24 de setembro de 2024

Caminha-se para o fim do matrimônio no mundo?



Nossa Senhora advertiu em Fátima contra os costumes imorais. Eles fizeram colapsar os casamentos em todo o Ocidente. 

Na Espanha, apenas 20% dos noivos se casam hoje na Igreja, quando em 1976 somavam 99%. 

O Observatório Demográfico CEU disse que a imensa maioria se casava antes dos 30 anos, mas que em 2022 só 8% dos homens e 14% das mulheres o fazem, com óbvio impacto negativo na fecundidade. 

Mais de 10% dos bebês espanhóis serão criados por um único progenitor e dois milhões estão sendo criados sem pais. 

Em 2022, 53% dos bebês foram filhos de mães solteiras, quando em 1976 eram apenas 2%. 

Outro estudo indica o desaparecimento do matrimônio na Grã-Bretanha, enquanto na Alemanha o número de casamentos é hoje o mesmo do final da Primeira Guerra Mundial.

22 de setembro de 2024

DUAS CONCEPÇÕES OPOSTAS NA ARTE

Sublimidade numa pintura de Jean Fouquet e a concepção progressista e blasfema de uma pintura moderna 

  Plinio Corrêa de Oliveira 

O quadro A Santíssima Trindade, pintado por Jean Fouquet,* aparece com o céu azul repleto de anjos dourados. Céu tão diferente daqueles que vemos em algumas figuras, com nuvens molengas parecendo feitas de isopor, onde as pessoas se sentam para passar o tempo. 

Já o céu imaginado por Fouquet é como se fosse uma verdadeira catedral. 

Vemos anjos e santos sentados em tronos dos dois lados. No centro uma espécie de plateia de bem-aventurados. Todos áureos pela glória de Deus. 

No mais alto, os três tronos perfeitamente iguais para as pessoas da Santíssima Trindade — um só Deus em Três Pessoas distintas, que possuem a mesma natureza divina, o Pai, o Filho e o Espírito Santo —, que reinam numa glória perfeitamente igual, desde sempre e para sempre. 

Ao lado, um trono menor e em outro alinhamento, entretanto tão próximo apesar de distante. Nele vemos sentada uma figura nívea, superior a todo o dourado e a todo o azul do céu: Nossa Senhora. As três pessoas da Santíssima Trindade voltam-se para Ela em sinal de louvor, porque é a obra-prima de toda a criação. 

Nossa Senhora reza recolhida, remetendo a Deus em forma de adoração, o amor que Ele lhe concede tão generosamente. É a imagem do Céu, repleto de ordem, de sublimidade, de hierarquia, de sacralidade. 



O contrário dessa imagem do Céu é esse outro quadro. É a figura de como o progressismo concebe as coisas da religião. É uma pintura moderna representando a Última Ceia de Nosso Senhor Jesus Cristo com os Apóstolos. É a caricatura da religião. Nosso Senhor representado pela arte moderna é em tudo blasfêmia! 

____________ 
*Jean Fouquet (1420–1481, anos aproximativos) é considerado o maior pintor francês de seu tempo. Suas obras são classificadas entre o final do Gótico e o início da Renascença. Entre suas numerosas obras, uma das mais célebres são as miniaturas do Livro de Horas de Etienne Chevalier, do qual faz parte o quadro que ilustra esta página: A Santíssima Trindade, o Sufrágio da Miniatura dos Santos (Museu Condé, Chantilly, França). 


_______________________________________________________ 
Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 28 de julho de 1974. Esta transcrição não passou pela revisão do autor.

12 de setembro de 2024

DO FUNDO ABENÇOADO DO BAÚ


  Paulo Roberto Campos 


Procurando uma foto “do fundo do baú”, encontrei por acaso um recorte antigo de jornal que merece ser reproduzido. 

Trata-se do costume, então em vigor, de na maioria das famílias se pedir a bênção aos pais e avós — e até mesmo a outros parentes, como tios e padrinhos —, inclusive de lhes beijar respeitosamente as mãos no momento do pedido. De modo geral isso era feito no momento de os filhos irem dormir, ao acordarem, ao saírem para o colégio e outras atividades distantes do lar. 

 A bênção do avô
– Adolph Tidemand (1875).
 Museu de Arte de Bergen, Noruega.
Sinal de que os filhos consideravam os pais como canais para receberem as graças de Deus. E os pais também tinham essa noção de que Deus estava abençoando os filhos por meio deles. 

De modo popular, nas regiões rurais simplificava-se com “a bença pai”, “a bença mãe”; ou simplesmente, “abença”. Quando longe do lar por razões de estudos, em cartas depois de escreverem o nome do local e a data, vinha “meus pais, abençoem-me”. Em muitas famílias, os pais respondiam: “Deus e Nossa Senhora te abençoem!” Abençoar deriva do latim “bene-dicere” (dizer bem, desejar o bem, falar coisas boas). 

Aos nossos primeiros pais, Adão e Eva, “Deus os abençoou” e disse: “Frutificai e multiplicai-vos, enchei a Terra e submetei-a” (Gênesis 1, 28). Assim, ao recebermos as bênçãos de nossos pais biológicos, estamos rememorando aquela primeira bênção divina aos homens. 

O bom costume da bênção paterna e materna, atualmente bastante esquecido e relegado aos tempos de outrora, merece ser recordado e restaurado. Conheço muitos pais que na infância tinham o hábito de pedir a seus pais que os abençoassem, mas que não transmitiram essa tradição aos filhos. Que tal restabelecê-la hoje mesmo? É tão simples e abençoado! No Deuteronômio ficou recomendado por Deus para todos os tempos: “Honra teu pai e tua mãe, como te mandou o Senhor, para que se prolonguem teus dias e prosperes na terra que te deu o Senhor teu Deus” (5,16). 
A Santíssima Trindade (det.)
– Antonio de Pereda (1611–1678).
 Museum of Fine Arts, Budapest, Hungria


“Abençoarei aqueles que te abençoarem” 

Há na Sagrada Escritura várias passagens com a recomendação da bênção na família. Eis dois exemplos que encontrei: 
“Quem honra sua mãe é semelhante àquele que acumula um tesouro. Quem honra seu pai achará alegria em seus filhos, será ouvido no dia da oração. Quem honra seu pai gozará de vida longa; quem lhe obedece dará consolo à sua mãe. Quem teme ao Senhor honra pai e mãe. Servirá aqueles que lhe deram a vida como a seus senhores. Honra teu pai por teus atos, tuas palavras, tua paciência, a fim de que ele te dê sua bênção, e que esta permaneça em ti até o teu último dia. A bênção paterna fortalece a casa de seus filhos, a maldição de uma mãe a arrasa até os alicerces” (Eclesiástico 3, 5-11). 

Nesta última frase, podemos por antonímia ter a profunda noção do valor da bênção ao considerarmos a ruína que pode causar o contrário, ou seja, a maldição (male-dicere). Se esta pode desgraçar, prejudicar e arrasar; a bênção só pode agraciar, favorecer e elevar.

No capítulo 12 do Gênesis, sobre a promessa de Deus ao fundador da nação hebraica, o Patriarca Abraão, encontramos estes versículos: 
“Farei de ti uma grande nação; eu te abençoarei e exaltarei o teu nome, e tu serás uma fonte de bênçãos. Abençoarei aqueles que te abençoarem, e amaldiçoarei aqueles que te amaldiçoarem; todas as famílias da Terra serão benditas em ti” (12, 2-3).

 Jacó abençoando os filhos de José
– Rembrandt (1656).
 Gemäldegalerie Alte Meister, Dresden, Alemanha.


“Põe teu olhar sobre essa menina” 

Enquanto procurava a citação acima, deparei-me com o “Protoevangelho de São Tiago” — um evangelho apócrifo, mas autorizado pela Igreja. No capítulo relativo ao Nascimento da Virgem Maria, encontrei um belo trecho no qual se diz que ao completar um ano de vida, seu pai 
“Joaquim deu uma grande festa, convidando os sacerdotes, os escribas, o sinédrio e todo o povo de Israel. E Joaquim apresentou a menina aos sacerdotes, que a abençoaram com estas palavras: ‘Ó Deus de nossos pais, abençoa essa menina e dá-lhe um nome glorioso e eterno por todas as gerações’. E todo o povo respondeu: ‘Assim seja. Amém’. Joaquim também a apresentou aos príncipes dos sacerdotes e esses a abençoaram: ‘Ó Deus altíssimo, põe teu olhar sobre essa menina e outorga-lhe a maior bênção’”.*
Com essas breves noções sobre bênçãos, reproduzo aqui, como prometido no início, o recorte do “fundo do baú”. 


BÊNÇÃO DOS PAIS  

“Bênção, Pai”… “Bênção, Mãe”…, e em tempos já distantes, pegando a mão do pai e da mãe, a beijávamos, enquanto ouvia-se um “Deus te abençoe”. 

Não se usa mais. 

Mas que falta que faz! 

Abençoar alguém significa desejar coisas tão boas que só podem vir de Deus. A bênção materna e paterna deve ser dada de forma mais especial: 

“Filho, Deus te abençoe”. “Deus te acompanhe”, “Deus te proteja”. Estas expressões têm poder, porque constituem um sinal muito forte da proteção divina. 

Não se usa mais. 

Mas que falta que faz! 

A mão que abençoa representa a bênção, o apoio, o carinho dos pais para com o filho. A bênção é uma ação divina que dá vida e da qual Deus é a fonte. 

Não se usa mais. 

Mas que falta que faz! 

À noite, assentar na calçada, crianças e adultos conversar, contar causos…

Filhos cediam o lugar aos mais velhos, com todo respeito. 

Mães trocavam receitas de remédios caseiros. 

As famílias se visitavam, frequentavam a igreja… Nas refeições todos se assentavam à mesa. E outras coisas mais… 

Não se usa mais. 

Mas que falta que faz! 

Nós somos fracos, somos carentes, e quando estamos em situação difícil, precisamos da bênção de Deus como se fosse um abraço, um colo, um carinho… 

Quanta falta nos faz! 

Ditinha Schanoski 
Cadeira nº 19 — Patrono Dr. Benedito Motta Navarro 


____________ 
Nota: * Evangelhos Apócrifos, Tradução de Urbano Zilles, Coleção Teologia – 17, 3ª edição, EdiPUCRS, Porto Alegre, 2004, pag. 29.

8 de setembro de 2024

VENEZUELA — Eleições descaradamente roubadas. O triste papel da diplomacia brasileira tentando salvar o caudilho venezuelano


Nas recentes eleições na Venezuela, também o governo petista perdeu. Com a atuação de Lula e Amorim, o Brasil saiu apequenado e envergonhado; foi ridicularizado por querer favorecer o governo comuno-chavista e não o povo venezuelano cruelmente perseguido, esmagado pela tirania.


Fonte: Editorial da Revista Catolicismo, Nº 885, setembro/2024


As prisões da Venezuela estão abarrotadas e Nicolás Maduro prometeu construir ainda mais. Ele quer intimidar a população. Quantos venezuelanos a mais serão encarcerados? Quantos terão que morrer ou fugir de seu país antes que o mundo finalmente tome uma atitude eficaz para salvá-los? 

As recentes eleições na Venezuela foram descaradamente roubadas. O ditador foi declarado vencedor por órgãos que lhe obedecem como empregados; se não fizerem o que o patrão manda, são despedidos, mandados para a rua... ou para a cadeia.

Contra a fraude eleitoral, as reações internas e externas foram grandes. Entretanto, pelo menos por enquanto, não suficientes para garantir que o candidato eleito, Edmundo González Urrutia, possa assumir seu mandato em janeiro próximo. Ele obteve uma vitória esmagadora, escolhido pelos eleitores com quase 70% dos votos, conforme comprovado por apurações independentes. 

Se ele não assumir, não haverá mudança no governo; ficará patenteado que a “Revolução Bolivariana” — ou o “Socialismo do século XXI” iniciado por Hugo Chávez — não passa de um regime verdadeiramente comunista. E a Venezuela, como Cuba, na extrema miséria, só sobreviverá vendendo-se à China e a outras ditaduras marxistas, que, em compensação, vão sugando suas fabulosas riquezas. 
Lula com os ditadores Raul Castro
e Nicolás Maduro
Neste trágico panorama, o Brasil — devido ao governo petista, sobretudo por parte de Lula da Silva e Celso Amorim — está sendo ridicularizado. Com suas atuações ideológicas anacrônicas, desprovidas de senso diplomático e de clara visão política, ambos tentaram arranjar uma saída honrosa para o derrotado ditador chavista. A maioria dos venezuelanos ficou percebendo quem é realmente Lula, ou seja, um apoiador incondicional do caudilho que submete seu povo à pior das tiiranias. 

Esta e outras questões conexas são expostas na matéria de capa da edição da revista Catolicismo deste mês [foto no topo]. Lendo-a, talvez venha à lembrança do leitor os versos da canção Triste España, de Juan del Encina, cujo primeiro verso aplica-se a essa grande nação espanhola e poderia ser adaptado à nação vizinha: “Triste Venezuela sin ventura. / Todos te deben llorar. / Despoblada d'alegría, / para nunca en ti tornar”. 

Mas estamos convictos de que tanto a Espanha de São Fernando de Castela, do Cid Campeador — entre outras impressionantes figuras de sua história épica e milenar — ressurgirá da presente crise, quanto a Venezuela. Quem viver, verá!

7 de setembro de 2024

Natividade de Nossa Senhora — data que nos enche de alegria

Afresco “Nascimento da Virgem” (entre 1486 e 1490), na Capela Tornabuoni da Igreja Santa Maria Novella (Florença). Obra o artista florentino Domenico Ghirlandaio (1449 – 1494).


O dia da Natividade de Maria Santíssima consiste para a humanidade em imenso gáudio, prenúncio do nascimento do nosso Redentor 


Ninguém esquece, e com toda razão, o aniversário de sua própria mãe. Porém, infelizmente, há católicos que esquecem o dia natalício da Santíssima Mãe de todas as mães, Mãe de Deus e nossa também. 

A festa do nascimento de Nossa Senhora é comemorada a 8 de setembro. 

A fim de fixarmos bem essa magna data, e não nos esquecermos de a celebrar condignamente todos os anos, apresentamos a seguir admirável comentário de Plinio Corrêa de Oliveira, proferido durante conferência comemorativa desse augusto aniversário, em 1965.

* * * 

“Como Nossa Senhora é a Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo, tudo quanto se pode dizer do Natal, guardadas as devidas proporções, pode-se dizer da Natividade de Nossa Senhora. Assim, a Natividade da Santíssima Virgem também deve ser ocasião para nós de todas as alegrias, todas as impressões, todas as graças da noite de Natal. 

A salvação veio ao mundo com o nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Mas, de algum modo, esta afirmação é também verdadeira em relação à Natividade da Mãe do Salvador.

Porque, se é verdade que o único Salvador é Nosso Senhor Jesus Cristo, Nossa Senhora, com sua oração onipotente, pediu e apressou a vinda do Messias que já estava prometida. 

Pode-se dizer portanto que, de certo modo, com Ela veio a salvação. 

O Natal representou uma honra incomparável para a humanidade, porque o Verbo Encarnado veio ao mundo na noite de Natal. Mas é também verdade que — repito, guardadas as devidas proporções — representou uma honra enorme para a humanidade o nascimento de Nossa Senhora. 

A criatura mais perfeita nascida em todos os séculos; uma criatura concebida sem pecado original, trazendo em si uma plenitude de graças para todo o mundo. Compreendemos assim como a Natividade da Virgem é parecida com a noite de Natal”. 

(Fonte: Revista Catolicismo, setembro/2003

23 de agosto de 2024

Com a leitura, poderosos efeitos benéficos às crianças



O acadêmico espanhol Miguel Salas alertou contra a procura de lazeres fáceis, como o de ficar paralisado diante a TV ou do celular lesando o futuro de crianças e jovens. 

Para o acadêmico, as crianças que se habituam a ler desde pequenas, colhem benefícios ao longo de toda a vida: superioridade na carreira, melhorias sociais e individuais, habilidades de comunicação, capacidade de se expressar e compreender melhor. 

Também é óbvio o aumento do vocabulário, os bons resultados escolares, a empatia bem direcionada, o esquecimento das preocupações danosas e a concentração até tocar na meditação.

 

20 de agosto de 2024

SÃO PIO X — Fortaleceu a igreja, fulminou a heresia

 


Neste mês a Santa Igreja celebra 110 anos do trânsito de São Pio X ao Céu, ocorrido em 20 de agosto de 1914. O único Papa canonizado no século XX, ele combateu intrepidamente a heresia modernista, reformou o clero, recodificou o Direito Canônico e incrementou admiravelmente a piedade católica.

  Plinio Maria Solimeo

 

Quando faleceu Leão XIII, em 1903, a expectativa geral era quem manobraria o leme de Pedro naqueles tempos já tão conturbados.

O mundo estava febrilmente contagiado pelo liberalismo anticlerical, um dos perniciosos frutos da Revolução Francesa que tornavam tensas as relações entre a Sé Apostólica e várias nações europeias. A revolução industrial, por sua vez, criava situações propícias à propaganda dos princípios marxistas da luta de classes e do anarquismo no meio proletário nascente.

A situação era crítica inclusive nas nações católicas. Na Itália, um governo usurpador e violento privara o Romano Pontífice de seus Estados, confinando-o ao Vaticano, e criava empecilhos à ação da Igreja. Na França, uma oligarquia maçônica –– cujos expoentes eram Briand, Clemenceau, Waldeck-Rousseau e Combes –– impôs a aprovação de diversas leis frontalmente antirreligiosas, preparando terreno para a separação entre a Igreja e o Estado em 1905.

Portugal via-se às voltas com a fermentação revolucionária que culminaria no assassinato do rei Dom Manuel e do Príncipe herdeiro em 1908, e com a proclamação da República dois anos depois. Sem falar de uma série de medidas contra a Igreja, como a expulsão dos jesuítas, a supressão de congregações religiosas e a aprovação do divórcio.

Também na outrora fiel e católica Espanha os ventos liberais e anarquistas sopravam com violência, chegando-se à tentativa de assassinar o rei Afonso XIII no próprio dia de suas bodas. E o império Austro-Húngaro apresentava tantos sintomas de decadência religiosa e moral, que a todo instante se temia sua ruína.

Não menos trágica para Igreja e a civilização cristã era a situação no maior bloco católico do universo, a América Latina, onde as jovens nações emulavam em impiedade com suas maiores europeias.

No Brasil, a célebre “Questão Religiosa” conseguira levar à barra dos tribunais e condenar à prisão perpétua com trabalhos forçados o intrépido bispo de Olinda, Dom Vital Maria Gonçalves de Oliveira. No Equador, líderes católicos são perseguidos e forçados a exilar-se. No México, as nuvens da tormenta revolucionária já se acumulavam no horizonte para pouco depois se desencadearem numa das mais cruéis e implacáveis perseguições religiosas conhecidas pelo mundo moderno.

Sobretudo, no próprio interior da Igreja a situação era grave. Erros filosóficos muito em voga, como o naturalismo, o racionalismo e o cientificismo, ao par de forte liberalismo, influenciavam extensamente a teologia e deturpavam a fé, ao mesmo tempo que esfriavam nas almas o amor de Deus.

Tais erros haviam penetrado a fundo em amplas camadas do Clero, em estabelecimentos de ensino, mesmo em seminários, criando um espírito de novidade e de revolta crescente que ameaçava fazer soçobrar a Barca de Pedro, não tivesse ela a promessa da perenidade.

Para fazer face a esse terrível panorama, tornava-se necessário o advento de um Papa que se colocasse entre os maiores da História da Igreja. Por obra do Divino Espírito Santo, que não abandona a Sua Esposa Mística, e a rogos de Maria, o mundo teve o Pontífice de que necessitava: Giuseppe Sarto, Patriarca de Veneza, eleito com o nome de Pio X.

 

Entrada do Monsenhor Giuseppe Sarto em Veneza como Patriarca (24-11-1894). 

Suave... mas forte

Quem era Pio X, o novo Papa de cuja bondade e doçura tanto se falava em Veneza, de onde viera como Cardeal-Patriarca? Um “conciliador”, pensava o Governo italiano, entendendo por essa designação um homem fraco, pronto a entrar em acordo com a Revolução. Entretanto, a famosa bênção Urbi et Orbi, o primeiro ato do Pontífice, foi dada de um dos balcões internos da Basílica de São Pedro para ratificar o protesto de seus antecessores contra a tomada de Roma pelas tropas revolucionárias.

Um “cura rural”, não habituado às pompas do Vaticano nem ao trato com os grandes, pensavam os embaixadores e enviados de potências estrangeiras. Não foi a impressão que Pio X deixou após a primeira audiência geral, quando o representante da Prússia, exprimindo o pensamento dos demais diplomatas, perguntou a Mons. Merry del Val, Secretário de Estado interino, ao sair da Sala do Trono: “Diga-nos, Monsenhor, o que há nesse homem que tanto atrai? Um Santo –– dirá esse eclesiástico, posteriormente elevado a Cardeal, que teria um papel tão importante nesse Pontificado ––, porque ele é um homem de Deus”.(1)

Para o Abbé de Cigala, capelão do Conclave, “a força dos traços e a doçura do olhar, frutos de uma vida interior e fé” ardentes, faziam crer “numa ressurreição do imortal Pio IX”.(2) Mas, esclarece o Cardeal Mercier, Arcebispo de Malinas, na Bélgica: “A invencível gentileza do Santo Padre nada tinha do sentimentalismo dos fracos: Pio X era um forte”(3)

Isso o reconheceu também o ex-chanceler do Império alemão, o Príncipe Von Bülow, conta ao Cardeal Merry del Val, após uma entrevista: “Eu me encontrei com muitos monarcas e legisladores, mas raramente encontrei em algum deles uma tão remarcável percepção da natureza humana ou um conhecimento como o que Sua Santidade possui das forças que governam o mundo e a sociedade moderna”(4). E, realmente, proclamará muito depois Pio XII que, “com seu olhar de águia mais perspicaz e mais seguro que a curta vista dos míopes raciocinadores, via o mundo tal qual era, via a missão da Igreja no mundo[...] e seu dever no seio de uma sociedade descristianizada [...] contaminada pelos erros do tempo e pela perversidade do século”.(5)

 

“Restaurar tudo em Cristo”

O Pontificado de São Pio X
pode ser sintetizado no roteiro por ele 
traçado em sua Encíclica-Programa:
 “Restaurar tudo em Cristo”.
O historiador R. Aubert afirma que São Pio X foi essencialmente um reformador –– o maior deles depois do Concílio de Trento(6) ––, e que a reforma por ele empreendida era bem exatamente o contrário da desejada hoje por tantos eclesiásticos para os quais reformar significa incorporar à Igreja os erros modernos. Para o Santo, reformar foi extirpar da Igreja as heresias que nela se haviam introduzido. E o já referido Cardeal Mercier se pergunta: “Se houvesse na Igreja, na época de Lutero e Calvino, um Papa da têmpera de Pio X, teria conseguido o protestantismo levar um terço da Europa ao rompimento com Roma?”(7)

O Pontificado de São Pio X pode ser sintetizado no roteiro por ele traçado em sua Encíclica-Programa: “Restaurar tudo em Cristo”. Essa preocupação o Pontífice já a tivera quando era Bispo de Mântua. Depois, como Cardeal de Veneza, sua primeira Carta Pastoral continha, em linhas gerais, o pensamento da Encíclica.

Em síntese, diz São Pio X que a apostasia do mundo, “essa detestável e monstruosa iniquidade [...] pela qual o homem se substitui a Deus”, manifesta uma tal “perversão dos espíritos”, que é de se perguntar se já não se deu o advento do “filho da perversão”. Pois o modo com que “se lança ao ataque da religião, se investe contra os dogmas da fé, se tende obstinadamente a aniquilar toda relação do homem com a Divindade” é uma das características do Anticristo.

Para haver uma restauração, os bons devem “proclamar bem alto as verdades ensinadas pela Igreja sobre a santidade do matrimônio, a educação da infância, a posse e uso dos bens temporais, sobre os deveres dos que administram a coisa pública”. Ora, se não houver verdadeiros sacerdotes, “revestidos de Cristo”, isso não será possível. Portanto, deve-se proceder a uma reforma dos seminários e vigiar para que os novos sacerdotes não se deixem seduzir “pelas manobras insidiosas de uma certa ciência nova”.

“No dia em que, em cada cidade, em cada aldeia, a lei do Senhor for cuidadosamente guardada [...] nada mais faltará para que contemplemos a restauração de todas as coisas em Cristo”. Com isso, mesmo “os interesses temporais e a prosperidade pública” também felizmente se ressentirão.(8) E ter-se-á na terra a “paz de Cristo, no Reino de Cristo”.

Não cabe analisar aqui o pontificado de São Pio X para constatar como ele seguiu à risca este programa. Só o que foi publicado de Cartas Apostólicas, Motu Proprio, Encíclicas, e discursos, ultrapassa a casa dos 350. Se a isso se somam os decretos das Congregações romanas e os diversos documentos emanados da Secretaria de Estado, aos quais o Papa não podia ser estranho, chega-se ao número de 3322(9), o que torna esses onze anos de pontificado um dos mais fecundos da História da Igreja.(10)

Basta pensar no trabalho monumental de recodificação do Direito Canônico, que durou todo o Pontificado de São Pio X, sendo promulgado só no de Bento XV; na fundação do Instituto Bíblico; na reforma da Cúria Romana; na instituição da Acta Apostolicae Sedis, noticiário oficial do Vaticano; na reforma do Breviário Romano; em normas dadas para a disciplina e reforma do Clero, além de todas as medidas para facilitar a comunhão frequente dos fiéis, antecipar a Primeira Comunhão das crianças, regulamentar a comunhão dos enfermos, elaborar adequadamente o catecismo, orientar o cântico litúrgico etc.

 

O modernismo


Ao condenar o movimento Sillon –– em muitos pontos precursor do atual progressismo –– afirma São Pio X que ele “semeia [...] noções erradas e funestas [...] Para ele, toda desigualdade de condição é uma injustiça ou, pelo menos, uma justiça menor! Princípio soberanamente contrário à natureza das coisas, gerador de inveja e de injustiça, subversivo de toda ordem social”.(11)

Entretanto, foi a seita modernista infiltrada na Igreja –– qualificada por ele de “síntese de todas as heresias” –– a que mais o fez sofrer e mais preocupações lhe trouxe, por sua profunda nocividade e subtileza. Além de numerosos atos, três importantes documentos emanaram de São Pio X para condená-la: o Decreto Lamentabili sane exitu, de 4 de julho de 1907, que condena 65 proposições modernistas; a Encíclica Pascendi dominici gregis, de 8 de setembro do mesmo ano, na qual condena diretamente o modernismo –– a mais longa de seu pontificado, devido à delicadeza da matéria; e, finalmente, o Motu Proprio Praestantia Scripturae sacrae, de 18 de novembro do mesmo ano.

São Pio X, elevado à honra dos altares por Pio XII em 1954, seja junto à Virgem Santíssima e a seu Divino Filho o grande intercessor de todos os católicos que lutam em nossos dias para permanecerem fiéis à Santa Igreja e à sua verdadeira doutrina.

O Santo Pontífice, que soube tão bem desmascarar e condenar o modernismo, certamente obterá abundantes graças para os fiéis de nossa época, muito pior do que a época daquela heresia. Sim, a trágica era em que vivemos, na qual, segundo expressões de Paulo VI, tem curso um misterioso processo de “autodemolição da Igreja”, tendo nela penetrado a “fumaça de Satanás”.

____________

NOTAS:

1. Cardeal Merry del Val, Memories of Pope Pius X, Burns Oates & Washbourne Ltd., Londres, 1939, pp. 9-10.

2. Abbé de Cigala, Vie Intime de Sa Saintité le Pape Pie X, Lethielleux Editeurs, Paris, 1926, p. IX.

3. Lettre Pastorale et Mandement de Câreme de 1915, apud Merry del Val, op. cit, p. 29.

4. Merry del Val, op. cit, p. 12.

5. Breve por ocasião da Beatificação de Pio X, Documentos Pontifícios, n° 83, Vozes, 1958,2ª edição.

6. Documents relatifs au mouvement cathólique italien sous le pontificat de St. Pie X, apud Gianpaolo Romanato, Pio X: Profilo Storico, in Sulle Orme di Pio X, Amministrazione Comunale di Salzano, 1986, p. 19.

7. Doc. cit, apud Merry del Val, op. cit, p. 27.

8. Encíclica E supremi Apostolatus, Vozes, Petrópolis, Documentos Pontifícios, nº 87, 1958,2ª edição.

9. René Bazin, da Academia Francesa, Pie X, Flammarion, Editeur, Paris, 1928, p. 65.

10. D. Benedetto Pierami, apud René Bazin, op. cit, p. 66.

11. Notre Charge Apostolique (Sobre os erros do Sillon), Vozes, Petrópolis, Doc. Pontifícios, nº 53, 1953,2ª edição.

 

Conspiração dos modernistas

Pe. George Tyrrell, excomungado por São Pio X 
Fulminada a heresia modernista com vigor angélico por São Pio X, em 1907, já no ano seguinte o Pe. George Tyrrell, sectário excomungado pelo Papa Santo por sua adesão à heresia, escrevia a um confidente romano: Olhando em torno de mim, sou forçado a reconhecer que a onda de resistência modernista acabou, ela já esgotou todas as suas forças, por ora. Devemos esperar o dia em que, através de um trabalho silencioso e secreto, tenhamos ganho para a causa da liberdade uma proporção muito maior das tropas da Igreja.(1)

Esse "trabalho silencioso e secreto" é cinicamente explicitado, nos seguintes termos, por um dos fautores da heresia, Antonio Fogazzaro, em seu romance Il Santo, posteriormente condenado por São Pio X: "Devemos constituir uma maçonaria católica .... a maçonaria das catacumbas".(2) E quem pertencia a esta "maçonaria católica"? O próprio Fogazzaro responde: "Seu nome é legião. Ela vive, pensa e trabalha na França, na Inglaterra, na Alemanha, nos Estados Unidos, na Itália. Ela usa batina, farda ou casaca. Ela ensina em universidades, ela se esconde nos seminários, ela luta na imprensa, ela reza no silêncio profundo dos claustros.(3)

Romance Il Santo de Antonio Fogazzaro,
 condenado pelo Papa santo
Algum tempo depois da publicação dessa obra, tendo sido acometido por súbita e estranha enfermidade, São Pio X entregou sua alma a Deus em 1914.

A propósito do falecimento do Santo Pontífice escreveu o Pe. Genocchi, sacerdote italiano ligado aos conspiradores modernistas: "Agora estamos respirando mais confortavelmente... Várias vítimas da loucura e do fanatismo estão sendo reabilitadas, e outras ainda o serão.(4)

E um grupelho de neomodernistas levou adiante o "trabalho silencioso e secreto", proposto pelo padre apóstata Tyrrell. Tal corpúsculo lançou os alicerces da corrente que, mais tarde, receberia o nome de Teologia Nova.(5)

Os corifeus dessas novas doutrinas difundiam seus escritos apenas em exemplares datilografados, anônimos, que circulavam de mão em mão em seminários europeus e em conventículos de leigos "engajados", intoxicando assim o futuro clero e o laicato com as novas ideias. Um difusor destes panfletos pôde afirmar que uma "irresistível onda estava a tomar conta das novas gerações do Clero".(6)

De toda essa ampla infiltração, haveriam de surgir ao longo das décadas, no campo religioso, o "Movimento Litúrgico", e no campo sócio-político, o "Progressismo", dito católico.

Hans Küng,(7) um dos próceres dessa nova orientação, em sua obra Veracidade –– O futuro da Igreja, presta, nestes termos, o seu preito de homenagem àqueles neo-reformadores, que considera seus precursores:

Não foi pouco o que tiveram de sofrer esses precursores de uma nova veracidade [dentro da Igreja]... Temos toda razão de inclinar-nos com respeito e gratidão diante do engajamento cristão desses heróis silenciosos de uma luta por uma veracidade renovada, pelo futuro da Igreja, luta que, então, parecia tão pouco promissora. Gemendo sob o jugo da inveracidade eles não abandonaram (a Igreja de Deus)...

"O que uns poucos principiaram, com modéstia e insignificância, desenvolveu-se agora, multiplicado muitas vezes: na renovação da teologia, da liturgia, da vida eclesial em geral, no encontro com o moderno mundo profano. E ficou comprovado que aqueles batedores eram... a tropa de vanguarda de um exército lento, sem dúvida, mas, no fundo, muito disposto a seguir, frente ao qual alguns representantes oficiais da teologia e da direção da Igreja se comprovaram como retaguarda".(8)

____________

NOTAS:

1. Carta citada em Ernesto Buonaiutti, Le Modernisme Catholique. Apud E. Rivière, Modernisme, Dictionnaire de Théologie Catholique, vol, X, col. 2042.

2. Antonio Fogazzaro, Il Sanlo, Milão. s/e, p. 44.

3. Idem, ibidem.

4. Carta do Pe. Genocchi a Paul Sabatier. Apud Emile Poulat, Integrisme e Catholicisme Intégral. Paris. Casterman, 1969. p. 15.

5. "Reduzido a uma espécie de vida clandestina –– relata o Pe. Albert Besnard –– o modernismo caminhou de modo subterrâneo e inspirou a maioria das revoltas religiosas que hoje agitam a Igreja" (Albert Besnard. OP., Modernisme. In Jean Chevalier, ed. Les Religions. Les Dictionnaires du Savoir Moderne, Paris. Centre d'Étude et de Promotion de Ia lecture. 1972, p. 306. "A mudança tão trágica e penosamente tentada pelo modernismo –– comenta o Pe. Germano Pattaro –– foi assumida e proposta pela Teologia Nova" (Germano Pattaro, Corso di Teologia dell'Ecumenismo, Brescia, Queriniana, 1985, p.344).

6. Citado em Emmanuel Barbier. Histoire du Catholicisme Libéral et du Catholicismo Social en France, Imprimerie Yves Cadoret. Bordeaux, 1924, p. 115.

7. Em 15 de dezembro de 1979. uma declaração da Congregação para a Doutrina da Fé afirmava que o Pe. Hans Küng "em seus escritos, afasta-se da integridade da Fé católica e não pode mais ser considerado como teólogo católico nem enquanto tal, exercer o magistério". Essa declaração foi ratificada por João Paulo II em audiência concedida a uma delegação do Episcopado alemão, em 28 de dezembro de 1979. (Apud Pe. Raymond Winling, La Théologie contemporaine, 1945-1980, Le Centurion. Paris, 1983. pp. 450-451).

8. Veracidade ––- O futuro da Igreja, Herder, São Paulo. 1969, pp. 161-162.