29 de novembro de 2014

CRISTIANOFOBIA EM COLÉGIOS

Seus filhos podem estar aprendendo o oposto da boa educação que recebem no lar

Paulo Roberto Campos

Recebi por e-mail o link para acessar o vídeo do professor de filosofia Welder Walmor Ayala, da cidade de Toledo (PR), que foi afastado do Colégio Mitre. Qual foi o seu crime? — Rezar o Pai-Nosso antes das aulas e criticar o comunismo... 

Um bom número de alunos se manifestou a favor do Prof. Welder, rezando conjuntamente “a pleno pulmões” um Pai-Nosso dentro do colégio. Os estudantes organizaram também um abaixo-assinado pedindo a readmissão do professor. Embora a contragosto, o mesmo foi acolhido pela direção do estabelecimento. 

Os detalhes desse caso — muito sintomático da ação fanática e intolerante da esquerda em nosso País, que deseja tolher a liberdade de expressão e promover a perseguição religiosa — podem ser vistos no vídeo abaixo. 

Inúmeros pais de família têm reclamado de professores que ensinam verdadeiras perversidades morais dentro das salas de aula — por exemplo, o “casamento” homossexual e a “ideologia de gênero”. E que, em nome da "educação sexual", distribuem por vezes até cartilhas pornográficas, muitas delas com o aval do Ministério da Educação... Ensinamentos imorais, que visam destruir a inocência das crianças e denegrir a instituição familiar como estabelecida por Deus, têm tido livre circulação em muitos colégios, mas o ensinamento da moralidade e da virtude vêm sendo cada vez mais censurado.

Fica o alerta aos pais e mães para estarem mais atentos ao que se ensina atualmente nos colégios, pois seus filhos podem estar aprendendo o oposto da boa educação que recebem no lar, e sendo influenciados a terem aversão ao ensinamento tradicional da Santa Igreja.
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Vídeo da manifestação dos alunos em apoio à atitude do Prof. Welder:

27 de novembro de 2014

A Medalha Milagrosa


“As graças serão abundantes para as pessoas que a usarem com confiança” 

Paulo Roberto Campos

Um grande acontecimento na História da Igreja com repercussão mundial foram as revelações da Santíssima Virgem a Santa Catarina Labouré no ano de 1830. Em particular a relativa à Medalha Milagrosa. [acima, foto do verso e do reverso da medalha] 

Corpo incorrupto de Sta. Catarina Labouré
que se pode venerar na Capela da Rue du Bac
Santa Catarina Labouré (1806-1876) pertenceu à congregação religiosa Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo, cujo convento se encontra no número 140 da Rue de Bac, em Paris. Foi na capela ali localizada que ela recebeu as revelações sobrenaturais. Endereço abençoadíssimo, que tive graça de visitar em junho de 2012 e que considero obrigatório para quem vai a Paris. [foto abaixo]

Foram diversas e extraordinárias revelações da Mãe de Deus à
Nesta cadeira Nossa Senhora sentou-se
numa das aparições a Sta. Catarina Labouré
santa francesa, mas limitar-me-ei neste breve artigo à do dia 27 de novembro de 1830 (portanto, há exatos 184 anos). Depois de descrever pormenorizadamente a aparição daquele dia, Santa Catarina Labouré narrou: 

“Formou-se um quadro em torno da Santíssima Virgem, um pouco oval, onde havia, no alto do quadro, estas palavras: ‘Ó Maria concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a Vós’, escritas em letras de ouro. [...] Então uma voz se fez ouvir, que me disse: ‘Fazei cunhar uma medalha com este modelo. Todas as pessoas que a usarem receberão grandes graças, trazendo-a ao pescoço. As graças serão abundantes para as pessoas que a usarem com confiança’”.

Pode-se afirmar que mais do que naquela época, a Medalha de Nossa Senhora das Graças — mais conhecida como Medalha Milagrosa, devido aos inúmeros e estupendos milagres operados por meio dela — é de suma relevância para nossos dias, perturbados por tantas crises. Ela representa uma graça especial concedida por Deus, como que um “salva-vidas”, para não afundarmos no caos atual. Realmente necessitamos de um milagre para obter a conversão da humanidade voltada quase que exclusivamente para os bens terrenos, olvidada que está dos indispensáveis bens espirituais. 

19 de novembro de 2014

ENQUETE SOBRE O CONCEITO DE FAMÍLIA


Paulo Roberto Campos

O portal da Câmara dos Deputados continua promovendo a enquete perguntando:
“Você concorda com a definição de família como núcleo formado a partir da união entre homem e mulher, prevista no projeto que cria o Estatuto da Família?” 
Só mesmo no mundo louco de hoje há lugar para uma pergunta tão idiota. É tão óbvio que Família só pode ser formada como Deus estabeleceu, que eu teria vergonha de recomendar a nossos leitores que votem na tal enquete. Negar que Família é constituída a partir do casamento entre um homem e uma mulher, é negar o óbvio. É negar que 2 + 2 = 4.

Mas no momento, por incrível que pareça, o que é óbvio está contando com número menor (2.091.002 votos) do que aqueles que votaram em algo contrário à natureza (2.192.972 votos). Portanto estão vencendo aqueles que votaram numa aberração: a possibilidade da formação de uma Família a partir de um “casamento” homossexual. 

Assim sendo, precisamos inverter o absurdo resultado atual. Favor acessar o site da Câmara (link abaixo), votar e convidar seus parentes e amigos a votarem também.

Se não votarmos pelo SIM, certamente, inescrupulosos deputados poderão, a pretexto de um resultado pelo que é anti-natural, proporem a modificação do conceito da instituição familiar num Projeto de Lei que visa definir Família como “entidade familiar como o núcleo social formado a partir da união entre um homem e uma mulher, por meio de casamento ou união estável, ou ainda por comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes”. (PL 6583/13). 

http://www2.camara.leg.br/agencia-app/votarEnquete/enquete/101CE64E-8EC3-436C-BB4A-457EBC94DF4E

14 de novembro de 2014

A remoção de um grande Cardeal

Cardeal Mindszenty preso pelos comunistas húngaros


Roberto de Mattei
Corrispondenza Romana, nº 1365, 12 novembre 2014 
[Tradução de Hélio Dias Viana]

O Papa, enquanto supremo Pastor da Igreja universal, tem o pleno direito de remover de seu cargo um bispo ou um cardeal, mesmo insigne. Ficou célebre o caso do cardeal Louis Billot (1846-1931), um dos maiores teólogos do século XX, que em 13 de setembro de 1927 entregou o barrete cardinalício nas mãos de Pio XI, com o qual havia entrado em colisão sobre o caso da Action Française, e que terminou sua vida como simples jesuíta, na casa de sua Ordem em Galloro. 


Um outro caso famoso é o do Cardeal Jósef Mindszenty,[foto] removido por Paulo VI do cargo de Arcebispo de Esztergom e Primaz da Hungria pela sua oposição à Ostpolitik vaticana. Muitos outros bispos foram destituídos nos últimos anos por envolvimento em escândalos financeiros ou morais. Mas se ninguém pode negar ao Sumo Pontífice o direito de demitir qualquer prelado pelas razões que ele julgar mais oportunas, ninguém pode também tolher aos fiéis o direito que lhes assiste como seres racionais, antes ainda do que como batizados, de se interrogarem sobre as razões dessas destituições, sobretudo se as mesmas não forem declaradas explicitamente.

Isso explica a consternação de muitos católicos com a notícia,
formalmente comunicada pela Sala de Imprensa do Vaticano em 8 de novembro, da transferência do Cardeal Raymond Leo Burke [foto] de seu cargo de Prefeito da Signatura Apostólica para o de Patrono da Ordem de Malta. Com efeito, quando a transferência, como neste caso, concerne um cardeal ainda relativamente jovem (66 anos) e oriundo de um posto da máxima importância para outro puramente honorífico, sem sequer respeitar o questionável princípio promoveatur ut amoveatur [promover para remover], trata-se evidentemente de um castigo público. E, neste caso, é lícito perguntar-se quais são as acusações contra o prelado em questão. 

O Cardeal Burke desempenhou de fato muito bem seu cargo de Prefeito da Suprema Signatura Apostólica e é estimado por todos como um proeminente canonista e homem de profunda vida interior, tendo sido recentemente definido por Bento XVI como um “grande cardeal”. Do quê ele é culpado?

Os observadores do Vaticano das mais diversas tendências responderam com clareza a essa pergunta. O Cardeal Burke teria sido acusado de ser “muito conservador” e de estar em desacordo com o Papa Francisco. Após a malfadada exposição introdutória do Cardeal Kasper no Consistório de 20 de fevereiro de 2014, o cardeal americano promoveu a publicação de um livro em que cinco influentes purpurados e outros estudiosos expressaram suas respeitosas reservas em relação à nova linha vaticana, aberta à hipótese da concessão da comunhão aos divorciados recasados e do reconhecimento das uniões de fato. 

As apreensões dos cardeais se viram confirmadas pelo Sínodo de outubro, quando as teses mais arriscadas em termos de ortodoxia foram de fato recolhidas na relatio post disceptationem que antecedeu o relatório final. A única razão plausível é que o Papa tenha oferecido em uma bandeja a cabeça do Cardeal Burke ao Cardeal Kasper, e através deste ao Cardeal Karl Lehmann, ex-presidente da Conferência Episcopal Alemã. Com efeito, é sabido por todos, pelo menos na Alemanha, que quem ainda está puxando as cordas da dissidência alemã contra Roma é o próprio Lehmann, antigo discípulo de Karl Rahner. O padre Ralph Wiltgen, em seu livro O Reno se lança no Tibre, trouxe à luz o papel de Rahner no Concílio Vaticano II, a partir do momento em que as conferências episcopais passaram a desempenhar um papel determinante. 

As Conferências Episcopais eram de fato dominadas por seus peritos em teologia e, uma vez que a mais poderosa delas era a alemã, foi decisivo o papel de seu principal teólogo, o jesuíta Karl Rahner. O padre Wiltgen o resume de forma contundente, ao descrever a força do lobby progressista coligado naquilo que ele chama de Aliança Europeia: “A posição dos bispos de língua alemã sendo regularmente adotada pela aliança europeia, e a posição da aliança sendo, o mais das vezes, adotada pelo Concílio, bastava que um teólogo fizesse sua opinião ser adotada pelos bispos de língua alemã para que o Concílio as fizesse suas. Ora, tal teólogo existia: era o Padre Karl Rahner S.J.”. 

Cinquenta anos após o Concílio Vaticano II, a sombra de Rahner ainda perdura na Igreja Católica, exprimindo-se, por exemplo, nas posições pró-homossexuais de alguns dos discípulos mais jovens dos cardeais Lehmann e Kasper, como o cardeal-arcebispo de Munique, Dom Reinhard Marx, e o arcebispo de Chieti, Dom Bruno Forte. 

O Papa Francisco se pronunciou contra duas tendências, a do progressismo e a do tradicionalismo, embora sem esclarecer qual é o conteúdo desses dois rótulos. Mas se, de palavra, ele se distancia desses dois pólos que se enfrentam hoje na Igreja, na verdade toda a sua compreensão é reservada ao “progressismo”, enquanto o machado se abate sobre o que ele chama de “tradicionalismo”. A destituição do Cardeal Burke tem um significado exemplar análogo à destruição em curso dos Franciscanos da Imaculada. 

Muitos observadores têm atribuído ao Cardeal Braz de Aviz o projeto de dissolução do Instituto, mas agora ficou evidente para todos que o Papa Francisco compartilha inteiramente a decisão. Não se trata da questão da Missa tradicional, que nem o Cardeal Burke nem os Franciscanos da Imaculada celebram regularmente, mas de sua atitude de inconformidade com a política eclesiástica hoje dominante. 

Por outro lado, o Papa entreteve-se longamente com os representantes dos chamados “Movimentos sociais”, de orientação ultramarxista, que se reuniram em Roma de 27 a 29 de outubro,(*) e em julho passado nomeou consultor do Conselho Pontifício para a Cultura um sacerdote abertamente heterodoxo, o padre Pablo d’Ors. Cabe perguntar-se quais serão as consequências desta política, tendo presente dois conceitos: o princípio filosófico da heterogênese dos fins, segundo o qual determinadas ações produzem efeitos contrários às intenções, e o princípio teológico da ação da Providência na História, pelo qual, conforme as palavras de São Paulo, “omnia cooperantur in bonum” (Rom. 8:28). Nos desígnios de Deus, tudo coopera para o bem. 

O caso do Cardeal Burke e caso o dos Franciscanos da Imaculada, como, em um nível diferente, o caso da Fraternidade São Pio X, são apenas os sintomas de um mal-estar difuso que fazem realmente a Igreja parecer como um barco à deriva. Mas, ainda que esses indicadores desaparecessem, ou seja, que a Fraternidade São Pio X não existisse, que os Franciscanos da Imaculada fossem dissolvidos ou “reeducados” e o Cardeal Burke reduzido ao silêncio, a crise da Igreja não deixaria por isso de ser ainda mais grave. O Senhor prometeu que a Barca de Pedro jamais afundará, não graças à habilidade do timoneiro, mas pela Divina assistência à Igreja, que vive, pode-se dizer, entre as tempestades, sem jamais deixar-se submergir pelas ondas (Mt 8: 23-27 ; Mc 4, 35-41; Lc 8: 22-25). 

Os fiéis católicos não estão desencorajados: cerram fileiras, voltam seus olhos para o Magistério contínuo e imutável da Igreja, que coincide com a Tradição, buscam força nos Sacramentos, continuam a rezar e a agir, na convicção de que, na História da Igreja como na vida dos homens, o Senhor intervém apenas quando tudo parece perdido. O que se pede de nós não é uma inação resignada, mas uma luta confiante na certeza da vitória. 


Cardeal Mindszenty com Paulo VI,
que obteve o que o regime comunista
da Hungria não tinha conseguido.
Face ao Cardeal Burke, e já prevendo as novas provações que certamente virão para ele, gostaríamos de repetir aqui as palavras com as quais, em 10 de fevereiro de 1974, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira se referiu ao martírio espiritual infligido por Paulo VI ao Cardeal Mindszenty, quando “as mãos mais sagradas da terra abalaram a coluna e a atiraram, partida, ao chão”. E concluiu: “Se o Arcebispo caiu ao perder a sua diocese, cresceu até as estrelas a figura moral do Bom Pastor que dá a vida pelas suas ovelhas”.


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(*) Nota do editor deste Blog: A respeito do 

Encontro Mundial de Movimentos Populares no Vaticano

recomendo com empenho a leitura da esplêndida reportagem de autoria de Nelson Ramos Barretto, publicada no site da "Agência Boa Imprensa" (ABIM). com o título:

Tentativa de ressuscitar grupos revolucionários?

8 de novembro de 2014

Ainda sobre o Sínodo que deveria ter sido em defesa da família

Abaixo transcrevo uma excelente matéria do Prof. Roberto de Mattei — conceituado historiador, professor de História da Igreja e do Cristianismo na Universidade Europeia de Roma. 

Em tal matéria, publicada no site do autor ("Corrispondenza Romana" , em 5-11-14), desenvolve-se e aprofunda o tema que temos tratado neste espaço sobre o tão caótico "Sínodo da Família", transcorrido no Vaticano em outubro último. Assunto que muito nos concerne, pois, segundo o intelectual italiano, está em curso uma tentativa de republicanizar a Igreja e os católicos devemos saber como resistir a essa tentativa autodemolidora.

Esse sínodo dos bispos bem poderia passar para a História como "Sínodo Anti-Família", uma vez que fracassou no que deveria ter sido seu objetivo: fortalecer os valores da instituição familiar que têm sido "bombardeados" por princípios e costumes desse mundo neo-pagão. 

O texto que segue foi traduzido por Hélio Dias Viana, a quem agradecemos a gentileza. 

O Concílio Vaticano I e o Sínodo de 2014 

Roberto de Mattei 
Corrispondenza Romana
5 de novembro de 2014 

A fase histórica que se abre após o Sínodo de 2014 exige da parte dos católicos não somente a disponibilidade para a polêmica e a luta, mas também uma atitude de prudente reflexão e estudo dos novos problemas que estão sobre o tapete. 

O primeiro desses problemas é a relação dos fiéis com uma autoridade que parece estar faltando com a sua missão. O cardeal Burke, em uma entrevista à "Vida Nueva" em 30 de outubro, afirmou que “há uma forte sensação de que a igreja está como um navio sem timão”. A imagem é forte, mas corresponde perfeitamente ao quadro geral.

O caminho a seguir nesta confusa situação não é por certo o de substituir o Papa e os bispos à frente da Igreja, em cujo supremo timão permanece sempre Jesus Cristo. A Igreja não é uma assembléia democrática, mas uma sociedade monárquica e hierárquica fundada divinamente sobre a instituição do Papado, que representa a pedra insubstituível. O sonho progressista de republicanizar a Igreja e de transformá-la em um estado de colegialidade permanente é destinado a colidir com a constituição Pastor Aeternus, do Concílio Vaticano I, que definiu não só o dogma da infalibilidade, mas sobretudo o poder pleno e imediato do Papa sobre todos os bispos e toda a Igreja. 

Nas discussões do Concílio Vaticano I, a minoria anti-infalibilista, ecoando a tese conciliarista e galicana, afirmava que a autoridade do Papa não residia apenas no Pontífice, mas no Papa unido aos bispos. Um grupinho de Padres conciliares pediu a Pio IX [quadro abaixo] para declarar no texto dogmático que o Pontífice era infalível pelo testemunho das Igrejas (“nixus testimonio Ecclesiarum”), mas o Papa quis retocar o esquema no sentido oposto, fazendo adicionar à fórmula “ideoque eiusmodi Romani Ponti-ficis definitionis esse ex se irreformabilis” o inciso “non autem ex consensu Ecclesiae” (estas definições do Romano Pontífice são, portanto, irreformáveis per se e não pelo consenso da Igreja), para esclarecer definitivamente que o consentimento da Igreja não constituía em absoluto condição para a infalibilidade das definições ex cathedra. 
Bem-aventurado Pio IX: o poder supremo do Papa não é por delegação de todos os bispos ou de toda a Igreja, mas em virtude de um direito divino.
Em 18 de julho, na presença de uma imensa multidão que enchia a Basílica, o texto final da Constituição Apostólica Pastor Aeternus foi aprovado com 525 votos a favor e dois contra. Cinquenta e cinco membros da oposição se abstiveram. Logo após a votação, Pio IX promulgou solenemente a referida Constituição como regra de fé. 

A Pastor Aeternus afirma que o primado do Papa consiste em um poder real e supremo de jurisdição, independente de qualquer outro poder, sobre todos os Bispos e todo o rebanho de fiéis. Ele tem esse poder supremo não por delegação de todos os bispos ou de toda a Igreja, mas em virtude de um direito divino. O fundamento da soberania papal não consiste no carisma da infalibilidade, mas na primazia apostólica que o Papa possui sobre a Igreja universal como sucessor de Pedro e Príncipe dos Apóstolos. 

A Constituição Pastor Aeternus afirma com clareza quais são as condições da infalibilidade papal. Estas condições foram amplamente ilustradas, na sua intervenção de 11 de julho de 1870, por Dom Vincent Gasser, bispo de Brixen e porta-voz oficial da defesa da fé. Em primeiro lugar, precisou Dom Gasser, o Papa não é infalível como pessoa privada, mas como “pessoa pública”. E por “pessoa pública” deve-se entender que o Papa está cumprindo o seu oficio falando ex cathedra como Doutor e Pastor universal; em segundo lugar, o Papa deve exprimir-se em matéria de fé ou de costume, res fidei vel morum. Por fim, ele deve querer pronunciar uma sentença definitiva sobre a matéria objeto de sua intervenção. A natureza do ato que empenha a infalibilidade do Papa deve ser expressa pela palavra “definir”, que tem como correlativo a fórmula ex cathedra. 

O Papa não é infalível quando exerce o seu poder de governo: as leis disciplinares da Igreja, diversamente das leis divinas e naturais, podem de fato mudar. Mas é de fé divina e, portanto, assegurada pelo carisma da infalibilidade, a constituição monárquica da Igreja, que confere ao Romano Pontífice a plenitude da autoridade. Esta jurisdição compreende, além do poder de governo, o de Magistério. 

A infalibilidade do Papa não significa de forma alguma que ele goza, em matéria de governança e de ensino, de um poder ilimitado e arbitrário. O dogma da infalibilidade, enquanto define um supremo privilégio, fixa limites precisos, admitindo a possibilidade da infidelidade, do erro, da traição. Nas orações pelo Sumo Pontífice não haveria do contrário necessidade de se rezar “ut non tradat in animam inimicorum eius”. Se fosse impossível o Papa passar para o campo inimigo, não ocorreria rezar para que tal não aconteça. Mas a traição de Pedro é o paradigma de uma possível infidelidade que paira desde então sobre todos os Papas da História até o fim do mundo. 

Apesar de ser a mais alta autoridade na Terra, o Papa está suspenso entre os cumes de uma fidelidade heroica ao seu mandato e o abismo sempre presente da apostasia. Estes são os problemas que o Concílio Vaticano I teria enfrentado se não tivesse sido suspenso em 20 de outubro de 1870, um mês após a entrada do exército italiano em Roma. São estas as questões que os católicos ligados à Tradição devem hoje estudar e aprofundar. Sem negar de nenhum modo a infalibilidade do Papa e a sua suprema autoridade de governo, é possível e de que modo resistir-lhe, se ele falhar em sua missão, que é a de assegurar a transmissão inalterada do depósito da fé e da moral entregue por Jesus Cristo à Igreja?

Este não foi, infelizmente, o caminho seguido pelo Concílio Vaticano II, que também se propôs continuar, e de algum modo integrar, o Vaticano I. A tese da minoria anti-infalibilista, derrotada por Pio IX, ressurgiu na aula do Vaticano II sob a nova forma do princípio da colegialidade. Segundo alguns membros da Nouvelle Théologie, como o Padre Yves Congar, a minoria de 1870 obteve, quase um século depois, uma estrondosa revanche. Se o Vaticano I havia concebido o Papa como o vértice de uma perfecta societas, hierárquica e visível, o Vaticano II e, sobretudo, os provimentos pós-conciliares, redistribuíram o poder no sentido horizontal, atribuindo-o às Conferências Episcopais e às estruturas sinodais. 

Hoje o poder da Igreja parece ter sido transferido para o “povo de Deus”, que compreende as dioceses, as comunidades de base, as paróquias, os movimentos e associações de fiéis. A infalibilidade e a suprema jurisdição, subtraídas à autoridade papal, são atribuídas à base católica, cujas exigências os Pastores da Igreja devem se cingir a interpretar e expressar. O Sínodo dos Bispos de outubro pôs em evidência os resultados catastróficos desta nova eclesiologia, que pretende basear-se em uma “vontade geral” expressa através de pesquisas e questionários de todos os tipos. Mas qual é hoje a vontade do Papa, ao qual compete por mandato divino a missão de preservar a lei natural e divina?

O certo é que em tempos de crise como a que atravessamos, todos os batizados têm o direito de defender a sua fé, ainda que opondo-se aos pastores inadimplentes. Aos Pastores e teólogos autenticamente ortodoxos incumbe por sua vez a tarefa de estudar a extensão e os limites deste direito de resistência.

4 de novembro de 2014

Meio milhão de franceses nas ruas contra a revolução sexual socialista


*       Marcelo Dufaur
Correspondente em Paris
Fonte: Revista Catolicismo, Edição 767 (Novembro/2014

Cerca de 530.000 franceses desfilaram no dia 5 de outubro em Paris e Bordeaux contra dois projetos imorais do governo socialista: inseminação artificial em duplas lésbicas (procriação medicamente assistida ou PMA) e aluguel de ventres (gestação por outrem ou GPA), este último requerido por um par de homossexuais. Essas operações atualmente são ilegais e portanto não podem ser financiadas pelo sistema público de saúde. 

Os manifestantes foram convocados pelo conjunto de organizações conhecido como “La Manif pour tous”, que nos dois anos anteriores promoveu multitudinários protestos contra o “casamento” homossexual, segundo informou a imprensa francesa, como o periódico “La Croix” (5-10-14), porta-voz oficioso do Episcopado. 


Falava-se anteriormente de certa desarticulação ou desânimo em relação ao movimento. Mas as passeatas mostraram tratar-se de mera torcida esquerdista visando esmorecê-lo. O público familiar, em sua larga maioria católico conservador, demonstrou muita força, deixando atônitos muitos jornalistas, especialistas e sociólogos acostumados aos raciocínios de laboratório.

Infelizmente — e como não é novidade — a grande mídia brasileira pouco ou nada informou sobre essas colossais manifestações populares, que rumam no sentido oposto ao das esquerdas e da Revolução Sexual. 

Procurando esvaziar as manifestações, Manuel Valls, primeiro ministro socialista, concedeu entrevista ao “La Croix”, prometendo que os projetos questionados não serão aprovados. Em promessa de político em apuros, ainda mais sendo ele socialista, só um cúmplice ou um simplório pode nela acreditar. 


“Chega de palavras, nós queremos fatos”

Muitíssimos pais de família acompanhados de seus filhos, bem como numerosas delegações vindas de todos os rincões do país, desfilaram em Paris entre a Porte Dauphine e Montparnasse. 

Tal era a extensão do cortejo, que na altura da famosa cúpula dos Invalides ele passou durante cinco horas!

Muitas faixas exibiam as razões do mal-estar popular: “Espancamento tributário das famílias: STOP”; “O ser humano não é uma mercadoria”, ou ainda “A mulher não é uma máquina de fazer bebês”.

Nada a ver com as passeatas financiadas pelo governo ou por algum grupo de pressão. Os manifestantes pagaram do próprio bolso todas as despesas de transporte e outras, chegando de ônibus, de trem, ou compartilhando os respectivos carros em combinações feitas através das redes sociais.

Laurence veio de Mans (Sarthe) com seus dois filhos pequenos. Ele, que nunca perdeu uma manifestação, disse: “As garantias de Manuel Valls, vê-se bem que são um jogo. Agora chega de palavras, queremos fatos”. 

Um grupo de estudantes veio de Friburgo, Suíça, onde cursam filosofia e teologia. Um deles, Grégoire, de 23 anos, disse sentir-se mal diante das manobras visando “mudar nossa moral para fundamentá-la em outras coisas que não são a ordem natural. A ‘gestação por outro’ conduz à coisificação dos homens e pode dar na eugenia”.

Os manifestantes continuam exigindo a revogação da lei de “casamento” homossexual. 


“Este não vai ser meu presidente” 

Em Bordeaux, entre os 30.000 manifestantes provenientes das regiões do sul como Aquitaine, Midi-Pyrénées, Poitou-Charentes, Limousin e Vendée, não faltavam as críticas contra o prefeito da cidade, Alain Juppé, que embora sendo pré-candidato presidencial de “direita”, declarou que não aboliria a lei de “casamento” homossexual. 

Geoffroy, de 36 anos, pai de cinco crianças e residente em Pau, não distante de Lourdes, montou seu cartaz ironizando os ditos desse político de direita, com a frase: “Este não vai ser meu presidente”. 

“Casamento” homossexual, “gestação por outrem”, “procriação medicamente assistida”, “ideologia de gênero” e outras aberrações igualitárias acabaram formando um pacote de procedimentos moralmente perversos voltados contra a própria finalidade da família e repudiados pelas manifestações. 

Para a imensa maioria dos presentes, a manifestação passa por cima das posições dos partidos políticos, inclusive daqueles que vêm subindo por se dizerem defensores da família. “Não podemos alugar o corpo da família”, insistia Jean-Baptiste de Scorraille, prefeito de bairro em Toulouse. 

Para Constance, 19 anos, de Bayonne, “é importante mostrar com estas manifestações que a família, inclusive os jovens, estão contra este mundo que deseja a mercantilização das crianças”.

24 de outubro de 2014

Segundo Turno das Eleições — algumas considerações

Paulo Roberto Campos

Leia a frase abaixo prezado leitor, mas, por favor, sem verificar a fonte (que consta no final do artigo), pois desejo que responda a uma pergunta sem ser influenciado pelo nome do autor.
“A injustiça desanima o trabalho, a honestidade, o bem; cresta em flor os espíritos dos moços, semeia no coração das gerações que vêm nascendo a semente da podridão, habitua os homens a não acreditar senão na estrela, na fortuna, no acaso, na loteria da sorte, promove a desonestidade, promove a venalidade, promove a relaxação, insufla a cortesania, a baixeza, sob todas as suas formas. 
De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto”.(*) 
Não é verdade que estas considerações servem como luvas para as mãos de nossos atuais governantes? 

Nossos jornais — que em tempos de normalidade deveriam noticiar os grandes feitos do Brasil para conhecimento nosso e dos povos do mundo inteiro — hoje mais parecem páginas policiais que nos envergonham diante de nossos filhos e das nações. 

Vemos o aparelhamento do Estado em proveito não apenas de alguns bolsos insaciáveis, mas para favorecer a dissolução dos bons costumes, a desagregação da família, a perseguição religiosa e para lançar o País numa luta de classes e de raças de brasileiros contra brasileiros, de negros contra brancos, de empregados contra patrões, de alunos contra professores, de filhos contra pais. 

Exemplo disso é o bolivariano Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3), aprovado por Lula da Silva no final de 2009, e que o governo pretende aplicar inteiramente caso vença as próximas eleições. Assim como a aplicação do ditatorial “Decreto 8.243″ — assinado por Dilma Rousseff no dia 23 de maio p.p. —, que subjugará País a um sistema bolivariano de governo, com o estabelecimento de “conselhos populares”, no mesmo estilo dos soviets oriundos da antiga URSS. 

Em meados do ano passado, tivemos a impressão de que a sociedade brasileira tinha por fim resolvido reagir contra a sovietização do País e a tantos outros escândalos. O “gigante pela própria natureza” parecia despertar… Foram as gigantescas manifestações de rua, que trouxeram a tantos de nós a esperança de uma mudança real no Brasil. Mas, infelizmente, parece que o sono voltou e o gigante dormiu… Será? Espero que eu esteja enganado e que ele resolva dar um basta a tantas mazelas que nos têm envergonhado. Assim, o País poderá tomar um rumo novo em direção à grandiosa vocação que a Providência Divina destinou a esta Terra de Santa Cruz.

A propósito das presentes considerações, sugiro a leitura do judicioso manifesto intitulado Eleição presidencial: o Brasil ante o perigo esquerdista e o vácuo político. Ele foi publicado pelo Instituto Plinio Corrêa de Oliveira (www.ipco.org.br) em razão do segundo turno das eleições, no próximo dia 26.
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(*) Discurso de Ruy Barbosa, em 1914, no Senado Federal. Ruy Barbosa, Obras Completas, Vol. XVI tomo VI, pág. 187.

17 de outubro de 2014

O Sínodo da Família e a Revolução da Sorbonne de Maio de 68

Paulo Roberto Campos

No dia 15 do corrente mês de outubro, “Il Foglio” [fac-símile ao lado], diário italiano especializado em temas relacionados com o Vaticano, publicou uma importante matéria do Prof. Roberto de Mattei sobre o Sínodo da Família — tema de especial atenção dos leitores deste blog, dedicado a tratar particularmente das questões que afetam a instituição familiar em nossos dias.

Conceituado historiador, professor de História da Igreja e do Cristianismo na Universidade Europeia de Roma, Roberto de Mattei publicou em 2010 o famoso livro O Concílio Vaticano II – uma história nunca escrita.

Na matéria para “Il Foglio”, ele analisa as afirmações contidas no documento de autoria do Cardeal húngaro Péter Erdö, relator do Sínodo da Família, as quais foram divulgadas pela mídia do mundo inteiro no dia 13 p.p.

Por exemplo, a de que “as pessoas homossexuais têm dons e qualidades para oferecer à comunidade cristã.” E ainda outras, que igualmente colidem com o ensinamento do magistério tradicional da Igreja, relativas à comunhão aos recasados, à nulidade de casamentos, ao divórcio, aos métodos contraceptivos, às relações extraconjugais, à adoção de filhos por duplas de homossexuais, etc.

Tais afirmações, que causaram muita perplexidade, confusão e escândalo em incontáveis almas católicas, tampouco coadunam com as admiráveis e inequívocas afirmações de São Paulo Apóstolo, em carta aos Coríntios (6,9): “Nem os impuros, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os difamadores, nem os salteadores hão de herdar o reino de Deus”. 

O renomado escritor italiano faz uma correlação entre o mencionado relatório e a revolução anárquica da Sorbonne, de maio de 1968, cujo lema era “É proibido proibir”. Ou seja, tudo é permitido, inclusive o pecado; nada é condenável, inclusive os atos imorais. 

Bem sabemos que o confuso e perplexitante relatório é um rascunho e não um documento final e oficial do Sínodo da Família. Contudo, não deixa de ser grave sua divulgação e inaceitável seu conteúdo, pois contradiz a doutrina tradicional, indefectível e inalterável, da Igreja. Foi, aliás, o que declarou o líder da conferência dos bispos poloneses, o Cardeal Stanislaw Gadecki, que caracterizou o documento de “inaceitável”, pois “desvia dos ensinamentos da Igreja”.

Rezemos para que o documento final daquela assembleia (que se encerrará no próximo dia 19) seja INTEIRAMENTE conforme à imaculada doutrina sempre ensinada pela Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Um documento que não contenha concessões ao espírito do mundo neopagão dominado pela corrupção moral. Diante desse mundo, a nossa posição deve ser a de seguir o conselho de São Paulo Apóstolo: “Permanecei, pois, constantes, irmãos, e conservai as tradições que aprendestes, ou por nossas palavras, ou por nossa carta” (Segunda Epístola aos Tessalonicenses, 2, 15).

Com esta breve introdução, recomendo vivamente a leitura da matéria do Prof. Roberto de Mattei. O texto que segue foi traduzido por Hélio Dias Viana.

Resistir à tendência herética. O relatório do Cardeal Erdö elimina com um só golpe o pecado e a lei natural 

Roberto de Mattei 
Il Foglio, 15-10-2014 

Eliminado o sentido do pecado; abolidos os conceitos de bem e de mal; suprimida a lei natural; arquivada qualquer referência a valores positivos como virgindade e castidade. Com o relatório apresentado em 13 de outubro de 2014 no Sínodo sobre a família pelo Cardeal Péter Erdö, a revolução sexual irrompe oficialmente na Igreja, com consequências devastadoras para as almas e a sociedade. 

A Relatio post disceptationem elaborada pelo Cardeal Erdö é o relatório resumitivo da primeira semana de trabalhos do Sínodo e aquele que orienta as suas conclusões. A primeira parte do documento pretende impor, com uma linguagem derivada do pior ‘Sessenta e oito’ [NdT: Revolução anarquista da Sorbonne, de maio de 1968], a “mudança antropológico-cultural” da sociedade como um “desafio” para a Igreja. Diante de um quadro que da poligamia e do “casamento por etapas” africanos chega à “prática da convivência” da sociedade ocidental, o relatório encontra a existência de “um difuso desejo de família”. Nenhum elemento de avaliação moral está presente. À ameaça do individualismo e do egoísmo individualista o texto contrapõe o aspecto positivo da “relacionalidade”, considerada um bem em si, sobretudo quando tende a transformar-se em relação estável (nos. 9-10). 

A Igreja renuncia a emitir juízos de valor para limitar-se a “dizer uma palavra de esperança e de sentido” (no. 11). Afirma-se em seguida um novo surpreendente princípio moral, a “lei da gradualidade”, que permite colher os elementos positivos em todas as situações até agora definidas como pecadoras pela Igreja. O mal e o pecado propriamente não existem. Existem apenas “formas imperfeitas de bem” (no. 18), segundo uma doutrina dos “graus de comunhão” atribuída ao Concílio Vaticano II. “Tornando-se portanto necessário um discernimento espiritual em relação às coabitações, aos matrimônios civis e aos divorciados recasados, compete à Igreja reconhecer que a semente do Verbo se espalhou além das fronteiras visíveis e sacramentais” (no. 20).

O problema dos divorciados recasados é um pretexto para fazer passar um princípio que mina dois mil anos de moral e de fé católica. Após a Gaudium et Spes, “a Igreja se volta com respeito para aqueles que participam em sua vida de modo incompleto e imperfeito, prezando mais os valores positivos que guardam, do que as limitações e as faltas” (ibidem). Isso significa que cai todo o tipo de condenação moral, porque qualquer pecado passa a constituir uma forma imperfeita de bem, um modo incompleto de participar na vida da Igreja. “Nesse sentido, uma nova dimensão da pastoral familiar hodierna consiste em entender a realidade dos casamentos civis e, feitas as devidas diferenças, também das coabitações” (no. 22).

E isso sobretudo “quando a união alcança uma notória estabilidade através de um vínculo público, e caracteriza-se por profunda afeição, de responsabilidade em relação à prole, da capacidade de resistir nas provas” (ibid). Com isso fica de cabeça para baixo a doutrina da Igreja segundo a qual a estabilização no pecado através do casamento civil constitui um pecado mais grave do que a união sexual ocasional e passageira, porque esta última permite com mais facilidade o retorno ao caminho certo. “Uma sensibilidade nova na pastoral hodierna consiste em entender a realidade positiva dos casamentos civis e, feitas as devidas diferenças, também das coabitações” (no. 36).

A nova pastoral impõe, portanto, o silêncio sobre o mal, renunciando à conversão do pecador e aceitando o status quo como irreversível. São estas que o relatório chama de “opções pastorais corajosas” (ponto 40). A coragem, ao que parece, não está em opor-se ao mal, mas em adaptar-se a ele. As passagens dedicadas ao acolhimento às pessoas homossexuais são as que pareceriam mais escandalosas, mas constituem a consequência lógica dos princípios acima expostos. Até o homem da rua compreende que se ao divorciado recasado é possível aproximar-se dos sacramentos, tudo é permitido, a começar pelo pseudo casamento homossexual.

Nunca, realmente nunca, sublinha Marco Politi no “Il Fatto” de 14 de outubro, ele tinha lido, em um documento oficial produzido pela hierarquia eclesiástica, uma frase do gênero: “As pessoas homossexuais têm dons e qualidades para oferecer à comunidade cristã.” Seguida de uma pergunta dirigida aos bispos do mundo inteiro: “estamos em condições de acolher essas pessoas, garantindo-lhes um espaço de fraternidade em nossas comunidades?” (no. 50). Embora não equiparando as uniões entre pessoas do mesmo sexo ao casamento entre homem e mulher, a Igreja se propõe “elaborar maneiras realistas de crescimento afetivo e de maturidade humana e evangélica integrando a dimensão sexual” (no. 51). “Sem negar os problemas morais conexos às uniões homossexuais, nota-se que há casos em que o suporte mútuo com vistas ao sacrifício constitui um apoio precioso para a vida dos parceiros” (no. 52).

Nenhuma objeção de princípio vem expressa em relação à adoção de crianças por duplas homossexuais: aqui limita-se a dizer que “a Igreja tem uma atenção especial para com as crianças que vivem com casais do mesmo sexo, insistindo que em primeiro lugar são colocados sempre as exigências e os direitos dos pequenos” (ibid). Na conferência de imprensa de apresentação, Mons. Bruno Forte chegou a auspiciar “uma codificação dos direitos que podem ser assegurados às pessoas que vivem em uniões homossexuais”.

As palavras fulminantes de São Paulo segundo as quais “nem os impuros, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os difamadores, nem os salteadores hão de herdar o reino de Deus” (I Carta aos Coríntios, 6, 9) ficam esvaziadas de sentido para os malabaristas da nova moralidade pansexual. Para eles é necessário entender a realidade positiva daquele que foi chamado de pecado que clama ao Céu por vingança (Catecismo de São Pio X). A “moral da proibição” deve ser substituída pela do diálogo e da misericórdia, e o slogan de 68, “é proibido proibir”, é atualizado pela fórmula pastoral segundo a qual “nada se pode condenar”. 

Não caem apenas dois mandamentos, o sexto e o nono, que proíbem pensamentos e atos impuros fora do casamento, mas desaparece a ideia de uma ordem natural e divina objetiva sintetizada no Decálogo. Não existem atos intrinsecamente ilícitos, verdades e valores morais pelos quais se deve estar disposto a dar até a vida, como os define a encíclica Veritatis Splendor (no. 51 e no. 94). No banco dos réus não estão apenas a Veritatis Splendor e os recentes pronunciamentos da Congregação para a Doutrina da Fé em matéria de moralidade sexual, mas o próprio Concílio de Trento que formulou dogmaticamente a natureza dos sete sacramentos, a começar pela Eucaristia e pelo Matrimônio.

Tudo começa em outubro de 2013, quando o Papa Francisco, após ter anunciado a convocação dos dois sínodos sobre a família, o ordinário e o extraordinário, promove um “Questionário” dirigido aos bispos de todo o mundo. O uso enganoso de pesquisas e questionários é bem conhecido. A opinião pública julga que uma escolha é justa quando feita pela maioria das pessoas. E as sondagens atribuem a essa maioria, opiniões já predeterminadas pelos manipuladores do consenso. O questionário desejado pelo Papa Francisco abordou os temas mais prementes, da contracepção à comunhão aos divorciados, das uniões de fato aos casamentos entre homossexuais, mais com o objetivo de orientação que de informação.

A primeira resposta, publicada em 3 de fevereiro pela Conferência Episcopal alemã (“Il Regno Documenti”, 5 [2014], pp. 162-172), foi claramente anunciada para condicionar a preparação do Sínodo e sobretudo para oferecer ao cardeal Kasper a base sociológica de que precisava para a preleção ao Consistório que o Papa Francisco lhe havia confiado. O que de fato emergiu foi a recusa explícita dos católicos alemães “às pretensões da Igreja sobre as relações sexuais pré-maritais, a homossexualidade, os divorciados recasados e o controle da natalidade” (p. 163). “As respostas recebidas das dioceses — dizia-se ainda — deixam entrever quão grande é a distância entre os batizados e a doutrina oficial, sobretudo no que diz respeito à convivência pré-matrimonial, ao controle de natalidade e à homossexualidade” (p. 172).

Esta distância não vinha apresentada como uma separação dos católicos em relação ao Magistério da Igreja, mas como uma incapacidade da Igreja em compreender e secundar o curso dos tempos. O cardeal Kasper, em sua exposição ao Consistório de 20 de fevereiro, definirá tal distância de um “abismo” que a Igreja deveria ter preenchido adaptando-se à prática da imoralidade.

De acordo com um dos seguidores do cardeal Kasper, o sacerdote genovês João Cereti, conhecido por um estudo tendencioso sobre o divórcio na Igreja primitiva, o questionário foi promovido pelo Papa Francisco, a fim de evitar que o debate ocorresse “em ambientes confinados” (“Il Regno-Attualità” 6 [3014], p. 158). Mas se é verdade que o Papa desejava que a discussão se desenvolvesse de forma transparente, não se compreende a decisão de realizar o Consistório extraordinário de fevereiro e, em seguida, o Sínodo de outubro a portas fechadas. O único texto de que se teve conhecimento, graças ao “Foglio”, foi a exposição do Cardeal Kasper. Em seguida baixou o silêncio sobre os trabalhos.

Em seu Diário do Concílio, em 10 de novembro de 1962, o Padre Chenu anota estas palavras do padre Giuseppe Dossetti, um dos principais estrategistas da frente progressista: “A batalha eficaz se joga no regulamento. É sempre por esta via que eu ganhei”. Nas assembleias, o processo decisório não pertence à maioria, mas à minoria que controla o regulamento. Não existe democracia na sociedade política nem na religiosa. A democracia na Igreja, observou o filósofo Marcel De Corte, é cesarismo eclesiástico, o pior de todos os regimes. No processo sinodal em curso a existência deste cesarismo eclesiástico é demonstrada pela pesada atmosfera de censura que o acompanhou até hoje.

Os vaticanistas mais cuidadosos, como Sandro Magister e Marco Tosatti, sublinharam que, ao contrário dos Sínodos precedentes, neste foi proibido aos padres sinodais de intervir. Magister, recordando a distinção feita por Bento XVI entre o Vaticano II “real” e o “virtual” que se lhe sobrepôs, falou de uma “divisão entre sínodo real e sínodo virtual, este último construído pela mídia com a sistemática ênfase às coisas caras ao espírito do tempo”. Hoje, no entanto, são os próprios textos do Sínodo que se impõem com a sua força explosiva, sem a possibilidade de deturpações pelos meios de comunicação, que se têm mostrado até mesmo espantados com o poder explosivo do Relatório do cardeal Erdö.

Naturalmente este documento não tem qualquer valor magisterial. É também lícito duvidar que ele reflita o verdadeiro pensamento dos Padres sinodais. Contudo, a Relatio prenuncia a Relatio Synodi, o documento final da assembleia dos bispos.

O verdadeiro problema que agora se porá é o da resistência, anunciado no livro Permanere nella Verità di Cristo [Permanecer na Verdade de Cristo], dos cardeais Brandmüller, Burke, Caffarra, De Paolis e Müller (Cantagalli 2014). O cardeal Burke, em sua entrevista com Alessandro Gnocchi no “Foglio” de 14 de outubro, afirmou que eventuais mudanças na doutrina ou na prática da Igreja pelo Papa seriam inaceitáveis, “porque o Papa é o Vigário de Cristo na Terra e, por conseguinte, o primeiro servo da verdade da fé. Conhecendo o ensinamento de Cristo, não vejo como se possa desviar daquele ensinamento com uma declaração doutrinária ou com uma prática pastoral que ignore a verdade”.

Os bispos e os cardeais, até mais do que os simples fiéis, encontram-se diante de um terrível drama da consciência, muito mais grave do que aquele que tiveram de enfrentar no século XVI os mártires ingleses. Com efeito, tratava-se então de desobedecer à suprema autoridade civil, o rei Henrique VIII, que por um divórcio abriu o cisma com a Igreja Romana, enquanto hoje a resistência é feita à suprema autoridade religiosa, caso esta se desvie do ensinamento perene da Igreja.

E quem é chamado a resistir não são católicos desobedientes ou dissidentes, mas precisamente aqueles que mais profundamente veneram a instituição do Papado. Outrora, quem resistisse era entregue ao braço secular, que o destinava à decapitação ou ao esquartejamento. O braço secular contemporâneo aplica o linchamento moral, através da pressão psicológica exercida pela mídia sobre a opinião pública.

O resultado é muitas vezes o colapso físico e mental das vítimas, a crise de identidade, a perda da vocação e da fé, a menos que se seja capaz de exercitar, com o auxílio da graça, a virtude heroica da fortaleza. Resistir significa, em última análise, reafirmar a total coerência da própria vida com a Verdade imutável de Jesus Cristo, invertendo o argumento dos que hoje pretendem dissolver a eternidade do Verum na precariedade do quotidiano.

16 de outubro de 2014

“Sínodo da Família” ou “Sínodo Anti-Família?”

Em continuação ao post anterior, sobre o polêmico Sínodo — que deveria despontar como uma magnífica muralha protetora da família, mas que, pelo contrário, conta com participantes defendendo posições que poderão dilacerar ainda mais a instituição familiar — transcrevo para nossos leitores um comunicado, divulgado no dia 13 último, do movimento Voice of the Family.

Tal entidade, que representa 15 grupos internacionais pró-família, considerou ser uma “traição” o relatório preliminar do Sínodo.

O texto que segue é uma tradução, feita pela Sra. Teresa Maria Freixinho, da matéria de LifeSiteNews e publicada no site Fratres in Unum.com (15-1—14).


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O relatório preliminar do Sínodo Extraordinário sobre a Família não passa de uma “traição” aos valores católicos e familiares, disse um influente grupo pró-vida. 

Falando com todas as letras, o porta-voz britânico do Voice of the Family, John Smeaton, disse que “aqueles que estão controlando o Sínodo traíram os pais católicos. O relatório preliminar do Sínodo é um dos piores documentos oficiais elaborados na história da Igreja.”

“Felizmente,” disse Smeaton, “o relatório é preliminar para fins de discussão, ao invés de uma proposta definitiva.” 

Da mesma forma, o representante irlandês Patrick Buckley disse que o relatório “representa um ataque ao matrimônio e à família” ao “efetivamente dar uma aprovação tácita às relações adúlteras.” Além disso, “o relatório enfraquece o ensinamento definitivo da Igreja contra a contracepção e deixa de reconhecer que a inclinação homossexual é objetivamente desordenada,” disse Buckley. 

Patrick Craine, porta-voz americano do Voice of the Family, disse que o relatório “não constitui uma representação fiel das discussões sinodais. Muitos padres sinodais têm defendido bravamente o ensinamento da Igreja dentro e fora da Sala do Sínodo, ainda que a posição deles dificilmente esteja refletida no documento.” 

“O relatório está certo ao pedir solicitude pastoral,” disse Craine, “porém, conforme enfatizava o Cardeal Ratzinger, solicitude só pode ser realizada na verdade. Da maneira como está redigido, o documento enfraquece o zelo pastoral autêntico e só pode causar danos graves, neste mundo e no que há de vir, àqueles a quem pretende ajudar.” 

“Dar a Sagrada Comunhão a pessoas que não se arrependem de pecados sexuais mortais seria uma falsa misericórdia,” disse a coordenadora do Voice of the Family, Maria Madise, que afirmou que o relatório enfraquece as famílias católicas. “Será que os pais católicos serão forçados a dizer falsamente aos seus filhos que pecados mortais como o uso da contracepção, coabitação com parceiros ou vivência de estilos de vida homossexuais têm atributos positivos?” 

“A misericórdia real consiste em oferecer às pessoas uma consciência limpa através do Sacramento da Penitência e, assim, a união com Deus”, concluiu Madise.

“É essencial que as vozes dos fiéis leigos que sinceramente vivem o ensinamento católico também sejam levadas em consideração”, disse Smeaton. “O Voice of the Family recomenda que os católicos não sejam complacentes ou cedam a um falso sentido de obediência em face dos ataques aos princípios fundamentais da lei natural no Sínodo.”

10 de outubro de 2014

“NÃO ESCANDALIZEM SEUS FILHOS OU NETOS”


Paulo Roberto Campos 

O muito controvertido “Sínodo sobre a Família” — que reúne quase 200 prelados no Vaticano (de 5 a 19 deste mês) — tem despertado muitas perplexidades em inúmeros católicos, sobretudo nos ambientes de famílias conservadoras, pois alguns participantes no evento estão sugerindo certas inovações inaceitáveis. Inaceitáveis, sim, pois contrariam o ensinamento do magistério tradicional da Igreja. Ademais, tais inovações poderão desagregar ainda mais a instituição familiar, já tão debilitada no mundo moderno. 

Com o objetivo de ajudar a esclarecer a questão, a seguir transcrevo a tradução (feita pelo portal “Fratres in Unum” e publicada em 10-10-14) de uma oportuna entrevista que o Cardeal Raymond Leo Burke concedeu ao site “LifeSiteNews”. E, no final deste post, o vídeo da entrevista (em inglês) com o eminente Cardeal norte-americano, Prefeito do Supremo Tribunal da Signatura Apostólica — o mais alto tribunal da Santa Sé. Grande conhecedor dos problemas que atualmente atingem as famílias, ele é um dos autores do livro, recentemente lançado, Permanecendo na Verdade de Cristo: o matrimônio e a Comunhão na Igreja católica.


“Essa forma particular de relacionamento não deve ser imposta aos membros da família e, especialmente, a crianças impressionáveis”​​

Cardeal Burke responde ao discurso do casal australiano: “Não escandalizem seus filhos ou netos”. 


Por Life Site News | Tradução: Fratres in Unum.com — Em entrevista exclusiva ao LifeSiteNews, o Cardeal Raymond Burke respondeu a uma apresentação polêmica feita por um casal australiano [Ron e Marvis Pirola] perante os 191 bispos e cardeais líderes da Igreja Católica no Sínodo Extraordinário sobre a família em curso esta semana.

Durante a intervenção, que acabou se tornando uma das mais amplamente noticiadas no Sínodo, os Pirolas perguntaram e responderam a uma pergunta sobre o que os pais deveriam fazer caso seu filho quisesse trazer o seu parceiro homossexual para um jantar de Natal em que seus netos estivessem presentes. 

A resposta dos Pirolas, que eles defenderam como um modelo para a maneira como a Igreja Católica deveria lidar com relacionamentos de pessoas do mesmo sexo, foi que os pais deveriam aceitar a participação do filho e de seu parceiro homossexual sabendo que “seus netos iriam vê-los acolhendo o filho e seu parceiro na família.” 

O Cardeal de Westminster, Dom Vincent Nichols, revelou em seguida que alguns Padres sinodais reagiram à breve intervenção do casal de maneira “muito calorosa, com aplausos.” 

Em declarações ao LifeSiteNews em um curto intervalo do Sínodo ontem, o Cardeal Burke, prefeito da Assinatura Apostólica no Vaticano, referiu-se à “pergunta” dos Pirolas como uma questão delicada, que precisa ser tratada de maneira “calma, serena, razoável e cheia de fé.”

"Se as relações homossexuais são intrinsecamente desordenadas, o que de fato são — a razão e também a nossa fé nos ensinam — então, o que significaria para os netos terem presentes em uma reunião de família um membro da família que está vivendo em uma relação desordenada com outra pessoa?”, indagou o cardeal. 

Burke acrescentou: “não queremos que os nossos filhos tenham a ‘impressão’ de que as relações sexuais fora do plano de Deus são corretas, ao parecer que toleramos atos gravemente pecaminosos por parte de um membro da família.” 

“Nós não o faríamos se fosse outro tipo de relacionamento — algo que fosse profundamente desordenado e prejudicial —, não exporíamos nossos filhos a esse relacionamento, a experiência direta desse tipo de relacionamento. E nem deveríamos fazê-lo no contexto de um membro da família que não apenas sofre de atração pelo mesmo sexo, mas que optou por viver essa atração, por agir de acordo com essa atração, por cometer atos que são sempre e em todo lugar errados e maus.”

Ele acrescentou, no entanto, que “as famílias precisam encontrar uma maneira de ficar próximas de um filho nessa situação — de um filho ou neto, ou o que quer que seja —, a fim afastar a pessoa de um relacionamento desordenado.”

Os receios do Cardeal Burke foram compartilhados pelo Voice of the Family, uma coalizão de 15 grandes grupos pró-vida e pró-família de todos os continentes, que chamou de “prejudicial” a intervenção dos Pirolas. 

“O acolhimento sem ressalvas de casais homossexuais em ambientes familiares e paroquiais, na realidade, prejudica a todos, ao servir para normalizar a desordem da homossexualidade”, disse o porta-voz do Voice of the Family, Maria Madise, em um comunicado de imprensa.

Em entrevista à Aleteia, o padre Paul Check, chefe do Courage, o grupo católico que trabalha para ajudar as pessoas com atração pelo mesmo sexo a viverem uma vida casta, respondeu à pergunta, salientando que: “Nós nunca podemos ser mais pastorais do que Jesus.” 

Ele acrescentou: “Acolher as pessoas na Igreja, em nossas casas, em conversa… ‘aceitá-las’ de maneira autenticamente semelhante a de Cristo nunca implicaria barganhar com a verdade.” Um exemplo disso seria “dizer a alguém, de alguma forma: “Bom, isso é o melhor que você pode fazer.”

A pergunta completa e a resposta do Cardeal Burke: 

LifeSiteNews: Como os pais católicos evem lidar com uma situação difícil como esta: 
Ao planejar um encontro familiar de Natal com os netos presentes, os pais são indagados por seu filho, que está em um relacionamento homossexual, se ele pode levar consigo seu parceiro homossexual? Ao aplicar esses princípios, como as paróquias deveriam lidar com casais abertamente homossexuais que se aproximam da Santa Comunhão e que buscam cargos de liderança dentro da paróquia? 

Cardeal Burke: Esta é uma questão muito delicada, e é ainda mais delicada pela agressividade da agenda homossexual. Mas é preciso abordar esse tema de maneira muito calma, serena, razoável e cheia de fé. Se as relações homossexuais são intrinsecamente desordenadas, e de fato o são – a razão nos ensina isso e também a nossa fé – então, o que significaria para os netos terem presentes em uma reunião familiar um membro da família que está vivendo em uma relação desordenada com outra pessoa? 

Se fosse outro tipo de relacionamento — algo que fosse profundamente desordenado e prejudicial — não exporíamos nossas crianças a esse tipo de relacionamento, à experiência direta dele. Assim, tampouco deveríamos fazê-lo no contexto de um membro da família que não apenas sofre de atração pelo mesmo sexo, mas que optou por viver essa atração, por agir de acordo com ela, cometer atos que são sempre e em todo lugar errados e maus. 

E assim, as famílias precisam encontrar uma maneira de ficar próximas de um filho nesta situação — de um filho ou neto, ou o que quer que seja —, a fim afastar a pessoa de um relacionamento desordenado.” 

E sabemos que com o tempo, esses relacionamentos deixam a pessoa profundamente infeliz. E por isso é importante nos mantermos o mais próximos que pudermos. Mas, essa forma particular de relacionamento não deve ser imposta aos membros da família, e especialmente a crianças impressionáveis. E exorto os pais ou avós — quem quer que seja — que sejam muito, muito prudentes neste assunto e não escandalizem os seus filhos ou netos.

Há tantas coisas em nossa sociedade hoje em dia que estão passando a mensagem de que qualquer forma de relação sexual, se de alguma forma ela lhe agrada — ou se você estiver atraído para ela — está bem, está correta. E nós não queremos que nossos filhos tenham essa impressão, ao parecer que estamos tolerando atos gravemente pecaminosos por parte de um membro da família. 

Certamente, essa é uma fonte de grande sofrimento, mas o esforço para fazer o que é certo e bom sempre envolve sofrimento. E, neste caso, certamente envolverá sofrimento. Mas que o sofrimento seja realmente redentor ao final.

Já com relação às paróquias, a situação é muito semelhante, porque a paróquia é uma “família de famílias”. E assim, se você tiver paroquiano que esteja vivendo em pecado público em um relacionamento homossexual, bem, o sacerdote deve tentar se aproximar dessa pessoa — ou de ambos, se forem católicos — e tentar ajudá-los a deixar o relacionamento pecaminoso e começar uma vida casta. O pastor deve incentivá-los também a rezar e a participar da Missa dominical e de outras maneiras adequadas para tentar superar o pecado grave em suas vidas.

Essas pessoas que estão vivendo dessa forma certamente não poderão ter qualquer papel de liderança na paróquia, porque daria a impressão aos paroquianos que a forma como elas estão vivendo é perfeitamente boa. Porque, quando dirigimos uma paróquia, de certa forma, estamos dando testemunho de uma vida católica coerente. E as pessoas que não são coerentes com a sua fé católica não recebem funções de liderança. Não lhes pedimos, por exemplo, que sejam leitores na Santa Missa — ou que assumam outra posição de liderança — até que elas tenham retificado sua situação e passado por uma conversão de vida e estejam prontas a dar esse tipo de liderança.

Por um lado, certamente haverá escândalo entre os paroquianos no que diz respeito a uma parte muito importante da nossa vida, a nossa sexualidade, e o que ela significa. Por outro lado, não é bom para as duas pessoas envolvidas no relacionamento desordenado porque também lhes dá a ideia de que a Igreja de alguma forma aprova o que elas estão fazendo.