9 de novembro de 2016

Francisco, movimentos “populares” e cheque em branco

5 de novembro 2016: Papa Francisco, no Auditório Paulo VI (Vaticano), no III Encontro Mundial dos Movimentos Populares

Ao tentar revitalizar as combalidas esquerdas latino-americanas, desacreditadas por fragorosas e sucessivas derrotas, o Papa Francisco reafirma a cada dia o caminho esquerdista de seu Pontificado e parece querer assumir o papel de líder revolucionário. Com essa postura, que compromete seriamente o seu prestígio e decepciona um número cada vez maior de católicos, não se sabe realmente aonde ele deseja chegar, pois, ao mesmo tempo, parece esquecer-se do drama do povo cubano, escravizado por 50 longos anos de ditadura comunista.

Gonzalo Guimaraens – Destaque Internacional (*) 

Com um discurso empolgado para 170 agitadores sociais de mais de 65 países dos cinco continentes, o Papa Francisco concluiu no dia 5 de novembro, no Auditório Paulo VI, no Vaticano, o III Encontro Mundial dos Movimentos Populares [foto acima] (no final, o link para a íntegra de tal discurso).


No Encontro, o líder marxista do MST, Stédile, 
cumprimenta o Papa
Ele se referiu aos agitadores comuno-católicos João Pedro Stédile, chefe do MST e promotor da violência no Brasil, e Juan Grabois, do “movimento de trabalhadores excluídos” e incentivador da violência nas periferias de Buenos Aires, na Argentina, chamando-os de “poetas sociais” e “seguidores de Jesus”.

Em seguida, deu-lhes um “cheque em branco” para promoverem a revolução social: “Faço meu o grito de vocês”, disse textualmente o Pontífice. 
Participou do Encontro o ex-presidente e ex-guerrilheiro José Mujica, do movimento terrorista Tupamaros, que assolou o Uruguai nas décadas de 60 e 70.
Após sussurrar uma discreta ressalva — “talvez não estejamos de acordo com tudo” —, sugeriu-lhes deixar de lado “certos nominalismos declaratórios, que são belas frases, mas que não conseguem sustentar a vida de nossas comunidades”, e partir para a agitação contra os atuais sistemas socioeconômicos, que qualificou de “terroristas”. Em seguida, convocou os “movimentos populares” a não aceitarem e não se deixarem “desmobilizar” por “implantes cosméticos” ou “planos assistenciais”, a não se deixarem “conduzir como gado” e a rechaçarem a “tentação da canga”, que reduziria os agitadores a um papel de “atores secundários”. 
Delegação do Brasil no Encontro no Vaticano com os dizeres "Fora Temer"

De modo difícil de entender, o Papa Francisco reafirma o caminho esquerdista de seu Pontificado, em momentos em que as esquerdas latino-americanas estão sofrendo fragorosas derrotas. O Papa parece desejar assumir um papel de líder revolucionário, tentando revitalizar as esquerdas latino-americanas que estão caindo no maior descrédito. Realmente, não se sabe aonde ele pretende chegar com essa insistência em apoiar as esquerdas, comprometendo seriamente o prestígio de seu Pontificado e causando decepção em inúmeras pessoas. Ao mesmo tempo, ele parece se esquecer do drama do povo cubano, escravizado por 50 longos anos de ditadura comunista.

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(*) Notas de “Destaque Internacional”. Documento de trabalho, em 6 de novembro de 2016. Este texto, traduzido do original espanhol por Paulo Roberto Campos, pode ser reproduzido em qualquer mídia impressa ou eletrônica. 
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Editoriais Relacionados: 
Francisco, "beatificação" publicitaria de revolucionários e "vendaval" social 
(sobre o I Encontro Munidal de Movimientos Populares, realizado en Roma en 2014) 
http://www.cubdest.org/1406/c1411franciscomst.htm

Bolívia: Francisco, a foice e o matelo”
(sobre o II Encontro Mundial de Movimentos Populares, realizado em Santa Cruz de la Sierra, Bolivia en 2015). 
http://www.cubdest.org/1506/c1507franciscoboec.htm

Francisco, consumismo, miserabilismo e Boff
http://www.cubdest.org/1506/c1507franciscomiser.htm

Francisco, aventura ecológica e “lacuna” científica 
http://www.cubdest.org/1506/c1507franciscoeco.htm 

Francisco, os comunistas e os pobres
http://www.cubdest.org/1506/c1506pobresfran.htm

Francisco, ecoterrorismo e miséria
http://www.cubdest.org/1506/c1505eco.htm 

Texto completo do discurso de Francisco: 
http://movimientospopulares.org/el-discurso-completo-de-papa-francisco-a-los-movimientos-populares/ 

8 de novembro de 2016

CONVITE PARA CONFERÊNCIA — Sobreviver na atual crise da Igreja


A respeito das calamidades na fase pós-conciliar da Igreja, é de fundamental importância o depoimento histórico do Papa Paulo VI na Alocução Resistite fortes in fide (29 de junho de 1972). Referindo-se à crise em consequência de “um processo de autodemolição” da Igreja, o Papa afirmou que “por alguma fissura tenha entrado a fumaça de Satanás no templo de Deus [...]. Também na Igreja reina este estado de incerteza. Acreditava-se que, depois do Concílio, viria um dia ensolarado para a História da Igreja. Veio, pelo contrário, um dia cheio de nuvens, de tempestade, de escuridão, de indagação, de incerteza” (cfr. Insegnamenti di Paolo VI, Tipografia Poliglotta Vaticana, vol. X, pp. 707-709). 

Tal crise parece estar chegando ao auge, especialmente com confusões que afloraram após os dois recentes Sínodos sobre a Família e a publicação da exortação apostólica Amoris laetitia. Isso deixou milhões de católicos perplexos, por exemplo, diante da perspectiva da concessão de absolvição sacramental e da comunhão a casais divorciados em “segunda união”. 

Quando Nosso Senhor Jesus Cristo instituiu a Santa Igreja Ele prometeu: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16, 18). Após dois mil anos de História da Igreja, constata-se que foi em vão que sucessivos inimigos tentaram destruí-la com ataques externos. Hoje, porém, crises internas, prevaricações, divisões etc. são de molde a fazê-la soçobrar nos seus fundamentos.

Entretanto, temos a certeza de que Nosso Senhor vela pela Santa Igreja e que os atuais auto-demolidores nos diversos graus da Hierarquia não prevalecerão. Apoiada na fé inquebrantável dos católicos fiéis nas fileiras do Clero e do laicato, sobranceira a Igreja seguirá seu curso como que afirmando o que Plinio Corrêa de Oliveira escreveu em sua obra “Revolução e Contra-Revolução”:

“Alios ego vidi ventos; alias prospexi animo procellas, poderia ela dizer ufana e tranquila em meio às tormentas por que passa hoje. A Igreja já lutou em outras terras, com adversários oriundos de outras gentes, e por certo enfrentará ainda, até o fim dos tempos, problemas e inimigos bem diversos dos de hoje”.(*)

Por iniciativa do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira, virá à capital paulista para proferir conferência um especialista que acompanha meticulosamente o que ocorre no cerne da Igreja. Ele fará uma palestra no próximo dia 10 (Quinta-Feira). Trata-se de José Antonio Ureta, chileno, pesquisador e conferencista, que reside atualmente na França e é membro da comissão de estudos da TFP Francesa. 

Não perca esta importante conferência na cidade de São Paulo:

Data: 10 de novembro de 2016 
Horário: 19:00 hs  
Local: Clube Homs (Av. Paulista, 735) 

Inscreva-se já, gratuitamente, para a Conferência promovida pelo 
Instituto Plinio Corrêa de Oliveira, 
por meio do seguinte link:


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(*) "Alios ego vidi ventos; alias prospexi animo procellas” (“Eu vi outros ventos, e contemplei outras tempestades”, in Cícero, 159-190 a.C).

7 de novembro de 2016

TERREMOTOS E CASTIGOS DIVINOS

Uma das cenas desoladoras do forte terremoto (6,2º) que atingiu o centro da Itália, em 24 de agosto último. Acima, a cidade de Pescara del Tronto.

Roberto de Mattei 

A partir de 24 de agosto deste ano a Itália foi sacudida por uma série de terremotos violentos que, transcorridos dois meses, não dão sinal de diminuir. São milhares, segundo os sismólogos, com intensidade e magnitude diversas. Até o momento eles provocaram um número limitado de vítimas, mas sérios danos a igrejas e edifícios públicos e privados, despojando dezenas de milhares de italianos de seus bens e de suas casas.

O terremoto de 30 de outubro, o mais grave desde o de 24 de agosto, foi sentido em toda a Itália, de Bari a Bolzano, e teve seu símbolo no colapso da Basílica de Núrsia [foto abaixo]. A notícia de sua destruição correu o mundo. Construída sobre o local de nascimento de São Bento, dela restou apenas uma frágil fachada. Todo o resto desapareceu em uma nuvem de poeira. Muitos meios de comunicação, como a CNN americana, enfatizaram a natureza simbólica do acontecimento, exibindo a imagem da catedral desmoronada na página inicial de seus sites. 
Em Núrsia, a Basílica antes e depois do terremoto do dia 30 de outubro
Houve um tempo em que os homens eram capazes de ler as mensagens de Deus em todos os acontecimentos que escapavam à vontade deles, cada um dos quais tem um significado expresso na linguagem do símbolo, que não é uma representação convencional, mas a mais profunda expressão do ser das coisas.

O racionalismo moderno, de Descartes a Hegel e de Marx ao neocientificismo, quis racionalizar a natureza, substituindo a verdade do símbolo pela interpretação puramente quantitativa da natureza. O racionalismo está hoje em crise, mas, abeberando-se em suas fontes intelectuais, do nominalismo ao evolucionismo, a cultura pós-moderna criou um novo sistema simbólico que, ao contrário dos antigos sistemas, não se reporta à realidade das coisas, mas a deforma como num jogo de espelhos. O código simbólico que se exprime em todas as formas de comunicações pós-modernas, dos tweets aos talk-shows, visa criar emoções e despertar sentimentos, recusando-se a compreender a razão profunda das coisas. 


A Basílica de Núrsia [foto ao lado], por exemplo, é um símbolo da arte, da cultura e da fé, cuja destruição evoca para os meios de comunicação a perda do patrimônio artístico da região central da Itália, mas não a imagem do colapso da fé ou dos valores fundamentais da civilização cristã. 

Por exemplo, embora o vocábulo “terremoto” seja usado na linguagem cotidiana para indicar transtornos culturais e sociais, para a mídia ele nunca pode significar uma intervenção divina, porque Deus só pode ser apresentado como misericordioso, jamais como justo. 


Os que falam de “castigo divino” incorrem imediatamente na difamação da mídia, como aconteceu com o Padre Giovanni Cavalcoli [foto], cujas recentes palavras na Rádio Maria foram definidas pelo substituto da Secretaria de Estado, Mons. Angelo Becciu, como “declarações ofensivas aos crentes e escandalosas aos não crentes”. 

Mas, se há escândalo, é aquele causado pela tomada de posição do prelado vaticano, que demonstra ignorar a teologia católica e o ensinamento dos Papas, como Bento XVI, que na audiência de 18 de maio de 2011, falando sobre a oração de intercessão de Abraão por Sodoma e Gomorra, as duas cidades bíblicas punidas por Deus pelos seus pecados, afirma:
“O Senhor estava disposto a perdoar, desejava fazê-lo, mas as cidades estavam fechadas num mal totalizador e paralisador, sem sequer poucos inocentes, a partir dos quais começar para transformar o mal em bem. Pois é precisamente este o caminho da salvação, que também Abraão pedia: ser salvos não quer dizer simplesmente evitar a punição, mas ser libertados do mal que habita em nós. Não é o castigo que deve ser eliminado, mas o pecado, aquela rejeição de Deus e do amor que já traz em si o castigo. O profeta Jeremias dirá ao povo rebelde: ‘Valeu-te este castigo a tua malícia, e as tuas infidelidades atraíram sobre ti a punição. Sabe, portanto, e vê como te foi funesto e amargo abandonar o Senhor teu Deus’” (Jr 2, 19).” 
Como esquecer que entre agosto e setembro de 2016 foram celebradas na Itália as primeiras uniões civis? “Reconstruiremos tudo”, disse o primeiro-ministro italiano Matteo Renzi. 

Mas, em 23 de julho de 2016, o mesmo Renzi apôs sua assinatura no decreto de aplicação da Lei nº. 76/2016, ou Lei Cirinnà, que legaliza o casamento homossexual na Itália. Esta lei é um terremoto moral, porque abate as paredes da lei divina natural. Como imaginar que essa lei calamitosa seja privada de consequências? Aqueles que não renunciaram ao bom senso percebem-no imediatamente. Hoje o homem se rebela contra Deus e a natureza se rebela contra o homem. Ou melhor, o homem se rebela contra a lei natural, que tem o seu fundamento em Deus, e a desordem da natureza explode.

A lei Cirinnà não destrói as casas, mas a instituição da família, produzindo uma devastação moral e social não menos grave do que aquela material causada pelo terremoto. Quem pode negar-nos o direito de pensar que a desordem da natureza é permitida por Deus como consequência da negação da ordem natural praticada pelas classes dirigentes do Ocidente? E, uma vez que os símbolos permitem diversas leituras, como culpar aqueles que veem na fachada de uma basílica o símbolo daquilo que hoje, sob o aspecto humano, parece restar da Igreja Católica: uma pilha de escombros? As declarações de Mons. Becciu, um dos colaboradores mais próximos do Papa Francisco, são a expressão de um mundo eclesiástico em ruínas que atrai sobre si outras ruínas. 

Da promulgação da Exortação Amoris Laetitia às honras prestadas a Lutero em Lund, o Papa Francisco certamente não ajudou a restaurar a ordem neste mundo em frangalhos. 

O Papa repetiu que não se devem construir muros, mas derrubá-los. Pois bem, as paredes colapsam, mas com elas desmoronam a fé e a moral católica, rui a civilização cristã, que em Núrsia, local de nascimento de São Bento, tem o seu berço simbólico. 


Ainda assim, se a basílica caiu, a estátua de São Bento permaneceu de pé, no centro da praça em frente. Em torno dela reuniu-se um grupo de monges, freiras e leigos, rezando o terço [foto ao lado]. Esta é também uma mensagem simbólica, que nos fala da única reconstrução possível: aquela que se faz de joelhos, rezando. 

Além da oração, deve também haver ação, luta, testemunho público da própria fé na nossa Igreja e na civilização cristã, que ressurgirão dos escombros. Nossa Senhora o prometeu em Fátima. Mas antes do triunfo do Coração Imaculado, a Santíssima Virgem também previu um castigo planetário para a humanidade impenitente. Devemos ter a coragem de lembrá-lo.

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(*) Fonte: “Corrispondenza romana”, 5-11-16. Matéria traduzida do original italiano por Hélio Dias Viana.

3 de novembro de 2016

500 anos depois, de joelhos diante de Lutero

O Papa Francisco e o pastor luterano Martin Junge assinam uma "Declaração Conjunta". O heresiarca Lutero definiu, no século XVI, o Papa como "apóstolo de Satanás" e "anticristo".

Roberto de Mattei (*) 

Dizemo-lo com profunda dor. Parece uma nova religião aquela que aflorou em Lund no dia 31 de outubro, durante o encontro ecumênico entre o Papa Francisco e os representantes da Federação Luterana Mundial. Uma religião em que são claros os pontos de partida, mas obscura e inquietante a linha de chegada. 

O slogan que mais ressoou na catedral de Lund foi o da necessidade de um “caminho comum” que leve católicos e luteranos “do conflito à comunhão”. Tanto o Papa Francisco quanto o pastor Martin Junge, secretário da Federação Luterana, se referiram em seus sermões à parábola evangélica da videira e dos ramos. Católicos e luteranos seriam “ramos secos” de uma única árvore que não dá frutos por causa da separação de 1517. Mas ninguém sabe quais seriam esses “frutos”. O que católicos e luteranos parecem ter agora em comum é apenas uma situação de profunda crise, ainda que por motivos diferentes. 

O luteranismo foi um dos principais fatores da secularização da sociedade ocidental e hoje está agonizando pela coerência com que desenvolveu os germes de dissolução que portava dentro de si desde a sua irrupção. Na vanguarda da secularização estiveram os países escandinavos, apresentados por longo tempo como modelo do nosso futuro. Mas a Suécia, depois de ter-se transformado na pátria do multiculturalismo e dos direitos homossexuais, é hoje um país onde apenas 2% dos luteranos são praticantes, enquanto quase 10% da população segue a religião islâmica. 

A Igreja Católica, pelo contrário, está em crise de autodemolição porque abandonou sua Tradição para abraçar o processo de secularização do mundo moderno na hora em que este entrava na sua fase final de decomposição. Os luteranos procuram no ecumenismo um sopro de vida, e a Igreja Católica não adverte nesse abraço o mau hálito da morte.

“O que nos une é muito mais do que aquilo que nos divide”, foi ainda dito na cerimônia de Lund. Mas, o que une católicos e luteranos? Nada, nem sequer o significado do batismo, o único dos sete sacramentos que os luteranos reconhecem. Para os católicos, o batismo elimina de fato o pecado original, enquanto para os luteranos ele não pode apagá-lo, porque consideram a natureza humana radicalmente corrupta, e irremovível o pecado. A fórmula de Lutero “peca com força, mas crê com maior força ainda” resume o seu pensamento. O homem é incapaz de praticar o bem e não pode senão pecar e abandonar-se cegamente à misericórdia divina. A vontade corrompida do homem não tendo nenhuma participação nesse ato de fé, no fundo é Deus que decide, de forma arbitrária e inapelável, quem se condena e quem se salva, como deduziu Calvino. Não existe liberdade, mas apenas rigorosa predestinação dos eleitos e dos condenados. 


Santo Inácio de Loyola combateu com muita
coragem e eficácia a heresia luterana
A “Sola Fede” é acompanhada pela “Sola Scriptura”. Para os católicos, a Sagrada Escritura e a Tradição são as duas fontes da Revelação divina. Os luteranos eliminam a Tradição porque afirmam que o homem deve ter uma relação direta com Deus, sem a mediação da Igreja. É o princípio do “livre exame” das Escrituras, a partir do qual fluem o individualismo e o relativismo contemporâneos. Este princípio implica a negação do papel da Igreja e do Papa, que Lutero define como “apóstolo de Satanás” e “anticristo”. Lutero odiava especialmente o Papa e a Missa católica, que ele queria reduzir a mera comemoração, negando-lhe o caráter de sacrifício e impugnando a transubstanciação do pão e do vinho no Corpo e no Sangue de Jesus Cristo. Mas, para os católicos, a renovação incruenta do sacrifício de Cristo existente na Missa é a fonte principal da graça divina. Trata-se de simples incompreensões e mal-entendidos? 

O Papa Francisco declarou em Lund: “Também nós devemos olhar, com amor e honestidade, para o nosso passado e reconhecer o erro e pedir perdão.” E ainda: “Com a mesma honestidade e amor, temos de reconhecer que a nossa divisão se afastava da intuição originária do povo de Deus, cujo anseio é naturalmente estar unido, e, historicamente, foi perpetuada mais por homens de poder deste mundo do que por vontade do povo fiel.” — Quem são esses homens de poder? Os Papas e os santos, que combateram o luteranismo desde o início? A Igreja, que o condenou durante cinco séculos? 

O Concílio de Trento pronunciou um ditame irrevogável sobre a incompatibilidade entre a fé católica e a protestante. Não podemos seguir o Papa Francisco por um caminho diferente. 

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Fonte: “Il Tempo”, Roma, 2-11-2016. Matéria traduzida do original italiano por Hélio Dias Viana.

31 de outubro de 2016

Com a heresia protestante, a rebelião de Lutero contra a Igreja Católica

31 de outubro de 2016 -- Na igreja luterana de Lund (Suécia), o Papa Francisco com o presidente da Federação Luterana Mundial, Pastor Munib Younan (à esquerda do Papa), e o secretário-geral de tal Federação, Pastor Martin Junge (à sua direita).

A propósito da visita do Papa Francisco à cidade sueca de Lund, a revista Catolicismo (edição nº 791, Novembro/2016) publica a matéria que abaixo reproduzimos. Tal visita tem por objetivo comemorar os 500 anos da pseudo “Reforma Protestante” [foto acima]. Como se sabe, no dia 31 de outubro de 1517, o monge apóstata Lutero oficialmente lançou seu brado de revolta contra Roma, difundindo seus erros e heresias. 

Comemorando o heresiarca Lutero, que odiava a Igreja e o Papado


O magistério do Papa Francisco vem se caracterizando principalmente por gestos e atos simbólicos, acompanhados às vezes por palavras pouco propícias a dissipar a confusão. Neste sentido, sua participação nas comemorações da revolta de Martinho Lutero, o monge apóstata e heresiarca, é particularmente grave.

No dia 13 de outubro (data em que os católicos do mundo inteiro rememoram a última aparição de Nossa Senhora aos três pastorinhos de Fátima, em 1917), ocorreu no Vaticano um encontro do Pontífice com aproximadamente 1000 luteranos provenientes da região de Lutero, na Alemanha. [foto ao lado]

Nessa ocasião, o Papa afirmou: “O proselitismo é o veneno mais forte contra o caminho ecumênico” (“Zenit”, 13-10-16). E, segundo a mesma agência de notícias, respondendo a uma pergunta, ele disse que “os grandes reformadores de nossas Igrejas são os santos”. E à outra pergunta, respondeu: “Gosto dos luteranos bons, aqueles que seguem a fé de Jesus Cristo. Não gosto dos católicos tíbios e dos luteranos tíbios”.

No referido encontro, o Papa confirmou sua viagem à cidade de Lund, na Suécia, no dia 31 de outubro, a fim de presidir, juntamente com a Federação Luterana Mundial, a comemoração da “Reforma Protestante”. Nessa data, há 499 anos, Lutero pregou suas 95 teses na porta da capela do castelo de Wittenberg — marco do início à reforma do heresiarca na Alemanha.

A comemoração de um fato histórico não é uma simples lembrança — como ocorre com os acontecimentos narrados num curso de História —, mas a recordação festiva e laudatória de fato julgado digno de admiração, de imitação, e mesmo de devoção. Em livro-entrevista, o cardeal Gerhard Müller foi peremptório: “Nós, católicos, não temos qualquer motivo para celebrar o dia 31 de outubro de 1517, data do início da Reforma”. Por sua vez, o cardeal Kurt Koch já havia prevenido em 2012: “Não podemos celebrar um pecado”. E acrescentou: “Os acontecimentos que dividem a Igreja não podem ser chamados dias de festa”.

Como pode o Papa participar ativamente das comemorações da revolta de Lutero contra a Igreja e o Papado sem dar aos católicos e não católicos a impressão de que ele admira os atos e as doutrinas do heresiarca?

Para fornecer alguns elementos de reflexão sobre a gravidade desse gesto, transcrevemos a seguir dois artigos do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, fundador da TFP brasileira, escritos por ocasião do quinto centenário do nascimento de Lutero. Como o leitor poderá constatar, eles conservam toda a atualidade.
Primeiro ato de rebelião do heresiarca Lutero: na igreja do castelo de Wittenberg, ele afixa seu documento contra a Igreja e o Papado

Lutero: não e não

Plinio Corrêa de Oliveira 
[Transcrito da “Folha de S. Paulo”, 27 de dezembro de 1983] 

Tive a honra de ser, em 1974, o primeiro signatário de um manifesto publicado em cotidianos dos principais do Brasil e reproduzido em quase todas as nações onde existiam as então onze TFPs. Era seu título: A política de distensão do Vaticano com os governos comunistas – Para a TFP: Omitir-se? Ou resistir? (cfr. “Folha de S. Paulo”, 10-4-74). 

Nele, as entidades declaravam seu respeitoso desacordo face à "ostpolitik" conduzida por Paulo VI, e expunham pormenorizadamente suas razões para tanto. Tudo — diga-se de passagem — expresso de maneira tão ortodoxa que ninguém levantou a propósito qualquer objeção. 

Para resumir numa frase, ao mesmo tempo toda a sua veneração ao Papado e a firmeza com a qual declaravam sua resistência à "ostpolitik" vaticana, as TFPs diziam ao Pontífice “Nossa alma é Vossa, nossa vida é Vossa. Mandai-nos o que quiserdes. Só não nos mandeis que cruzemos os braços diante do lobo vermelho que investe. A isto nossa consciência se opõe”.

Lembrei-me desta frase com especial tristeza lendo a carta escrita por João Paulo II ao cardeal Willebrands (cfr. "L’Osservatore Romano", 6-11-83), a propósito do quingentésimo aniversário do nascimento de Martinho Lutero, e assinada no dia 31 de outubro p.p. data do primeiro ato de rebelião do heresiarca, na igreja do castelo de Wittenberg. Está ela repassada de tanta benevolência e amenidade, que me perguntei se o Augusto signatário esquecera as terríveis blasfêmias que o frade apóstata lançara contra Deus, Cristo Jesus Filho de Deus, o Santíssimo Sacramento, a Virgem Maria e o próprio Papado. 

O certo é que ele não as ignora, pois estão ao alcance de qualquer católico culto, em livros de bom quilate, os quais ainda hoje não são difíceis de obter.

Tenho em mente dois deles. Um, nacional é “A Igreja, a Reforma e a Civilização, do grande jesuíta Pe. Leonel Franca. Sobre o livro e o autor, os silêncios oficiais vão deixando baixar a poeira. 

O outro livro é de um dos mais conhecidos historiadores franceses do século XX, Funck-Brentano, membro do Instituto de França, e aliás insuspeito protestante. 


Comecemos por citar textos colhidos na obra deste último: "Luther" (Grasset, Paris, 1934, 7ª ed., 352 pp.) [capa ao lado]. E vamos diretamente a esta blasfêmia sem nome: “Cristo — diz Lutero — cometeu adultério pela primeira vez com a mulher da fonte, de que nos fala João. Não se murmurava em torno dele: “Que fez, então, com ela? Depois com Madalena, em seguida com a mulher adúltera, que ele absolveu tão levianamente. Assim Cristo, tão piedoso, também teve de fornicar, antes de morrer” ("Propos de table", nº 1472, ed. de Weimar 2. 107 – cfr op. cit. p. 235). 


Lido isto, não nos surpreende que Lutero [gravura ao lado] pense — como assinala Funck-Brentano — que "certamente Deus é grande e poderoso, bom e misericordioso [...] mas é estúpido — "Deus est stultissimus" ("Propos de table", no. 963, ed. de Weimar, I, 487). É um tirano. Moisés agia movido por sua vontade, como seu lugar-tenente, como carrasco que ninguém superou, nem mesmo igualou em assustar, aterrorizar e martirizar o pobre mundo” (op. cit. p. 230).

Tal está em estrita coerência com estoutra blasfêmia, que faz de Deus o verdadeiro responsável pela traição de Judas e pela revolta de Adão: “Lutero — comenta Funck-Brentano — chega a declarar que Judas, ao trair Cristo, agiu sob imperiosa decisão do Todo-poderoso. Sua vontade (a de Judas) era dirigida por Deus: Deus o movia com sua onipotência. O próprio Adão, no paraíso terrestre, foi constrangido a agir como agiu. Estava colocado por Deus numa situação tal que lhe era impossível não cair” (op. cit. p. 246).

Coerente ainda nesta abominável sequência, um panfleto de Lutero intitulado “Contra o pontificado romano fundado pelo diabo”, de março de 1545, chamava o Papa, não “Santíssimo”, segundo o costume, mas “infernalíssimo”, e acrescentava que o Papado mostrou-se sempre sedento de sangue (cfr. op. cit. pp. 337-338). 

Não espanta que, movido por tais ideias, Lutero escrevesse a Melanchton, a propósito das sangrentas perseguições de Henrique VIII contra os católicos da Inglaterra. “É lícito encolerizar-se quando se sabe que espécie de traidores, ladrões e assassinos são os papas, seus cardeais e legados. Prouvesse a Deus que vários reis da Inglaterra se empenhassem em acabar com eles” (op. cit. p. 254). 

Por isso mesmo exclamou ele também: “Basta de palavras: o ferro! o fogo!” E acrescenta: “Punimos os ladrões à espada, por que não havemos de agarrar o papa, cardeais e toda a gangue da Sodoma romana e lavar as mãos no seu sangue?” (op. cit., p. 104). 

Esse ódio de Lutero o acompanhou até o fim da vida. Afirma Fuck-Brentano: “Seu último sermão público em Wittenberg é de 17 de janeiro de 1546; o último grito de maldição contra o papa, o sacrifício da missa, o culto da Virgem” (op. cit., p. 340). 

Não espanta que grandes perseguidores da Igreja tenham festejado a memória dele. Assim “Hitler mandou proclamar festa nacional na Alemanha a data comemorativa de 31 de outubro de 1517, quando o frade agostiniano revoltoso afixou nas portas da igreja do castelo de Wittenberg as famosas 95 proposições contra a supremacia e as doutrinas pontifícias” (op. cit., p. 272). 

E, a despeito de todo o ateísmo oficial do regime comunista, o Dr. Erich Honnecker, presidente do Conselho de Estado e do Conselho de Defesa, o primeiro homem da República Democrática Alemã, aceitou a chefia do comitê que, em plena Alemanha vermelha, organizou as espalhafatosas comemorações de Lutero neste ano (cfr. "German Comments", de Osnabruck, Alemanha Ocidental, abril de 1983). 

Que o frade apóstata tenha despertado tais sentimentos num líder nazista, como mais recentemente no líder comunista, nada de mais natural. 
Foto do original da tradução da bíblia, segundo Lutero
Nada mais desconcertante e até vertiginoso, do que o ocorrido quando da recentíssima comemoração do quingentésimo aniversário do nascimento de Lutero num esquálido templo protestante de Roma, no dia 11 do corrente. 

Deste ato festivo, de amor e admiração à memória do heresiarca, participou o prelado que o conclave de 1978 elegeu Papa. E ao qual caberia, portanto, a missão de defender, contra heresiarcas e hereges, os santos nomes de Deus e de Jesus Cristo, a Santa Missa, a Sagrada Eucaristia e o Papado!

“Vertiginoso, espantoso” — gemeu, a tal propósito, meu coração de católico. Que, sem embargo, com isto redobrou de fé e veneração pelo Papado.

No próximo artigo me resta citar “A Igreja, a Reforma e a Civilização”, do grande Pe. Leonel Franca. 

Lutero pensa que é divino! 

Plinio Corrêa de Oliveira
[Transcrito da “Folha de S. Paulo”, 10 de janeiro de 1984] 

"Eu não posso e não vou me retratar". Com essas palavras, Lutero  defende seus
escritos na "Dieta de Worms", em abril de 1521
Não compreendo como homens da Igreja contemporâneos, inclusive dos mais cultos, doutos ou ilustres, mitifiquem a figura de Lutero, o heresiarca, no empenho de favorecer uma aproximação ecumênica, de imediato com o protestantismo, e indiretamente com todas as religiões, escolas filosóficas etc. Não discernem eles o perigo que a todos nos espreita, no fim deste caminho, ou seja, a formação, em escala mundial, de um sinistro supermercado de religiões, filosofias e sistemas de todas as ordens, em que a verdade e o erro se apresentarão fracionados, misturados e postos em balbúrdia? Ausente do mundo só estaria — se até lá se pudesse chegar — a verdade total; isto é, a fé católica apostólica romana, sem nódoa nem jaça. 

Sobre Lutero — a quem caberia, sob certo aspecto, o papel de ponto de partida nessa caminhada para a balbúrdia total — publico hoje mais alguns tópicos que bem mostram o odor que sua figura revoltada espargiria nesse supermercado, ou melhor, nesse necrotério de religiões, de filosofias, e do próprio pensamento humano. 


Segundo em anterior artigo prometi, tiro-os da magnífica obra do padre Leonel Franca S. J., “A Igreja, a Reforma e a Civilização” (Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 3ª ed., 1934, 558 pp.). [capa ao lado]

Elemento absolutamente característico do ensinamento de Lutero é a doutrina da justificação independente das obras. Em termos mais chãos, que os méritos superabundantes de Nosso Senhor Jesus Cristo só por si asseguram ao homem a salvação eterna. De sorte que se pode levar nesta Terra uma vida de pecado, sem remorsos de consciência, nem temor da justiça de Deus.

A voz da consciência era, para ele, não a da graça, mas a do demônio!

Por isso escreveu a um amigo que o homem vexado pelo demônio, de quando em quando “deve beber com mais abundância, jogar, divertir-se e mesmo fazer algum pecado em ódio e acinte ao diabo, para lhe não darmos azo de perturbar a consciência com ninharias [...] Todo o decálogo se nos deve apagar dos olhos e da alma, a nós tão perseguidos e molestados pelo diabo” (M. Luther, "Briefe, Sends breiben und Bedenken", e. De Wette, Berlim, 1825-1828 – cfr. op. cit., pp. 199-200). 

Neste sentido, escreveu ele também: “Deus só te obriga a crer e a confessar. Em todas as outras coisas te deixa livre e senhor de fazeres o que quiseres, sem perigo algum de consciência; antes é certo que, de si, Ele não se importa, ainda mesmo se deixasses tua mulher, fugisses do teu senhor e não fosses fiel a vínculo algum. E que se lhe dá (a Deus), se fazes ou deixas de fazer semelhantes coisas?” ("Werke", ed. de Weimar, 12, pp. 131 ss. — cfr. op. cit., p. 446).

Talvez ainda mais taxativo é este incitamento ao pecado, em carta a Melanchton, de 1º de agosto de 1521: “Sê pecador, e peca a valer (esto peccator et pecca fortiter), mas com mais firmeza ainda crê e alegra-te em Cristo, vencedor do pecado, da morte e do mundo. Durante a vida presente devemos pecar. Basta que pela misericórdia de Deus conheçamos o Cordeiro que tira os pecados do mundo. Dele não nos há de separar o pecado, ainda que cometêssemos por dia mil homicídios e mil adultérios” (Briefe, Sendschreiben und Bedenken", ed. De Wette, 2, p. 37 – cfr. op. cit. p. 439). 

Tão descabelada é esta doutrina, que o próprio Lutero a duras custas nela conseguia acreditar: “Nenhuma religião há, em toda a Terra, que ensine esta doutrina da justificação; eu mesmo, ainda que a ensine publicamente, com grande dificuldade a creio em particular” (Werke", ed. de Weimar, 25, p. 330 – cfr. op. cit., p. 158). 

Mas os efeitos devastadores da pregação assim confessadamente insincera de Lutero, ele mesmo os reconhecia: “O Evangelho hoje em dia encontra aderentes que se persuadem não ser ele senão uma doutrina que serve para encher o ventre e dar larga a todos os caprichos” ("Wekw", ed. de Weimar, 33, p. 2 – cfr. po. cit., p. 212). 

E Lutero acrescentava, acerca de seus sequazes evangélicos, que “são sete vezes piores que outrora. Depois da pregação da nossa doutrina, os homens entregaram-se ao roubo, à mentira, à impostura, à crápula, à embriaguez e a toda espécie de vícios. Expulsamos um demônio (o papado) e vieram sete piores” ("Werke", ed. de Weimar, 28, p. 763 – cfr. op. cit., p. 440).

“Depois que compreendemos não serem as boas obras necessárias para a justificação, ficamos muito mais remissos e frios na prática do bem [...] E se hoje se pudesse voltar ao antigo estado de coisas, se de novo revivesse a doutrina que afirma a necessidade do bem fazer para ser santo, outra seria a nossa alacridade e prontidão no exercício do bem” ("Werke", ed. de Weimar, 27, p. 443 – cfr. op. cit., p. 441). 

Todas essas insânias explicam que Lutero chegasse ao frenesi do orgulho satânico, dizendo de si mesmo: “Este Lutero não vos parece um homem extravagante? Quanto a mim, penso que ele é Deus. Senão, como teriam os seus escritos e o seu nome a potência de transformar mendigos em senhores, asnos em doutores, falsários em santos, lodo em pérolas!” (Ed. Wittemberg, 1551, t. 4, p. 378 – cfr. op. cit., p. 190). 

Em outros momentos, a opinião que Lutero tinha de si mesmo era muito mais objetiva: “Sou um homem exposto e implicado na sociedade, na crápula, nos movimentos carnais, na negligência e em outras moléstias, a que se vêm ajuntar as do meu próprio ofício” ("Briefe, Sendschreiben und Bedenken", ed. De Wette, 1, p. 232 – cfr. op. cit., p. 198). Excomungado em Worms em 1521, Lutero entregou-se ao ócio e à moleza. E a 13 de julho escreveu a outro prócer protestante, Melanchton: “Eu aqui me acho, insensato e endurecido, estabelecido no ócio, oh dor!, rezando pouco, e deixando de gemer pela Igreja de Deus, porque nas minhas carnes indômitas ardo em grandes labaredas. Em suma, eu que devo ter o fervor do espírito, tenho o fervor da carne, da libidinagem, da preguiça, do ócio e da sonolência” (Briefe, Sendscheiben und Bedenken", ed. De Wette, 2, p. 22 – cfr. op. cit. p. 198). 

Num sermão pregado em 1532: “quanto a mim confesso — e muitos outros poderiam sem dúvida fazer igual confissão — que sou desleixado assim na disciplina como no zelo, sou muito mais negligente agora que sob o papado; ninguém tem agora pelo Evangelho o ardor que se via outrora” ("Saemtliche Werke", ed. de Plochman-Irmischer, 28 (2), p. 353 – cfr. op. cit. p. 441).


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O que de comum se pode encontrar, pois, entre esta moral, e a da Santa Igreja Católica Apostólica Romana?

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Fonte: Revista Catolicismo, Nº 791, Novembro/2016 ( catolicismo@terra.com.br )

29 de outubro de 2016

Lutero nos altares? JAMAIS!

“Wormser Reichstag”  (A Dieta, ou Assembleia, de Worms) convocada em abril de 1521 pelo Imperador Carlos V. No quadro acima (pintura de Anton von Werner, 1843-1915), o assistente do Arcebispo de Trier mostra a Lutero cópias de seus escritos (numa mesa e no piso), perguntando se eram de autoria dele e se acreditava naquilo que tais obras afirmavam. Lutero defende seus escritos (heréticos) e, entre outros absurdos, disse: “Não acredito nem no Papa nem nos concílios já que está provado amiúde que estão errados [...] Eu não posso e não vou me retratar”.

Segue a transcrição de matéria de autoria de Sandro Magister, renovado jornalista italiano, especializado em temas religiosos (link abaixo). Assinalado em negrito alguns trechos que me pareceram mais significativos. (Tradução em espanhol de Helena Faccia Serrano, Alcalá de Henares, Espanha).


Lutero a la hoguera. No, a los altares.
La doble visión del Papa jesuita

Ayer veía en la Reforma protestante la raíz de todos los males. Hoy la celebra como “medicina para la Iglesia”. Pero no resulta que haya renegado de sus críticas. Helas aquí, una palabra tras otra

Sandro Magister

Roma, 27 DE OCTUBRE DE 2016 — Dentro de cuatro días Francisco volará a Lund, acogido por la obispo luterana de Suecia, para celebrar junto con la Federación luterana mundial los quinientos años de la Reforma protestante. Ningún Papa, antes de él, ha manifestado tan calurosa simpatía por Lutero.

Interpelado sobre el gran herético en la conferencia de prensa en el vuelo de vuelta de Armenia, Francisco ha dicho que Lutero estuvo animado por las mejores intenciones y que su reforma fue “una medicina para la Iglesia”, sobrevolando por encima de las divergencias dogmáticas esenciales que desde hace cinco siglos enfrentan a protestantes y católicos, porque —son siempre sus palabras, esta vez pronunciadas en el templo luterano de Roma— “la vida es más grande que las explicaciones y las interpretaciones”.

El ecumenismo de Francisco está hecho de este modo. El primado está en los gestos, en los abrazos, en algún acto caritativo hecho juntos. Los conflictos doctrinales, aunque abismales, los deja para las discusiones de los teólogos, a quienes de buena gana confinaría “en una isla desierta”, como le gusta decir, aunque demasiado en broma.

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Sin embargo, también Jorge Mario Bergoglio se ha hecho una idea personal sobre qué han sido Lutero, Calvino y el protestantismo en general. Una idea que hoy ha encerrado bien dentro de sí, pero que en el pasado, cuando no era Papa ni obispo, no ha tenido miedo en exponer claramente.
Era el verano de 1985 cuando el entonces simple jesuita Bergoglio tuvo en Argentina, en Mendoza, una conferencia dedicada precisamente a la infatigable batalla de hace cinco siglos entre la Compañía de Jesús y los protestantes. Reproducimos más adelante los pasajes en los cuales arremetió con furia demoledora contra el pensamiento y la obra de Lutero y Calvino.

Treinta años después no se evoca nada de aquella invectiva en las palabras y en los gestos tan amigables que Bergoglio, convertido en Papa, dirige a los protestantes. Pero de ello no se deduce necesariamente que haya renegado, dentro de sí, aquellas críticas radicales suyas.

De hecho se han vuelto a publicar tal cual, en español y en italiano, en dos libros que ha autorizado de hecho, salidos después de su elección como Papa:
> J. M. Bergoglio — Francisco, Reflexiones espirituales sobre la vida apostólica, Grupo de Comunicación Loyola, Bilbao, 2013. > J. M. Bergoglio — Francesco, Chi sono i gesuiti. Storia della Compagnia di Gesù, EMI, Bologna, 2014

La edición española del libro ha sido preparada por el Grupo de Comunicación Loyola, expresión oficial de la Compañía de Jesús. Y la edición italiana cuenta, además, con el prólogo del padre Antonio Spadaro, director de La Civiltà Cattolica, el jesuita más cercano que ningún otro al Papa Francisco, su consejero, confidente y escritor fantasma. El cual, al resumir la requisitoria anti protestante de Bergoglio, no solamente no toma la mínima distancia de ella, sino que incluso la presenta como “un riquísimo fresco por el cual se puede fácilmente comprender el modo de proceder del Papa, fundamentado sobre dos pilares: la realidad y el discernimiento”.

Cuando salió la edición italiana del libro, a mediados de 2014, el eminente teólogo protestante Paolo Ricca, valdense, expresó su desolado estupor en un editorial en la revista Riforma:
“Me pregunto cómo es posible tener todavía hoy, o incluso hace treinta años, una visión tan deformada, torcida, desfigurada y sustancialmente falsa de la Reforma protestante. Es una visión con la cual no solamente no se puede iniciar un diálogo, ni siquiera una polémica: no vale la pena, porque es demasiado distante y deforme de la realidad. Una cosa es segura: a partir de una visión así, una celebración ecuménica del quingentésimo aniversario de la Reforma, en 2017, parece literalmente imposible”.

Y, sin embargo, el Papa Francisco lo ha conseguido. Su viaje festivo a la Suecia luterana es la prueba de ello. “Audacia de lo imposible” es también la consigna del nuevo general de los jesuitas, elegido hace pocos días. Para cumplir el milagro, a Bergoglio le ha bastado simular el olvido total de aquél discurso suyo de hace treinta años en Mendoza.

Aquí está. Que hay que releer por entero, a la vigilia de la fiesta de Lund.
Gravura representando o "casamento" do ex-frade Lutero com a ex-freira Catarina von Bora

Lutero: una ‘idea loca’ que ha evolucionado en herejía y cisma

por Jorge Mario Bergoglio

Muchas veces, San Ignacio ha sido definido como el bastión de la Contrarreforma. Esto es verdad; sin embargo […] los jesuitas estaban más preocupados con Calvino que con Lutero. […] Habían descubierto con perspicacia que ahí se escondía el verdadero peligro para la Iglesia.

Calvino ha sido el gran pensador de la Reforma protestante, quien la ha organizado y conducido en el plano de la cultura, de la sociedad de la Iglesia; ha plasmado una organización que Lutero no se había propuesto. Éste, el alemán impetuoso que probablemente había proyectado al máximo dar vida a una Iglesia nacional, es releído y reorganizado por aquél francés frío, un genio latino versado en jurisprudencia, que era Calvino.
Lutero era visto como un hereje. Calvino, además, como un cismático. Me explico. La herejía —por usar la definición de Chesterton— es una idea buena que ha enloquecido. Cuando la Iglesia no puede curar su locura, entonces se transforma en un cisma. El cisma implica ruptura, división, separación, consolidación independiente; va creciendo por pasos sucesivos hasta conquistar una propia autonomía. San Ignacio y sus sucesores combatirán contra la herejía cismática.

Y, ¿cuál es el cisma calvinista que provocará la lucha de Ignacio y de los primeros jesuitas? Se trata de un cisma que afecta tres áreas: el hombre, la sociedad y la Iglesia. […]
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En el hombre, el calvinismo provocará el cisma entre razón y emoción. Separa la razón del corazón. En el plano emotivo, el hombre de aquél siglo, y bajo la influencia luterana, vivía la angustia por la propia salvación. Y, según Calvino, de esa angustia no había que preocuparse. Contaba solamente preocuparse de las cuestiones de la inteligencia y de la voluntad.

Este es el origen de la miseria calvinista: una disciplina rígida con una gran desconfianza a lo que es vital, cuyo fundamento es la fe en la total corrupción de la naturaleza humana, que puede ser ordenada solamente por la superestructura de la acción del hombre. Calvino cumple un cisma dentro del hombre: entre la razón y el corazón.

Más aún, Calvino provoca otro cisma en la razón misma: entre el conocimiento positivo y el conocimiento especulativo. Se trata del cientificismo que rompe la unidad metafísica y provoca un cisma en el proceso intelectivo del hombre. Todo objeto científico se asume como absoluto. La ciencia más segura es la geometría. Los teoremas geométricos serán una guía segura de referencia del pensamiento. Este cisma, que se da en la misma razón humana, afecta a toda la tradición especulativa de la Iglesia y a toda la tradición humanística. […]
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El cisma calvinista afecta también a la sociedad, que resultará dividida. Como portadoras de salvación Calvino privilegia las clases burguesas. […] Esto implica y comporta un revolucionario menosprecio de los pueblos. Ya no hay ni pueblo ni nación, y, al contrario, se configura una internacional de la burguesía.
Con un anacronismo podríamos aplicar aquí la fórmula de Marx: “Burgueses de todo el mundo, uníos”, despreciando cualquier significado de la nobleza de los pueblos. Con esta actitud Calvino es el verdadero padre del liberalismo, que ha sido un golpe político al corazón de los pueblos, a su modo de ser y de expresarse, a su cultura, a su manera de ser cívica, política, artística y religiosa.

Probablemente en el plano social esto es más evidente en la elaboración, primero de Hobbes (según el cual los hombres debían convivir por medio del engaño y de la fuerza, mientras que el Estado, “moderno Leviatán”, existía sencillamente para tener a raya los egoísmos y evitar la anarquía, legitimando una lógica de dominio, dado que ya no había ninguna ley natural), y después de Locke, mucho más sofisticado, pero no menos cruel.
Hobbes reivindica el “poder” sin corazón, con una justificación absolutista y racionalista. Locke reviste todo esto con una “compostura civil” y busca redefinir la sociedad excluyendo al pueblo.

La postura de Locke es la siguiente: parte de la admisión de un cierto derecho natural y se sirve del slogan “la razón enseña que…”, para después deducir —como por magia— conclusiones que justifican ese cisma social: el hombre —puesto que supera la propia corrupción natural por medio del activismo— puede poseer el fruto de su trabajo siempre que ese fruto no sea corruptible. He aquí que nace la moneda y la índole monetarista del liberalismo.

Además, la razón enseña que el hombre tiene derecho a comprar trabajo. Y con esto se dan dos tipos de trabajadores: los que poseen bienes no corruptibles y los que no los poseen. El Estado tiene la función de mantener el orden entre estas dos categorías de trabajadores evitando la rebelión de estos contra los primeros. En el fondo, el pensamiento calvinista-cismático-liberal está reivindicando para el segundo grupo de trabajadores el poder de rebelión, lo que hoy llamaríamos la rebelión del proletariado. En última instancia, el marxismo es el hijo obligado del liberalismo.
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En tercer lugar, el cisma calvinista hiere a la Iglesia. […] Sustituye la universalidad del pueblo de Dios con el internacionalismo de la burguesía. […] Decapita el pueblo de Dios de la unidad con el Padre. Decapita todas las cofradías de los oficios privándolas de los santos. Y, suprimiendo la misa, priva al pueblo de Dios de la mediación en Cristo realmente presente. […]

En el fondo Calvino había intentado salvar al hombre, al que la perspectiva luterana había precipitado en la angustia. En Lutero se manifiesta la intención de salvar al hombre del paganismo del renacimiento, pero esa intención había evolucionado hacia una “idea loca”, es decir, en herejía. Por eso Calvino, con la frialdad legislativa que le caracteriza, parte del angustioso planteamiento luterano y evoluciona así: el hombre está corrompido; por consiguiente, disciplina.

De aquí nace lo que conocemos como el “rigor protestante”. Éste propone signos de salvación diferentes de aquellos católicos —los que hemos citado antes—, y el signo es el trabajo acumulativo. Casi como si pretendiera identificar los frutos del trabajo con los signos de la salvación. Podríamos simplificarlo de manera caricatural con este axioma: “Serás salvado si adquieres la riqueza que se obtiene con el trabajo”. Y he aquí plasmada la clase burguesa.
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A partir del planteamiento luterano, si somos coherentes, quedan solamente dos posibilidades entre las cuales optar en el curso de la historia: o el hombre se disuelve en su angustia y ya no es nada (y es la consecuencia del existencialismo ateo), o bien el hombre, basándose en esa misma angustia y corrupción, da un salto en el vacío y se autodefine superhombre (es la opción de Nietzsche).

En el fondo Nietzsche regenera a Hobbes, en el sentido de que la “última ratio” del hombre es el poder. El dominio es posible solamente contra el amor, a partir de la contraposición, en el hombre, entre la razón y el corazón. Un tal poder, como “última ratio”, implica la muerte de Dios. Se trata de un paganismo que, en los casos del nazismo y del marxismo, adquirirá formas organizadas en sistemas políticos.

La perspectiva luterana, porque se fundamenta en el divorcio mismo entre la fe y la religión (efectivamente, concibe la fe como la única salvación, y acusa a la religión —los actos de religión, la piedad, etc.— de ser una mera manipulación de Dios), genera divorcio y cisma; comporta toda clase de individualismos que, en el plano social, afirman su hegemonía.

Toda hegemonía, tanto religiosa, política, social o espiritual, encuentra aquí su origen.
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Nota de Sandro Magister: En 1985, cuando pronunció esta conferencia, Jorge Mario Bergoglio tenía 49 años y era rector del Colegio Máximo de San Miguel. De 1973 a 1979 había sido provincial de la Compañía de Jesús en Argentina.
Un ejemplo de este nuevo enfoque se refiere a la comunión eucarística. Entre las críticas radicales que Bergoglio dirige al protestantismo reformado en su conferencia de 1985 estaba la de “suprimir la misa” y, por consiguiente, de “privar al pueblo de Dios de la mediación en Cristo realmente presente”.
De lo que se deduce la incompatibilidad entre las dos visiones de la eucaristía.
Pero en la práctica, hoy el Papa Francisco se muestra más que dispuesto a cancelar la prohibición de hacer la comunión juntos entre católicos y protestantes, como ha dejado entender en respuesta a la pregunta de una luterana casada con un católico, el pasado 15 de noviembre, mientras visitaba la iglesia de los luteranos de Roma.
Traducción en español de Helena Faccia Serrano, Alcalá de Henares, España.