar ser um “constante defensor da Igreja e leal vassalo de Jesus Cristo”, o Papa ungiu-o com os óleos santos, proclamou-o Imperador do Sacro Império e o coroou, juntamente com Santa Cunegundes. No mesmo dia o Pontífice ofereceu ao Imperador um grande banquete no seu palácio de São João de Latrão, segundo relata o historiador Ditmar.

O monge Glaber, outro contemporâneo, conta ainda que, nessa ocasião, o Papa presenteou o Imperador com um globo de ouro, encimado por uma cruz e ornado de pedras preciosas. O globo representava o mundo; a cruz, a Igreja que devia ser protegida pelo monarca; e as pedras preciosas, as virtudes com as quais ele devia se ornar.

Então Santo Henrique disse ao Papa: “Santo Padre, Vós quereis me ensinar por este meio como devo governar. Este presente só pode convir a pessoas que desprezam as pompas do mundo para poder seguir a cruz sem empecilhos”. Este precioso globo foi dado por Santo Henrique a seu amigo Santo Odilon, abade do mosteiro beneditino de Cluny, principal centro da reforma monástica que iria mudar a face da Europa cristã nos próximos séculos.

 

Lídimo continuador da estratégia de Carlos Magno

A exemplo de Oto I, o Imperador Santo Henrique deu ao Papa um diploma — assinado por ele, doze bispos, três abades e diversos potentados —, no qual reconhecia, ratificava e confirmava todos os direitos temporais da Santa Sé, bem como todas as doações que lhe tinham sido feitas por Pepino, o Breve, e Carlos Magno.

Durante essa estadia em Roma, Santo Henrique indagou aos sacerdotes por que durante a Missa eles não cantavam o Símbolo dos Apóstolos, após a leitura do Evangelho, como era costume em outros lugares. Responderam-lhe que a Igreja romana jamais havia sido maculada por qualquer heresia e por isso não era necessário que ela declarasse a sua fé pelo canto do Credo.

Retomando o desejo já expresso dois séculos antes por Carlos Magno, Santo Henrique conseguiu que o Papa Bento VIII introduzisse o canto do Credo após o Evangelho nas Missas solenes. É o que testemunha Vernon, abade de Reichenau.6

As disposições de Santo Henrique deram ao Papa imenso poder. Com a ajuda dele conseguiu expulsar os sarracenos que haviam ocupado a cidade portuária de Luna. Um espírito de vitória inflou o ânimo dos cristãos. Em 1016, pisanos e genoveses reconquistaram a ilha da Sardenha, nas mãos dos muçulmanos desde 1002.

Nos últimos anos de sua vida Santo Henrique teve de empenhar-se novamente em campanhas na Itália. Enquanto consolidava os estados no interior e assegurava a paz com os vizinhos do leste, os lombardos, associados aos bizantinos e normandos, assolavam as províncias da Itália. O monarca preparou-se para castigá-los. Derrotou-os em várias batalhas, repeliu a uns e a outros e subjugou também a Lombardia. Reintegrou a Igreja na posse das terras invadidas, ocupou Nápoles, Salerno e Benevento, e restabeleceu a paz na península.

Os anos posteriores à coroação imperial foram repletos de espinhos e dificuldades para Santo Henrique. Só em 1019 é que a paz regressou. No ano seguinte celebrou a Páscoa em Bamberg, com a presença de Bento VIII, o Papa que o coroara seis anos antes e que para lá se deslocara a fim de consagrar a nova Igreja de Santo Estêvão.

Ao voltar para a Alemanha, teve com Roberto, o Piedoso, filho de Hugo Capeto e rei dos franceses, a célebre entrevista do rio Maas, na qual se entenderam sobre a reforma moral da sociedade. Para isso combinaram convocar um sínodo, que não se realizou por causa da morte prematura de Santo Henrique. Dispunha o cerimonial que o encontro se desse numa pequena ilha, no meio do rio. Santo Henrique, em atenção às virtudes do monarca francês, resolveu quebrar o protocolo, atravessou o Maas com seu séquito e foi saudar o rei da França na margem oposta.

 

Coroa de Santo Henrique

Modelo ideal de um monarca


Em seu livro Revolução e Contra-Revolução, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira aponta como molas propulsoras do processo revolucionário o orgulho e a sensualidade. Do orgulho nasce o igualitarismo, porque o orgulhoso não aceita qualquer forma de superioridade; da sensualidade surge o liberalismo, posto que o sensual não admite o menor freio a suas paixões.

Ainda que seja difícil vislumbrar a existência do processo revolucionário no início do século XI, entretanto as tendências que lhe deram origem 200 anos mais tarde já estavam latentes em todo o corpo social. Em sentido totalmente oposto a essas tendências — já presentes na anarquia feudal e nas rebeliões de nobres e nas desordens morais que campeavam no seio do clero —, desenrolou-se a vida de Santo Henrique.

Humilde, desprezava as grandezas mundanas; puro de corpo e de alma queria estar com a mente sempre voltada para as “coelestia desideria”. Procurando atingir os píncaros de todas as virtudes, tornou-se o modelo ideal do monarca cristão.

Em meio a sua vida de homem de ação, de suas guerras, de suas vitórias, de suas riquezas, ele aspirava a uma vida de recolhimento, desejava abraçar o silencio do claustro para conversar com Deus, ele que havia recebido excelente formação teológica. Tinha especial apreço pelo beato Richard, abade do mosteiro de Vannes, de Verdun, a quem havia dado grandes presentes. Um dia, ao visitá-lo em companhia do bispo Haimon, pronunciou em voz alta as palavras do salmista: “Este será o lugar de meu repouso para sempre, aqui está a morada que escolhi” (Salmo 132, 13-14).

O abade estava diante de um problema sério: como atender o pedido do Imperador, sem prejudicar o Estado? Após séria reflexão, diante de todos os monges reunidos, o abade interrogou o Imperador sobre o seu desejo de abandonar o mundo. “Quereis, segundo a regra e seguindo o exemplo de Jesus Cristo, ser obediente até à morte?”

À resposta afirmativa do Imperador, o abade declarou então que o recebia como monge, encarregava-se da salvação de sua alma, e que, em virtude da santa obediência, lhe ordenava que retornasse a “governar o Império que Deus lhe havia confiado e que, pela firmeza ao exercer a justiça, procurasse o bem do Reino”.7

Obediente, Santo Henrique voltou ao bom e reto governo de seus povos. Ele desponta no limiar do século XI como um monarca excepcional, varão de grande cultura, político prudente, guerreiro astuto, hábil diplomata, santo incomparável. Introduzindo a reforma cluniacense em seus domínios, ajudou a preparar o grande movimento de reforma moral do clero e do laicato que suscitou Papas de envergadura sem igual na História da Igreja, tais como São Leão IX (1002-1054), Vitor II (1020-1057), São Gregório VII (1025-1085) e o Beato Urbano II (1035-1099).

Nenhum obstáculo o impediu de cumprir o seu dever até o último alento. Dizem que tinha pedras nos rins, sofrendo terríveis dores. E que essa foi a causa de sua morte, exatamente há 1000 anos, em 13 de julho de 1024. Faleceu cercado de seus familiares, tendo à cabeceira a incomparável esposa, Santa Cunegundes. Essa última cena de sua vida está retratada num dos quadros laterais no mausoléu de Tilman Riemenschneider.

A seus pés, um demônio lhe aponta um dedo acusatório. E Santo Henrique, prestes a se apresentar ante o “justo Juiz”, com o olhar sereno, voltado para sua esposa, diz a seus parentes que ele a devolvia tão pura quanto a recebera. Assim evolou-se a alma do grande Imperador. No Céu lhe estava reservada a “recompensa imensamente grande” (Gen. 15, 1).