31 de maio de 2022

São Tomás Morus — Exemplo de coerência na prática da fé


✅  Plinio Maria Solimeo

Causa espanto e é difícil de se compreender, como uma mãe pode assassinar de maneira cruel o filho que concebeu, com o aborto. Com isso ela abafa em si o primeiro e mais tangível laço afetivo entre dois seres, o amor materno, presente até nos animais irracionais. Também difícil é de se compreender como profissionais da saúde se prestam em cooperar com esse crime odioso que, sendo um homicídio voluntário, é um pecado que “brada ao céu e clama a Deus por vingança”, como ensina o Catecismo de São Pio X. 

Sobre o amor materno diz o profeta Isaías (49, 15): “Acaso, pode uma mulher se esquecer do filho que ainda mama, de sorte que não se compadeça do filho do seu ventre?”. Pois é isso que acontece com o aborto. 

Também é difícil de se compreender que haja tanta gente que se diz católica, que aceita e mesmo pratica esse monstruoso crime. Para não falar da classe dos políticos que, a despeito de sua convicção religiosa, para serem “politicamente corretos” vão na onda, alegando que o aprovam porque devem representar todos seus eleitores, e não votar segundo suas crenças pessoais. 

Deixando de lado os políticos brasileiros, citaremos dois americanos do alto escalão do Partido Democrata — o presidente Joe Biden, e o candidato à presidência em 2004, John Kerry — que, apresentando-se como católicos praticantes, no entanto são partidários do aborto contrariando os ensinamentos da Igreja. 

Num interessante artigo publicado no Seattle Catholic, o jornalista John Davis refuta essa atitude, dando como exemplo da coerência entre a política e a fé que devem ter os políticos, o grande chanceler da Inglaterra no tempo do lúbrico rei Henrique VIII [quadro ao lado], São Tomás Morus. 

Quem foi esse santo que preferiu o martírio a ir contra a fé diante do poder real? 

Em rápidos traços, Tomás nasceu em 1478 nos arredores de Londres. Com apenas 13 anos, empregou-se como mensageiro do arcebispo diocesano de Canterbury. O prelado, notando a notável inteligência do adolescente, financiou seu curso na Universidade de Oxford, onde Tomás obteve o doutorado em Direto aos 22 anos. 

Morus pensou muito em ser religioso, mas depois escolheu o caminho do matrimônio, tendo quatro filhos. 

Com acentuada vocação para a política e para a literatura, como homem de lei Tomás Morus exerceu vários cargos. Sua fina inteligência, honestidade, fama de homem íntegro, e sobretudo sua grande fé e caridade, balanceadas por um acurado senso de humor, começaram aos poucos a transparecer em sua vida pública. O que fez com que aos poucos ele passasse a ser muito amado e popular. Essa fama levou-o a ser escolhido por Henrique VIII para o mais algo cargo do reino, o de Lord Chanceler, que exerceu de 1529 a 1532, ano de sua morte. 

Aqui entra John Davis: Primeiro, “Como cavaleiro e membro do Conselho do Rei em 1527, Morus enfrentou seu próprio dilema moral. [Pois] O rei Henrique VIII queria desesperadamente o apoio de Sir Tomás para seu apelo ao papa para que lhe concedesse o divórcio de Catarina de Aragão, para que pudesse se casar com sua amante Ana Bolena. Católico fervoroso, Morus se recusou a dar esse apoio com base no ensino da Igreja sobre a indissolubilidade do casamento”. 

Continua Davis: “Como retrata o filme de 1966, ‘A Man For All Seasons’ [em português, O Homem que não vendeu sua alma] [foto ao lado], dois anos antes de ascender ao cargo de Lord Chanceler como o primeiro leigo a ocupar o cargo, Morus, interpretado por Paul Scofield, é pressionado por seu antecessor, o Cardeal Wolsey (Orson Welles) [foto acima] sobre sua falta de apoio ao divórcio do rei: ‘Explique como você, como conselheiro da Inglaterra, pode obstruir essas medidas por causa de sua própria consciência?’”. 

Morus responde à queima-roupa a Wolsey: “Acho que quando os estadistas abandonam sua própria consciência por causa de seus deveres públicos, conduzem seu país por um caminho curto para o caos”. 

Sir Tomás Morus, por se ter oposto ao desejo do rei, foi considerado culpado de crime de alta traição, preso na Torre de Londres, e decapitado em 6 de julho de 1535. “Seu crime foi sua recusa em reconhecer o rei como o autoproclamado chefe supremo da igreja na Inglaterra”.

No momento de sua morte o mártir, dirigindo-se aos presentes, declarou: “Sedes minhas testemunhas de que eu morro na fé e pela fé da Igreja de Roma, e morro fiel servidor de Deus e do rei, mas primeiro de Deus. Rogai a Deus a fim de que ilumine o rei e o aconselhe”. 

Devido à sua morte em defesa da fé, o Papa Leão XIII em 1886 declarou Sir Tomás Morus mártir, beatificando-o como tal. Pio XI o canonizou juntamente com São João Fisher, também considerado mártir, em 19 de maio de 1935. 

Finalmente, em 31 de outubro de 2000, João Paulo II proclamou São Tomás Morus “padroeiro dos funcionários do governo e dos políticos”. Em sua carta apostólica nessa ocasião, João Paulo II destacou a necessidade de um santo padroeiro em um momento em que “as realizações científicas na área da biotecnologia sublinham a necessidade de defender a vida humana em todas as suas diferentes etapas”. E afirma que São Tomás Morus fornece tal modelo, acrescentando: “Sempre que homens ou mulheres atendem ao chamado da verdade, sua consciência guia suas ações com segurança para o bem. Precisamente por causa do testemunho que ele prestou mesmo ao preço de sua vida, ao primado da verdade sobre o poder, São Tomás Morus é venerado como exemplo imperecível de integridade moral e, mesmo fora da Igreja, entre os responsáveis pelos destinos dos povos, é reconhecido como fonte de inspiração para um sistema político que tem como objetivo supremo o serviço da pessoa humana”. 

Fazendo uma aplicação aos políticos atuais, John Davis diz: “Claramente, esses políticos católicos elevaram o objetivo de serem eleitos acima de seu dever solene de defender a Fé e os mais vulneráveis da sociedade. O Catecismo da Igreja Católica afirma: ‘Deus, Senhor da vida, confiou aos homens a nobre missão de salvaguarda-la, e os homens devem realizá-la de maneira digna de si mesmos. A vida deve ser protegida com o máximo cuidado [desde] o momento da concepção: aborto e infanticídio são crimes abomináveis”. 

Haverá ainda políticos católicos no Brasil que assumam essa posição, mesmo com risco de perderem as eleições? 

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Fonte: John Davis, “Some Saintly Advice for Catholic Politicians”, (www.seattlecatholic.com)

28 de maio de 2022

Enquanto rei da criação, o homem deve aprimorar as coisas criadas


Superioridade das frutas quando aprimoradas pela civilização 

✅ Plinio Corrêa de Oliveira 


C
erta vez, em Roma, passando em frente a uma vitrine que tinha vários vidros de compota de cereja e de outras frutas, eu disse a um amigo: “Gosto muito mais de doce de fruta do que da fruta natural e, por causa disso, gosto muito mais de compota de cereja do que de cereja fresca, da fruta crua”. 

Meu amigo argumentou que gostava mais da fruta crua, porque assim ela conservava certa energia e certos sabores da natureza. 

Respondi que quando a culinária se aplica sobre a fruta crua — a natural, para produzir algo ainda melhor, aprimorada e trabalhada pela civilização —, ela perde sempre algo, mas ganha mais do que perde. 

Em princípio, concordo que o contato com o cru, não só na culinária, mas em tudo na natureza, oferece algo de original com o qual precisamos de vez em quando tomar contato.

Mas o grosso da vida foi feito para que tudo na natureza fosse ajeitado, aprimorado e dominado; e que o homem, enquanto rei da criação, tenha tudo sujeito a si — com os sabores, com o grau de macio ou de resistente que queira —, de maneira que ele fique mandando e seja o senhor das coisas. 

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Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 8 de novembro de 1991. Esta transcrição não passou pela revisão do autor.

13 de maio de 2022

Por esse destemido depoimento a GLOBO não esperava...


✅ 
 Paulo Roberto Campos 

Ontem (12-5-22) numa entrevista na rede Globo, no programa de entrevista “Encontro com Fátima Bernades”, a atriz Cássia Kis corajosamente fez afirmações que toda mãe de família deveria fazer, sobretudo nestes dias nos quais tudo conspira para a dissolução total da instituição familiar. 

Ela fala de sua fé católica, fala contra o aborto, recomenda a recitação do Santo Rosário, a Missa tradicional (celebração tridentina e em latim) e relembra outras verdades que estão sendo muito esquecidas e, justamente por isso, a entrevistadora — pela cara muito decepcionada — interrompe a atriz e pede para entrarem os comerciais... 

Certamente a célebre atriz sabia que, depois de suas palavras (trecho no vídeo abaixo), seria "cancelada". Daí a sua coragem em dizer o que disse. 

Que Nossa Senhora a proteja e a auxilie a se converter inteiramente e a vir a ser verdadeiramente Católica, Apostólica, Romana!

 

7 de maio de 2022

Paz não é apenas a cessação de hostilidades

13 de agosto de 1961: o muro e o arame farpado “reinam” sobre a infeliz Alemanha Oriental. A bota comunista russa sela uma pseudo “paz” para essa pobre nação subjugada.

✅  Plinio Corrêa de Oliveira

Aberram lamentavelmente do senso católico os fiéis que supõem atender a um dever de caridade desejando que a paz se restabeleça quanto antes no mundo, mas que entendem por paz uma cessação qualquer das hostilidades, que evite a qualquer preço a carnificina e a efusão de sangue, ainda que por meio de graves injustiças internacionais. 

Se a paz com justiça é um bem inestimável, a tranquilidade decorrente da injustiça consumada, e que implique na cessação de qualquer resistência contra os fatores de desagregação da civilização católica, não pode deixar de constituir uma monstruosa catástrofe para o mundo contemporâneo, certamente comparável ao que foi, para a antiguidade romana, a queda do Império do Ocidente. 

Não pode haver justiça quando se nega aos povos fracos o direito de existir. Não pode haver justiça quando se afirma que a ordem internacional não deve ser baseada sobre o princípio de igualdade fundamental e natural de todos os povos, mas sobre uma hierarquia anticientífica de raças que, baseada na apreciação de valores acidentais ou imaginários, deseja fazer com que o mundo inteiro viva para o uso e gozo de um ou de poucos povos, supostos privilegiados. Todos estes conceitos implicam em uma violação radical da verdade, e em uma subversão fundamental da justiça, de modo que a paz baseada sobre eles outra coisa não seria senão a apoteose da injustiça. 

Mas as injustiças que acabo de me referir não são as mais graves de que o homem é capaz. A violação dos direitos do próximo nunca poderia ser compreendida em toda a sua gravidade se não tivéssemos em mente que ela constitui ao mesmo tempo uma violação dos soberanos e adoráveis direitos de Deus.

Assim, se a paz só deve ser desejada pelos fiéis com a condição de que ela respeite os direitos dos homens, a fortiori deve ela parecer sumamente repugnante a qualquer coração verdadeiramente católico, se tiver por base o repúdio dos direitos de Deus. (“O Legionário”, 5-1-41).

6 de maio de 2022

Da Virgem Puríssima nasceu Jesus


Para este mês, período mariano por excelência, seguem algumas frases para refletirmos como devemos crescer em nossa devoção à Santíssima Virgem, a Mediadora de Todas as Graças.


“Pela união de sofrimentos e vontades entre Maria e Cristo, Ela mereceu com muita dignidade tornar-se a reparadora do mundo perdido, e, pelo mesmo motivo, tornou-se também a dispensadora de todos os dons que Jesus nos adquiriu por sua morte e seu sangue.” 
(São Pio X) 

“Todos aqueles que se empenham em divulgar as glórias da Virgem Santíssima, têm o Céu assegurado.” 
(São Boaventura) 

“Ninguém se maravilhe se os santos evangelistas foram tão parcos em descrever as prerrogativas de Maria. Eles se contentaram em dizer que ‘dela nasceu Jesus’. Baste-nos isso. Com tais palavras dizem tudo, resumem-lhe todas as excelências.” 
(São Tomás de Vilanova) 

“Não tenhas receio de amar demais a Santíssima Virgem Maria, pois jamais conseguirás amá-la o suficiente e Jesus ficará muito feliz, porque a Virgem Santíssima é sua Mãe.” 
(Santa Teresinha) 

“Maria é tão bonita, que todos os que A veem gostariam de morrer para revê-la”.
(Santa Bernadette)

5 de maio de 2022

Medalha Milagrosa para a Ucrânia em guerra

Miguel Angel Gutiérrez (na foto à direita). 

✅ Oscar Vidal

A fim de ajudar espiritualmente os ucranianos que combatem contra o invasor russo, Miguel Angel Gutiérrez, espanhol de Granada e membro da TFP italiana, da associação Luci sull’Est e da Federação Pro Europa Christiana, entrou no início de abril na Ucrânia levando consigo 50 mil unidades da Medalha Milagrosa de Nossa Senhora das Graças. 

Na distribuição que fez delas, boa quantidade ele destinou a freiras que as costuraram nos coletes antibalísticos dos militares e civis que se alistaram para lutar pelo país, deixando-os especialmente protegidos [foto abaixo]. Essa Medalha Milagrosa é uma arma muito poderosa que a Santa Mãe de Deus nos concedeu para vencermos as dificuldades. 

Assim, numa aparição a Santa Catarina Labouré em 27 de novembro de 1830, Ela assegurou: “Fazei cunhar uma medalha conforme este modelo. Todas as pessoas que a usarem ao pescoço receberão grandes graças. As graças serão abundantes para as pessoas que a levarem com confiança”. 

Entidades religiosas ucranianas estão pedindo mais Medalhas para distribuição entre os devotos, e logo serão atendidas pelas três associações mencionadas. 

Em entrevista no dia 5 de abril a Javier Navascués, do site espanhol Infocatólica, Miguel Angel declarou: “Como é difícil chegar às aldeias e às pequenas cidades da Ucrânia, enviamos 20 mil Medalhas para o Bispo Auxiliar de Lviv, Mons. Kava, que sendo um franciscano conventual, segue a espiritualidade de São Maximiliano Kolbe de difundir a Medalha Milagrosa. E 30 mil Medalhas distribuímos aos fiéis das igrejas de Lviv, especialmente onde se encontrava a imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima.” 

Ao ser perguntando se teve medo de entrar num país em guerra, bombardeado a todo instante, com os evidentes riscos, além do perigo de não conseguir retornar à Itália, onde reside, Miguel Angel afirmou: 

“Quando recebi a mensagem de um amigo sacerdote, o Padre Paulo Vyskosky, missionário dos Oblatos de Maria Imaculada, de que ele e sua comunidade se dirigiam a Kiev para dar assistência espiritual e caritativa às pessoas afetadas, pensei que se tinham essa coragem e zelo pelas almas numa zona muito próxima da frente de batalha, mais uma razão para eu me armar com esta coragem.” 

O que mais o impressionou nessa perigosa aventura “foi o quanto as pessoas ficavam agradecidas ao receber as Medalhas. Os católicos na Ucrânia sofreram perseguição e martírio durante décadas, a sua fé é muito profunda porque foi forjada no sangue. E saber que em outros países estão rezando por eles e que esta Medalha é o símbolo desta união na oração, deixou seus corações repletos de emoção. Deve-se dizer que as medalhas são muito bem cunhadas e feitas de bom metal, o que as torna ainda mais apreciáveis. Para Deus o melhor, como dizia São Francisco de Assis.” 

Miguel Angel sentiu uma graça de, em meio à guerra, ser muito protegido pela Santíssima Virgem. “Encontrar um povo que está sofrendo os horrores da guerra e vê-los rezar com aquela profunda fé e confiança em Deus, por intermédio da Virgem Maria, de quem são muito devotos, fez-me refletir sobre como vivemos tão tibiamente nos nossos países ocidentais.” E deu um admirável exemplo: “A Virgem peregrina de Fátima encontrava-se na maior paróquia greco-católica do país. Todas as noites fazem uma procissão em torno da igreja, recitando o terço. Quando as sirenes antiaéreas soam, a procissão não é suspensa... continua nos subterrâneos da igreja.” 

Com uma nota de muita esperança, o corajoso granadino disse que “os bispos ucranianos viram muito claramente que com a conversão do coração dos homens os problemas se resolvem. Se não houver conversão, o pecado continuará a produzir males maiores. Foi por isso que, em Fátima, Nossa Senhora pediu a consagração da Rússia, e também penitência e conversão. Esta foi a forma que nos indicou para que pudéssemos ver o quanto antes o triunfo do Seu Coração Imaculado.”



4 de maio de 2022

Com a guerra as atenções se voltam para a Mensagem de Fátima


Fátima significa um castigo indispensável e uma perspectiva empolgante, mas também uma exortação à oração, à penitência e à emenda de vida.

Fonte: Revista Catolicismo, Nº 857, Maio/2022 

Maio, o mês por excelência de Maria, celebra no dia 13 a primeira aparição da Santíssima Virgem aos pastorzinhos Lúcia, Francisco e Jacinta, quando muitos países estavam ainda se debatendo numa grande guerra. 

Foi em Fátima que a Santíssima Virgem profetizou em 13 de julho de 1917: “Se fizerem o que Eu vos disser, salvar-se-ão muitas almas e terão paz. A guerra vai acabar; mas, se não deixarem de ofender a Deus, virá outra pior”. 

Dito e feito! Profecia realizada. A Primeira Guerra Mundial acabou no ano seguinte, mas como não acabaram as ofensas a Deus, em 1939 eclodiu a Segunda Grande Guerra, ensanguentando a maioria das nações da Terra. 

No final deste mês completam-se 100 dias da explosão da guerra no leste europeu. Todos vimos como ela começou, mas ninguém sabe como nem quando terminará. Encerrar-se-á com um vergonhoso acordo? Ou com um ataque nuclear? 

Mariupol, cidade localizada no leste 

da Ucrânia, destruída pelos ataques da Rússia

Analistas internacionais não descartam essa catastrófica possibilidade, tendo em vista que Putin, no desespero — pois não contava com a heroica resistência do povo ucraniano, que vem impondo sérios reveses ao seu exército, apresentado como invencível —, poderá fazer uso de suas temíveis armas atômicas. 

Caminhamos rumo a uma Terceira Guerra Mundial? Quem sairá vencedor? Impor-se-á ao mundo um novo globalismo soviético, com o igualitarismo, o ateísmo e o materialismo marxistas contaminando ainda mais todo o gênero humano como um câncer? 

Há remédio contra essa possível catástrofe? — Sim. Em Fátima, Nossa Senhora nos prescreveu três: oração, penitência, emenda de vida! 

Em artigo publicado na revista Catolicismo, na edição de maio de 1967, Plinio Corrêa de Oliveira estabeleceu uma relação entre Fátima e Guerra Mundial, mostrando como as exortações da Santa Mãe de Deus e esses três remédios apontados sanariam a terrível crise do mundo moderno. 

Mas, caso a Senhora de Fátima não fosse atendida, sobreviria o castigo universal. Em compensação, após esse castigo seria inaugurada uma era histórica com perspectiva empolgante, ou seja, o Reino de Maria para todos os povos. 

Como auxílio para bem entender a atual conjuntura, diante da possibilidade de eclosão de uma nova guerra mundial, a revista deste mês reproduz o referido artigo como matéria de capa [foto no topo]. 
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30 de abril de 2022

SÃO PIO V (1572 – 2022)

 

450 anos de um Papa Cruzado que convocou uma grande Cruzada para salvar a Cristandade da invasão maometana. E ele foi vitorioso! Ele conseguiu que a Cruz de Jesus Cristo triunfasse sobre o Crescente islâmico de Maomé; que as espadas católicas vencessem as cimitarras muçulmanas.

✅ Paulo Roberto Campos 

Pode-se dizer que o Papa São Pio V (1504-1572) foi o comandante das esquadras católicas na batalha de Lepanto — o maior embate naval da História travado até então — que salvou a Cristandade da invasão maometana no século XVI. Ele conseguiu convencer alguns soberanos europeus a se unirem numa Cruzada para impedir tal invasão dos sequazes de Maomé. 

O que foi obtido com a vitória nas águas do golfo de Lepanto, no dia 7 de outubro de 1571, com especial intervenção de Nossa Senhora Auxiliadora — Aquela que é, como registra a Sagrada Escritura, “terribilis ut castrorum acies ordinata” (terrível como um exército em ordem de batalha - Ct 6, 9). 

Em nossos dias o Velho Continente está sendo novamente ameaçado de ser invadido... Basta lembrar da invasão da Ucrânia perpetrada pela Rússia do déspota Vladimir Putin intimidando o mundo ocidental com suas armas nucleares. 

A civilização cristã hoje conta com um Pontífice com a coragem e a grandeza de alma do Papa São Pio V? — Nem precisa dizer que, lamentavelmente, a resposta é negativa... 

Hoje celebramos o 450º aniversário do falecimento do grande Papa, grande comandante, grande inquisidor, grande santo que venceu o Império Otomano. Em memória de tão relevante efeméride, transcrevemos a seguir um comentário do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, em conferência de 7-10-75. 


“Vou destacar aqui um herói da batalha de Lepanto, a respeito do qual pouco se fala. Esse herói foi o Papa São Pio V. 

O Pontífice via bem o poder otomano crescer cada vez mais, e o perigo de os otomanos se jogarem sobre a Itália ou sobre qualquer outra parte da Europa, e operarem uma invasão que poderia ter efeitos tão ruinosos ou talvez mais ruinosos do que teve a invasão dos árabes na Espanha, no começo da Idade Média. 

Nessa situação, São Pio V tinha que apelar naturalmente para o varão que era o apoio temporal da Igreja naquele tempo: Felipe II, Rei da Espanha. 

O Imperador do Sacro Império Romano Alemão não tinha condições, por causa da divisão religiosa no império [em razão da revolução protestante], de lutar eficazmente contra os mouros. A França estava corroída por uma crise religiosa muito grande, guerra de religião etc. 

O Papa só podia contar, dentre as grandes potências católicas, com Felipe II de um lado, e, de outro, com Veneza, que dispunha de grande poder marítimo. 

Caso Felipe II se retraísse, a horda maometana desataria sobre a Itália, e depois atingiria toda a Cristandade. Seria o fim da Civilização Cristã no Ocidente. Não seria o fim da Igreja, porque ela é imortal; mas, ao que a Igreja poderia ficar reduzida, ninguém sabe. 

Se não fosse a pressão de São Pio V, não se teria realizado a Batalha de Lepanto, porque a Espanha não teria mandado sua esquadra. Esta era o grande contingente decisivo dentro das esquadras aliadas que lutaram e venceram em Lepanto.  

 

Nossa Senhora do Rosário de Lepanto [Foto Michael Gorre]
Assim se compreende melhor por que razão houve a famosa aparição a São Pio V: ele estava numa reunião de cardeais, em Roma, e em certo momento levantou-se e rezou um terço pela vitória dos católicos sobre os maometanos, decisiva para a Cristandade. Enquanto o Papa rezava o terço, teve a revelação da vitória das esquadras católicas. 

São Pio V foi um verdadeiro herói, como Dom João d’Áustria e os outros grandes guerreiros que venceram em Lepanto".

19 de abril de 2022

O autêntico povo russo antes de 1917

O Czar Alexandre III recebendo russos idosos do distrito rural no pátio do Palácio de Petrovsky em Moscou – Ilya Pepin, 1886. Galeria Estatal Tretyakov, Moscou. 


O flagelo do regime comunista russo aniquilou a mentalidade autêntica do povo 

✅  Plinio Corrêa de Oliveira

O povo russo ficou submetido ao jugo comunista durante 70 anos. E a tirania foi de tal ordem, que se poderia dizer — com exceções, é claro — que a mentalidade autêntica daquele povo foi aniquilada. O que é catastrófico para um país!


Em face disso, coloca-se a pergunta: como eram os russos antes do comunismo? Havia duas Rússias. Uma, a de São Petersburgo, e outra, a de Moscou. 

São Petersburgo é uma cidade situada junto ao Rio Neva, perto do Mar Báltico, que mantém comunicações fáceis com a Europa Ocidental através do Mar do Norte e do Báltico. Essa região do país era muito ocidentalizada. 

Centro de Moscou visto desde o Rio Neva
Havia também a Rússia de Moscou, mais profunda, em que tudo se processava de acordo com o que se poderia chamar de Idade Média russa. Essa época histórica correspondia à Rússia de Ivan, o Terrível. Apresentava uma arquitetura regional muito bonita, mas bastante misteriosa: salas com penumbras e esconderijos. A vida de corte no Kremlin — residência do Czar — era de um fausto extraordinário, que refletia muito luxo, correspondente à grandeza do Império russo.


Como era a alma desse povo? 

População inteligente, não muito amiga do raciocínio, mas sim da imaginação. Por isso, nela eram menos frequentes grandes sábios do que literatos de porte. Estes sim, numerosos e de renome internacional. 

Em São Petersburgo, o Palacio Tsarkoie Selo
Os romances russos eram marcados por essa mentalidade e difundiram-se pelo mundo inteiro. Por exemplo, as obras de Dostoievski e uma série de outros escritores.

Tal mentalidade se deve apenas ao temperamento nativo do povo?

Tenho forte impressão de que não. Mas devido ao fato de que, ainda durante a Idade Média, o povo russo rompeu com a Igreja Católica e constituiu uma igreja denominada greco-cismática. Os russos abraçaram o cisma grego contra Roma. 

Todas as características da alma desse povo encontram-se também nessa igreja cismática. Cerimônias religiosas e liturgia esplendorosas, mas cuja origem é anterior ao cisma, da época em que a Rússia era católica. Os paramentos riquíssimos, a liturgia apresenta cerimônias longas, solenes e belas. 

São esses alguns dos traços do estado em que se encontravam a alma e a mentalidade russas antes de se abater sobre o povo o flagelo do comunismo, em 1917. 

Igreja de São Basílio no inverno


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Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 17 de setembro de 1992. Sem revisão do autor.

14 de abril de 2022

Paz, Misericórdia, Delicadeza de sentimentos


✅  Plinio Corrêa de Oliveira 

Mais do que física, o extremo da dor moral está expressa neste crucifixo de Nosso Senhor Jesus Cristo. Durante toda a sua Paixão, Ele padeceu um sofrimento maior na alma do que no corpo. Apesar disso, notamos em sua fisionomia paz, misericórdia, delicadeza de sentimentos. Nela o furor não está presente. Mas a tristeza está inteiramente presente.

Este condenado à morte, privado dos trajes que qualquer um possui, entretanto tem uma atitude superior à majestade de qualquer rei! Em meio à tremenda dor, nota-se a manifestação da misericórdia, do perdão. 

A expressão é muito comovente, dando a impressão em quem a contempla, de que entrará de um momento para outro no campo de visão desse olhar. 

Também dá a impressão bem acentuada de desolação e desamparo de alguém que sofre uma dor que sabe que não tem remédio, que não tem limite, e que caminha para a morte. Mas uma morte que se anuncia na tristeza de quem vê a maldade dos homens que causaram a crucifixão. 

Nosso Senhor desejou beber a taça de fel do sofrimento até o fim! Quis sofrer tudo quanto era possível sofrer. Mas também na alegria de quem tem a certeza de que, após o supremo holocausto, estariam abertas aos homens as portas do Céu; começaria o período em que Ele, passando pelo Limbo, levaria para o Céu todas as almas que lá estavam. 

Como que coroando o Divino Crucificado, o artista colocou um lindo topázio. É a linguagem muda e expressiva das pedras preciosas. Se não houvesse esse topázio, a imagem perderia muito. O topázio dourado parece afirmar que, por detrás da dor e mais alto do que a dor, brilha a glória, apesar de tudo. 



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Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 21 de agosto de 1985. Esta transcrição não passou pela revisão do autor.

10 de abril de 2022

Rezar pelos que sofrem na guerra

No dia 8 de abril, ataque russo à estação de trens de Kramatorsk (Ucrânia), deixou 55 civis  mortos, incluindo 5 crianças, e mais de 100 feridos.

No início do último ano da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), Plinio Corrêa de Oliveira teceu um comentário que se aplica exatamente à gravíssima situação de guerra em que nos encontramos, a qual ameaça estender-se muito mais. 


“O noticiário internacional desta semana tornou evidente que as Nações Unidas consideram muito provável o prolongamento da guerra. A notícia é lamentável sob muitos aspectos. O primeiro que acode é, evidentemente, o quadro de dores das batalhas sangrentas que se desfecham. 

A cidade de Nuremberg em ruínas, em 1945
São aos milhares, jovens que morrem ou ficam mutilados, famílias que imergem e soçobram num desespero ímpio e sem remédio, cidades destruídas, tesouros que se dispersam, monumentos insubstituíveis que desaparecem. 

São almas atiradas a centenas de milhares no cadinho da dor, sem a preparação prévia, de sorte que a provação significa para elas, não raro, a perdição. 

E, ao par deste quadro triste, vem o quadro mais restrito e tão e tão mais luminoso, das almas que aceitam a Cruz, que se purificam no sofrimento, que crescem com a adversidade e se glorificam na humilhação, na miséria, na ruína. 

Nós que ficamos, nós a quem Deus não impôs o fardo que pesa sobre os povos da Europa e da Ásia, devemos ser os Cireneus de nossos irmãos que sofrem. Pelos recursos materiais, devemos aliviar suas misérias físicas. Pela oração, pela penitência, devemos ajudá-los a se santificar na dor. 

A esmola material é excelente. Mas é absolutamente insuficiente. O homem não vive só de pão, diz o Evangelho. E poderíamos acrescentar que o pão do corpo lhe é muito menos necessário para viver do que o pão do espírito, isto é, o bom conselho, a oração e a expiação. E, já que não podemos enviar a nossos irmãos que sofrem nem conselhos, nem exemplos, pelos menos rezemos por eles” (7 Dias em Revista, “Legionário”, 14 de janeiro de 1945).

5 de abril de 2022

Guerra Justa e Guerra Injusta

A cidade ucraniana de Bucha (pronuncia-se Butcha) bombardeada pelos exércitos do ditador russo Putin

A guerra provocada por Putin (crescido na KGB) é justa ou injusta? Qual a posição católica? Nova guerra mundial (nuclear) bate em nossas portas? O mundo ocidental continuará adormecido? Fátima, a chave para interpretar os trágicos acontecimentos hodiernos! 

Fonte: Editorial da Revista Catolicismo, Nº 856, Abril/2022 

No período tenebroso da URSS havia dois jornais, o “Pravda” (verdade) e o “Izvestia” (notícia), ambos órgãos oficiais, o primeiro do Partido Comunista e o segundo do governo soviético. Corria então entre os russos uma anedota que dizia: “Na imprensa russa o Pravda não tem Izvestia e o Izvestia não tem Pravda”... 

Em relação a Vladimir Putin [foto abaixo], vale a anedota. A URSS desmoronou em 1991, mas sobrevive na cabeça paranoica desse déspota, que ambiciona restaurá-la segundo o projeto de seus mentores. Esse neocomunista sonha em ser o novo tzar de um novo Império Soviético. Para isso vale tudo, até mesmo mentir descaradamente para seu povo, por exemplo, obrigando todos os meios de comunicação a noticiar que se trata de uma “operação militar especial” — e não de uma invasão ou guerra — para “libertar os ucranianos do regime nazista” e atender ao pedido de ajuda dos russos que vivem na Ucrânia, que “são tratados como cachorros”. 

Ademais, Putin manda sucessivas baterias de fake news na linha de que os russos não bombardearam hospitais, escolas, prédios residenciais ou comerciais, mas que tais edifícios foram destruídos pelos próprios ucranianos para depois acusar os russos, pois “seu exército só tem bombardeado alvos militares”... 

Só um derradeiro exemplo, entre muitos outros: Putin acusou a Ucrânia de desenvolver armas biológicas em seus laboratórios. Verificou-se que se tratava de laboratórios farmacêuticos convencionais... Se nós tomamos conhecimento desse desmentido, a população russa, não; ela continua só com a informação fornecida pela mídia oficial, noticiando a existência dos “laboratórios ucranianos com armas biológicas para serem lançadas contra Moscou”. 

A mentira foi de tal maneira uma das principais armas do regime comunista — basta ver como os líderes petistas, que comungam de suas ideias, mentem sem o menor constrangimento —, que na antiga URSS a propaganda stalinista acusava os adversários daquilo que os comunistas faziam. Realmente, a primeira vítima nesta guerra deflagrada pelo atual tirano russo tem sido a verdade. 

Entretanto, numerosos são os incautos que continuam acreditando em Putin, apesar de toda a carnificina que suas tropas vêm perpetrando na Ucrânia. Vários chegam a achar que ele é um paladino dos valores cristãos... Por que tal ingenuidade? 

A revista Catolicismo publica em sua edição deste mês três matérias procurando responder a essa e outras questões. Por exemplo, quais são os critérios para se considerar quando uma guerra é justa ou injusta, ou como a Mensagem de Fátima é a chave para interpretar os trágicos lances de uma guerra que poderá desfechar num conflito mundial se o mundo ocidental continuar contemporizando com um ditador crescido na KGB, cuja força está na fraqueza do Ocidente. 

O povo ucraniano resiste heroicamente. Mas até quando conseguirá? Peçamos a Nossa Senhora que torne a Ucrânia inteiramente católica, como também a própria Rússia, conforme predito por Ela em Fátima.

24 de março de 2022

A consagração da Rússia foi efetivada como Nossa Senhora pediu?

 

Em julho de 1952, Pio XII consagrou os povos da Rússia ao Puríssimo Coração de Maria, sem associar os bispos do mundo.

Padre David Francisquini

Fonte: Revista Catolicismo, Nº 836, Agosto/2020

Pergunta — Agradeço o seu recente esclarecimento sobre a legitimidade teológica das consagrações a Nossa Senhora. Como ficou claro, vários Papas, e mesmo Nossa Senhora em Fátima, utilizaram o termo “consagração” para se referir à entrega do mundo ao Imaculado Coração de Maria. Mas ainda me ficou uma dúvida: nessas consagrações já feitas, alguma já cumpriu com os requisitos da consagração da Rússia, pedida por Nossa Senhora à Irmã Lúcia?

Resposta — De fato, o prezado consulente observou no texto anterior uma lacuna, que me teria sido impossível preencher ao finalizar aqueles comentários, por escassez de espaço. Pois há diversidade de opiniões sobre o assunto, e para responder à consulta temos de remontar amplamente aos fatos iniciais, como veremos a seguir.

Na aparição de 13 de julho de 1917, Nossa Senhora disse aos pastorinhos que Deus iria “punir o mundo de seus crimes por meio da guerra, da fome e de perseguições à Igreja e ao Santo Padre. […] Para o impedir, virei pedir a consagração da Rússia ao meu Imaculado Coração e a comunhão reparadora dos primeiros sábados. Se atenderem a meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará os seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições; os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas; por fim, o meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-Me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz”.

Doze anos mais tarde, no dia 13 de junho de 1929, enquanto residia em Tuí, na Espanha, a Irmã Lúcia teve uma visão na qual Nossa Senhora lhe disse: “É chegado o momento em que Deus pede para o Santo Padre fazer, em união com todos os Bispos do mundo, a consagração da Rússia ao meu Imaculado Coração, prometendo salvá-la por este meio”.

Ainda em 1929, a vidente fez chegar esse pedido ao conhecimento do Papa Pio XI, e no ano seguinte escreveu ao seu confessor, o Pe. José Bernardo Gonçalves S.J., relatando que Nosso Senhor a instara a solicitar ao Santo Padre a aprovação da devoção reparadora dos primeiros sábados. E acrescentou: “Se me não engano, o bom Deus promete terminar a perseguição na Rússia se o Santo Padre se dignar fazer, e mandar que o façam igualmente os Bispos do mundo católico, um solene e público ato de reparação e consagração da Rússia aos Santíssimos Corações de Jesus e Maria”.

Numa comunicação íntima posterior, Nosso Senhor Se queixou à vidente: “Não quiseram atender ao meu pedido. Como o Rei da França, arrepender-se-ão; e fá-la-ão, mas será tarde. A Rússia terá já espalhado os seus erros pelo mundo”. Numa carta ao seu confessor, de 18 de maio de 1936, a Irmã Lúcia declara: “Intimamente, tenho falado a Nosso Senhor do assunto; e há pouco perguntava-Lhe por que não convertia a Rússia sem que Sua Santidade fizesse essa consagração. Foi esta a resposta que a Irmã Lúcia recebeu de Jesus: “Porque quero que toda a minha Igreja reconheça essa consagração como um triunfo do Coração Imaculado de Maria, para depois estender o seu culto e pôr, ao lado da devoção do meu Divino Coração, a devoção deste Imaculado Coração”.

Consagrações realizadas incompletamente

Depois de iniciada a Segunda Guerra Mundial, a Irmã Lúcia se dirigiu diretamente ao novo Papa, Pio XII: “Em várias comunicações íntimas, Nosso Senhor não tem deixado de insistir neste pedido, prometendo ultimamente — se Vossa Santidade se dignar fazer a consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria, com menção especial pela Rússia, e ordenar que, em união com Vossa Santidade e ao mesmo tempo, a façam também todos os Bispos do mundo — abreviar os dias de tribulação com que tem determinado punir as nações de seus crimes, por meio da guerra, da fome e de várias perseguições à Santa Igreja e a Vossa Santidade”.

Em 1942, por ocasião do encerramento do ano jubilar das aparições de Fátima, o Papa Pio XII consagrou a Igreja e o gênero humano ao Imaculado Coração de Maria, ato que ele renovou em 8 de dezembro. Mas o texto fazia apenas uma alusão velada à Rússia, sem mencioná-la explicitamente. Em carta de 4 de maio de 1943 ao Pe. Gonçalves, a Irmã Lúcia afirmou ter tido outra revelação de Nosso Senhor, prometendo “o fim da guerra para breve, em atenção ao ato que Sua Santidade se dignou fazer. Mas, como ele foi incompleto, fica a conversão da Rússia para mais adiante”.

Em julho de 1952, Pio XII consagrou os povos da Rússia ao Puríssimo Coração de Maria, sem associar os bispos do mundo. Em novembro de 1964, Paulo VI “confiou o gênero humano” ao Imaculado Coração de Maria. João Paulo II fez duas consagrações: uma em Fátima, no dia 13 de maio de 1982; e outra em Roma, em 25 de março de 1984, ambas precedidas de um convite aos Bispos para se unirem a ele nesses atos.

Alguns episcopados se uniram ao ato; mas no Brasil, que tem o terceiro maior episcopado do mundo, apenas poucos bispos o fizeram. Além do mais, a Rússia não era mencionada no texto da consagração, apenas alguns circunlóquios lhe faziam uma alusão indireta, o que foi ainda mais evidenciado quando o Papa polonês, saindo do texto, improvisou a seguinte invocação: “Mãe da Igreja! […] Iluminai especialmente os povos dos quais esperais a nossa consagração e a nossa entrega”.[1]

Em 2015, o então exorcista-chefe de Roma, Pe. Gabriele Amorth (recentemente falecido), declarou o seguinte a propósito dessa consagração: “Eu estava lá em 25 de março [de 1984] na Praça de São Pedro; estava na primeira fila, praticamente a uma curta distância do Santo Padre. João Paulo II queria consagrar a Rússia, mas sua comitiva não [queria], temendo que os ortodoxos fossem antagonizados, e quase o frustraram. Porém, quando Sua Santidade consagrou o mundo de joelhos, ele acrescentou uma frase não incluída na versão distribuída, que em vez disso dizia consagrar ‘especialmente aquelas nações das quais Vós solicitastes sua consagração’. Então, indiretamente, isso incluía a Rússia. No entanto, uma consagração específica ainda não foi feita”.[2]

Essa versão foi confirmada de modo ainda mais claro no centenário da primeira aparição na Cova da Iria. Nesse dia foi celebrada uma missa solene na Catedral de Nossa Senhora de Fátima, em Karaganda (Cazaquistão), como conclusão de um Congresso Mariano internacional. Na homilia, o cardeal alemão Paul Josef Cordes, que viveu muitos anos no Vaticano, como presidente do Pontifício Conselho Cor Unum, referiu-se ao ato realizado por João Paulo II em 1984:

“Ele se absteve de mencionar explicitamente a Rússia, porque os diplomatas do Vaticano lhe haviam pedido com insistência que não mencionasse esse país, já que, do contrário, poderiam surgir conflitos políticos […]. Logo depois ele me convidou para almoçar. Em nosso pequeno círculo, ele falou do desejo que sentia em seu interior, de mencionar a Rússia durante essa consagração, antes que ceder a seus conselheiros. Então ele nos disse, com um rosto radiante, que aquilo ao que ele havia renunciado fazer por si mesmo havia, porém, sido realizado. Através de amigos, tinha sabido algo importante e consolador para ele: que alguns bispos ortodoxos russos haviam aproveitado sua própria consagração do mundo à Mãe de Deus como uma ocasião para consagrar a Rússia de uma maneira muito especial a Maria”.[3]

Podemos objetar, no entanto, que o pedido insistente de Nossa Senhora não foi que os bispos cismáticos russos consagrassem seu país ao Imaculado Coração de Maria, e sim que tal consagração fosse feita pelo Papa em comunhão com todos os bispos católicos do mundo!

Interpretação que teria feito a Irmã Lúcia

Desde 1984 até a queda do Muro de Berlim, a Irmã Lúcia sustentou que nenhuma das consagrações feitas até então tinha sido “válida” (no sentido de terem atendido aos requisitos postos por Nossa Senhora). Numa entrevista concedida em 1985 à revista Sol de Fátima, eladeclarou peremptoriamente, a respeito das que foram realizadas por João Paulo II em Fátima (1982) e em Roma (1984): “Não houve a participação de todos os Bispos nem foi mencionada a Rússia”.

Contudo, o Cardeal Tarcísio Bertone transcreveu posteriormente, na sua apresentação a um opúsculo sobre a mensagem de Fátima, uma carta que a vidente teria escrito em 8 de novembro de 1989, na qual ela teria afirmado: “Sim [a consagração] está feita tal como Nossa Senhora a pediu, desde o dia 25 de março de 1984”. E num colóquio do purpurado com a Irmã Lúcia, ela teria declarado: “Já disse que a consagração desejada por Nossa Senhora foi feita em 1984, e foi aceita no Céu”. Segundo o mesmo purpurado, tal aceitação teria sido manifestada à Irmã Lúcia numa aparição de Nossa Senhora, mas tal aparição não figura nos pormenorizados relatos que o próprio Cardeal Bertone fez de seus colóquios com a vidente. Paira, portanto, séria dúvida quanto à realidade dessa manifestação celeste, e é legítimo conjecturar que, ao reavaliar o ato de João Paulo II em 1984, a Irmã Lúcia se tenha deixado influenciar pela atmosfera de otimismo que se difundiu no mundo após o colapso do império soviético.

Cabe destacar que a Irmã Lúcia não gozava do carisma da infalibilidade na interpretação da altíssima mensagem que recebeu. Por isso competia mais aos historiadores, teólogos e pastores da Igreja analisar a coerência dessas suas declarações, recolhidas pelo Cardeal Bertone, com suas declarações anteriores.[4] No entanto, podemos constatar uma coisa certíssima: os frutos da consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria, anunciados por Nossa Senhora, estão longe de se terem materializado — não há paz no mundo. Pelo contrário, as tensões internacionais — notadamente entre a China e os EUA — têm aumentado ao ponto de o Papa Francisco afirmar, em várias ocasiões, que estamos vivendo uma verdadeira “terceira guerra mundial, mas em fragmentos”.[5]

Os atuais dirigentes russos não renunciaram aos erros do comunismo, e sua elite política e intelectual olha para o passado soviético com nostalgia.

O comunismo continua espalhando seus erros pelo mundo

A Rússia está longe de se ter convertido. É um país que autoriza os ventres de aluguel; tem a maior taxa registrada de abortos do mundo (60% das gravidezes terminam em aborto, sendo 20% deles praticados por menores de 18 anos); uma das maiores taxas do mundo em divórcios por habitante (4,2/1000); a maior proporção de divórcios por casamentos (61%); a maior porcentagem mundial de alcoolismo (dois milhões de alcoólatras); alcoolismo que é responsável pela metade das mortes entre 15 e 54 anos, que é a expectativa média de vida para os homens.

Como se tudo isso não bastasse, seus atuais dirigentes não renunciaram aos erros do comunismo, e sua elite política e intelectual olha para o passado soviético com nostalgia. Vladimir Putin chegou a declarar que a extinção da União Soviética foi o maior desastre geopolítico do século XX.

Compreende-se, portanto, que em 2016, tendo já em vista o centenário das aparições de Fátima, Dom Athanasius Schneider, bispo-auxiliar de Astana (Cazaquistão), tenha declarado em uma entrevista ao site Rorate Cɶli: “Temos de rezar para que o Papa em breve consagre explicitamente a Rússia ao Imaculado Coração de Maria, para que Ela triunfe”.[6]

No próprio ano do centenário (2017), em uma palestra sobre a mensagem de Fátima pronunciada por ocasião do Rome Life Forum, o Cardeal Raymond Leo Burke instou os participantes a se consagrarem ao Imaculado Coração de Maria e a “trabalhar pela consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria […]. Hoje, mais uma vez, ouvimos o chamado de Nossa Senhora de Fátima para consagrar a Rússia ao seu Imaculado Coração, de acordo com suas instruções explícitas”.[7]

Interrogado pelo jornal The Wanderer sobre se esse pedido correspondia a mais do que o ato do Papa simplesmente mencionar a Rússia de modo explícito, o cardeal americano respondeu, em termos inequívocos, acreditar que o Papa João Paulo II desejava atender ao pedido de Nossa Senhora, pois estava ciente da gravidade da situação e da necessidade de consagrar a Rússia ao Imaculado Coração de Maria. Mas na época se argumentava que, a fim de promover um relacionamento mais amigável com os países do bloco oriental, o nome da Rússia não deveria ser mencionado em particular:

“Acredito que era a intenção do Santo Padre consagrar realmente a Rússia. No entanto, também acredito que, dada a situação em que nos encontramos hoje, a consagração da Rússia deve ser feita explicitamente, exatamente como Nossa Senhora solicitou (o que não implica negar a intenção de João Paulo de incluir a Rússia, quando ele consagrou o mundo ao seu Imaculado Coração). […] Minha intenção não é levantar acusações contra ninguém, mas insistir na necessidade de realizar o que Nossa Senhora pediu, exatamente como Ela pediu, em resposta à atual situação, que é tão grave”.[8]

Consagração da Rússia, hoje mais necessária do que nunca

Na edição via Internet do recente Rome Life Forum, o Cardeal Burke [foto ao lado] fez uma palestra intitulada “Fátima: a resposta do Céu para um mundo em crise”. Ele aproveitou a ocasião para questionar o papel do Partido Comunista chinês na gênese da pandemia da covid-19, sua influência sobre a Organização Mundial da Saúde e sua dominação imperialista sobre outras nações:

“A consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria é hoje mais necessária do que nunca. Quando testemunhamos como o mal do materialismo ateu, cujas raízes estão na Rússia, dirige de maneira radical o governo da República Popular da China, reconhecemos que o grande mal do comunismo deve ser curado em suas raízes através da consagração da Rússia como Nossa Senhora ordenou. […] Reconhecendo a necessidade de uma conversão total do materialismo ateu e do comunismo a Cristo, permanece urgente o apelo de Nossa Senhora de Fátima para que a Rússia seja consagrada ao seu Imaculado Coração, de acordo com suas instruções explícitas”.[9]

Ecoando esse apelo à conversão, Dom Athanasius Schneider compôs e divulgou pelas mídias sociais, em junho passado, uma oração que recomendo a todos rezar frequentemente:

“Ó Imaculado Coração de Maria, Vós sois a santa Mãe de Deus e nossa terna Mãe. Considerai a angústia em que vivem a Igreja e toda a humanidade por causa da disseminação do materialismo e da perseguição à Igreja. Em Fátima, Vós alertastes contra esses erros ao falar sobre os erros da Rússia. Vós sois a Medianeira de todas as graças. Implorai ao vosso Divino Filho para que Ele conceda esta graça especial ao Papa: que ele consagre a Rússia ao vosso Imaculado Coração, a fim de que a Rússia se converta, um período de paz seja concedido ao mundo, e o vosso Imaculado Coração triunfe através de uma renovação autêntica da Igreja, pelo esplendor da pureza da fé católica, pela sacralidade do culto divino e pela santidade da vida cristã. Ó Rainha do Santo Rosário e nossa doce Mãe, voltai vossos olhos misericordiosos para nós e ouvi graciosamente esta nossa oração confiante. Assim seja”.[10]


[1] Todos os fatos narrados até aqui, e as correspondentes citações, tirei do excelente livro Fátima: Mensagem de tragédia ou de esperança? – de Antônio Augusto Borelli Machado.

[2] https://www.lifesitenews.com/news/exclusive-interview-with-rome-chief-exorcist-fr.-gabriele-amorth

[3] https://onepeterfive.com/cardinal-cordes-pope-john-paul-ii-consecration-russia/

[4] A.A. Borelli Machado, op.cit. Ed. Instituto Santo Condestável, Coimbra, 2015, pp. 104-107.

[5] https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/ansa/2014/08/18/vivemos-a-3-guerra-mundial-diz-papa-francisco.htm

[6] https://rorate-caeli.blogspot.com/2016/02/exclusive-bishop-athanasius-schneider.html

[7] https://voiceofthefamily.com/full-text-cardinal-burkes-historic-call-for-consecration-of-russia/

[8] https://thewandererpress.com/blogger/interview-with-cardinal-burke-discriminating-mercy-defending-christ-and-his-church-with-true-love-4/

[9] https://www.lifesitenews.com/news/cardinal-burke-consecration-of-russia-to-our-lady-more-needed-now-than-ever

[10] https://www.lifesitenews.com/news/bp-schneider-composes-prayer-begging-mary-for-consecration-of-russia-so-there-will-be-peace