23 de dezembro de 2024

Divino Infante, um Rei, mas imensamente acessível


A Adoração dos Pastores (detalhe) — Anton Raphael Mengs (1728-1779). Museu do Prado, Madri.

Plinio Corrêa de Oliveira 

A Mãe de Deus, majestosíssima, transcendente, puríssima, rezando ao Menino-Deus. Os Anjos entoando em volta canções de glorificação, e toda atmosfera reinante saturada de valores tais, que dir-se-ia haver na pobreza da Gruta de Belém uma atmosfera de corte. 

O Divino Infante atrai para junto de Si, ao mesmo tempo, todas as formas de grandeza que d´Ele dimanam, e que não constituem senão reflexos de sua Pessoa; todas as formas de pureza, todas as formas de santidade, que são apenas uma participação da santidade d´Ele.

Imensamente acessível, este Rei, tão cheio de majestade, abre para nós os olhos. Notamos que seu olhar puríssimo, inteligentíssimo, lucidíssimo penetra nossos olhos. Vê o mais profundo dos nossos defeitos, como também o melhor de nossas qualidades. E nesse momento toca nossa alma, como comoveu São Pedro durante a Sua Paixão. 

Esse olhar ocasiona em nós uma tristeza profunda por nossos defeitos. Ele nos inspira horror por nossos pecados. Mas também, penetrando em nós tal olhar, manifesta o Redentor recém-nascido seu amor não só em relação às nossas qualidades, mas também pela condição de criaturas feitas por Ele. Um amor dedicado a nós, apesar de nossos defeitos, por termos sido criados por Ele e destinados a um grau de santidade e de perfeição enquanto podendo existir em nós, e que Ele conhece e ama. 

____________ 
Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 29 de dezembro de 1973. Esta transcrição não passou pela revisão do autor.

22 de dezembro de 2024

CRISTO É O ÚNICO SALVADOR


Em certos países, a política fecha os olhos à propaganda comunista, manifestando cegueira que confina a um tempo com a covardia de Pilatos e a ganância de Judas. Alguns lavam as mãos... Outros, com o beijo do Judas, traem a Igreja Católica, abandonando-a nas mãos de seus inimigos, tintas de sangue.


✅  Plinio Corrêa de Oliveira

Enquanto os Anjos de nossos piedosos presépios ostentam dísticos em que se lê: “Glória a Deus nos Céus, e paz na Terra aos homens de boa vontade”, a imprensa diária está cheia de notícias terríveis que destoam tristemente da promessa angélica. 

Jesus Cristo, se nascesse hoje, poderia encontrar refúgio seguro? 

Em certos arraiais, o Natal será comemorado com horríveis sacrilégios. Os túmulos violados; a santidade dos lugares sagrados profanada; as imagens, outrora veneradas, hoje atiradas à fogueira, por entre horríveis imprecações; as famílias destroçadas; a honra imaculada das virgens de Deus ou do lar, entregue a um bando de salteadores infrenes; a velhice, abandonada sem defesa à sanha criminosa de bandidos que causariam horror ao próprio Barrabás. 

Em outros arraiais, o espetáculo, sem ser tão sombrio, não deixa de ser profundamente triste. Em certos países, a política fecha os olhos à propaganda comunista, manifestando cegueira que confina a um tempo com a covardia de Pilatos e a ganância de Judas. Alguns lavam as mãos, dizendo-se irresponsáveis pelos desatinos de uma multidão que lhes caberia jugular. Outros, com o beijo do Judas, traem a Igreja Católica, abandonando-a nas mãos de seus inimigos, tintas de sangue. 

Por toda a parte, só encontramos ódio, rancor, perseguição. 

No entanto, cumpre que não desanimemos. Não seríamos dignos da graça inestimável do Batismo que recebemos se permitíssemos que o pânico se apoderasse de nós. Nem na ordem natural, nem na ordem sobrenatural, há motivos que justifiquem a inércia e o pessimismo. 

O que a Igreja espera, hoje em dia, de seus filhos, é a realização de uma tarefa ao mesmo tempo muito grande e muito simples. Ela deseja que todos os católicos (os católicos dignos desse nome, e não a turbamulta dos pagãos que usam rótulo católico), com uma persuasão vigorosa e magnífica, se ergam no tumulto do Mundo contemporâneo, proclamando o Cristianismo como seu único Salvador. 

Único, dissemos. E insistimos sobre esta palavra! 

Erraria crassamente quem supusesse que Jesus Cristo só veio salvar a humanidade de seu tempo. Em todos os tempos, em todos os países, para todos os povos, em todos os perigos, em todas as dificuldades, apesar de todos os pecados, Cristo é o ÚNICO Salvador. 

Os países democráticos pensam que podem atingir a prosperidade e a paz por meio de pequenas receitas políticas em que misturam, em doses variáveis, a autoridade e a liberdade. Loucura e ilusão. Se eles não aceitarem as normas sociais e morais da Igreja, se não derem ao catolicismo a influência preponderante a que tem direito, não escaparão à ruína. De reforma em reforma, rolarão para o abismo. 

O maior homem do mundo, dotado da mais lúcida inteligência, da mais alta moralidade, da mais vigorosa energia, do mais formidável poder, não conseguiria organizar convenientemente um povo que vivesse entregue à anarquia intelectual e efetiva que, fora da Igreja, é inevitável. Um povo é um conjunto de homens. Um povo disciplinado não pode ser composto de homens anarquizados no mais íntimo do seu ser, como um copo de água pura não pode constar de um conjunto de gotas de água impuras. 

Jesus Cristo como base da civilização, e as formas de governo como aspectos secundários e acidentais da vida de um povo, eis aí uma das grandes lições do Natal. 

Se Cristo é o Salvador único, a Salvação virá da Igreja. 

Trabalhar, lutar, sofrer, rezar, imolar-se ou sacrificar-se alegremente pela Igreja, deve ser o fruto desta meditação de Natal. Porque todas as causas e todos os ideais devem vir depois da suprema Causa e do supremo ideal da Igreja. 

Um dos erros mais frequentes entre católicos consiste em considerar a missão do Salvador como definitivamente encerrada com a Sua Ascensão ao Céu. 

Em geral, supõe o povo que, tendo subido ao Céu, Nosso Senhor Jesus Cristo deu por finda a obra redentora para cuja realização veio à Terra. E a Vida, Paixão e Morte de Jesus é hoje um episódio histórico do passado, tão distante de nós quanto as guerras de Augusto ou a morte de Cleópatra. 

Desse erro fundamental, decorre outro ainda mais grave... 

Enquanto os anjos proclamam a glória de Deus, os comunistas profanam os restos de seus servos. Enquanto os anjos almejam “paz na Terra aos homens de boa vontade”, a civilização materialista arma-se para uma hecatombe. 

____________ 
Nota: Na reprodução deste artigo de Plinio Corrêa de Oliveira, apenas fizemos leves adaptações e alguns cortes de trechos não aplicáveis aos presentes dias — 88 anos após a sua publicação no semanário “Legionário” (Nº 224), em 27 de dezembro de 1936.

19 de dezembro de 2024

Triunfal peregrinação das relíquias de Santa Teresinha

 

Igreja Santa Teresinha, no tradicional bairro de Higienópolis da capital paulista, lotada de devotos na veneração às relíquias da santa carmelita. 

✅   Luis Dufaur

Em 20 de outubro 2024 uma bela urna com relíquias de Santa Teresinha do Menino Jesus (fêmur e ossos do pé) completou sua 4ª peregrinação pelo Brasil. Iniciada em 13 de janeiro deste ano, ela percorreu 70 cidades e numerosas igrejas, especialmente aquelas vinculadas ao Carmelo.

A abençoada urna passou os últimos dias da peregrinação na igreja dedicada a Santa Teresinha, situada à Rua Maranhão, no tradicional bairro de Higienópolis da capital paulista.

Essa romaria fez parte da comemoração dos 150 anos do nascimento da santa, ocorrido em 2 de janeiro de 1873; do centenário de sua beatificação, em 29 de abril de 1923, e de sua canonização em 17 de maio de 1925.



Essa urna é também conhecida como “Relicário do Centenário”, “Grão Relicário” ou “Relicário do Brasil”, porque foi confeccionada com doações de fiéis brasileiros ao Carmelo de Lisieux (França). É utilizada para as peregrinações internacionais.

Um segundo relicário permanece no Carmelo de Lisieux e é conhecido como “Urna do Brasil” e “Relicário Gótico”. Ele peregrina apenas na França, levando a relíquia de uma vértebra da santa.

Numa nave lateral da igreja do Carmelo de Lisieux encontra-se a estátua “reclinada” de Santa Teresinha no leito de morte, feita em 1920. Sob ela, colocadas numa primorosa caixa, estão mais algumas relíquias dos ossos. Conhecida como “Primeiro Relicário”, a confecção dessa caixa — realizada em Paris com pau-rosa, madeira amazônica nativa no Brasil — deveu-se também a uma coleta pública brasileira.

A imensa afluência de devotos implorando a sua intercessão para as necessidades crescentes e até angustiantes geradas pela crise moral e social que agita o Brasil, lotou diversas igrejas desde a chegada das relíquias ao Brasil até o momento da sua partida da igreja de Santa Teresinha na capital paulista, no final da tarde do dia 20 de outubro [foto no topo].

Como entender uma tão popular e enraizada devoção a uma santa francesa falecida no silêncio e no isolamento de um longínquo Carmelo na Normandia? Na realidade, entende-se bem à luz daquilo que a própria Santa confiou à sua irmã e mãe adotiva, a Madre Inês de Jesus: “Depois de minha morte, eu farei cair uma chuva de rosas”. E daquela frase famosa manifestando o desejo mais profundo que a animava no auge da agonia: “Eu quero passar meu Céu fazendo bem sobre a Terra”.

São desses bens espirituais que um número cada vez maior de pessoas mais tem necessidade e mais imploram.

Santa Teresinha, talvez a santa mais venerada pelos brasileiros, cumpre sua promessa também nos mostrando uma via superior para o Céu que todos podemos trilhar. É uma estrada real que pode levar aos altares não apenas uma ou outra alma, mas legiões inteiras delas que hoje gemem no abandono e talvez no estado de pecado.

*   *   *

Ó Santa Teresinha do Menino Jesus, após essa abençoada peregrinação de vossas relíquias pelo Brasil, lançai um olhar de compaixão sobre nós e fazei vossas as nossas intenções. Dizei por nós uma palavra junto à Virgem Imaculada que vos sorriu no amanhecer da vida e suplicai-Lhe que com seu tão grande poder sobre o Coração de Jesus, nos conceda a graça que tanto desejamos nesta hora. Que sua bênção nos fortifique durante toda a vida, nos defenda na hora da morte e nos conduza à bem-aventurança eterna!

13 de dezembro de 2024

MEDIANTE AS COISAS SIMBÓLICAS CHEGAMOS A DEUS

 


A consideração simbólica é uma verdadeira antevisão do Céu, onde somos chamados a contemplar Deus face a face. Nesta Terra somos chamados a vê-Lo nas coisas criadas, através dos símbolos chegamos a Ele. 


✅  Plinio Corrêa de Oliveira 

O cerimonial tem valor moral e está vinculado à questão do simbolismo. De modo geral, os cerimoniais marcaram a Idade Média, por exemplo, com as belas cerimônias de armar um cavaleiro, como também aquelas que eram feitas para degradá-lo, no caso de ele ter praticado algo contrário à honra. 

Para ilustrar a questão do simbolismo, dou outro exemplo: uma pessoa contempla a caça com falcão. A ave voa, pega uma presa e desce. É bonito considerar o falcão na sua altivez, na sua dignidade, no ímpeto de sua força. Consideramos a sua agudeza de vista, seu élan, sua coragem, e fazemos analogias com qualidades humanas. O ardor belicoso do falcão é símbolo, pois reflete o homem que luta, e esta é sua mais alta ação, abaixo da oração. 

Deus proveu a natureza em abundância de exemplos nesse sentido. Isto a fim de que o homem se compenetre bem das verdades e dos princípios abstratos ao considerar os símbolos palpáveis. Se ele não olha, analisa e medita, não há possibilidade de se compenetrar inteiramente. 

Esta consideração simbólica é uma verdadeira antevisão do Céu, tem algo da visão beatífica. Porque o homem é chamado a ver Deus face a face no Céu, mas nesta Terra ele O vê nos símbolos. Estes alimentam a inteligência e dão uma espécie de proporção humana, de estatura humana à ideia abstrata. 


Por esta razão, toda a vida da Idade Média era feita de cerimoniais e símbolos, pois o homem não é composto só de alma, mas também de corpo. Ele seria uma espécie de esqueleto sem carne se tivesse só a doutrina sem os símbolos. 

Isto explica a simbologia medieval e seus cerimoniais. Mais ainda, explica algo do feitio de alma que deve ter um autêntico católico contra-revolucionário. 

Quando vemos algo que nos fala à alma e nos entusiasma, devemos aprofundar nesta linha de transcender do concreto para o abstrato, como no exemplo da coragem do falcão ilustrando a ideia de coragem e a virtude da coragem. O que se liga metafisicamente a Deus. 

Se quisermos considerar a presença de Deus em todas as coisas, devemos procurar os símbolos criados por Ele. Num falcão observamos a sua coragem, e disso passamos para o abstrato, deduzindo um princípio moral: a virtude da coragem. Daí vemos essa virtude em Deus de um modo absoluto. 

Miniatura da investidura de um cavaleiro,
dos estatutos da “Ordem do Nó”, 
fundada em 1352 por Luís de Nápoles
Este exercício metafísico é árduo, mas é o prêmio que na Terra se pode ter. Há um provérbio alemão que diz: “todo começo é difícil”. Mas para alcançar o prêmio é preciso começar a se exercitar para chegar até o metafísico. 
Alguém poderia dizer que não tem tempo de pensar nisso. Respondo que não é falta de tempo, é falta de pensar no tempo que temos. Mas adquirindo o hábito de pensar, será agradável. A pessoa passa a se deleitar com as coisas que levam a Deus e passa a execrar as coisas que nos afastam d’Ele. A pessoa passa a viver noutra dimensão, num mundo do maravilhoso. 

Lembro-me de uma cidadezinha do interior de São Paulo, Amparo, onde fizemos um exercício de transcendência desses. Certa vez, fiz por suas ruazinhas um passeio a pé junto com alguns amigos de uma fazenda das proximidades. Comentamos as bonitas portas das casas e daí passamos a relacioná-las com as portas no estilo Império francês e com os faustos da Europa. 



Este encontro do bom gosto dentro das cinzas apagadas do interior é deleitável, nos eleva a Deus, e forma as almas altamente simbólicas dos varões verdadeiramente católicos. ____________ 

Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 10 de agosto de 1973. Esta transcrição não passou pela revisão do autor.

11 de dezembro de 2024

Nossa Senhora de Guadalupe e a defesa da família



Para este dia 12 de dezembro, festividade litúrgica de Nossa Senhora de Guadalupe, Padroeira principal da América Latina, segue um apelo do Cardeal americano Raymond Leo Burke, patrono da Ordem Soberana e Militar de Malta, Prefeito Emérito do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica. 



“D
esejo convidar todos a invocar de modo particular a intercessão de Nossa Senhora de Guadalupe. Ela foi-nos dada como Mãe da América. Ela é nossa Mãe. Ela é a Mãe de Jesus Nosso Senhor, mas nossa Mãe de modo muito particular. Apareceu em nosso continente em 1531 e mostrou-se protetora de toda vida humana. Rezemos muito especialmente sob sua intercessão, unindo nossos corações ao seu Coração Imaculado, para pedir o fim do aborto e de todos os ataques à família, especialmente o fim da promoção de uniões do mesmo sexo". 

(Cardeal Raymond Leo Burke)

7 de dezembro de 2024

IMACULADA CONCEIÇÃO DE NOSSA SENHORA


Pio IX proclama o dogma da Imaculada Conceição – Franceso Podesti (1800–1895), Museus Vaticanos.

Há 170 anos era proclamado o dogma pelo Papa Pio IX. 

Ó Maria concebida sem pecado! Rogai por nós que recorremos a vós!


✅  Paulo Roberto Campos 

Outra grande festividade litúrgica deste mês natalino é a Imaculada Conceição da Santíssima Virgem. Comemorada pela Igreja desde o século VII –– e pelos fiéis em geral desde os primórdios do Cristianismo, estendendo-se ao longo dos séculos ––, esse privilégio ímpar da Mãe de Deus só foi proclamado dogma em 8 de dezembro de 1854, pelo Bem-aventurado Papa Pio IX. 

Fica assim revelado que muito antes da solene Proclamação já havia grande e universal devoção a Nossa Senhora enquanto Imaculada. A data de 8 de dezembro foi escolhida por somar nove meses antes de Seu nascimento, comemorado no dia 8 de setembro: a Natividade da Virgem Maria. 

A celebração da Imaculada Conceição tem muito a ver com o Natal, pois é o privilégio da Mãe Puríssima do Menino Jesus, que veio ao mundo para redimir todo o gênero humano devido à mancha do pecado original. 

Com esse dogma, Nossa Senhora foi solenemente declarada isenta de qualquer mancha original. Declaração feita por virtude do Magistério infalível da Santa Igreja, com base nos Evangelhos, em tradições muito antigas e em sustentações doutrinarias de incontáveis Padres da Igreja, Santos e Teólogos. 

Desde o primeiro instante de sua concepção, Nossa Senhora, “por singular graça e privilégio de Deus Onipotente”*, foi preservada do pecado. Ela foi sempre cheia da graça Divina. Esta é uma verdade de fé, ou seja, uma verdade definida ex cathedra, na qual todo católico deve crer. 

Nesse sentido, há incontáveis costumes. Um deles, por exemplo, é do século XV: na Universidade de Paris nenhum aluno era admitido se não defendesse que Maria foi concebida sem pecado original. Costume que foi adotado por outras universidades, como a famosa Universidade de Coimbra. 

Em memória desta data jubilosa –– 170 anos da Proclamação do dogma ––, transcrevemos a seguir trechos da magistral Bula Ineffabilis Deus (Deus inefável), promulgada em 8 de dezembro de 1854, no 9º ano do Pontificado de Pio IX, que passou para a História com a glória de ficar conhecido como o “Papa da Imaculada Conceição”. 


Papa Pio IX
George Peter Alexander Healy (1813–1894).
Museu Pio IX, Senigallia, Província de Ancona
Região de Marcas, Itália).



EXCERTOS DA BULA INEFFABILIS DEUS* 


“Desde todos os tempos, escolheu Deus e predestinou uma mãe para o seu Unigênito Filho, na qual se encarnaria e viria ao mundo, quando a abençoada plenitude dos tempos houvesse chegado. E a Ela dispensou Deus mais amor que a todas as outras criaturas, e nela somente achava agrado, com a mais afetuosa complacência. 

Por isso a cumulou, de maneira tão admirável, da abundância dos bens celestes do tesouro de sua divindade, mais que a todos os outros espíritos angélicos e todos os santos, de tal forma que ficasse absolutamente isenta de toda e qualquer mancha de pecado, podendo, assim, toda bela e perfeita, ostentar uma inocência e santidade tão abundantes, quais outras não se conhecem abaixo de Deus, e que pessoa alguma, além de Deus, jamais alcançaria, nem em espírito. 

Com efeito, era conveniente que tão venerável Mãe brilhasse sempre aureolada do esplendor da mais perfeita santidade, e que fosse de todo isenta até da própria mácula do pecado original, alcançando, assim, o mais completo triunfo sobre a antiga Serpente (Gn 3, 15) [...].

Desde os tempos remotos, os bispos da Igreja, eclesiásticos, ordens religiosas e até imperadores e reis dirigiram fervorosos memoriais à Sé Apostólica, em prol da definição da Imaculada Conceição da Virgem Mãe de Deus como dogma da fé católica. Mesmo em nossos dias, reiteraram-se estas petições [...]. 

Tendo plena confiança no Senhor de que já chegou o tempo oportuno para a definição da Imaculada Conceição da Virgem Maria, Mãe de Deus, que as Divinas Escrituras, a veneranda Tradição, o desejo incessante da Igreja, o singular consentimento dos Bispos católicos e dos fiéis, e os atos e constituições assinalados dos Nossos antecessores ilustram e proclamam; havendo considerado diligentemente todos os acontecimentos e tendo dirigido a Deus solícitas e sinceras preces, Nós julgamos não devermos fazer tardar por mais tempo a ratificação e definição, por Nossa autoridade suprema, da Imaculada Conceição da Virgem, satisfazendo, assim, os mais santos desejos do Orbe Católico e de Nossa própria devoção para com a Santíssima Virgem; e honrando, na Virgem, sempre mais o seu Filho Unigênito, Jesus Cristo, Senhor Nosso, visto que toda honra e louvor votados à Mãe revertem para o Filho. 

Pelo que, em oração e jejum, não cessamos de oferecer a Deus Pai, por seu Filho, Nossas preces particulares e as de todos os filhos da Igreja, para que se dignasse dirigir e fortalecer Nossa inteligência com a força do Espírito Santo. Imploramos, ainda, a ajuda de toda a milícia celeste e, com verdadeiros anelos do coração, invocamos o Paráclito.

Portanto, por sua inspiração, para honra da Santa e Indivisa Trindade, para glória e adorno da Virgem Mãe de Deus, para exaltação da Fé Católica e para a propagação da Religião Católica, com a autoridade de Jesus Cristo, Senhor Nosso, dos Bem-aventurados Apóstolos Pedro e Paulo, e Nossa, declaramos, promulgamos e definimos que a Bem-aventurada Virgem Maria, no primeiro instante de sua Conceição, foi preservada de toda mancha de pecado original, por singular graça e privilégio do Deus Onipotente, em vista dos méritos de Jesus Cristo, Salvador dos homens, e que esta doutrina está contida na Revelação Divina, devendo, por conseguinte, ser crida firme e inabalavelmente por todos os fiéis.

Em consequência, se alguém ousar –– o que Deus não permita –– pensar contrariamente ao que definimos, saiba e esteja ciente de que ipso facto incidiu em anátema, de que naufragou na fé e apostatou da unidade da Igreja; além disso, por sua própria causa incorre nas penalidades estabelecidas por lei, caso se atreva a manifestar, por palavras ou por escrito, ou por outros quaisquer meios externos, sua opinião íntima. 

Nossa língua transborda de alegria e nosso coração rejubila. Rendemos e não cessaremos de render os mais humildes e sinceros agradecimentos a Cristo Jesus, Senhor Nosso, por Nos ter concedido, embora indigno, por singular favor seu, decretar e oferecer esta honra, glória e louvor à Santíssima Mãe. Ela, toda pura e imaculada, esmagou a cabeça envenenada do mais cruel dragão, trazendo ao mundo a salvação; Ela é a glória dos Profetas e dos Apóstolos, a honra dos Mártires, a coroa e delícia dos Santos; o refúgio mais seguro, o mais valioso amparo de quantos se acham em perigos. Com o seu Unigênito Filho, Ela é a mais poderosa Mediadora e Consoladora no mundo universo. Ela é a suma glória e ornamento, a fortaleza inexpugnável da Santa Igreja. 

Papa Pio IX com a bula
Ineffabilis Deus no altar
neogótico de Maria
na Catedral de Friburgo
(Marmon, Sigmaringen, 1875).


Pois Ela destruiu todas as heresias e livrou os povos e nações fiéis de todas as calamidades gravíssimas. Também a Nós livrou-Nos de tantos perigos que nos assediavam. Temos, pois, confiança e esperança absolutas e totais de que a Bem-aventurada Virgem, por seu patrocínio valiosíssimo, fará com que todas as dificuldades sejam removidas e todos os erros dissipados, a fim de que Nossa Santa Madre Igreja Católica possa florescer, sempre mais, entre todas as nações e povos e possa difundir-se seu reino ‘de mar a mar, do rio até aos confins da terra’ (Sl 71, 8), e desfrute de perfeita paz, tranquilidade e liberalidade.

Ela obterá, também, perdão aos pecadores, saúde aos doentes, alento aos fracos, consolo aos aflitos, amparo aos que estão em perigo. Ela há de apagar a cegueira espiritual dos que erram, para que possam voltar às sendas da verdade e da justiça, e para que haja um só rebanho e um só pastor.” 

____________ 
* Pio IX, Bula Ineffabilis Deus, de 8 de dezembro de 1854, Editora Vozes Ltda., Petrópolis - RJ, 1947. Acima, apenas excertos do magistral documento da definição dogmática. Aqueles que desejarem a íntegra, podem encontrá-la no seguinte link do site oficial do Vaticano: https://www.vatican.va/content/pius-ix/it/documents/18541208-costituzione-apostolica-ineffabilis-deus.html

3 de dezembro de 2024

Sacralidade, pompa e majestade das celebrações de Natal na Roma de outrora

 

O precioso escrínio de cristal que abriga as tábuas da manjedoura na qual nasceu Jesus. Essa sagrada relíquia pode ser venerada na “Cripta da Natividade”, também conhecida como “Cripta de Belém”, sob o altar-mor da Basílica de Santa Maria Maior, em Roma.


Grandiosas celebrações na Cidade Eterna em meados do século XIX, bem diversas das realizadas após os destrutivos vendavais soprados pelo progressismo dito católico 


Fonte: Editorial da Revista Catolicismo, Nº 888, dezembro/2024 

Como nunca ao longo da História, a Igreja e o mundo atravessam um período de apocalíptica desordem. Uma verdadeira “bagarre”, no sentido do vocábulo francês: grande confusão, tumulto, desorganização. 

Mas, em meio a essa “bagarre” generalizada, com calamidades sem precedentes e ameaças de hecatombes nucleares, todos desejam passar em paz a época natalina que se aproxima. Na tranquilidade abençoada do lar, reunir os familiares e juntos celebrar o aniversário do Menino Jesus que veio ao mundo para nos salvar. 

Numa noite fria Ele, o Rei dos anjos e dos homens, nasceu em Belém. Não num palácio, mas numa gruta refúgio de animais, cuja manjedoura Lhe serviu de berço, pois a Santíssima Virgem e São José não conseguiram hospedagem em nenhuma casa daquela cidade, para onde tinham ido submeter-se ao recenseamento. 

Uma pobre gruta, mas que se transformou num monumental lugar, superior a qualquer palácio. Sua sacralidade superior a qualquer catedral e seu brilho jamais visto. Iluminava-a providencial estrela de Belém, inundava-a canções celestiais dos gloriosos coros angélicos. 

Gruta que é eloquente símbolo da situação atual da Igreja e do mundo, pois sabemos que, apesar da tragédia tsunâmica pela qual atravessamos neste século neopagão, a aurora da civilização integralmente católica em todos os povos raiará maravilhosamente. Será o Reino de Maria, o maior triunfo da História! 

Isso acontecerá, como previsto no ano de 1917 em Fátima, após os merecidos castigos à humanidade pecadora. Será a “bagarre”, termo que, numa linguagem caseira e interna na TFP, empregava Plinio Corrêa de Oliveira. 

Em antegozo de como serão as celebrações de Natal quando por fim raiar a aurora da Cristandade — só que com muito mais sacralidade, pompa e majestade —, regalamos aos nossos leitores narrações de algumas das tradicionais cerimônias natalinas como eram realizadas antes das destruições causadas pelos vendavais diabólicos do progressismo dito católico. 

É a matéria de capa da revista Catolicismo deste mês [foto no topo], com narrações do famoso escritor francês, grande teólogo católico, Mons. Jean-Joseph Gaume, redigidas por ocasião de sua visita a Roma no Natal de 1841, quando a Cidade Eterna, a Roma eterna, dos mártires e dos santos, ainda resplandecia como centro da Cristandade.

26 de novembro de 2024

Medalha Milagrosa para a Ucrânia em guerra

Miguel Angel Gutiérrez (na foto à direita).


✅ Oscar Vidal

A fim de ajudar espiritualmente os ucranianos que combatem contra o invasor russo, Miguel Angel Gutiérrez, espanhol de Granada e membro da TFP italiana, da associação Luci sull’Est e da Federação Pro Europa Christiana, entrou no início de abril na Ucrânia levando consigo 50 mil unidades da Medalha Milagrosa de Nossa Senhora das Graças. 

Na distribuição que fez delas, boa quantidade ele destinou a freiras que as costuraram nos coletes antibalísticos dos militares e civis que se alistaram para lutar pelo país, deixando-os especialmente protegidos [foto abaixo]. Essa Medalha Milagrosa é uma arma muito poderosa que a Santa Mãe de Deus nos concedeu para vencermos as dificuldades. 

Assim, numa aparição a Santa Catarina Labouré em 27 de novembro de 1830, Ela assegurou: “Fazei cunhar uma medalha conforme este modelo. Todas as pessoas que a usarem ao pescoço receberão grandes graças. As graças serão abundantes para as pessoas que a levarem com confiança”. 

Entidades religiosas ucranianas estão pedindo mais Medalhas para distribuição entre os devotos, e logo serão atendidas pelas três associações mencionadas. 

Em entrevista no dia 5 de abril a Javier Navascués, do site espanhol Infocatólica, Miguel Angel declarou: “Como é difícil chegar às aldeias e às pequenas cidades da Ucrânia, enviamos 20 mil Medalhas para o Bispo Auxiliar de Lviv, Mons. Kava, que sendo um franciscano conventual, segue a espiritualidade de São Maximiliano Kolbe de difundir a Medalha Milagrosa. E 30 mil Medalhas distribuímos aos fiéis das igrejas de Lviv, especialmente onde se encontrava a imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima.” 

Ao ser perguntando se teve medo de entrar num país em guerra, bombardeado a todo instante, com os evidentes riscos, além do perigo de não conseguir retornar à Itália, onde reside, Miguel Angel afirmou: 

“Quando recebi a mensagem de um amigo sacerdote, o Padre Paulo Vyskosky, missionário dos Oblatos de Maria Imaculada, de que ele e sua comunidade se dirigiam a Kiev para dar assistência espiritual e caritativa às pessoas afetadas, pensei que se tinham essa coragem e zelo pelas almas numa zona muito próxima da frente de batalha, mais uma razão para eu me armar com esta coragem.” 

O que mais o impressionou nessa perigosa aventura “foi o quanto as pessoas ficavam agradecidas ao receber as Medalhas. Os católicos na Ucrânia sofreram perseguição e martírio durante décadas, a sua fé é muito profunda porque foi forjada no sangue. E saber que em outros países estão rezando por eles e que esta Medalha é o símbolo desta união na oração, deixou seus corações repletos de emoção. Deve-se dizer que as medalhas são muito bem cunhadas e feitas de bom metal, o que as torna ainda mais apreciáveis. Para Deus o melhor, como dizia São Francisco de Assis.” 

Miguel Angel sentiu uma graça de, em meio à guerra, ser muito protegido pela Santíssima Virgem. “Encontrar um povo que está sofrendo os horrores da guerra e vê-los rezar com aquela profunda fé e confiança em Deus, por intermédio da Virgem Maria, de quem são muito devotos, fez-me refletir sobre como vivemos tão tibiamente nos nossos países ocidentais.” E deu um admirável exemplo: “A Virgem peregrina de Fátima encontrava-se na maior paróquia greco-católica do país. Todas as noites fazem uma procissão em torno da igreja, recitando o terço. Quando as sirenes antiaéreas soam, a procissão não é suspensa... continua nos subterrâneos da igreja.” 

Com uma nota de muita esperança, o corajoso granadino disse que “os bispos ucranianos viram muito claramente que com a conversão do coração dos homens os problemas se resolvem. Se não houver conversão, o pecado continuará a produzir males maiores. Foi por isso que, em Fátima, Nossa Senhora pediu a consagração da Rússia, e também penitência e conversão. Esta foi a forma que nos indicou para que pudéssemos ver o quanto antes o triunfo do Seu Coração Imaculado.”



18 de novembro de 2024

Magnata húngaro — Reluzimento da Ásia com a categoria do Ocidente




✅  Plinio Corrêa de Oliveira 

O que é um magnata húngaro? A palavra magnata vem de magnus, grande. Equivale mais ou menos ao título de Grande de Espanha. Magnata húngaro seria um Grande da Hungria. 

Qual a característica própria ao magnata húngaro? Coube aos húngaros, devido a circunstâncias históricas, ficarem situados durante muito tempo nos confins entre o Oriente e o Ocidente.

Há na realidade daquele país, nas maneiras húngaras de ser, em seus trajes etc., algo que participa, ao mesmo tempo, do equilibrado, do acertado, do distinto do Ocidente e de algo do fabuloso do Oriente. Existe um reluzimento da Ásia conjugando-se com a categoria do Ocidente. E isso fazia-se notar muito nos trajes com que os magnatas húngaros compareciam a certo tipo de cerimônias na corte da Áustria, em Viena. 

A Áustria e a Hungria constituíam uma monarquia dual. O imperador da Áustria era Rei da Hungria. Em vista disso, na corte de Viena apareciam muitos húngaros, e naturalmente, conforme a cerimônia, com traje regional. 

Eles ostentavam vestes que constituíam um conjunto de indumentária difícil de ser descrita em seus pormenores. Figurava nela um chapéu alto, de pele, com uma aigrette, isto é, uma pena alta, bonita. Depois havia nela uma espécie de capa colocada nas costas, de forma um tanto enviesada, com botões e alamares muito bonitos. Por fim, botas altas, de verniz.

O todo era muito imponente, com um quê de ultra civilizado, mas deixando entrever, pelo meio, alguma coisa do tigre, que pode pular em cima de quem lhe desagradar muito vivamente... 

Tal mescla de alguma coisa de fera com certa característica de gentil-homem, de um toque oriental com uma dosagem ocidental, confere uma força e uma distinção — além de indicar o poder do magnata no feudo onde ele é o senhor — que enchem a alma católica de delícias.  

____________ 
Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira para sócios e cooperadores da TFP em 1o de junho de 1993. Sem revisão do autor.
Fonte: Revista Catolicismo, Nº 635, Novembro/2003.

8 de novembro de 2024

SÃO JOÃO DE LATRÃO — Basílica Mater da Cristandade 17 séculos de História

 


No calendário litúrgico da Igreja Católica, a festa da “Dedicação da Basílica de São João de Latrão” é celebrada no dia 9 de novembro de cada ano. Nesse dia, em 324, a Basílica foi dedicada pelo Papa São Silvestre I ao Santíssimo Salvador.

 

✅  Paulo Roberto Campos

Fonte: Revista Catolicismo, Nº 887, novembro/2024

 A Arquibasílica do Santíssimo Salvador e dos Santos João Batista e João Evangelista de Latrão — simplesmente chamada de Basílica de Latrão — é considerada a Catedral de Roma, e seu nome completo em latim é Archibasilica Sanctissimi Salvatoris et Sanctorum Ioannis Baptistae et Ioannis Evangelistae in Laterano.

Ela é a mais antiga igreja do Ocidente, a mais importante entre as seis basílicas papais do mundo e as quatro basílicas maiores da Cidade Eterna (a de São Pedro, Santa Maria Maior, São Paulo Fora dos Muros e São João de Latrão). Denomina-se Arquibasílica por estar acima de todas as demais, inclusive da Basílica de São Pedro.

Situada perto do Monte Célio (Collis Caelius), uma das Sete Colinas de Roma, a Arquibasílica tem o título de Mater et Caput — Mãe e Cabeça de Todas as Igrejas. É a Sé Episcopal oficial do Bispo de Roma, que é o Papa, também Catedral de todos os Bispos e de toda a Diocese da capital italiana.



Duas lápides, uma de cada lado do seu pórtico principal, registram a mesma inscrição em latim [foto acima] Sacrosancta Lateranensis Ecclesia omnium Urbis et Orbis Eecclesiarum Mater et Caput (“Santíssima Igreja de Latrão, Mãe e Cabeça de todas as Igrejas da Cidade e do Mundo”).

 


Conversão de Constantino I na origem da Arquibasílica

No extremo esquerdo do pórtico,
encontra-se uma estátua do
Imperador Constantino
Flávio Valério Constantino (272-337), conhecido como Constantino, o Grande, foi o primeiro Imperador convertido ao Cristianismo. Episódio histórico que se passou após ele ter vencido o usurpador Imperador Maxêncio em Saxa Rubra na Via Flamínia, na Batalha de Ponte Mílvia (perto de Roma), em 28 de outubro de 312.

Na véspera da batalha, Constantino, então politeísta, viu no céu um milagroso símbolo: um anjo com uma cruz e a inscrição In hoc signo vinces (com este sinal vencerás). Constantino prontamente mandou pintar esse sinal nos escudos de seus soldados. De fato, com o símbolo da cruz, ele saiu vitorioso e convertido ao Cristianismo.

Com sua conversão, o Imperador proclamou o Edito de Milão (313), concedendo liberdade de culto aos cristãos de todo o Império Romano. Logo que ele entrou triunfalmente em Roma, manifestou seu grande desejo de encontrar algum lugar para ser dedicado ao culto cristão da Igreja nascente. O que ele encontrou numa propriedade na região “dos Latrão” e a doou ao Papa Melquíades (311-314). Ali foi construída uma igreja primitiva com muitos traços semelhantes à atual.

A fachada lateral da Basílica, com a Loggia delle Benedizioni, construída em conjunto com o adjacente Palazzo del Laterano por Domenico Fontana [Foto PRC]

Construída sobre as ruínas do antigo quartel da Guarda Imperial de Cavalaria, seu nome deriva do Palácio Laterani, pertencente à família dos Lateranos, funcionários categorizados de vários imperadores. Um deles foi o cônsul Pláuxio Laterano, famoso por ter conspirado contra o imperador Nero (54-68). Condenado à morte, seus bens foram confiscados e passados para o Tesouro Imperial no ano de 65.

Posteriormente, dois séculos e meio depois, passou a ser propriedade de Flávia Máxima Fausta (289-326), filha do ex-imperador Maximiano, segunda esposa do Imperador Constantino. Foi por recomendação de sua mãe, a Imperatriz Santa Helena (246–330), que Constantino doou a propriedade à Igreja.

 

Entre diversos atos históricos, coroações de Papas e Imperadores

Na Basílica de Latrão,
a imagem de São João Batista [Foto PRC]
Em homenagem ao Santíssimo Salvador, a Basílica “constantiniana” foi consagrada e inaugurada pelo Papa São Silvestre I (314-335), na presença do Imperador, em 9 de novembro de 324. Desde então passou a ser residência dos Romanos Pontífices até 1304, quando houve a mudança para Avignon (um feudo papal na França). No retorno a Roma, em 1377, a Basílica encontrava-se muito abandonada e deteriorada, mas, após uma grande reforma e ampliação, voltou a ser residência dos Papas. Assim continuou até o século XIX, quando houve a mudança para o Palácio do Vaticano.

Neste mês, essa histórica Basílica de São João de Latrão — que remonta aos tempos finais da era das grandes perseguições aos cristãos, a “Era dos Mártires”— completa exatamente 1700 anos. Basílica tão provecta que quando o Brasil foi descoberto ela já tinha bem mais de 1000 anos...

Nave central da Basílica de São João Latrão [Foto PRC]


Dentro dos muros dessa Basílica “realizaram-se duzentos e cinquenta Concílios, cinco dos quais ecumênicos [1123, 1139, 1179, 1215, 1512], incluindo o IV de Latrão, em 1215, considerado pelos historiadores como o mais importante de toda a Idade Média, por ter como único objetivo garantir uma sociedade cristã universal”.1

Também entre aqueles sacrossantos muros transcorreram coroações de Papas e Imperadores; ali foi batizado o Imperador Carlos Magno, em 774; audiências com reis e rainhas; assinaturas de históricos documentos, como os Pactos de Latrão, em 11 de fevereiro de 1929, entre o Reino da Itália e a Santa Sé.

 

Claustro medieval anexado à Basílica de Latrão [Foto PRC] 

Homenagem aos Santos João Batista e João Evangelista

Foi somente no século IX, no Pontificado de Sérgio III, que a Basílica foi dedicada a São João Batista (nome do antigo batistério), e, finalmente, no século XII, o Papa Lúcio II incluiu também o nome de São João Evangelista. Donde ser mais conhecida como São João de Latrão — em italiano, San Giovanni in Laterano.



Gravada no alto de sua imponente fachada, lemos a inscrição em latim: “CLEMENS XII PONT MAX ANNO V CHRISTO SALVATORI IN HON SS IOAN BAPT ET EVANG” [foto acima]. O texto, muito abreviado, pode ser traduzido como “Papa Clemente XII, no quinto ano de seu pontificado [1735], dedicou este edifício a Cristo, o Salvador, em homenagem aos Santos João Batista e João Evangelista”.2

Na mesma fachada, na laje entre o primeiro e o segundo pavimento, também está gravada outra inscrição latina:

Parte superior da fachada
“DOGMATE PAPALI DATVR AC SIMVL IMPERIALI QVOD SIM CVNCTARVM MATER CAPVT ECCLESIARUM HINC SALVATORIS CQELESTIA REGNA DATORIS NOMINE SANCXERVNT CVM CVNCTA PERACTA FVERVNT SIC NOS EX TOTO CONVERSI SVPPLICE VOTO NOSTRA QVOD HEC AEDES TIBI XPiCte SIT INCLITA SEDES” (“Por decreto papal e também por decreto imperial é concedido que eu seja a mãe e cabeça de todas as igrejas. Doravante, depois que tudo foi concluído, eles consagraram este reino celestial com o nome do Salvador e Criador. Assim, nós fomos persuadidos totalmente pela humilde oração de que este nosso célebre templo seja seu lar, Cristo.”

 

Relicário com fragmento da Mesa da Última Ceia de Jesus com os Apóstolos [Foto PRC] 

Imenso e precioso relicário de sacrossantas relíquias

[Foto PRC]
A Basílica é também um preciosíssimo escrínio para várias relíquias sagradas, como um pedaço da Mesa da Última Ceia de Jesus com os Apóstolos [foto acima]; os relicários de prata com as cabeças de São Pedro e São Paulo [foto ao lado]; um fragmento do manto de Jesus que fora disputado pelos soldados de Pôncio Pilatos; uma lasca de um altar de madeira no qual São Pedro celebrou, e o copo utilizado por São João Evangelista com o veneno que ele bebeu, mas milagrosamente não lhe causou mal algum. Ela é também o lugar onde 22 Papas foram sepultados.

O altar-mor e o cibório gótico do século XIV.
A relíquia do altar-mor de madeira original
usado por São Pedro [Foto PRC]

Ao longo dos séculos, a Basílica foi algumas vezes saqueada, muitas de suas obras de arte e outros bens preciosos roubados, como fizeram os visigodos de Alarico no saque de Roma (410), e os vândalos de Genserico (455), quando despojaram a Basílica de todos os seus tesouros.

Parcialmente destruída por terremotos, sofreu danos também devido a alguns incêndios. Mas para suas diversas reformas, restaurações e ampliações, recebera tantas doações que foi chamada de “Basílica Dourada”. Foi durante o pontificado do Papa Clemente XII (1730-1740) que se conclui sua última restauração. O que corresponde à esplendorosa Basílica que hoje contemplamos em Roma. Vale uma viagem só para visitá-la...

*   *   *

Com essas semi-destruições e grandes restaurações na Basílica, passando por períodos de abandono e outros de glória, por perseguições e esplendores, ora atravessando os vales da miséria, ora no mais alto das montanhas da glória, essa Basílica constantiniana, sagrada e fabulosa joia da Cristandade, é bem o símbolo do triunfo final da Santa Igreja Católica Apostólica Romana.

Bento XIII preside o Sínodo Romano de 1725 na Basílica de São João de Latrão – Pier Leone Ghezzi (1674 - 1755). Museu de Arte de Carolina do Norte, EUA.

Ela nasceu do sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, sofreu em seus primórdios terríveis perseguições, mas venceu o mundo pagão. Quando tudo parecia perdido, a Providência converte um Imperador Romano e tudo começa a florescer. A Cristandade atingiu seu apogeu nos esplendores sacrais da Idade Média, com seus grandes santos e magníficos monumentos góticos, mas hoje parece ter voltado aos “vales da miséria”. Entretanto sabemos que, assim como Nosso Senhor foi morto, mas ressuscitou, a Santa Igreja triunfará com o Reinado do Imaculado Coração de Maria!

A basílica numa gravura publicada em 1864

____________

Notas:

1.https://www.ilmessaggero.it/vaticano/anniversari_2024_news_basilica_laterano_storia_cristianita_occidente_papa_francesco_costantino-7736935.html

2.https://it.wikipedia.org/wiki/Basilica_di_San_Giovanni_in_Laterano

Referências:

·         Guide de Tourisme Michelin, Rome, Le Guide Verd Rome, Michelin et Cie, Propriétaires-Éditeurs, 1984, pp. 133-140.

·         http://www.vatican.va/various/basiliche/san_giovanni/it/basilica/storia.htm

·         https://it.wikipedia.org/wiki/Basilica_di_San_Giovanni_in_Laterano