5 de março de 2021

Pode a Igreja privar da comunhão quem promove o aborto?

Como o ensinamento da Igreja a respeito do aborto não mudou, nem pode mudar, os políticos que promovem o aborto, como é o caso do presidente Biden dos Estados Unidos [ foto], deveriam continuar proibidos de comungar, e até mesmo ser excomungados, ou seja, excluídos da Igreja.

✅  Padre David Francisquini 

Pergunta — Vejo em órgãos da imprensa que alguns bispos norte-americanos têm afirmado que o Presidente Biden, por ser favorável ao aborto, deveria ser proibido de comungar, enquanto outros dizem que a Eucaristia não pode ser utilizada como arma de guerra cultural. Embora eu tenha certeza de que os primeiros têm razão, gostaria de conhecer os motivos pelos quais a Igreja pode privar da comunhão quem promove o aborto. 

Resposta — O pedido de nosso leitor tem todo o propósito, uma vez que a mídia do mundo inteiro divulgou a nota na qual o atual presidente americano Joe Biden, e sua vice Kamala Harris, manifestaram o propósito de transformar a decisão judicial Roe v. Wade (1973), da Corte Suprema americana, em lei federal que permite o aborto. Paralelamente, publicou fotografias e vídeos nos quais se vê Joe Biden comungando. 

Na Argentina, a mesma perplexidade resultou de o atual presidente ter comungado, junto com sua concubina, numa missa celebrada na cripta da Basílica de São Pedro, poucos meses antes de apresentar o projeto que liberou o aborto no país vizinho. 

Diante desses escândalos, os fiéis se perguntam se a doutrina da Igreja em relação ao aborto teria mudado. Porque, se não mudou, os políticos que promovem o aborto deveriam continuar proibidos de comungar, e até mesmo ser excomungados, ou seja, excluídos da Igreja. 

Como o ensinamento da Igreja a respeito do aborto não mudou, nem pode mudar, há motivos de sobra para que essas duas penalidades sejam aplicadas aos homens públicos que discordam abertamente do ensinamento da Igreja Católica, pois a matéria é gravíssima em si mesma; e além do mais, ocasiona o massacre anual de milhões de inocentes no ventre materno. 

Magistério ordinário e universal 

O ensinamento da Igreja sobre o aborto é uma verdade irreformável. Declarou-o João Paulo II na encíclica Evangelium vitæ: “Com a autoridade que Cristo conferiu a Pedro e aos seus sucessores, em comunhão com os Bispos da Igreja Católica, confirmo que a morte direta e voluntária de um ser humano inocente é sempre gravemente imoral. Esta doutrina, fundada naquela lei não-escrita que todo o homem, pela luz da razão, encontra no próprio coração (cf. Rm 2, 14-15), é confirmada pela Sagrada Escritura, transmitida pela Tradição da Igreja e ensinada pelo Magistério ordinário e universal” (n° 57). 

No texto acima, o negrito que colocamos na última frase destaca duas observações importantes: 

1. O Papa não fez uma declaração solene ex cathedra, usando as fórmulas habituais, em cujo caso a encíclica Evangelium vitæ seria infalível ex sesse — ou seja, por si mesma. Limitou-se a reiterar que esse é um ensinamento do “Magistério ordinário e universal”. Mas, no fim da frase, colocou uma nota que remete para o n° 25 da Lumen Gentium, do Concílio Vaticano II, o qual, por sua vez, remete para o n° 3 da Constituição Dogmática Dei Filius, que declara solenemente: “Deve-se, pois, crer com fé divina e católica tudo o que está contido na palavra divina escrita ou transmitida pela Tradição, bem como tudo o que a Igreja, quer em declaração solene, quer pelo Magistério ordinário e universal, nos propõe a crer como revelado por Deus”. Em outros termos, trata-se de uma doutrina irreformável, não por ser uma declaração ex cathedra, mas por ter sido ensinada sempre, por todos e em todas as partes. 

2. Na encíclica Evangelium vitæ, porém, o Papa não diz que essa doutrina “está contida” na Revelação (como recita a fórmula da declaração Dei Filius), mas apenas que ela “é confirmada” pela Sagrada Escritura. Caso dissesse “está contida”, João Paulo II teria afirmado que tal doutrina deve ser crida com fé divina; e implicitamente, que sua negação importa numa heresia. 

Dizendo do segundo modo — “está contida”, ou seja, que o ensinamento está apenas baseado nas Escrituras (que, de fato, não fazem nenhuma menção direta ao aborto) — ele evitou engajar sua autoridade magisterial até o ponto de transformar automaticamente esse ensinamento moral num dogma de fé. A infalibilidade dessa doutrina passa a depender, então, de uma avaliação do grau de conexão com a divina Revelação dessa verdade ensinada universalmente pelo magistério. 

Ensina São Paulo: “Todo aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será culpável do Corpo e do Sangue do Senhor” e “come e bebe a sua própria condenação” (I Coríntios, 11, 27 e 29).

Pecadores públicos 

No meu humilde entender, essa relação entre o ensinamento tradicional e a Revelação é íntima, e além do mais o Papa afirma que ele é transmitido pela Tradição. Por isso, pode-se concluir, segundo meu ponto de vista, que já é uma doutrina infalível a ser crida com fé divina, sendo hereges os que a negam. Mas há teólogos que opinam diferentemente, para os quais a negação dessa doutrina mereceria apenas a censura de “doutrina errônea”, evitando cominar os dissidentes com a qualificação de hereges. 

Os católicos que batalham contra o aborto teriam preferido que João Paulo II não deixasse pairar ambiguidade a respeito de um aspecto tão relevante da questão, tanto mais quanto tal aspecto tem consequências canônicas graves. Contudo, o então Cardeal Joseph Ratzinger, na conferência de apresentação da Evangelium vitæ, confirmou os rumores de que a palavra “infalível” figurava nos primeiros esboços da encíclica, mas a ideia foi abandonada. Segundo ele, seria “um pouco absurdo” solenizar ensinamentos tão evidentes nas Escrituras e na Tradição. A posteriori¸ em vista das atitudes de Biden, Fernández e tantos outros políticos “católicos” — e, infelizmente, do apoio que recebem de tantos bispos e cardeais —, estamos vendo que transformar a condenação do aborto voluntário em dogma de fé explícito não era nem um pouco absurdo. 

Seja como for, mesmo não sendo formalmente hereges os políticos que promovem o aborto e os bispos que os apoiam, certamente são pecadores públicos, por dissentirem abertamente do ensinamento oficial da Igreja. Esse fato, que é evidente para todo fiel zeloso da fé, foi também reiterado pelo mesmo Cardeal Ratzinger, então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, numa carta ao arcebispo de Washington Theodore McCarrick (hoje reduzido ao estado leigo, devido a crimes de abuso sexual) afirmando que, sendo o aborto um pecado grave, e sua despenalização uma lei injusta, nunca é lícito fazer propaganda ou cooperar com a sua adoção. De onde resulta que, “quando a cooperação formal de uma pessoa se torna manifesta — entendida, no caso de um político católico, como fazer campanha e votar reiteradamente em favor de leis permissivas do aborto e da eutanásia” —, seu pastor, seja o vigário ou o bispo, deve informá-lo da doutrina da Igreja e adverti-lo de que, se persistir na sua atitude, não poderá apresentar-se para receber a Sagrada Comunhão, “até que ponha fim à sua situação objetiva de pecado”. A carta prossegue citando um documento do Pontifício Conselho para os Textos Legislativos: “Quando a pessoa em questão, com obstinada persistência, ainda se apresenta para receber a Sagrada Eucaristia, ‘o ministro da distribuição da Comunhão deve recusar-se a dá-la’”.[1]

Comunhão indigna, alimento para a própria condenação

Se Nosso Senhor expulsou os vendilhões
do Templo, o que faria com aqueles que
não se importam que seu Corpo e seu Sangue
sejam profanados, em benefício dos que
promovem o maior massacre de inocentes
 da história da humanidade?
[Foto: Frederico Viotti - Igreja de
São Roque, Paris



De fato, tais políticos pró-aborto são publicamente indignos de receber a Sagrada Comunhão (cânon 915), de receber a Extrema-unção (cânon 1007) ou de se beneficiar de funerais religiosos (cânon 1184). O motivo é que eles são ‘pecadores manifestos’, designação que o novo Código de Direito Canônico dá aos que o antigo incluía como ‘pecadores públicos’. 

A recusa dos sacramentos é particularmente obrigatória no caso da Sagrada Comunhão, não apenas para evitar o escândalo dos fiéis, mas sobretudo para evitar que o pecador cometa um sacrilégio. Pois, como ensina São Paulo, “todo aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será culpável do Corpo e do Sangue do Senhor” e “come e bebe a sua própria condenação” (I Coríntios, 11, 27 e 29). 

O Pontifício Conselho dos Textos Legislativos sublinha, muito apropriadamente, que “a proibição feita no citado cânon [915], por sua natureza deriva da lei divina e transcende o âmbito das leis eclesiásticas positivas: estas não podem introduzir modificações legislativas que se oponham à doutrina da Igreja”. Disso resulta que “nenhuma autoridade eclesiástica pode dispensar em caso algum desta obrigação do ministro da sagrada Comunhão, nem emanar diretrizes que a contradigam”. 

Merecem a mais peremptória condenação, portanto, os sacerdotes, bispos e cardeais que, passando por cima da legislação eclesiástica, dão a comunhão a políticos abortistas ou justificam que isso seja feito. Por sua atitude, estão implicitamente negando que a Eucaristia é o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor; ou negando que os políticos são pecadores manifestos ao aprovar leis injustas; ou ainda isentando o aborto da qualificação de crime abominável. Mais provavelmente eles negam tudo isso, mas não têm a coragem de dizê-lo de modo claro e se escondem atrás de desculpas esfarrapadas, como indicado pelo nosso missivista. 

Se Nosso Senhor expulsou os vendilhões do Templo, o que faria com aqueles que não se importam que seu Corpo e seu Sangue sejam profanados, em benefício dos que promovem o maior massacre de inocentes da história da humanidade? Peçamos a Nossa Senhora que dê coragem aos poucos Pastores corajosos, nos Estados Unidos e alhures, que ainda defendem a honra de seu Filho e não hesitam em enfrentar os modernos Herodes, como fez São João Batista ao preço de seu próprio sangue. 
____________ 
Fonte: Revista Catolicismo, Nº 843, Março/2021.
[1] <https://www.ewtn.com/catholicism/library/worthiness-to-receive-holy-communion-general-principles-2153>

1 de março de 2021

Feminismo radical e verdadeiro feminismo católico

O horrível cartaz do movimento "Maria 2.0", de mulheres "católicas" alemãs, que pede igualdade na Igreja. Ilustração Lisa Kõtter.

✅  Plinio Maria Solimeo 


Nessa revolução igualitária que avassala o mundo, não é de espantar que tenham surgido movimentos feministas dos mais radicais. Muito deles são de índole anarquista, invadem e profanam igrejas, atacam manifestações contra aborto etc. 

Há os de índole mais pacífica, que visam acabar de modo legal a diferença entre homens e mulheres na sociedade. Entre esses, há os que se dizem “católicos”, e para obter seus fins, querem uma reforma total na Igreja, inclusive na Sagrada Escritura para que seja reescrita, para dela tirar o caráter “machista”, atribuindo a Deus um gênero neutro. 

Entretanto, a maioria desses movimentos se baseiam na doutrina marxista da “luta de classes”, trocando-a pela de gênero, e defendem postulados abortistas, contra a vida, contra a família e defendendo a ideologia de gênero. 

Recentemente um grupo de feministas alemãs que se dizem católicas, nas vésperas da assembleia plenária da Conferência Episcopal alemã que começou no dia 23 de fevereiro, fixaram nas portas de inúmeras catedrais e igrejas do país um cartaz com “7 Teses por uma Igreja viva”. 

Afirmam elas que, “com a afixação destas teses em toda a Alemanha, queremos chamar a atenção para situações insuportáveis no seio da Igreja Católica, e reforçar as nossas exigências de reformas para uma Igreja de futuro, irmã e plural”. 

É sintomático que mulheres que se dizem católicas, para manifestar seu desagrado com a Igreja, se inspiram no heresiarca Martinho Lutero, que em 1517 teria afixado suas 95 teses na porta da igreja do Castelo de Wittenberg, o que foi considerado o início de seu rompimento com a verdadeira Igreja.

O que pedem concretamente essas feministas? Nada de novo na lógica feminista: Uma atitude de valorização em relação à sexualidade autodeterminada — quer dizer, não a do sexo biológico, mas a que a pessoa afirma ter —, com a introdução da teoria de gênero em “uma Igreja com justiça de gênero, na qual todas as pessoas tenham acesso a todos os cargos” — quer dizer, com o sacerdócio feminino, “bispas”, “sacerdotisas” etc. — e pedem também, pasmem, o fim do celibato eclesiástico para os sacerdotes! 

Por que essas feministas se importam em que um homem se entregue, livre e voluntariamente, ao serviço de Deus pelo celibato? Porque esse também é um dos pontos da agenda revolucionária que defendem. Mais ainda: Elas exigem que o episcopado alemão comece faça reformas nas normas da Igreja Católica. Ora, o episcopado alemão já é a ponta de lança da revolução na Igreja. Mas elas acham que os bispos estão caminhando lento demais! 

É natural que haja reações da parte sã da população, sobretudo da católica. Foi o que sucedeu, por exemplo, na França, onde um grupo de mulheres publicou um manifesto “Sobre a vocação do feminino”, no qual contesta muitas das teses feministas mais radicais. Esse manifesto já recebeu a adesão de mais de 500 mulheres entre donas de casa, engenheiras, professoras, estudantes etc. 

No subtítulo do manifesto, está: “Por ocasião da publicação do ‘Motu Proprio Spiritus Domini’, nós, mulheres católicas, desejamos que a beleza da nossa vocação específica seja reconhecida e amada”. Ora, esse motu proprio do Papa Francisco é exatamente visto por muitos como um perigoso caminho que pode chegar até a ordenação sacerdotal de mulheres. 

Entretanto, dizem as signatárias do documento: “A questão da presença da mulher no santuário, e a obstinação de alguns pelo casamento dos padres ou pelo sacerdócio da mulher são, para nós, os sintomas de uma grave crise litúrgica enraizada numa crise antropológica ainda mais profunda na complementaridade do homem e mulher. Todo católico, seja qual for seu estado de vida ou sua orientação litúrgica, deveria se preocupar com essa atitude, que gera profundo mal-estar. É no momento em que percebemos o perigo do clericalismo que, paradoxalmente, esquecemos que as mulheres são divinamente excluídas da hierarquia eclesial para o bem de toda a Igreja. Nunca, até hoje, a vocação feminina foi representada em tamanha caricatura, tão empobrecida”. 


Para mostrar que, em toda época, houve mulheres de relevo que tiveram um papel histórico em seu tempo, citam Judite e Ester, que foram decisivas para libertar seu povo. Mas sobretudo recordam o mistério da Encarnação, no qual “Deus nos dá seu próprio Filho através da Virgem Maria” e, nela “o Amor de Deus encontra sua morada irrevogável”. 

“Mulheres católicas”, continuam, “conscientes de nosso privilégio mariano, optamos por colocar nossas energias e talentos a serviço da efetiva complementaridade entre homem e mulher. Consideramos que a nossa vocação específica não é espelho da do homem, e que não precisa ser enobrecida pelo serviço do altar. Do mesmo modo que o homem contrai uma dívida vis-à-vis da maternidade espiritual, exprimimos nossa gratidão para com o serviço masculino no altar”.

Por isso, “homem ou mulher, temos uma dívida com este sim feminino. Como resultado desta resposta, as mulheres no cristianismo têm sua própria liberdade de expressão e de ação. É justo recordar algumas figuras ilustres como Santa Catarina de Siena ou Santa Joana d’Arc, mas também reconhecer as discretas intervenções das mulheres inclusive em nossa vida pessoal”. 

As signatárias acrescentam que, “A tradição de deixar as mulheres longe do altar é muito antiga, dir-se-ia original”. Aqui as signatárias remetem para a citação de São Paulo na primeira carta aos coríntios, 14, 34-35, que diz: “Calem-se as mulheres nas assembleias, porque não compete a elas falar, senão viver sujeitas, como diz a Lei. Se quiserem aprender alguma coisa, perguntem em casa a seus maridos, porque não é decoroso para a mulher falar na igreja”. 

Continuam: Essa tradição: 

“1: está presente tanto no Oriente quanto no Ocidente”. [Aqui remetem para Can. 44 de la collection de Laodicée du IVe] 

2: “O Cristianismo, que sempre ensinou a igual dignidade do homem e da mulher, mantendo a exclusão das mulheres do sacerdócio ministerial, lembra a cada ser humano, homem ou mulher, que a medida da sua vocação é a união com Deus. Longe de diminuir a mulher, a Igreja, cuja hierarquia é masculina, apresenta-se assim como uma Noiva”.

Além do mais, “a mulher é [sobretudo] educadora. Queremos que nossos filhos encontrem marcos claros sobre suas vocações como homens e mulheres. As meninas não devem ser incentivadas a se envolver em um clima de lutas e demandas. Elas devem ser encorajadas a desenvolver e prestar contas de seus próprios talentos e carismas. Devem receber o fato de ser mulher, pelo que isso significa: uma graça notável!” 

Essas católicas segundo a Igreja, sabem que os pastores hoje em dia têm que ser muito firmes para rejeitar o “politicamente correto”, e pregar a verdadeira doutrina, doa a quem doer. Por isso concluem o documento afirmando: “Estamos conscientes de que nossos pastores, para serem fiéis ao chamado evangélico e à tradição bíblica e eclesial, têm que sofrer pressões e muito que sofrer. Asseguramos-lhes a nossa oração e o nosso afeto fraterno, para que seu celibato oferecido e unido ao Único Sacrifício, seja sempre mais fecundo”.

É salutar encontrar, em meio a esse caos e confusão que imperam na sociedade espiritual e na temporal, valentes vozes que se levantam em defesa da boa doutrina.

28 de fevereiro de 2021

O charme do espírito veneziano

  Distinção, dignidade e frivolidade do Ancien Régime numa praça de Veneza 

✅  Plinio Corrêa de Oliveira 

Em minha sala de trabalho [foto acima] tenho um quadro reproduzindo uma pequena praça de Veneza [foto abaixo]. Ela tem um charme que toca nos sentidos, inclusive por seus defeitos, revelando a ‘alma’ e o espírito veneziano. Esse charme impregna o conjunto da praça, a igreja no fundo, as casas e os personagens ali presentes, cujas atitudes características dão a impressão de estarem saindo de alguma representação teatral. 

A igreja, em estilo que parece do século XVII, irradia alguma paz ao conjunto. É quase o contrário do que transparece nas pessoas, entretanto acaba envolvendo-as. Por uma porta aberta da igreja se percebe algo de meditativo e sério, pela presença do Santíssimo Sacramento no sacrário interno, riquíssimo em graças. É o mesmo imponderável de certas igrejas da Itália. 

Campo Santa Maria Formosa, em Veneza, 1741 – Michele Marieschi, séc. XVIII. Museu Correr, Veneza

Essa Veneza do século XVIII tem algo que lembra remotamente a dignidade e distinção próprias do Ancien Régime. Nas pessoas transparece também a frivolidade social daquela época. São habituadas a morar em Veneza e conviver com casas de aspecto um tanto tristonho, com tracinhos de palácio. Elas gostam do estilo, que as eleva a um nível mais alto. 

Esses vários aspectos, onde se misturam laivos de séculos anteriores com algo do século que viria, influenciam as almas dos que ali estão, ou que moram na praça. 

A mistura de todos esses aspectos lembra certos arranjos de sorvetes, quando a groselha e o creme vão se derretendo, alternando dentro do copo suas cores respectivas. Na praça, os seus vários aspectos formam laivos psicológicos — um ice-cream soda indefinido dentro de um copo, que seria aquela pracinha. 
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Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 19 de janeiro de 1984. Esta transcrição não passou pela revisão do autor.

26 de fevereiro de 2021

Um amigo não é o adulador, mas um segundo eu

O Rei São Luis IX em Damieta (Egito) protegido por cruzados


A respeito do tema "Amizade" seguem algumas frases para reflexão. Refiro-me à Amizade (com A maiúsculo) autêntica, profunda e duradora e não daquela amizade carregada de sentimentalismo romanesco, e que não passa de um afeto efêmero.
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“Querer as mesmas coisas, mas não querer as mesmas coisas, é essa na verdade a sólida amizade”. 

(São Jerônimo) 


“Mais amigo é o censor que corrige nossos erros do que o adulador que perfuma nossa cabeça”. 

(Santo Agostinho) 

“Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos”. 

(São João, 15,13) 

“Se queres ter um amigo, adquire-o durante a provação, e não te apresses a confiar nele”. 

(Livro do Eclesiástico 6, 7) 

“Alter ego est amicus” – Um amigo é um segundo eu. 

(Expressão latina) 

“Se vamos ser verdadeiros amigos, é preciso que gostes de mim, e não da minha fortuna”. 

(Cícero) 

“Quem critica o amigo ausente é mau caráter”. 
(Horácio) 

“Amigo de todos, amigo de ninguém”. 

(Sêneca)

25 de fevereiro de 2021

Se o Brasil não quiser ser China


Publicado em “O Legionário” de 8 de novembro de 1936, o artigo com o título em epígrafe trata de questões políticas daquele ano, mas o trecho que segue pode ser aplicado à posição que devemos tomar atualmente em defesa da Igreja e do Brasil. 

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✅  Plinio Corrêa de Oliveira 

Nós católicos não podemos admitir um cristianismo diluído, só nos contentamos com o cristianismo total. Isto é, só nos damos por satisfeitos quando nos apresentam propostas claras e positivamente de acordo com o catolicismo. Como cidadãos, é certo que poderemos sentir nossas preferências por um ou por outro candidato; porém, como católicos, só pode obter nossa simpatia o respeito ao nosso direito de consciência. 

Com um olhar de inteira neutralidade, assistimos por enquanto às manobras tendentes a consolidar as diversas candidaturas. Desde já devemos declarar, porém, que todos os brasileiros devem colocar acima dos interesses pessoais e mesquinhos, ligados à sucessão presidencial, questões fundamentais cuja solução não poderá e não deverá ser prejudicada pelas lutas políticas, por mais violentas que venham a ser. 

Não cruzaremos os braços enquanto não aparecer uma candidatura que nos fale em alto e bom tom dos direitos da Igreja Católica, Apostólica, Romana, prometendo respeitá-los e apresentando garantias morais suficientes para nos convencer de que tais promessas serão cumpridas. 

Em primeiro lugar, é necessário os dirigentes de todas as forças políticas anticomunistas não se esquecerem de que a Pátria espera deles um combate sem tréguas aos inimigos da Civilização. Mas se a ambição de politiqueiros vulgares puser em risco a paz nacional, a unidade da pátria ou a estabilidade da propriedade e da família, devemos saber que o Brasil só teria diante de si um único destino — o da China. Mas se os brasileiros souberem manter incólumes os grandes princípios católicos que devem nortear sua atividade política, o Brasil poderá enfrentar a tormenta.

23 de fevereiro de 2021

Igreja gloriosa e Igreja miserabilista


✅ Plinio Maria Solimeo

Em sua liturgia, em seus cânticos, nos paramentos, em seus objetos de culto, enfim, em tudo a Igreja se esmerava em representar algo que remetesse ao divino e ao celeste. Isso representava um intuito dela até o Concílio Vaticano II. Tanto quanto possível o Corpo Místico de Cristo procurava refletir a glória do Céu na Terra. 


Procurava a Santa Igreja de Cristo mostrar ao humilde transeunte neste Vale de Lágrimas, um vislumbre do que o esperava na eterna Pátria celeste. Mas infelizmente ela foi se despojando de tudo o que representava de glória e de esplendor para se tornar uma Igreja miserabilista 
[foto], conformando-se com a decadência geral que se abateu sobre o mundo.

Eis um texto transcrito de reunião feita pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a seus discípulos sobre uma canonização assistida por ele na Basílica de São Pedro. Estou certo, dará uma ideia da grandeza sobrenatural que a Igreja Católica manifestava nos seus momentos de glória: 
“Começa a cerimônia de canonização. Tocam os sinos da Basílica de São Pedro — sinos de bronze, com categoria e majestade. Tocam lentamente, mas deles saem vibrações que criam a impressão de que vão mover as estrelas e o mundo. Em certo momento, todo o carrilhão está tocando. Quando os sinos param, ouve-se de longe o som das trombetas. 


São as duzentas ou trezentas trombetas de prata desenhadas por Michelangelo que anunciam o cortejo do Papa que vem chegando. As portas de bronze da igreja de São Pedro se abrem, e começa a entrar o cortejo. O Papa vinha na Sedia Gestatória 
[foto], toda de marfim, com incrustações de prata. E ao seu lado, dignitários carregando flabelli, os leques de pluma enormes, a Guarda Nobre com couraça, a Guarda Suíça e a Guarda Palatina. 

Um cortejo lindíssimo, mas também longuíssimo pois, pelo protocolo da Igreja, os inferiores vêm na frente, e os superiores atrás. Primeiro, eclesiásticos de uma ordem menor. Depois, os superiores gerais das Ordens religiosas. Em seguida, o famoso papa negro — quer dizer, o superior geral dos jesuítas. Encerrando, os Bispos, Arcebispos e Cardeais. Por fim, entrava na Basílica o Papa sob uma tempestade de aplausos. O povo se ajoelhava. 
Nisto, no alto da cúpula da igreja de São Pedro, onde há uma frisa, ouve-se um coro majestoso que canta: “Tu es Petrus, et super hanc petram aedificabo Ecclesiam meam, et portae inferi non praevalebunt adversus eam” (“Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra Ela”). Isto, mais os sinos, mais as trombetas, mais o coro, mais os aplausos do povo, o Papa muito ereto, e dando a bênção de um lado e do outro, formava um espetáculo inesquecível, uma coisa extraordinária. 

Vista da cerimônia de canonização de Santa Joana de Valois assistida pelo Prof. Plinio no Vaticano


Quando o Papa passou pela tribuna do corpo diplomático, ajoelhamo-nos. Os diplomatas não católicos, como o nosso vizinho egípcio, faziam uma profunda vênia como diante de um monarca que passa. O Papa — alto, esguio, com as mãos muito brancas, compridas, pareciam de marfim — desce da Sedia Gestatória, vai de tiara ao seu trono, e senta-se. Começa a Missa, que se desenrola com pompa. 

Chegado o momento da Consagração, o Papa levanta-se do trono, vai até o altar da Confissão debaixo das colunas de Bernini [foto abaixo], depõe a tiara, coloca a mitra, tira-a em seguida, e assiste à Consagração de cabeça descoberta. Nesse momento, da frisa da cúpula de São Pedro, as trombetas de prata tocam. 

A impressão era de um toque de anjos tocando no Céu. Pude notar lágrimas que escorriam dos olhos do embaixador do Egito. Ele não estava chorando, mas lacrimejando abundantemente. Eu desviei o rosto para ele se sentir à vontade, e não observado. No fim da Missa o Papa se volta, e dá a bênção do povo. Nova explosão de alegria e toque de fanfarras”. 


 

Paramos aqui o relato do Prof. Plinio. 

A sedia gestatória do Papa Pio VII, atualmente em exposição no Palácio de Versailles


Voltemos agora os olhos para os tristes dias que correm. O papado, como dissemos, sobretudo depois do Concílio Vaticano II, foi se despojando uma por uma de suas antigas grandezas. Comecemos pela Sedia Gestatória [foto], que tão bem manifestava o alto grau da importância do Doce Cristo na Terra que nela se sentava. Tinha se incorporado tão bem à vida da Igreja, que um cortejo papal ficaria pobre sem ela.

O último Papa a usá-la foi João Paulo I, por ocasião do início de seu pontificado. Posteriormente ele a abandonou, deixando aos seus sucessores o direito de decidir ou não pela sua reintrodução, o que nunca foi feito. Veio depois a vez da Tiara [foto abaixo], essa tríplice coroa que tem como um de seus significados que o Sumo Pontífice é o Pai dos Reis, Pastor do Mundo, e Vigário de Cristo. 





A partir do século VIII ela passou a ser usada pelo Papa em sua coroação e ocasiões solenes. Entretanto, esse altíssimo símbolo do Papado foi simplesmente abolido no dia 3 de novembro de 1964 por Paulo VI, numa demagógica doação de seu ouro e prata aos pobres de Roma. 


Os Flabelli — elegantes leques — [foto] tiveram uma origem muito corriqueira como a de afastar insetos da Hóstia Consagrada, foram depois adicionados ao cortejo pontifício, aumentando seu esplendor. Depois do Vaticano II foram também abolidos, bem como as trombetas de prata praticamente não se ouviram mais tocar. O majestoso coro da Capela Sistina foi reduzido a um mínimo. 

E a Guarda Nobre? [foto abaixo à direita] Formada por Pio VII em 1801, essa guarda pessoal do Papa tinha um recrutamento voluntário entre os membros das famílias nobres italianas. Não tinham soldo, embora recebessem uma compensação pelo uniforme que envergavam. Foi também o Papa Paulo VI que, em 1970, a aboliu, fazendo esse gesto pouco louvável à Igreja. 

Coube também a esse Pontífice suprimir, ao mesmo tempo, a Guarda Palatina [foto abaixo à esquerda], uma das forças de segurança do Vaticano que serviam ao Papa. Sua grande glória ocorreu em 1943, quando a Alemanha nazista ocupava Roma, e a Guarda Palatina foi encarregada de proteger o Vaticano e suas várias propriedades. 


Em mais de uma ocasião este serviço acabou resultando em violentos confrontos com a polícia da Itália fascista, aliada dos alemães. Essa Guarda era formada sobretudo por lojistas romanos e empregados de escritório, e era um dos adornos dos cortejos papais. Resta apenas — por quanto tempo? — a Guarda Suíça [foto no final], formada em 1506, e responsável pela segurança do Papa. Hoje constitui as forças armadas da Cidade do Vaticano. 

Hoje. O Papa Francisco foi quem mais demoliu a Igreja de seus ornamentos, tanto em suas vestes quanto nos inúmeros adornos que a enriqueciam, como a Estola pontifícia, de veludo com bordados a ouro, que os Papas usavam como símbolo supremo do sacerdócio e submissão a Deus. Ele também deixou de lado a moseta — manto curto vermelho de veludo com borlas de arminho, colocado sobre os ombros, simbolizando a autoridade espiritual — assim como o chapéu e os sapatos vermelhos. 




Para a dessacralização da Igreja, o Papa Francisco tem concorrido muito com o seu modo de ser e de agir vulgar, que o levou a não habitar, como todos os Papas anteriores, no Palácio Apostólico, preferindo viver como um bispo comum na residência de Santa Marta, que serve de hospedagem aos eclesiásticos de passagem por Roma. 

Para não falar em toda desfiguração da liturgia, principalmente a da Missa, que foi despojada de todo significado transcendental, para hoje se transformar numa desordem em que cada sacerdote improvisa, a seu bel prazer, segundo sua imaginação ou falta dela. Tudo isso nos leva a ter uma pálida ideia do tombo que houve de Pio XII para cá. 

Uma cerimônia da Igreja de hoje dificilmente será capaz de emocionar um muçulmano, levando-o a lacrimejar, como no cenário descrito acima. Que a Santíssima Virgem, Mãe da Igreja e nossa, tenha pena dela, e a faça ressurgir como nos tempos de seu maior esplendor.




11 de fevereiro de 2021

CURAS INEXPLICÁVEIS, MAS COMPROVADAS


Bureau médico de Lourdes demonstra com todo rigor, exatidão e seriedade quando as curas são consideradas milagrosas


✅ Fonte: Revista Catolicismo, Nº 842, Fevereiro/2021

O médico italiano Alessandro de Franciscis [foto] — membro da Associação Médica Internacional de Lourdes, primeiro presidente não francês desse Bureau, há 11 anos à frente do Laboratório de Constatações Médicas — começou a se interessar aos 17 anos pelos milagres ocorridos em Lourdes, quando se apresentou como voluntário. Numa entrevista para a revista australiana The Record* (6 de fevereiro de 2020), ele descreve o processo no laboratório para julgar os casos apresentados como medicamente inexplicáveis e tidos como milagrosos. 


“Eu gosto de dizer que sou o único médico de que as pessoas realmente não precisam, porque elas só vêm a mim quando estão curadas [...]. Tenho sido muito privilegiado com o que vejo, e a parte mais interessante e emocionalmente impactante do meu trabalho é ouvir relatos muito íntimos e pessoais de vidas e histórias que mudaram completamente por causa de Lourdes. 

“Às vezes alguém me pergunta qual foi a cura mais espetacular que presenciei, ou a coisa mais linda que aconteceu em Lourdes. Mas, na verdade, acho que a coisa mais espetacular aqui é encontrar outros seres humanos de diferentes culturas e continentes, com diferentes línguas, e descobrir que, pela generosidade de Nossa Senhora de Lourdes, suas vidas, independentemente da cura, mudaram radicalmente. Porque foi aqui em Lourdes que descobriram o amor maternal de Maria, a Mãe de Jesus [...]. 

“O Bureau foi fundado com a ideia de recorrer à Medicina, e pedir aos médicos seu julgamento e avaliação antes mesmo de iniciar qualquer análise religiosa e canônica de um possível milagre [...]. 

“Em 2019 recebemos mais de quatro mil médicos, que passaram algum tempo em Lourdes e nos informaram que estavam dispostos a colaborar no estudo, discussão e alteração de expediente de supostas curas. Com este método de estudo colegiado, estudamos cerca de 7.500 casos desde a fundação do Bureau, usando a partir de 1905 o mesmo método da Congregação Romana para as Causas dos Santos. 

“Os sete critérios foram formulados pelo então cardeal Lambertini, arcebispo de Bolonha (posteriormente Papa Bento XIV), em sua importante obra conhecida como De Servorum Dei Beatificatione et Beatorum Canonizatione (Sobre a beatificação dos Servos de Deus e a canonização dos bem-aventurados), que também descreve as maneiras de reconhecer uma cura como potencialmente milagrosa.” 
Os membros do Laboratório de Constatações Médicas entrevistam Catherine Lapeyre, curada milagrosamente de um câncer na língua, em 1889. Quando esteve em Lourdes, ela lavou sua boca com água da fonte.

Exclusivamente provas de curas inequívocas 

A seguir, os sete referidos critérios indispensáveis para se registrar como milagrosa alguma cura em Lourdes:** 
“1 – Primeiro, é preciso saber de que enfermidade padecia o doente. Quer dizer, é obrigatório apresentar um diagnóstico seguro da doença da qual se foi curado. 

2 – Se o prognóstico (evolução que cabia esperar da doença) era grave. Não se analisam casos leves. 

3 – A cura deve ter ocorrido de forma inesperada, sem sinais premonitórios. Quer dizer, não pode ter sido ‘aos poucos’. 

4 – A cura deve ter sido instantânea. 

5 – A cura tem que ter sido completa. 

6 – Ela tem que ter sido duradoura. Passados os anos, não se pode detectar a enfermidade. Por isso é necessário esperar antes de se aprovar o milagre. 

7 – Finalmente, temos um sétimo e último critério. Se tivermos todos os itens acima, precisamos saber se existe alguma explicação médica possível para a cura. 
“Em alguns casos, encontramos uma explicação. Ela ocorre com o enorme número de pessoas que vêm reivindicando a cura do câncer, por exemplo, mas podemos descobrir que elas fizeram algum tipo de tratamento – como imunoterapia, quimioterapia, radioterapia, e assim por diante [...]. 


“Mas existem outros casos raros em que podemos chegar a definir uma cura como inexplicável de acordo com os conhecimentos médicos atuais; é o que basicamente chamamos na medicina acadêmica de regressão espontânea de uma doença grave, onde temos a certeza de que a pessoa adoeceu de uma doença conhecida, e foi curada de uma forma para a qual não temos explicação. Entretanto isso não quer dizer que todas as outras curas que ocorrem não possam ser milagres. Mas para uma cura ser oficialmente declarada milagrosa, absolutamente todas as explicações científicas possíveis devem ser excluídas. 

“Trabalhando com esse método, milhares de casos foram estudados, e mais 63 foram então reconhecidos como milagrosos, junto com os primeiros sete reconhecidos pelo bispo no momento das aparições. O último foi em 11 de fevereiro de 2018, para perfazer um total de 70 casos oficialmente declarados como milagrosos [...]. 

“Considero que temos uma grande necessidade, na comunidade cristã e na Igreja Católica, de redescobrir a relevância da experiência de sofrer doenças, e do conforto e apoio que nossa fé católica pode dar a isso [...]. 

“Na minha experiência, estamos de alguma forma esquecendo a poderosa mediação que Jesus pode dar, e a importância dos Sacramentos como a Unção dos Enfermos. Portanto, creio que Lourdes ainda está aqui para ensinar isso, e continua a ser um lugar onde os peregrinos com alguma doença se sentem bem-vindos como convidados de honra”. 
____________ 
* https://therecord.com.au/news/feature/mixing-faith-and-science-behind-the-miracles-at-lourdes/ 
** https://www.religionenlibertad.com/cultura/724885355/lourdes-curacion-milagrosa-exigentes-criterios-responsable.html

8 de fevereiro de 2021

LOURDES — Graças, milagres e a conformidade com o sofrimento


Lugar abençoado com a fonte de milagres suscitada pela Santíssima Virgem, onde Ela estabeleceu seu Trono, revela especialmente sua bondade e mostra que é nossa Mãe 

✅ Fonte: Revista Catolicismo, Nº 842, fevereiro/2021

Difusor incansável da devoção à Santa Mãe de Deus, Plinio Corrêa de Oliveira costumava repetir com São Bernardo a máxima “de Maria nunquam satis” (Nunca nos cansamos de Maria). Podemos afirmar também que ‘de Lourdes nunquam satis’, pois jamais se ficará saciado e nunca se dirá o bastante. 

Não há palavras suficientes para enaltecer os inúmeros milagres operados em Lourdes — cientificamente comprovados, com grande rigor, por equipes médicas que desmentem qualquer incrédulo. Nem palavras suficientes para falar dos relatos de peregrinos que marram as maravilhas que presenciaram quando lá estiveram e voltaram curados ou reconfortados em seus sofrimentos. 

Sendo a festividade de Nossa Senhora de Lourdes a principal celebração marial deste mês, a matéria de capa da edição de Catolicismo [foto acima] expende aspectos diferentes dos já expostos ao longo dos anos na revista. Os leitores encontrarão informações preciosas, convidando-os a percorrer em espírito aqueles benditos lugares às margens do rio Gave, junto aos Pirineus. 

Podemos pedir à Imaculada Conceição — título dogmático com que Ela se apresentou a Santa Bernadette na 16ª aparição (25 de março em 1858) — as graças, ou mesmo milagres, de que mais necessitamos neste ano sombrio, pandêmico e carregado de apreensões; mas também de esperanças na intervenção da Divina Providência. 


Não nos esqueçamos de rezar também pelo restabelecimento da Igreja e do mundo, abalados pela autodemolidora crise atual. Os pedidos podem ser feitos preferencialmente diante de uma imagem de Nossa Senhora de Lourdes (ou da Imaculada Conceição). Aos que residem na capital paulista, será proveitoso visitar uma imagem muito especial [foto], de acordo com a informação do Prof. Plinio: 
“Na igreja do Sagrado Coração de Jesus há uma gruta com uma imagem de Nossa Senhora de Lourdes. Não é uma imagem qualquer, é a própria imagem que era venerada na Basílica de Lourdes, na França, antes da imagem atual, segundo documento guardado na igreja. Portanto, essa imagem constitui um elo entre Lourdes e o Brasil”. 
Desejamos a todos uma profícua leitura, com bons frutos para a vida espiritual de cada um. Certamente serão concedidos por intercessão d’Aquela que é fonte de todas as graças, a bondosa medianeira entre Deus e os homens. 
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* Para fazer uma assinatura da revista Catolicismo envie um e-mail para catolicismo@terra.com.br

3 de fevereiro de 2021

O momento atual está mais para violino ou para espada?


H
oje me caiu nas mãos um artigo bem dos tempos de antigamente — redigido há 86 anos! Velha a questão nele abordada, mas, ao mesmo tempo, muito nova, pois trata de um problema com o qual hoje nos deparamos quando falamos de liberdade de expressão, quando defendemos o sagrado direito de propriedade e a instituição familiar.

Por isso, aqui reproduzo tal artigo para apreciação de nossos leitores. Com o título abaixo, o texto é de autoria de Plinio Corrêa de Oliveira e foi publicado no “O Legionário”, Nº 184, em 10 de novembro de 1935. 


ENTRE A ESPADA E O VIOLINO 

É com pesar que registramos nesta coluna as declarações do líder Henrique Bayma, relativas à liberdade de cátedra. O Sr. João Carlos Fairbanks manifestou sua estranheza por ter a Câmara Estadual aprovado uma subvenção à Escola de Sociologia e Política, uma de cujas cátedras está confiada a um professor que faz em plena aula a mais clara campanha comunista. Em réplica, o líder Henrique Bayma afirmou - transcrevemos textualmente o “Estado de S. Paulo” – que “... a cátedra é livre. A chamada lei de segurança contém um artigo repetindo este princípio indiscutível: que é livre, a quem quer que seja, pregar idéias sejam elas quais forem. Só o que não é possível é fazerem propaganda por meios violentos. De maneira que, em qualquer hipótese, seria uma intolerância restringirmos a liberdade de cátedra”. 

Assim, pois, para o porta-voz do Partido Constitucionalista na Câmara dos Deputados, só a pregação da violência deve ser reprimida. Mas se pregar o amor livre, a supressão da propriedade ou a destruição da Religião por meios pacíficos, a maioria parlamentar estará disposta a cruzar os braços.

Proceder por esta forma é ignorar as condições sociais contemporâneas. Faça-se a pregação de qualquer doutrina como quer o Dr. Henrique Bayma, persuadam-se às massas de que a família é uma instituição burguesa destinada a perecer. E responda-nos S. Exa. o que será da moralidade pública, depois de arraigada esta convicção no espírito do povo. 

Convença-se este de que a Religião é a cocaína com que a burguesia anestesia os padecimentos da massa, e conte-nos, depois, Sr. Henrique Bayma, em que estado de devastação ficarão os nossos bons costumes particulares e públicos, já tão débeis. 

Persuada-se o povo de que a propriedade é ilegítima, e responsabilize-se o Sr. Henrique Bayma se tiver coragem, pela ordem pública material, de cuja conservação S. Exa. faz a suprema finalidade do Estado. Quem conterá as massas sem moral e sem Fé, para evitar que elas se atirem contra a propriedade privada que durante tantos anos lhes foi apontada como iníqua? Por que esperarão elas pacientemente que se suprima a propriedade individual por via pacífica e legislativa? Merecem porventura as imposturas tamanha consideração? E quando as massas se atirarem sobre os lares e as Igrejas, de que forma se há de lhes levantar barreira? Não se conte com os soldados, que são filhos do povo e estarão ao lado da massa. Com quem conta o Sr. Henrique Bayma para empunhar os fuzis que os soldados não quererão manejar? Com alguma coligação lírica de bacharéis liberais? 

Narra-se que quando Bizâncio foi invadida pelas tropas turcas, em um suntuoso edifício se encontrou um bizantino, cidadão prestante, que em lugar de empunhar a espada na defesa da Pátria, tocava violino enquanto seus compatriotas morriam no cumprimento do dever. Com um golpe de espada foi morto sob o riso sarcástico dos adversários e entrou para a História como símbolo da imprevidência e da inércia. 

Ao Partido Constitucionalista incumbem, no momento, gravíssimas responsabilidades. É nas suas mãos que está depositada a espada cortante e augusta da autoridade pública. Se, neste momento de perigo, ele a deixar de lado para vibrar as cordas líricas do liberalismo bacharelesco, não merecerá ele a celebridade que alcançou o violinista de Bizâncio? 

Parece, em todo o caso, que o violino exerce atrativo maior que a espada. É ao menos o que nos dá a entender a Prefeitura, que mais uma vez prepara o Carnaval Oficial. 

Uma Comissão de Divertimentos Públicos nomeada pela Prefeitura, já está preparando todas as providências para que seja bem completa a devastação dos lares e de honras. (...) 

Em um País em que o governo cruza os braços diante da demagogia e se cinge com a coroa suspeita de Rei Momo; em um País em que a oposição silencia diante deste espetáculo, julgando dignas de sua atenção apenas as cifras orçamentárias, o que há a fazer? 

Católicos: estais com a palavra, respondei.

29 de janeiro de 2021

Aborto não é uma questão religiosa?


 

✅  Luiz Sérgio Solimeo

Os católicos argentinos deram um exemplo para o mundo ao lutar valentemente contra a legalização do aborto [Fotos acima e ao lado]. Entretanto, eles não tiveram o apoio do papa argentino, uma vez que a agenda dele não inclui tais preocupações. Com efeito, o silêncio do Papa Bergoglio a propósito da legalização do aborto no seu país foi chocante. 


Por exemplo, o Prof. José Arturo Quarracino destaca que em sua última mensagem de Natal, o Papa Francisco falou sobre os problemas de vários países, mas não disse palavra sobre a Argentina, sua terra natal. Ele ressaltou que esta indiferença confirma o que se comenta entre os bispos e padres amigos de Bergoglio, ou seja, que o aborto não é assunto tão importante como o meio ambiente ou os migrantes.[1] 

Esse silêncio é ainda mais inexplicável considerando que o Papa tem boas relações com o presidente da Argentina, Alberto Fernández. Este, pouco depois de ser eleito, foi calorosamente recebido por Francisco [foto ao lado]. 


Por sua vez o Prof. Rubén Peretó Rivas escreveu: “O presidente argentino, Alberto Fernández, foi quem promoveu a lei e se comprometeu a pressionar pessoal e insistentemente vários legisladores para que mudassem de voto e permitissem sua aprovação [do aborto]. É o mesmo presidente que foi saudado com complacência e largos sorrisos pelo Sumo Pontífice em 31 de janeiro de 2020, o mesmo que naquele dia assistiu à missa celebrada pelo Arcebispo Marcelo Sánchez Sorondo para ele e seus acompanhantes na cripta da Basílica do Vaticano — onde se encontra o túmulo de São Pedro — onde comungou com a sua concubina, a ex-showgirl Fabiola Yañez”.[2] Afinal, estamos no tempo de Amoris Laetitia… 

O Papa Francisco, em cartas privadas às pessoas que o consultaram sobre o seu pronunciamento de o aborto não ser principalmente uma questão religiosa religiosa, repetiu a sua declaração.[3] Essa postura sugere que não se deve empreender uma luta religiosa para bloquear a legalização desse pecado grave. Numa dessas cartas — embora privada, foi publicada pela Conferência Episcopal Argentina — o Papa afirmou: “A [uma carta] me perguntando sobre o problema do aborto, eu respondi [...] [que] o assunto do aborto não é principalmente uma questão religiosa, mas humana, uma questão de ética humana anterior a qualquer confissão religiosa”.[4]

E prosseguiu sugerindo que argumentos não religiosos sejam usados na luta contra o aborto: “Sugiro que você se faça duas perguntas: — É justo eliminar uma vida humana para resolver um problema? — É justo contratar um assassino para resolver um problema?”[5]  Uma coisa é utilizar tanto argumentos religiosos quanto os de bom senso. Outra é dizer que o aborto não é principalmente uma questão religiosa. 

Em questões morais, como o aborto, o argumento mais decisivo é o religioso, pois coloca a pessoa diante de seu destino eterno, seu fim último. Isso é especialmente verdadeiro em um país católico como a Argentina. Afirmar que o aborto não é fundamentalmente uma questão religiosa é negar que ele, acima de tudo, é uma grave ofensa a Deus. É a morte deliberada de um ser humano inocente. É um dos quatro pecados que clamam ao Céu por vingança.[6] 

Além disso, o aborto vai contra a infinita sabedoria de Deus ao vincular a relação sexual natural à procriação da humanidade. Também vai contra Sua adorável vontade, que determina que o ato sexual deve ser realizado apenas no casamento e sem interferências que o tornem infrutífero. O aborto é, portanto, uma revolta contra Deus, “aversio a Deo, conversio ad creaturam” — afastar-se de Deus, voltar-se para algum bem criado — como Santo Agostinho definiu o pecado.[7] 


A mulher que procura um aborto voluntariamente, e a equipe médica que o pratica, pecam por ação. Quem deveria se opor à legalização do aborto e não o faz, peca por omissão. Santo Tomás de Aquino [quadro ao lado] afirma que ser negligente em “um ato ou circunstância necessária à salvação é um pecado mortal”.[8] O aborto é um pecado mortal extremamente grave. Além de uma ofensa grave contra Deus, tem consequências na vida moral e social de um povo. 

Assim, aqueles cuja missão é guiar, sobretudo espiritualmente, e não se opõem de modo ativo ao aborto, mas se limitam a declarações ambíguas ou oposição branda, desproporcional à situação, cometem um pecado grave. Sua omissão contribui para que o pecado do aborto provocado se generalize. Ajuda a fazer com que o crime pareça “normal”, levando muitos a pecar. 

O Papa São Félix III já advertia no século V, que “um erro ao qual não se opõe, é considerado aprovado; uma verdade defendida de modo minimalista, é abolida [...]. Quem não se opõe a um crime evidente, está sujeito à suspeita de secreta cumplicidade”.[9]

As autoridades religiosas que não combateram a legalização do aborto neste país católico como era seu dever, devem prestar contas a Deus por sua responsabilidade neste pecado nacional. “Que fizeste? A voz do sangue de teu irmão clama da terra por mim” (Gênesis 4,10). 
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Notas: 
1. Marco Tossati, “Quarracino. Aborto en Argentina: la Indiferencia del Papa Bergoglio,” Stilum Curiae, Dec. 26, 2020, https://www.marcotosatti.com/2020/12/26/quarracino-aborto-en-argentina-la-indiferencia-del-papa-bergoglio/. 
2. See Aldo Maria Valli, “L’aborto in Argentina e gli amici di papa Francesco,” AldoMariaValli.it, Dec. 30, 2020, https://www.aldomariavalli.it/2020/12/30/laborto-in-argentina-e-gli-amici-di-papa-francesco/. “Presidente argentino concubino y abortista recibe la Comunión en el Vaticano (Vídeo)”, https://gloria.tv/post/hwVfRJqDfVYR343VMcFmfztU8, acessado em 13 de Jan.de 2021. 
3. Elisabetta Piqué, “Fuerte condena del papa Francisco al aborto: ‘¿es justo cancelar una vida humana para resolver un problema?’” La Nación, Jan. 10, 2021, https://www.lanacion.com.ar/politica/fuerte-condena-del-papa-al-aborto-es-nid2566081. 
4. Conferencia Episcopal Argentina, “Carta del Papa Francisco a sus alumnos y compañeros de colegio,” Episcopado.org, Dec. 5, 2020, https://episcopado.org/contenidos.php?id=2707&tipo=unica. 
5. Ibid. 
6. “8. P: Quais são os pecados que bradam ao Céu e pedem a Deus por vingança? – R: Os pecados que bradam ao Céu e clamam a Deus por vingança são quatro: 1º. Homicídio voluntário; 2º. Pecado impuro contra a natureza; 3º. Opressão dos pobres, principalmente órfãos e viúvas; 4º. Não pagar o salário a quem trabalha. P: Por que se diz que estes pecados pedem vingança a Deus? Porque o diz o Espírito Santo, e porque a sua malícia é tão grave e manifesta, que provoca o mesmo Deus a puni-los com os mais severos castigos” (Catecismo Maior de São Pio X, Diocese de Campos, RJ). 
7. Battista Mondin, Dizionario Enciclopedico del Pensiero di San Tommaso d’Aquino (Bologna: Edizione Studio Domenicano, 1991), 445. 
8. Summa Theologiae, II–II, q. 54, a.3, c. 
9. Citado por Leão XIII na Encíclica Inimica vis (Sobre a Maçonaria), 8 Dez.1892, no. 7. http://www.vatican.va/content/leo-xiii/en/encyclicals/documents/hf_l-xiii_enc_08121892_inimica-vis.html