✅ Plinio Maria Solimeo
Segundo
alguns filósofos de peso, em geral se pode conhecer algo da mentalidade de um
escritor pelo seu livro, pois nele acaba se refletindo algo de sua visão do
mundo, temperamento, valores, e mesmo emoções.
Isso
se torna mais claro analisando-se, por exemplo, esta oração de Santo Agostinho emseu
livro Confissões. Além mostrar o voo de águia desse gênio sem par da
Humanidade, ela revela sua profunda piedade, amor inflamado de Deus, e “um
coração contrito e humilhado”:
“Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova… Tarde Te amei! Trinta anos estive longe de Deus. Mas, durante esse tempo algo se movia dentro do meu coração… Eu era inquieto, alguém que buscava a felicidade, buscava algo que não achava…Mas Tu Te compadeceste de mim e tudo mudou, porque Tu me deixaste conhecer-Te. Entrei no meu íntimo sob a tua guia e consegui, porque Tu Te fizeste meu auxílio”.
Do mesmo modo, o sublime soneto de Santa Teresa de Jesus nos
revela sua grandeza de alma e um amor tão elevado a Deus, que a leva ao esquecimento
de si mesma. De modo que ela pôde dizer com São Paulo: “Já não sou eu que vivo, é
Jesus que vive em mim.”
Reconhecida
mesmo por ateus e afastados da religião como um dos maiores gênios da
Humanidade, com razão foi declarada Doutora da Igreja. Conservamos o soneto em
espanhol para não perder seu sabor. Mas, para quem desejar uma tradução para
nossa língua, ela segue no final.*
No me mueve, mi Dios, para quererte
El cielo que me tienes prometido;
ni me mueve el infierno tan temido
para dejar por eso de ofenderte.
Tú me mueves, Señor; muéve me el verte,
clavado en una cruz y escarnecido;
muéve me ver tu cuerpo tan herido;
muéven me tus afrentas y tu muerte.
Muéve me, enfin, tu amor, y en tal manera,
que aunque no hubiera cielo, yo te amara,
y aunque no hubiera infierno, te temiera.
Para
contrastar com a grande Santa Teresa, apenas uma frase de sua discípula e
êmula, Teresinha do Menino Jesus, que nos mostra também sua elevação de
pensamento e desapegado amor à Virgem das Virgens:
“Oh! Maria! Se eu fosse Rainha do Céu e Tu fosses Teresa, eu quereria ser Teresa para que pudesses ser a Rainha do Céu.”
Até
aqui apresentamos textos de santos canonizados. Vou falar agora de um que ainda
não foi, mas que tenho certeza moral de que um dia será.
Com
efeito, convivendo por mais de 50 anos com o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, fui
uma das muitas testemunhas de suas virtudes, de sua fé ardente que orientava
todas as suas ações, de um extremado amor a Deus e à Sua Mãe Santíssima, e de um
combate sem tréguas ao mal avassalador que domina o mundo de hoje, que ele
chamou de Revolução. (vide seu livro Revolução
e Contra-Revolução).
Em seus escritos espirituais podemos vislumbrar também algo de seu ódio combativo e militante ao pecado e de seu amor sem limites à Santa Igreja.
Isso
transparece com clareza meridiana na Via
Sacra que ele escreveu em 1951 para a revista Catolicismo. [ao lado foto da página com a primeira publicação dessa Via Sacra] As considerações
que nela faz são de tão alto voo de espírito, que nos fazem lembrar a Oração Abrasada de São Luís Maria
Grignion de Montfort.
Por exemplo, na meditação da Quarta Estação (“Encontro de Jesus com sua Mãe”), o ilustre pensador aborda um ângulo muito inusual:
“Quem, Senhora, vendo-Vos assim em pranto, ousaria perguntar por que chorais? Nem a terra, nem o mar, nem todo o firmamento poderiam servir de termo de comparação à vossa dor. Dai-me, minha Mãe, um pouco pelo menos desta dor. Dai-me a graça de chorar a Jesus com as lágrimas de uma compunção sincera e profunda.”
Quem escreveu essa comovente súplica não poderia tê-lo feito
se não tivesse meditado continuamente nas dores de Nossa Senhora durante a
Paixão de seu Divino Filho. Pois isso é um reflexo de suas altíssimas
cogitações.
O Prof. Plinio continua nesse elevado nível:
“Sofreis em união a Jesus. Dai-me a graça de sofrer como Vós e como Ele. Vossa dor maior não foi por contemplar os inexprimíveis padecimentos corpóreos de vosso Divino Filho. Que são os males do corpo em comparação com os da alma? Se Jesus sofresse todos aqueles tormentos, mas a seu lado houvesse corações compassivos! Se o ódio mais estúpido, mais injusto, mais alvar, não ferissem o Sagrado Coração enormemente mais do que o peso da Cruz e dos maus tratos feriam o corpo de Nosso Senhor! Mas a manifestação tumultuosa do ódio e da ingratidão daqueles a quem Ele tinha amado... a dois passos estava um leproso a quem Ele tinha curado... mais longe um cego a quem tinha restituído a vista... pouco além, um sofredor a quem tinha devolvido a paz. E todos pediam a sua morte, todos O odiavam, todos o injuriavam. Tudo isto fazia Jesus sofrer imensamente mais do que as inexprimíveis dores que pesavam sobre seu corpo.”
O que mais haveria a acrescentar depois de tão elevados
pensamentos? Entretanto, o autor prossegue com considerações ainda mais elevadas:
“E havia o pior. Havia o pior dos males. Havia o pecado, o pecado declarado, o pecado protuberante, o pecado atroz. Se todas aquelas ingratidões fossem feitas ao melhor dos homens, mas por absurdo não ofendessem a Deus! Mas elas eram feitas ao Homem-Deus, e constituíam contra toda a Trindade Santíssima um pecado supremo. Eis o mal maior da injustiça e da ingratidão.
“Este mal não está tanto em ferir os direitos do benfeitor, mas em ofender a Deus. E de tantas e tantas causas de dor, o que mais Vos fazia sofrer, Mãe Santíssima, Redentor Divino, era por certo o pecado. E eu, lembro-me dos meus pecados?”
Quanta humildade nessas palavras!
Continuemos. Na Oitava
Estação (Jesus consola as filhas de Jerusalém), esse Vir totus Catholicus
et Apostolicus plene Romanus (“Homem totalmente Católico e Apostólico,
plenamente Romano”) — como se lê na lápide em seu túmulo no cemitério da
Consolação — afirma:
“Não faltaram então almas boas que percebiam a enormidade do pecado que se praticava e temiam a justiça divina.
“Não presencio eu algum pecado assim? ... Não é bem verdade que as leis, as instituições, os costumes são cada vez mais hostis a Jesus Cristo? Não é verdade que se constrói todo um mundo, toda uma civilização baseada sobre a negação de Cristo? Não é bem verdade que Nossa Senhora falou em Fátima, apontando todos estes pecados e pedindo penitência?”
Nessas considerações se pode ver quanta indignação inflamava
o coração desse justo ao ver os pecados mencionados. Com a mesma indignação ele
continua:
“Entretanto, onde está a penitência? Quantos são os que realmente veem o pecado e procuram apontá-lo, denunciá-lo, combatê-lo, disputar-lhe passo a passo o terreno, erguer contra ele toda uma cruzada de ideias, de ato, de viva força, se necessário for? Quantos são capazes de desfraldar o estandarte da ortodoxia absoluta e sem jaça nos próprios lugares onde pompeia a impiedade ou a piedade falsa? Quantos são os que vivem em união com a Igreja este momento que é trágico, como trágica foi a Paixão, este momento em que uma humanidade inteira está escolhendo por Cristo ou contra Cristo?
“Ah, meu Deus, quantos míopes que preferem não ver nem pressentir a realidade que lhes entra olhos a dentro! Quanta calmaria, quanto bem-estar miúdo, quanta pequena delícia rotineira! Quanto saboroso prato de lentilhas a comer.”
Vem então a súplica final, cheia de esperança:
“Dai-me, Jesus, a graça de não ser do número destes. A graça de seguir vosso conselho, isto é, de chorar por nós e pelos nossos. Não de um choro estéril, mas de um pranto que se verte a vossos pés, e que, fecundado por Vós, se transforma para nós em perdão, em energias de apostolado, de luta, de intrepidez.”
Pergunto aos leitores: tudo isso que acabamos de ler,
comovidos e compungidos, não foi escrito por um santo?
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(*)
Não me move, meu Deus, para querer-Te
o céu que me tendes prometido;
nem me move o inferno tão temido
para deixar por isso de ofender-Te.
Tu me moves, Senhor; move-me ver-Te
pregado numa cruz e escarnecido;
move-me ver Teu corpo tão ferido;
movem-me Tuas afrontas e Tua morte.
Move-me, enfim, Teu amor, e de tal
maneira,
que ainda que não houvesse céu eu Te
amaria;
e ainda que não houvesse inferno, Te
temeria.



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