24 de outubro de 2015

SÍNODO DA FAMÍLIA: A descentralização da Igreja ofende a fé e o bom senso


Roberto de Mattei 
“Il Foglio”, 20-10-2015

O Papa Francisco anunciou, em 17 de outubro de 2015, como se concluirá o Sínodo sobre a família. A poucos dias do fim dos trabalhos a assembleia dos bispos chegou a um impasse, e o caminho para sair, segundo o Papa, seria a descentralização da Igreja (http://vaticaninsider.lastampa.it/documenti/dettaglio-articolo/articolo/sinodo-famiglia-44026/).

O impasse nasce da divisão entre aqueles que na aula reivindicam com firmeza o Magistério perene sobre o matrimônio e os “inovadores”, que quereriam alterar dois mil anos de ensinamento da Igreja, mas, sobretudo, a Verdade do Evangelho. É, com efeito, Palavra de Cristo, lei divina e natural, que o matrimônio válido, rato e consumado entre batizados não pode ser dissolvido por ninguém, por nenhum motivo. 

Uma só exceção a essa lei anularia o seu valor absoluto e universal, e se essa lei caísse, desabaria com ela todo o edifício moral da Igreja. O matrimônio é ou não é indissolúvel: não se pode admitir uma dissociação entre o enunciado do princípio e a sua aplicação na prática. A Igreja exige uma coerência radical entre o pensamento e a palavra e entre a palavra e os fatos, a mesma coerência que testemunharam os Mártires no decurso da História. 

O falso princípio segundo o qual a doutrina não muda, mas sim a sua aplicação pastoral, introduz uma cunha entre duas dimensões inseparáveis do Cristianismo: Verdade e Vida. A separação entre doutrina e práxis não provém da doutrina católica, mas da filosofia hegeliana e marxista, que inverte o axioma tradicional de acordo com o qual agere sequitur esse [a natureza do ser condiciona o seu operar]. Na perspectiva dos inovadores, a ação precede o ser e o condiciona, a experiência não efetiva a verdade, mas a cria. Este é o sentido do discurso pronunciado pelo cardeal Cristoph Schönborn comemorando o 50° aniversário da instituição do Sínodo, no mesmo dia em que falou o Papa Francisco (http://vaticaninsider.lastampa.it/documenti/dettaglio-articolo/articolo/sinodo-famiglia-44028/). “A fé não pode ser representada, mas somente testemunhada”, afirmou o arcebispo de Viena, reafirmando o primado do “testemunho” sobre a doutrina. Mártir em grego significa testemunho, mas, para os mártires, testemunhar significava viver a verdade, enquanto para os inovadores significa traí-la, reiventando-a na experiência. 

O primado da práxis pastoral sobre a doutrina produz as seguintes consequências catastróficas: 

1) O Sínodo “virtual”, como já ocorreu com o Concílio Vaticano II, vai prevalecer sobre o Sínodo real. A mensagem midiática que acompanhará as conclusões dos trabalhos é mais importante que o conteúdo dos documentos. A Relatio do Circulus Anglicus C sobre a primeira parte do Instrumentum Laboris afirma com clareza a necessidade desta revolução da linguagem: “Like Vatican II, this Synod needs to be a language-event, which is more than cosmetic” [Como o Vaticano II, este Sínodo necessita ser um evento linguístico, o que é mais que perfumaria]. 

2) O post-Sínodo será mais importante do que o Sínodo, porque representa a sua auto-realização. Com efeito, o Sínodo confiará a realização de seus objetivos à práxis pastoral. Se o que deve mudar não é a doutrina, mas a pastoral, esta mudança não pode ocorrer no Sínodo, mas na vida cotidiana do povo cristão e, portanto, fora do Sínodo, depois do Sínodo, na vida das dioceses e das paróquias católicas. 

3) A auto-realização do Sínodo ocorrerá ao sopro da experiência das igrejas particulares, ou seja, da descentralização eclesiástica. A descentralização autoriza as igrejas locais a pôr em movimento uma pluralidade de experiências pastorais. Mas se não há uma única práxis coerente com uma única doutrina, isto quer dizer que existe uma grande variedade de práticas e todas elas merecedoras de serem experimentadas. Os protagonistas desta Revolução na práxis serão, portanto, os bispos, os párocos, as conferências episcopais, as comunidades locais, cada qual segundo a própria liberdade e criatividade. 

Delineia-se a hipótese de uma Igreja com “duas velocidades” (two-speed Church) ou, para usar a linguagem dos eurocratas de Bruxelas, “a geometria variável” (variable geometry). Em face do mesmo problema moral, cada uma o regulará de modo diverso, segundo a ética da situação. À igreja dos “católicos adultos” de língua alemã, pertencentes ao “primeiro mundo”, será permitida a “marcha veloz” do “testemunho missionário”; à igreja dos católicos “subdesenvolvidos”, africanos ou poloneses, pertencentes ao segundo ou terceiro mundo, será concedida a “marcha lenta” do apego às próprias tradições. 

Roma ficaria em segundo plano, privada de real autoridade, com a única função de dar o “impulso carismático”. A Igreja seria desvaticanizada, ou melhor, desromanizada. Quer-se substituir a Igreja romanocêntrica por uma Igreja policêntrica ou poliédrica. A imagem do poliedro tem sido usada frequentemente pelo Papa Francisco. “O poliedro – afirmou ele – é uma unidade, mas com todas as partes diversas; cada uma tem a sua peculiaridade, o seu carisma. Esta é a unidade na diversidade. É neste caminho que nós cristãos fazemos aquilo a que chamamos com o nome teológico ecumenismo: procuremos fazer com que esta diversidade seja mais harmonizada pelo Espírito Santo e se torne unidade” (Discurso à Igreja Pentecostal da Reconciliação de Caserta, 28 de julho de 2014). A transferência de poder às conferências episcopais já estava prevista em uma passagem da Evangelii Gaudium, que a concebe como “sujeitos de atribuições concretas, incluindo alguma autêntica autoridade doutrinal. Uma centralização excessiva, em vez de ajudar, complica a vida da Igreja e a sua dinâmica missionária” (n° 32). O Papa Francisco enuncia agora este “princípio de sinodalidade” como resultado final da assembleia em curso. 

As antigas heresias do galicanismo e do nacionalismo eclesiástico ressurgem no horizonte. Entretanto, o primado de jurisdição do Sumo Pontífice, no qual reside a suprema autoridade da Igreja sobre todos os Pastores e todos os fiéis, independentemente de qualquer outro poder, é dogma de fé promulgado pelo Concílio Vaticano I. Esse primado constitui a garantia da unidade da Igreja: unidade de governo, unidade de fé, unidade de sacramentos. A descentralização é uma perda da unidade que conduz inevitavelmente ao cisma. Na realidade, o cisma é a ruptura que ocorre inexoravelmente quando falta um ponto central de referência, um critério unitário, seja no plano da doutrina, seja no da disciplina e da pastoral. Igrejas particulares divididas no tocante à práxis, mas também na doutrina derivada da práxis, estão fatalmente destinadas a entrar em choque e a produzir fraturas, cismas, heresias. 

A descentralização não somente provoca uma fissura no Primado romano, mas nega o princípio de não-contradição segundo o qual “algo não pode ao mesmo tempo ser e não ser”. É tão-só na base desse primeiro princípio lógico e metafísico que podemos usar a nossa razão e conhecer a realidade que nos circunda. 

O que acontecerá se o Romano Pontífice renunciar, ainda que apenas em parte, a exercer o seu poder para delegá-lo às conferências episcopais ou aos bispos? Ocorrerá evidentemente a criação de uma divergência de doutrina e de práxis entre as conferências episcopais e das dioceses entre si. Aquilo que fica proibido em uma diocese é admitido em outra, e vice-versa. O concubino more uxorio pode aproximar-se do sacramento da Eucaristia em uma diocese, e em outra não. Mas, ou o pecado existe ou não existe, a lei moral é igual para todos ou não é. E de duas, uma: ou o Papa tem o primado de jurisdição e o exerce, ou outro qualquer governa, de fato, no seu lugar.

O Papa admite a existência de um sensus fidei, mas é justamente esse sensus fidei dos bispos, dos sacerdotes, dos simples leigos que é hoje escandalizado pelas extravagâncias ouvidas na aula do Sínodo. Essas extravagâncias ofendem o bom senso antes mesmo que o sensus Ecclesiae dos fiéis.

O Papa Francisco tem razão quando afirma que o Espírito Santo não assiste somente o Papa e os bispos, mas todos os fiéis (cfr. sobre este ponto, Melchior Cano, De locis Theologicis (Lib. IV, cap. 3, 117I). O Espírito Santo, porém, não é espírito de novidade; Ele guia a Igreja protegendo infalivelmente a sua Tradição. Pela fidelidade da Igreja à Tradição, o Espírito Santo fala ainda aos ouvidos dos fiéis. E hoje, como nos tempos do arianismo, podemos dizer com Santo Hilário: “Sanctiores aures plebis quam corda sacerdotum” – “as orelhas do povo são mais santas do que o coração dos sacerdotes” (Contra Arianos, vel Auxentium, n°6 , in PL, 10, col. 613).

18 de outubro de 2015

Preito de gratidão a Plinio Corrêa de Oliveira junto a seu jazigo


Ainda dentro da série que tenho postado sobre solenidades transcorridas por ocasião do vigésimo ano do passamento de Plinio Corrêa de Oliveira, para hoje um post sobre evento realizado na manhã do dia 4 de outubro.

Discípulos e admiradores — muitos residentes no Brasil, mas também aqueles que vieram a São Paulo provenientes de outras nações — reuniram-se junto à sepultura do fundador da TFP no cemitério da Consolação. Nesse mesmo jazigo encontra-se também sepultada a senhora sua mãe, a tradicional dama paulista, Lucilia Ribeiro dos Santos Corrêa de Oliveira. 

Este ato, realizado como preito de gratidão ao Prof. Plinio, iniciou-se com a recitação de um terço puxado por Mons. Schneider [foto acima], depois outras orações rezadas por todo o conjunto, seguidas de um momento de silencio para as orações particulares, e no final o bispo concedeu sua bênção episcopal a todos os presentes. [foto abaixo] 

Notava-se claramente o quanto Plinio Corrêa de Oliveira é considerado “pai espiritual” de toda uma família de almas. Certamente, grande parte dos presentes ao ato tinham lembrança de umas palavras memoráveis dele: “Ao morrer, se Nossa Senhora tiver pena de mim, vou para o Céu. No Céu eu continuaria patrono da família de almas que constituí, num relacionamento que seria a continuação de minha história”. 

Trata-se de toda uma “família de almas” que segue a trilogia formulada pelo saudoso e inesquecível mestre da Contra-Revolução: tradição, família e propriedade. Valores básicos sem os quais não se constituiria uma civilização verdadeiramente católica. 

Certa vez, Dom Juan Rodolfo Laise, bispo emérito de San Luis (Argentina), que foi rezar junto à sepultura do Prof. Plinio, comentou: “Este homem que aqui está sepultado deixou um programa de vida, e isto até hoje influencia profundamente pessoas no mundo inteiro. São pessoas que, fiéis aos ensinamentos desse que aqui jaz, permanecem dispostas a enfrentar todos os obstáculos para a maior glória de Deus”. 

De fato, no século XX os ideais contra-revolucionários de Plinio Corrêa de Oliveira marcaram profundamente as pessoas e no atual século seus ideais repercutem pelos 5 continentes. 
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(*) As mesmas observações que postei anteriormente, repito aqui: Os estandartes e capas rubras ostentados por alguns dos presentes a estes eventos de homenagem a Plinio Corrêa de Oliveira são símbolos das associações estrangeiras a que se filiam, e NÃO de qualquer entidade brasileira. 

Para melhor visualização das fotografias do ato no cemitério da Consolação, click na primeira imagem para percorrer, com a setinha de seu teclado, a "galeria" de fotos.

























Protegido pela fina chuva que caiu no final da solenidade, o quadro de Nossa Senhora do Bom Conselho de Genazzano sobre a sepultura com vários arranjos florais. Esse quadro pertenceu a Doutor Plinio e nos presentes dias permanece no mesmo lugar no quarto do apartamento onde residiu até seus últimos dias.

Jovem da TFP da Polônia, com sua capa rubra, toca na sepultura de Doutor Plinio o seu grande estandarte vermelho marcado pelo rompante leão dourado com o lema "Tradição, Família e Propriedade"

15 de outubro de 2015

“Plinio Corrêa de Oliveira – Profeta do Reino de Maria”



No post anterior noticiei a manifestação no Pátio do Colégio no dia 3 de outubro, organizado pelo Instituto Plinio Corrêa de Oliveira, em conjunto com diversas associações coirmãs que atuam no exterior, em homenagem ao eminente pensador católico e homem de ação. No presente post, tratarei do ato ocorrido à noite desse mesmo dia 3 no Club Homs, situado na Av. Paulista, com lotação completa — 500 pessoas. [no final, algumas das fotos que fiz na ocasião].(*)

O ponto principal desse evento foi a apresentação de um audiovisual sobre as atividades empreendidas nos últimos sete anos pelas associações que seguem os ideais contra-revolucionárias legados por Plinio Corrêa de Oliveira. Dispenso-me de tratar a respeito, pois os interessados poderão assistir o próprio audiovisual clicando no seguinte link:

Houve também um cocktail, durante o qual os representantes das delegações provenientes do exterior puderam trocar informações sobre as atividades nos respectivos países.


Naquela mesma noite, no Club Homs foi lançado um novo livro do renomado historiador italiano, Roberto de Mattei — autor também da famosa biografia “O Cruzado do Século XX” (1997). A nova obra do Prof. De Mattei intitula-se “Plinio Corrêa de Oliveira – Profeta do Reino de Maria” [ao lado, a capa da obra]. Nela, o historiador aponta o líder católico, fundador da TFP brasileira, como continuador da missão de São Luís Maria Grignion de Montfort (1673-1716). 

Justificando essa afirmação, transcrevo um trecho (págs. 424-425) do livro recém lançado e que pode ser obtido na Livraria Petrus.  

“A inabalável confiança que Plinio Corrêa de Oliveira sempre manifestou na realeza social de Maria nasceu, mais do que em considerações teológicas, de uma análise atenta, sob a luz da graça, da sociedade em que vivia. Desde muito jovem, ele teve a certeza de que o mundo moderno caminhava para sua ruína, e que era necessária uma restauração da sociedade cristã sobre seus destroços. 

“Com pouco mais de 20 anos, em uma carta de 1929 a José Pedro Galvão de Souza(1), escrevia: ‘Cada vez mais se acentua em mim a impressão de que estamos no vestíbulo de uma época cheia de sofrimentos e lutas. Por toda a parte, o sofrimento da Igreja se torna mais intenso, e a luta se aproxima mais. Tenho a impressão de que as nuvens do horizonte político estão a baixar. Não tarda a tempestade, que deverá ter uma guerra mundial como simples prefácio. Mas esta guerra espalhará pelo mundo inteiro uma tal confusão, que as revoluções surgirão em todos os cantos, e a putrefação do triste século XX atingirá o seu auge. Aí, então, surgirão as forças do mal que, como os vermes, somente aparecem nos momentos em que a putrefação culmina. 

'Todo o bas fond da sociedade subirá à tona, e a Igreja será perseguida por toda a parte. Mas... ‘et ego dico tibi quia tu es Petrus, et super hanc petram ædificabo Ecclesiam meam, et portæ inferi non prævalebunt adversus Eam’. Como consequência, ou teremos un nouveau Moyen Age ou teremos o Fim do mundo. [...] Ao invés de imitarmos os Apóstolos que dormiam no Monte das Oliveiras, enquanto Jesus estava na iminência de ser preso, nós devemos ‘vigiar e orar’. Eis nossa principal tarefa. Prepararmo-nos para a luta, e preparar a Igreja, como o marinheiro que prepara o navio antes da tempestade’.(2)

A confirmação desse futuro reinado de Maria, que a razão e a fé lhe indicavam, Plinio a encontrou na mensagem de Fátima; mas antes desta, conheceu-a nas extraordinárias previsões de São Luís Maria Grignion de Montfort, que no Tratado da Verdadeira Devoção fala de um ‘feliz tempo em que Maria Santíssima será constituída Senhora e Soberana dos corações’(3) e, através dos corações e das mentes do homens, reinará na sociedade. 

Foi sobretudo na consagração a Maria, praticada segundo o método de São Luís Maria Grignion de Montfort, que Plinio recebeu a noção do Reino de Maria como o momento culminante da guerra vitoriosa da Contra-Revolução. Para ele, a realeza de Maria, como a de Cristo, não é metafórica, e estava convicto de que, antes do Fim do mundo e do Reino do Anticristo, a História conhecerá uma época de renascimento, que ele definia como o Reino de Maria: ‘Uma era histórica de fé e de virtude, que será inaugurada com uma vitória espetacular de Nossa Senhora sobre a Revolução. Nessa era, o demônio será expulso e voltará aos antros infernais, e Nossa Senhora reinará sobre a humanidade por meio das instituições que para isso escolheu’”.(4) 

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1. José Pedro Galvão de Souza (1912-1992) foi um filósofo do direito e professor universitário brasileiro. Fundou a Faculdade Paulista de Direito, que mais tarde foi incorporada na Pontificia Universidade Católica de São Paulo, da qual foi Vice-reitor. 
2.  Arquivo do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira; cfr. igualmente R. de Mattei, O cruzado do século XX, p. 110.
3. Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, n° 217. 
4. refácio à edição argentina de Revolução e Contra-Revolução.
(*) Os estandartes e capas rubras ostentados por alguns dos presentes a estes eventos de homenagem a Plinio Corrêa de Oliveira são símbolos das associações estrangeiras a que se filiam, e NÃO de qualquer entidade brasileira. 
Click na primeira imagem para percorrer, com a setinha de seu teclado, a "galeria" de fotos do evento no Club Homs.